quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os limites de uma onda esquerdista

Fui muito criticado por um articulista reacionário, o pitoresco Olavo de Carvalho, pela coluna abaixo, publicada em 12/01/2007. Continuo achando que Chávez está mais para um soba africano do que para um líder socialista.

Por César Felício

É uma sintomática coincidência que os partidos de esquerda na América Latina promovam uma cúpula na semana em que o presidente venezuelano Hugo Chávez proclama seu caráter socialista. O grupo que se reúne a partir de hoje em San Salvador, tendo como anfitrião a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), atende pelo nome de "Foro de São Paulo" e nasceu sob o patrocínio do PT, em 1990.

Os encontros anuais não costumam chamar muita atenção, a não ser de certos radicais de direita no Brasil, que os desenham como uma espécie de Operação Condor com sinal ideológico invertido. A leitura do texto que servirá de base para os debates, divulgado em espanhol na página eletrônica do PT, permite divisar os limites da guinada latino-americana para a esquerda.

O documento foi escrito por dois representantes de partidos governistas -- o PT, no Brasil, e o Movimento 5ª República, na Venezuela -- e dois oposicionistas, o PRD mexicano e a salvadorenha FMLN. O texto lembra que na primeira reunião do grupo, em 1990, os integrantes estavam no governo em um único país: Cuba. Hoje desfrutam o poder na Venezuela, Brasil, Bolívia, Nicarágua, Argentina, Chile, Uruguai e Equador. Até que ponto governariam como desejam é outro tema. Os limites a um poder absoluto parecem incomodar os participantes do encontro.

"Nossa chegada ao governo significa que passamos a controlar uma cota de poder, mas as outras cotas continuam sob controle das classes dominantes. Os chamados mercados, as grandes empresas de comunicação, os setores da alta burocracia do Estado, os comandos centrais das Forças Armadas, os poderes Legislativo e Judiciário, além da influência dos governos estrangeiros, competem com o poder que possuímos quando ocupamos a Presidência", diz o texto.

Antes de ser uma verdadeira marcha ao socialismo, a ofensiva de Chávez, com medidas tais como a nacionalização de multinacionais da telefonia e a cassação da concessão de emissoras de televisão, sugere a coroação de um processo de concentração de poder, que começou com seu confronto com o Congresso e a Suprema Corte, ao convocar a Assembléia Constituinte em 1999, passou pela queda de braço com os funcionários da petroleira PDVSA, em 2002, pelas provocações aos Estados Unidos e o duelo contra a mídia, ao vencer o referendo sobre a sua permanência no cargo em 2004.

As instâncias de poder foram vencidas uma a uma e o resultado é palpável. Segundo a pesquisa de opinião desenvolvida no ano passado pelo Barômetro Ibero-Americano de Governabilidade, em 2002 as empresas privadas (89%), o sistema bancário (80%) e a mídia impressa e televisiva (77%) eram as instituições mais admiradas da Venezuela. Quatro anos depois, quem assume o primeiro plano são as Forças Armadas, com 67%.

"Socialismo" de Chávez é concentração de poder

O cenário em todos os demais países autoriza a pensar que Chávez é uma exceção no contexto latino-americano, bancada pelo barril de petróleo a mais de US$ 50. No Uruguai, articula-se um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Na Nicarágua, os sandinistas prometem respeitar contratos. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi em seu primeiro mandato um construtor de superávits primários.

"Interessa tanto à esquerda quanto à direita falar em uma onda política na América Latina, porque a transposição internacional de realidades é sempre sedutora, mas o que vejo é uma certa perplexidade. A esquerda está com dificuldade de traçar rumos", comenta um especialista, o historiador e cientista político Paulo Vizentini, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em vez de uma opção ideológica, foi a demanda generalizada por políticas sociais, em relação às quais os governos eleitos no início dos anos 90 foram incapazes de atender, que levou os grupos de origem esquerdista ao poder.

Para Vizentini, mesmo no caso de Chávez é difícil delinear aonde se quer chegar. Guardadas as óbvias diferenças -- Chávez nunca financiou o terrorismo -- pode-se traçar um paralelo entre o venezuelano e o presidente líbio Muammar Kadhafi. "Khadafi tem origem militar, substituiu uma petromonarquia e fez uma certa distribuição da prosperidade do petróleo para uma população pequena, com renda per capita alta. Seu discurso teve diferentes oscilações ao longo do tempo, é difícil até hoje defini-lo. Em certos momentos, foi socialista. Em outros, pregou uma democracia islâmica", comenta Vizentini.

O que a movimentação de Chávez também deixa claro são os pontos de contato existentes entre a oposição ao venezuelano e a outros dirigentes vinculados à esquerda no continente, mesmo separados pelo tempo histórico e pelo espaço. Um mesmo discurso estava presente na oposição a Perón e a Getúlio nos anos 40 e 50. Reapareceu, quase igual, no tipo de ataque recebido ano passado por Lopez Obrador no México e Evo Morales na Bolívia. Mais do que denunciar defeitos iguais, o discurso anti-populista revela a coerência de uma elite na América Latina.

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