Paguei a língua (ou no caso, os dedos no teclado) ao duvidar aqui do impacto que os debates televisivos poderiam ter na campanha eleitoral britânica. Nick Clegg realmente embaralhou o jogo depois de se sair melhor que Brown e Cameron. Mas insisto em fazer previsões: Gordon Brown liquidou-se hoje ao ser flagrado pela conservadora Sky TV chamando uma eleitora de intolerante ( "bigoted") e mostrando-se rude com seus assessores. O eleitor britânico, neste ponto, não deve ser diferente do que rejeitou Ciro Gomes em 2002 . Para relembrar, Ciro chamou um eleitor de "burro" ao vivo, em entrevista a uma rádio. Foi o começo da sua derrocada.
Brown já tinha tido que se explicar, há algumas semanas, quando surgiram acusações de assédio moral por parte de ex-assessores seus. Enfim: deve ter maior sensibilidade social do que seus adversários almofadinhas, mas definitivamente não é uma pessoa simpática. E simpatia, nas eleições de hoje, é crucial.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Minas, 21 de abril
Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 21 de abril de 2010, às dez para as sete. Neto de mineiros, bisneto, trineto, tataraneto. Somente eu, um carioca de ocasião, é que fui o ponto fora da curva. Tomás Mota Silva Felício dos Santos, um taurino, chega ao mundo no dia que escolheu, da forma que escolheu. Que seu espírito indomável o faça sempre altivo, frente aos desafios do mundo.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Apoio a Tancredo volta à tona na campanha
Memória: Nos 25 anos da morte do fundador da Nova República, PSDB explora boicote petista ao Colégio Eleitoral Apoio a Tancredo volta à tona na campanha- Publicado no Valor Econômico, em 16/04/2010
Após as flores em seu túmulo depositadas pela presidenciável petista Dilma Rousseff, o PSDB reagiu. O primeiro contra-ataque veio no encontro que lançou o ex-governador José Serra como pré-candidato tucano, no dia 11. Na ocasião, o ex-governador Aécio Neves lembrou que o PT negou voto a Tancredo na eleição indireta de 1985. Serra destacou a data como a da retomada do Estado de direito democrático. Na segunda-feira, Aécio e seu sucessor, Antonio Anastasia, começam a pré-campanha em Belo Horizonte com Serra. Os três devem viajar em seguida ao Rio, para exposição e lançamento de dois livros em homenagem ao ex-presidente.
A busca da associação com Tancredo não foi associada a um revisão petista sobre o boicote ao Colégio Eleitoral que o elegeu presidente. Mais do que rejeição a Tancredo, o PT insistia na tese da ilegitimidade insanável do Colégio Eleitoral. A oposição ao mineiro se fazia em terreno relativamente moderado: em 1981, quando deputado, Tancredo apareceu de surpresa na reunião do diretório estadual do partido. Perplexos, os petistas o convidaram para compor a mesa e lhe deram a palavra. O então deputado foi ouvido em silêncio e retirou-se rapidamente.
Um ano antes, sua neta, Andrea Neves Cunha, havia sido uma das fundadoras do PT fluminense. Em 1983, o PT propôs instalar CPI sobre o Credireal, um dos três bancos públicos que o governo mineiro controlava na ocasião. Tancredo chamou o único deputado estadual petista, João Batista dos Mares Guia, no Palácio das Mangabeiras e procurou convencê-lo que a CPI poderia enfraquecer o sistema de bancos públicos e favorecer a privatização. O petista não cedeu e o governador manobrou então para que a CPI fosse controlada pelo PMDB e neutralizada.
Tancredo e o PT trabalharam juntos na campanha das diretas, mas ainda na década de 90 o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou um juízo severo sobre Tancredo, conforme deixa claro o livro "História indiscreta da ditadura e da abertura", de Ronaldo Costa Couto, que traz um depoimento de Lula dado em 1997.
"Nas diretas, tivemos um problema muito sério. É que Tancredo trabalhou o tempo inteiro contra elas. O Fernando Henrique Cardoso, na minha opinião era um dos mentores disso também". Lula disse que Tancredo durante a mobilização popular já manobrava pelo Colégio Eleitoral. "Ele sabia que se tivesse eleições diretas naquele instante o presidente seria o Ulysses e não ele. O homem que dentro do PMDB tinha cacife pra se candidatar era Ulysses". Lula relembra que, logo após a derrota diretas, o então senador Fernando Henrique fez um pronunciamento propondo a troca do lema de "diretas já" para "mudanças já".
Relata em seguida suposta cena de mágoa de Ulysses em relação a Tancredo: "Quando terminou a campanha das diretas (...) fui na casa do Ulysses. O Ulysses estava deitado, eu entrei no quarto para acordar ele. Eu pensei que ele estava morto. Estava deitado com a barriga para cima e as mãos juntas. ´Doutor Ulysses´, ´Doutor Ulysses´. Aí ele acordou. Fiz um apelo para gente fazer um outro comício em Belo Horizonte pelas diretas já. Aí o Ulysses sentou do meu lado e falou assim. ´Lula, estou muito contrariado. E possivelmente eu esteja com a mesma revolta que você está. Sei quando sou derrotado. Tancredo me derrotou. Enquanto eu acreditava que a gente ia conquistar as diretas e fazer eleições, o Tancredo acreditava que, pelo Colégio Eleitoral, seria presidente da República".
Ulysses morreu em 1992. Não há registro de críticas públicas suas a Tancredo. Costa Couto, que foi ministro do Interior escolhido por Tancredo, discorda da versão de Lula. " Tudo indica que Tancredo não descartaria disputar eleições diretas, até porque havia uma divisão em São Paulo entre [Franco] Montoro e Ulysses. Ele se sentia preparado e sabia que aquela seria sua última chance", comentou. Segundo o ex-ministro e historiador, "Tancredo apenas transpôs a mobilização das diretas para o Colégio Eleitoral, porque de modo realista sempre soube que a aprovação da emenda era praticamente impossível", comentou.
A decisão de expulsar os deputados Airton Soares, Bete Mendes e José Eudes, que desobedeceram a cúpula petista, ainda é vista como momento definidor da sigla até mesmo por ex-integrantes do partido, como João Batista dos Mares Guia, ex-companheiro de luta armada de Dilma e do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, que participou da fundação tanto do PT em 1980 quanto do PSDB em 1988. Irmão do ex-ministro das Relações Institucionais do governo Lula, Walfrido dos Mares Guia, João Batista hoje é consultor na área de educação.
"Pode ter sido uma decisão equivocada, mas era consistente. Foi a primeira vez em que parlamentares petistas foram excluídos em razão do voto no Legislativo. O episódio marcou a hegemonia da burocracia partidária sobre os detentores de mandato eletivo e teve caráter exemplar: se o partido era capaz de expulsar três de seus oito deputados federais, não dava qualquer margem a dubiedades", comentou Mares Guia.
Após as flores em seu túmulo depositadas pela presidenciável petista Dilma Rousseff, o PSDB reagiu. O primeiro contra-ataque veio no encontro que lançou o ex-governador José Serra como pré-candidato tucano, no dia 11. Na ocasião, o ex-governador Aécio Neves lembrou que o PT negou voto a Tancredo na eleição indireta de 1985. Serra destacou a data como a da retomada do Estado de direito democrático. Na segunda-feira, Aécio e seu sucessor, Antonio Anastasia, começam a pré-campanha em Belo Horizonte com Serra. Os três devem viajar em seguida ao Rio, para exposição e lançamento de dois livros em homenagem ao ex-presidente.
A busca da associação com Tancredo não foi associada a um revisão petista sobre o boicote ao Colégio Eleitoral que o elegeu presidente. Mais do que rejeição a Tancredo, o PT insistia na tese da ilegitimidade insanável do Colégio Eleitoral. A oposição ao mineiro se fazia em terreno relativamente moderado: em 1981, quando deputado, Tancredo apareceu de surpresa na reunião do diretório estadual do partido. Perplexos, os petistas o convidaram para compor a mesa e lhe deram a palavra. O então deputado foi ouvido em silêncio e retirou-se rapidamente.
Um ano antes, sua neta, Andrea Neves Cunha, havia sido uma das fundadoras do PT fluminense. Em 1983, o PT propôs instalar CPI sobre o Credireal, um dos três bancos públicos que o governo mineiro controlava na ocasião. Tancredo chamou o único deputado estadual petista, João Batista dos Mares Guia, no Palácio das Mangabeiras e procurou convencê-lo que a CPI poderia enfraquecer o sistema de bancos públicos e favorecer a privatização. O petista não cedeu e o governador manobrou então para que a CPI fosse controlada pelo PMDB e neutralizada.
Tancredo e o PT trabalharam juntos na campanha das diretas, mas ainda na década de 90 o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou um juízo severo sobre Tancredo, conforme deixa claro o livro "História indiscreta da ditadura e da abertura", de Ronaldo Costa Couto, que traz um depoimento de Lula dado em 1997.
"Nas diretas, tivemos um problema muito sério. É que Tancredo trabalhou o tempo inteiro contra elas. O Fernando Henrique Cardoso, na minha opinião era um dos mentores disso também". Lula disse que Tancredo durante a mobilização popular já manobrava pelo Colégio Eleitoral. "Ele sabia que se tivesse eleições diretas naquele instante o presidente seria o Ulysses e não ele. O homem que dentro do PMDB tinha cacife pra se candidatar era Ulysses". Lula relembra que, logo após a derrota diretas, o então senador Fernando Henrique fez um pronunciamento propondo a troca do lema de "diretas já" para "mudanças já".
Relata em seguida suposta cena de mágoa de Ulysses em relação a Tancredo: "Quando terminou a campanha das diretas (...) fui na casa do Ulysses. O Ulysses estava deitado, eu entrei no quarto para acordar ele. Eu pensei que ele estava morto. Estava deitado com a barriga para cima e as mãos juntas. ´Doutor Ulysses´, ´Doutor Ulysses´. Aí ele acordou. Fiz um apelo para gente fazer um outro comício em Belo Horizonte pelas diretas já. Aí o Ulysses sentou do meu lado e falou assim. ´Lula, estou muito contrariado. E possivelmente eu esteja com a mesma revolta que você está. Sei quando sou derrotado. Tancredo me derrotou. Enquanto eu acreditava que a gente ia conquistar as diretas e fazer eleições, o Tancredo acreditava que, pelo Colégio Eleitoral, seria presidente da República".
Ulysses morreu em 1992. Não há registro de críticas públicas suas a Tancredo. Costa Couto, que foi ministro do Interior escolhido por Tancredo, discorda da versão de Lula. " Tudo indica que Tancredo não descartaria disputar eleições diretas, até porque havia uma divisão em São Paulo entre [Franco] Montoro e Ulysses. Ele se sentia preparado e sabia que aquela seria sua última chance", comentou. Segundo o ex-ministro e historiador, "Tancredo apenas transpôs a mobilização das diretas para o Colégio Eleitoral, porque de modo realista sempre soube que a aprovação da emenda era praticamente impossível", comentou.
A decisão de expulsar os deputados Airton Soares, Bete Mendes e José Eudes, que desobedeceram a cúpula petista, ainda é vista como momento definidor da sigla até mesmo por ex-integrantes do partido, como João Batista dos Mares Guia, ex-companheiro de luta armada de Dilma e do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, que participou da fundação tanto do PT em 1980 quanto do PSDB em 1988. Irmão do ex-ministro das Relações Institucionais do governo Lula, Walfrido dos Mares Guia, João Batista hoje é consultor na área de educação.
"Pode ter sido uma decisão equivocada, mas era consistente. Foi a primeira vez em que parlamentares petistas foram excluídos em razão do voto no Legislativo. O episódio marcou a hegemonia da burocracia partidária sobre os detentores de mandato eletivo e teve caráter exemplar: se o partido era capaz de expulsar três de seus oito deputados federais, não dava qualquer margem a dubiedades", comentou Mares Guia.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
E Serra finalmente com Aécio em Belo Horizonte. Impressões rápidas:
1. O risco da "Dilmasia" está, ao menos provisoriamente, afastado.
2. A recepção que o tucano teve do empresariado foi muito mais calorosa do que a dada a Dilma, menos de duas semanas antes.
3.Itamar não vai apoiá-lo. O que tende a não ser grave.
1. O risco da "Dilmasia" está, ao menos provisoriamente, afastado.
2. A recepção que o tucano teve do empresariado foi muito mais calorosa do que a dada a Dilma, menos de duas semanas antes.
3.Itamar não vai apoiá-lo. O que tende a não ser grave.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Patrus, o turrão do ano
A matéria abaixo foi publicada no Valor há praticamente um ano. De lá para cá, tudo deu errado para o Patrus Ananias: perdeu a eleição interna no partido e não conseguiu os apoios externos que imaginava. Mas ainda assim ele insiste em disputar espaço com Pimentel no PT, impermeável ao meio que o circunda. Acho que a divisão na base lulista em Minas não afeta muito o desempenho da Dilma no Estado. Mas está deixando Anastasia com a mão na taça.
César Felício, de Belo Horizonte
08/04/2009
Protagonistas da mais acirrada luta interna do PT para definir os candidatos majoritários em 2010, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel começam a se preparar para a possibilidade de decidirem a candidatura a governador por meio de prévias. Diminui, de um lado e de outro, a possibilidade de êxito nas estratégias para impedir a disputa pelo voto dos filiados.
Entre os aliados de Pimentel, ainda há a convicção que um bom resultado dos apoiadores do ex-prefeito na escolha das direções municipais e da direção estadual no processo de eleição direta dos dirigentes petistas (PED), no fim deste ano, pode fazer com que o ministro desista da pré-candidatura. Mas a ala que apoia Patrus Ananias articula composições internas nos municípios para impedir que o resultado do PED seja um mapeamento sobre qual dos dois lados têm o domínio do partido.
Os aliados de Patrus contam com interferências externas para debilitar Pimentel: apostam que podem conseguir a preferência do PMDB, do PCdoB e do vice-presidente José Alencar (PRB) para a montagem de um palanque mais amplo do que o que poderia ser o de Pimentel. E lembram do melhor trânsito do ministro no meio sindical e nos movimentos sociais, em grande parte ação de um aliado em Brasília, o secretário-geral da Presidência, ministro Luiz Dulci. Mas o ex-prefeito acredita que o pragmatismo irá prevalecer: os partidos da base aliada de Lula tenderiam a se alinhar com o candidato mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. No último levantamento publicado pelo instituto Datafolha, Pimentel oscilou entre 24% e 25%, conforme a lista de candidatos. Patrus patinou entre 11% e 13%.
Na disputa pelas preferências dos filiados, o primeiro obstáculo que Pimentel terá que superar é a ofensiva dos aliados de Patrus para reduzir a base de votantes em Belo Horizonte, onde a hegemonia do ex-prefeito é completa. Termina no dia 17 de abril o prazo para a revalidação ou não de 6 mil filiações feitas em 2008, tendo como principal região eleitoral o bairro de Venda Nova, na zona norte da capital. De acordo com a Justiça Eleitoral, a capital mineira concentrava 16 mil dos 139 mil filiados ao PT no Estado em fevereiro deste ano, mas tanto aliados de Pimentel quanto de Patrus estimam que o total de aptos a votar no processo interno em Belo Horizonte, incluindo as filiações contestadas, chegue a, no máximo, 13 mil.
O grupo que apoia Patrus conseguiu questionar estas filiações em uma reunião do diretório estadual da sigla em 2 de dezembro, sob o argumento de que foram feitas em massa. Caso as 6 mil inscrições fossem anuladas, seria um golpe decisivo no ex-prefeito: elas correspondem a quase 40% do colégio eleitoral da cidade. Os aliados de Pimentel recorreram ao diretório nacional, que concedeu um prazo para que as filiações questionadas fossem recadastradas pela direção nacional. Até 31 de março, foram feitos 90 recadastramentos.
"A opinião de muitos é que o processo de crescimento do partido em Belo Horizonte no ano passado seguiu um padrão diferente do que o de anos anteriores, que estava amparado na articulação do partido com movimentos sociais e comunitários", disse o deputado estadual André Quintão (PT), que foi aluno de Patrus na universidade, coordenador de sua campanha para prefeito de Belo Horizonte em 1992, chefe de gabinete do atual ministro na prefeitura e seu secretário municipal de Desenvolvimento Social.
Com cerca de 200 mil eleitores, Venda Nova é um dos maiores e mais pobres bairros de Belo Horizonte e o PT na região é comandado pelo deputado federal Miguel Corrêa Júnior. Ex-líder estudantil, Corrêa montou entidades assistenciais na região e ingressou na política filiado ao PPS. Chegou ao partido trazido por Fernando Pimentel. Para Corrêa Júnior, "a revalidação está sendo feita porque alguns setores do partido ficaram em minoria nas instâncias partidárias". O parlamentar afirma que articulou as milhares de filiações por orientação de uma campanha promovida pela direção nacional da sigla. E diz que não está sozinho nesta prática. "Em Betim, são 4 mil filiados. Cerca de 1,2 mil entraram no ano passado. Lá não é nossa base e estas filiações não estão sendo contestadas", disse. Segundo a Justiça Eleitoral, em Betim o PT está com 2.937 filiados.
Em caso de prévias, Patrus Ananias conta com um eleitorado pulverizado em pequenos e médios municípios, muitos dentro dos bolsões de pobreza que foram beneficiados pelas políticas assistenciais coordenadas por ele no governo federal, como o programa Bolsa Família.
Com o apoio da esquerda petista, Patrus deve ter o apoio do prefeito de Coronel Fabriciano, Francisco Simões (1,5 mil filiados, segundo o TSE). Sua base ainda deve estender-se por Betim, Teófilo Otoni , da prefeita Maria José Haueisen (809 filiados), Varginha, do prefeito Eduardo Carvalho (579 filiados), Janaúba, administrada por José Benedito (354 inscritos), além de cidades onde o PT não governa como Montes Claros (700 filiados), Uberaba (1.009 inscritos), Uberlândia (3,7 mil militantes) e Juiz de Fora (1,5 mil integrantes), entre as mais importantes.
Já Pimentel está mais presente nos grandes centros. Deve ter, além de Belo Horizonte, a hegemonia sobre o segundo maior colégio eleitoral petista em Minas, Ipatinga, onde a Justiça Eleitoral registrava em fevereiro 12,9 mil filiações. E disputa em situação de favoritismo em Governador Valadares (1,6 mil inscritos), Nova Lima (420 filiados) e Contagem (3,6 mil integrantes).
Depois das eleições municipais, Patrus reforçou a sua agenda de viagens dentro do Estado. Procura fazer encontros todos os sábados. Já esteve nas cidades de Betim, Luz, Montes Claros, Itaobim e Teófilo Otoni. Neste mês, irá a Ponte Nova, Caratinga, Governador Valadares, Coronel Fabriciano e cidades do sul e do Triângulo Mineiro.
Articulando sua candidatura a partir de um pequeno escritório no centro de Belo Horizonte, Pimentel gastou os últimos dias procurando aumentar seu espaço na direção nacional do PT, que tentou impedir no ano passado a aliança informal com o PSDB costurada por ele para apoiar o secretário estadual Márcio Lacerda, do PSB, que terminou eleito. No fim de março, encontrou-se na capital mineira com o ex-deputado e ex-presidente do PT, José Dirceu. E cultiva a antiga relação com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, com quem militou na luta armada nos anos 60 no Comando de Libertação Nacional (Colina).
A virtual candidata do PT à Presidência, que é natural de Belo Horizonte, procura se manter longe da briga em seu Estado de origem. Em fevereiro, cancelou de última hora a sua participação em um evento organizado pelo PT mineiro em Venda Nova, o reduto dos pimentelistas recém-filiados à sigla. O encontro era boicotado pela ala do partido que defende a candidatura de Patrus e havia o receio de que se tornasse um instrumento a favor de Pimentel na disputa interna. No início de fevereiro, Pimentel concedera uma entrevista à revista "Veja" em que defendera a candidatura de Dilma à Presidência e criticara adversários internos petistas como vinculados a práticas políticas de esquerda ultrapassadas. A entrevista até hoje irrita os aliados do ministro do Desenvolvimento Social.
Neste mês, no dia 17, Dilma irá finalmente a Belo Horizonte, em um evento com perfil completamente diferente. A pré-candidata irá a um seminário organizado pela Fundação Perseu Abramo, órgão de estudos do partido, formalmente para debater a crise econômica global. Também farão parte da mesa Patrus Ananias e Fernando Pimentel. O primeiro, na condição de gestor da área social do governo. O segundo, por ser um dos poucos quadros dirigentes do partido com formação específica em economia. O evento será em um hotel no centro da cidade, que não é reduto de nenhum dos dois postulantes.
César Felício, de Belo Horizonte
08/04/2009
Protagonistas da mais acirrada luta interna do PT para definir os candidatos majoritários em 2010, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel começam a se preparar para a possibilidade de decidirem a candidatura a governador por meio de prévias. Diminui, de um lado e de outro, a possibilidade de êxito nas estratégias para impedir a disputa pelo voto dos filiados.
Entre os aliados de Pimentel, ainda há a convicção que um bom resultado dos apoiadores do ex-prefeito na escolha das direções municipais e da direção estadual no processo de eleição direta dos dirigentes petistas (PED), no fim deste ano, pode fazer com que o ministro desista da pré-candidatura. Mas a ala que apoia Patrus Ananias articula composições internas nos municípios para impedir que o resultado do PED seja um mapeamento sobre qual dos dois lados têm o domínio do partido.
Os aliados de Patrus contam com interferências externas para debilitar Pimentel: apostam que podem conseguir a preferência do PMDB, do PCdoB e do vice-presidente José Alencar (PRB) para a montagem de um palanque mais amplo do que o que poderia ser o de Pimentel. E lembram do melhor trânsito do ministro no meio sindical e nos movimentos sociais, em grande parte ação de um aliado em Brasília, o secretário-geral da Presidência, ministro Luiz Dulci. Mas o ex-prefeito acredita que o pragmatismo irá prevalecer: os partidos da base aliada de Lula tenderiam a se alinhar com o candidato mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. No último levantamento publicado pelo instituto Datafolha, Pimentel oscilou entre 24% e 25%, conforme a lista de candidatos. Patrus patinou entre 11% e 13%.
Na disputa pelas preferências dos filiados, o primeiro obstáculo que Pimentel terá que superar é a ofensiva dos aliados de Patrus para reduzir a base de votantes em Belo Horizonte, onde a hegemonia do ex-prefeito é completa. Termina no dia 17 de abril o prazo para a revalidação ou não de 6 mil filiações feitas em 2008, tendo como principal região eleitoral o bairro de Venda Nova, na zona norte da capital. De acordo com a Justiça Eleitoral, a capital mineira concentrava 16 mil dos 139 mil filiados ao PT no Estado em fevereiro deste ano, mas tanto aliados de Pimentel quanto de Patrus estimam que o total de aptos a votar no processo interno em Belo Horizonte, incluindo as filiações contestadas, chegue a, no máximo, 13 mil.
O grupo que apoia Patrus conseguiu questionar estas filiações em uma reunião do diretório estadual da sigla em 2 de dezembro, sob o argumento de que foram feitas em massa. Caso as 6 mil inscrições fossem anuladas, seria um golpe decisivo no ex-prefeito: elas correspondem a quase 40% do colégio eleitoral da cidade. Os aliados de Pimentel recorreram ao diretório nacional, que concedeu um prazo para que as filiações questionadas fossem recadastradas pela direção nacional. Até 31 de março, foram feitos 90 recadastramentos.
"A opinião de muitos é que o processo de crescimento do partido em Belo Horizonte no ano passado seguiu um padrão diferente do que o de anos anteriores, que estava amparado na articulação do partido com movimentos sociais e comunitários", disse o deputado estadual André Quintão (PT), que foi aluno de Patrus na universidade, coordenador de sua campanha para prefeito de Belo Horizonte em 1992, chefe de gabinete do atual ministro na prefeitura e seu secretário municipal de Desenvolvimento Social.
Com cerca de 200 mil eleitores, Venda Nova é um dos maiores e mais pobres bairros de Belo Horizonte e o PT na região é comandado pelo deputado federal Miguel Corrêa Júnior. Ex-líder estudantil, Corrêa montou entidades assistenciais na região e ingressou na política filiado ao PPS. Chegou ao partido trazido por Fernando Pimentel. Para Corrêa Júnior, "a revalidação está sendo feita porque alguns setores do partido ficaram em minoria nas instâncias partidárias". O parlamentar afirma que articulou as milhares de filiações por orientação de uma campanha promovida pela direção nacional da sigla. E diz que não está sozinho nesta prática. "Em Betim, são 4 mil filiados. Cerca de 1,2 mil entraram no ano passado. Lá não é nossa base e estas filiações não estão sendo contestadas", disse. Segundo a Justiça Eleitoral, em Betim o PT está com 2.937 filiados.
Em caso de prévias, Patrus Ananias conta com um eleitorado pulverizado em pequenos e médios municípios, muitos dentro dos bolsões de pobreza que foram beneficiados pelas políticas assistenciais coordenadas por ele no governo federal, como o programa Bolsa Família.
Com o apoio da esquerda petista, Patrus deve ter o apoio do prefeito de Coronel Fabriciano, Francisco Simões (1,5 mil filiados, segundo o TSE). Sua base ainda deve estender-se por Betim, Teófilo Otoni , da prefeita Maria José Haueisen (809 filiados), Varginha, do prefeito Eduardo Carvalho (579 filiados), Janaúba, administrada por José Benedito (354 inscritos), além de cidades onde o PT não governa como Montes Claros (700 filiados), Uberaba (1.009 inscritos), Uberlândia (3,7 mil militantes) e Juiz de Fora (1,5 mil integrantes), entre as mais importantes.
Já Pimentel está mais presente nos grandes centros. Deve ter, além de Belo Horizonte, a hegemonia sobre o segundo maior colégio eleitoral petista em Minas, Ipatinga, onde a Justiça Eleitoral registrava em fevereiro 12,9 mil filiações. E disputa em situação de favoritismo em Governador Valadares (1,6 mil inscritos), Nova Lima (420 filiados) e Contagem (3,6 mil integrantes).
Depois das eleições municipais, Patrus reforçou a sua agenda de viagens dentro do Estado. Procura fazer encontros todos os sábados. Já esteve nas cidades de Betim, Luz, Montes Claros, Itaobim e Teófilo Otoni. Neste mês, irá a Ponte Nova, Caratinga, Governador Valadares, Coronel Fabriciano e cidades do sul e do Triângulo Mineiro.
Articulando sua candidatura a partir de um pequeno escritório no centro de Belo Horizonte, Pimentel gastou os últimos dias procurando aumentar seu espaço na direção nacional do PT, que tentou impedir no ano passado a aliança informal com o PSDB costurada por ele para apoiar o secretário estadual Márcio Lacerda, do PSB, que terminou eleito. No fim de março, encontrou-se na capital mineira com o ex-deputado e ex-presidente do PT, José Dirceu. E cultiva a antiga relação com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, com quem militou na luta armada nos anos 60 no Comando de Libertação Nacional (Colina).
A virtual candidata do PT à Presidência, que é natural de Belo Horizonte, procura se manter longe da briga em seu Estado de origem. Em fevereiro, cancelou de última hora a sua participação em um evento organizado pelo PT mineiro em Venda Nova, o reduto dos pimentelistas recém-filiados à sigla. O encontro era boicotado pela ala do partido que defende a candidatura de Patrus e havia o receio de que se tornasse um instrumento a favor de Pimentel na disputa interna. No início de fevereiro, Pimentel concedera uma entrevista à revista "Veja" em que defendera a candidatura de Dilma à Presidência e criticara adversários internos petistas como vinculados a práticas políticas de esquerda ultrapassadas. A entrevista até hoje irrita os aliados do ministro do Desenvolvimento Social.
Neste mês, no dia 17, Dilma irá finalmente a Belo Horizonte, em um evento com perfil completamente diferente. A pré-candidata irá a um seminário organizado pela Fundação Perseu Abramo, órgão de estudos do partido, formalmente para debater a crise econômica global. Também farão parte da mesa Patrus Ananias e Fernando Pimentel. O primeiro, na condição de gestor da área social do governo. O segundo, por ser um dos poucos quadros dirigentes do partido com formação específica em economia. O evento será em um hotel no centro da cidade, que não é reduto de nenhum dos dois postulantes.
O debate no UK
Ontem aconteceu o debate entre Gordon Brown, Nick Clegg e David Cameron, que disputam o governo do Reino Unido. Estranhamente, foi a primeira vez na história que a TV britânica promoveu um debate reunindo os candidatos dos três maiores partidos ao posto de primeiro-ministro.
Na cobertura de hoje do The Guardian, um dado curioso: para a maioria esmagadora dos pesquisados que assistiram o debate ( 51%) Clegg, do Partido Liberal Democrata, ganhou a discussão. Brown e Cameron ficam lá atrás mais ou menos empatados. Mas 62% destes mesmos pesquisados afirmam que não irão mudar o voto em função de debates eleitorais. Já estão com a cabeça feita.
O resultado final é que Cameron continua à frente, com uma vantagem cada vez menor em relação ao atual premier Gordon Brown, enquanto a variação de Clegg foi insignificante nas intenções de voto: oscilou de 21% para 24%.
É um dado que relativiza a importância que se costuma dar a debates eleitorais. Em minha opinião, salvo algum grande desastre, como o acontecido a Lula em 1989 ou a Nixon em 1960, quem assiste a estes encontros já está com a opinião muito sedimentada e não se deixará influenciar por um desempenho brilhante de um dos contendores.Quem está em dúvida sobre quem votar, às vésperas de uma eleição ( a do Reino Unido é em maio), provavelmente é porque não se interessa mesmo pelo tema e prefere assistir outra coisa qualquer na TV.
Durante o debate britânico, o trabalhista Gordon Brown disse que a sua permanência no cargo afasta o risco do que chamou de "double deep recession" e o conservador Cameron fez um discurso a la Serra: vai mudar o que está errado e avançar no que está certo, na linha "o Reino Unido pode mais". O telespectador britânico preferiu o almofadinha Clegg, que se disse o "fresh blood" do momento.
Na cobertura de hoje do The Guardian, um dado curioso: para a maioria esmagadora dos pesquisados que assistiram o debate ( 51%) Clegg, do Partido Liberal Democrata, ganhou a discussão. Brown e Cameron ficam lá atrás mais ou menos empatados. Mas 62% destes mesmos pesquisados afirmam que não irão mudar o voto em função de debates eleitorais. Já estão com a cabeça feita.
O resultado final é que Cameron continua à frente, com uma vantagem cada vez menor em relação ao atual premier Gordon Brown, enquanto a variação de Clegg foi insignificante nas intenções de voto: oscilou de 21% para 24%.
É um dado que relativiza a importância que se costuma dar a debates eleitorais. Em minha opinião, salvo algum grande desastre, como o acontecido a Lula em 1989 ou a Nixon em 1960, quem assiste a estes encontros já está com a opinião muito sedimentada e não se deixará influenciar por um desempenho brilhante de um dos contendores.Quem está em dúvida sobre quem votar, às vésperas de uma eleição ( a do Reino Unido é em maio), provavelmente é porque não se interessa mesmo pelo tema e prefere assistir outra coisa qualquer na TV.
Durante o debate britânico, o trabalhista Gordon Brown disse que a sua permanência no cargo afasta o risco do que chamou de "double deep recession" e o conservador Cameron fez um discurso a la Serra: vai mudar o que está errado e avançar no que está certo, na linha "o Reino Unido pode mais". O telespectador britânico preferiu o almofadinha Clegg, que se disse o "fresh blood" do momento.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Mar de dúvidas
A matéria abaixo foi publicada no Valor, no dia 1° de abril de 2010. Há uma atualização a ser feita: no Rio Grande do Norte, o PMDB acertou uma coligação com o PR e o PV, ficando livre assim para fazer o seu jogo duplo na eleição majoritária.
O fim da verticalização das coligações, aprovado pelo Congresso após a eleição de 2006, não significou a liberação completa das alianças . Especialmente em estados menores, os partidos já estão se preparando para um cenário em que as amarras existiram pelo menos no plano local. A grande polêmica atinge as siglas que querem coligar nas eleições proporcionais , para deputado federal e estadual, e ficarem liberadas nas eleições majoritárias, para governador e senador. Segundo o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e advogado Torquato Jardim, o tema deve ser disciplinado nos próximos dias, possivelmente na próxima semana.
Em função de uma simples consulta no TRE local, o PMDB do Rio Grande do Norte suspendeu o complexo projeto de coligar-se ao PSB e ao PT na eleição proporcional e lançar Garibaldi Alves Filho para tentar a reeleição ao Senado na majoritária, sem candidato formal ao governo. A idéia era liberar Garibaldi para apoiar ao governo estadual a senadora Rosalba Ciarlini (DEM), enquanto o líder do PMDB na Câmara, o deputado federal Henrique Eduardo Alves, apoiava a reeleição do governador Iberê Ferreira (PSB), integrando-se à campanha da pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff.
No último dia 24, o TRE potiguar informou que só consideraria válidas alianças entre partidos que estejam alinhados tanto na majoritária quanto na proporcional. Ou seja, para Garibaldi e Henrique, que são primos, apoiarem candidatos a governador diferentes, o PMDB não poderá coligar-se proporcionalmente com nenhum partido que esteja formalmente na coligação de Rosalba ou de Iberê. Uma semana antes, o TRE de Santa Catarina, respondendo a uma consulta do PPS, informou que só consideraria válidas coligações na eleição proporcional se os partidos que as celebrassem também estivessem unidos na eleição majoritária.
“É prioridade nossa reeleger Garibaldi, mas eu não vou subir, e nem ao menos ficar embaixo, de um palanque de oposição a Lula. É um momento delicado. Vamos ter que convencer alguns partidos da base de Iberê a ficarem soltos na majoritária, para estabelecermos uma coligação proporcional entre partidos na mesma situação”, afirmou Henrique Alves.
Como o Rio Grande do Norte elege apenas oito deputados federais, o quociente eleitoral é muito alto. Mesmo sendo sempre o primeiro ou o segundo mais votado do Estado, Henrique Alves corre risco se concorrer sem coligação.
O tema pode ganhar implicações na eleição presidencial se a possível restrição motivar partidos em estados pequenos a ficarem sem candidato na eleição majoritária. Haveria poucas alianças com PT e PSDB, que lançaram candidatos a governador ou a senador em virtualmente todos os Estados. E o novo entendimento da legislação eleitoral é que os candidatos a presidente podem aparecer na propaganda eleitoral nos Estados em que seus partidos participem da coligação.
“É duvidosa a situação dos partidos que queiram participar de arranjos regionais diferenciados. Haverá margem para impugnação. Ficará difícil até prestar contas financeiras da campanha”, afirmou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Aliado nacionalmente a Lula, o PDT é um dos partidos potencialmente atingidos pela restrição.
Em Minas Gerais, a sigla é aliada local do PSDB mineiro e deseja apoiar a candidatura do governador Antonio Anastasia (PSDB) à reeleição. Mas terá seu próprio candidato a senador, o cartola Zezé Perrella , dirigente do Cruzeiro.
Para Torquato Jardim, a questão ainda está longe de ser resolvida. “Os partidos devem aguardar antes de costurar suas alianças e não se deve tirar conclusões precipitadas a partir de consultas a tribunais locais. Quem tem que decidir esta questão é o TSE. Depois do fim da verticalização, o entendimento geral era que todas as combinações de letras eram possíveis. Mas recentes posicionamentos no tribunal levantaram controvérsia. O quadro está em suspenso e consultas ao TSE devem se multiplicar”, afirmou.
As dúvidas começaram em fevereiro, quando o TSE respondeu a uma consulta do deputado Marcio Junqueira (DEM-RR) sobre a liberdade para coligações separadas para a eleição proporcional e a majoritária. Em resposta, o ministro Fernando Gonçalves afirmou: “permite-se a formação de mais de uma coligação apenas para a eleição proporcional, desde que entre partidos que integrem a coligação para o pleito majoritário, ao qual não é possível a celebração de mais de uma coligação”.
O fim da verticalização das coligações, aprovado pelo Congresso após a eleição de 2006, não significou a liberação completa das alianças . Especialmente em estados menores, os partidos já estão se preparando para um cenário em que as amarras existiram pelo menos no plano local. A grande polêmica atinge as siglas que querem coligar nas eleições proporcionais , para deputado federal e estadual, e ficarem liberadas nas eleições majoritárias, para governador e senador. Segundo o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e advogado Torquato Jardim, o tema deve ser disciplinado nos próximos dias, possivelmente na próxima semana.
Em função de uma simples consulta no TRE local, o PMDB do Rio Grande do Norte suspendeu o complexo projeto de coligar-se ao PSB e ao PT na eleição proporcional e lançar Garibaldi Alves Filho para tentar a reeleição ao Senado na majoritária, sem candidato formal ao governo. A idéia era liberar Garibaldi para apoiar ao governo estadual a senadora Rosalba Ciarlini (DEM), enquanto o líder do PMDB na Câmara, o deputado federal Henrique Eduardo Alves, apoiava a reeleição do governador Iberê Ferreira (PSB), integrando-se à campanha da pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff.
No último dia 24, o TRE potiguar informou que só consideraria válidas alianças entre partidos que estejam alinhados tanto na majoritária quanto na proporcional. Ou seja, para Garibaldi e Henrique, que são primos, apoiarem candidatos a governador diferentes, o PMDB não poderá coligar-se proporcionalmente com nenhum partido que esteja formalmente na coligação de Rosalba ou de Iberê. Uma semana antes, o TRE de Santa Catarina, respondendo a uma consulta do PPS, informou que só consideraria válidas coligações na eleição proporcional se os partidos que as celebrassem também estivessem unidos na eleição majoritária.
“É prioridade nossa reeleger Garibaldi, mas eu não vou subir, e nem ao menos ficar embaixo, de um palanque de oposição a Lula. É um momento delicado. Vamos ter que convencer alguns partidos da base de Iberê a ficarem soltos na majoritária, para estabelecermos uma coligação proporcional entre partidos na mesma situação”, afirmou Henrique Alves.
Como o Rio Grande do Norte elege apenas oito deputados federais, o quociente eleitoral é muito alto. Mesmo sendo sempre o primeiro ou o segundo mais votado do Estado, Henrique Alves corre risco se concorrer sem coligação.
O tema pode ganhar implicações na eleição presidencial se a possível restrição motivar partidos em estados pequenos a ficarem sem candidato na eleição majoritária. Haveria poucas alianças com PT e PSDB, que lançaram candidatos a governador ou a senador em virtualmente todos os Estados. E o novo entendimento da legislação eleitoral é que os candidatos a presidente podem aparecer na propaganda eleitoral nos Estados em que seus partidos participem da coligação.
“É duvidosa a situação dos partidos que queiram participar de arranjos regionais diferenciados. Haverá margem para impugnação. Ficará difícil até prestar contas financeiras da campanha”, afirmou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Aliado nacionalmente a Lula, o PDT é um dos partidos potencialmente atingidos pela restrição.
Em Minas Gerais, a sigla é aliada local do PSDB mineiro e deseja apoiar a candidatura do governador Antonio Anastasia (PSDB) à reeleição. Mas terá seu próprio candidato a senador, o cartola Zezé Perrella , dirigente do Cruzeiro.
Para Torquato Jardim, a questão ainda está longe de ser resolvida. “Os partidos devem aguardar antes de costurar suas alianças e não se deve tirar conclusões precipitadas a partir de consultas a tribunais locais. Quem tem que decidir esta questão é o TSE. Depois do fim da verticalização, o entendimento geral era que todas as combinações de letras eram possíveis. Mas recentes posicionamentos no tribunal levantaram controvérsia. O quadro está em suspenso e consultas ao TSE devem se multiplicar”, afirmou.
As dúvidas começaram em fevereiro, quando o TSE respondeu a uma consulta do deputado Marcio Junqueira (DEM-RR) sobre a liberdade para coligações separadas para a eleição proporcional e a majoritária. Em resposta, o ministro Fernando Gonçalves afirmou: “permite-se a formação de mais de uma coligação apenas para a eleição proporcional, desde que entre partidos que integrem a coligação para o pleito majoritário, ao qual não é possível a celebração de mais de uma coligação”.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Bater é com ele mesmo
Na primeira semana de campanha, já está nítido que Serra e sua turma são imbatíveis em campanha negativa. Tudo o que Dilma fez nos primeiros dias foi pontuado pelos ataques da tucanada. A candidata petista foi para as cordas, explicando-se sobre "Dilmasia" e uma hipotética ( e bote hipotética nisso) crítica aos exilados. Lembra a operação que foi feita contra Ciro Gomes em 2002. Serra está pautando a campanha. E conta com a vantagem de ter o suporte da grande mídia, nítido, pleno, indiscutível. Um começo assustador para quem o menosprezava.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Os limites de uma onda esquerdista
Fui muito criticado por um articulista reacionário, o pitoresco Olavo de Carvalho, pela coluna abaixo, publicada em 12/01/2007. Continuo achando que Chávez está mais para um soba africano do que para um líder socialista.
Por César Felício
É uma sintomática coincidência que os partidos de esquerda na América Latina promovam uma cúpula na semana em que o presidente venezuelano Hugo Chávez proclama seu caráter socialista. O grupo que se reúne a partir de hoje em San Salvador, tendo como anfitrião a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), atende pelo nome de "Foro de São Paulo" e nasceu sob o patrocínio do PT, em 1990.
Os encontros anuais não costumam chamar muita atenção, a não ser de certos radicais de direita no Brasil, que os desenham como uma espécie de Operação Condor com sinal ideológico invertido. A leitura do texto que servirá de base para os debates, divulgado em espanhol na página eletrônica do PT, permite divisar os limites da guinada latino-americana para a esquerda.
O documento foi escrito por dois representantes de partidos governistas -- o PT, no Brasil, e o Movimento 5ª República, na Venezuela -- e dois oposicionistas, o PRD mexicano e a salvadorenha FMLN. O texto lembra que na primeira reunião do grupo, em 1990, os integrantes estavam no governo em um único país: Cuba. Hoje desfrutam o poder na Venezuela, Brasil, Bolívia, Nicarágua, Argentina, Chile, Uruguai e Equador. Até que ponto governariam como desejam é outro tema. Os limites a um poder absoluto parecem incomodar os participantes do encontro.
"Nossa chegada ao governo significa que passamos a controlar uma cota de poder, mas as outras cotas continuam sob controle das classes dominantes. Os chamados mercados, as grandes empresas de comunicação, os setores da alta burocracia do Estado, os comandos centrais das Forças Armadas, os poderes Legislativo e Judiciário, além da influência dos governos estrangeiros, competem com o poder que possuímos quando ocupamos a Presidência", diz o texto.
Antes de ser uma verdadeira marcha ao socialismo, a ofensiva de Chávez, com medidas tais como a nacionalização de multinacionais da telefonia e a cassação da concessão de emissoras de televisão, sugere a coroação de um processo de concentração de poder, que começou com seu confronto com o Congresso e a Suprema Corte, ao convocar a Assembléia Constituinte em 1999, passou pela queda de braço com os funcionários da petroleira PDVSA, em 2002, pelas provocações aos Estados Unidos e o duelo contra a mídia, ao vencer o referendo sobre a sua permanência no cargo em 2004.
As instâncias de poder foram vencidas uma a uma e o resultado é palpável. Segundo a pesquisa de opinião desenvolvida no ano passado pelo Barômetro Ibero-Americano de Governabilidade, em 2002 as empresas privadas (89%), o sistema bancário (80%) e a mídia impressa e televisiva (77%) eram as instituições mais admiradas da Venezuela. Quatro anos depois, quem assume o primeiro plano são as Forças Armadas, com 67%.
"Socialismo" de Chávez é concentração de poder
O cenário em todos os demais países autoriza a pensar que Chávez é uma exceção no contexto latino-americano, bancada pelo barril de petróleo a mais de US$ 50. No Uruguai, articula-se um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Na Nicarágua, os sandinistas prometem respeitar contratos. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi em seu primeiro mandato um construtor de superávits primários.
"Interessa tanto à esquerda quanto à direita falar em uma onda política na América Latina, porque a transposição internacional de realidades é sempre sedutora, mas o que vejo é uma certa perplexidade. A esquerda está com dificuldade de traçar rumos", comenta um especialista, o historiador e cientista político Paulo Vizentini, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em vez de uma opção ideológica, foi a demanda generalizada por políticas sociais, em relação às quais os governos eleitos no início dos anos 90 foram incapazes de atender, que levou os grupos de origem esquerdista ao poder.
Para Vizentini, mesmo no caso de Chávez é difícil delinear aonde se quer chegar. Guardadas as óbvias diferenças -- Chávez nunca financiou o terrorismo -- pode-se traçar um paralelo entre o venezuelano e o presidente líbio Muammar Kadhafi. "Khadafi tem origem militar, substituiu uma petromonarquia e fez uma certa distribuição da prosperidade do petróleo para uma população pequena, com renda per capita alta. Seu discurso teve diferentes oscilações ao longo do tempo, é difícil até hoje defini-lo. Em certos momentos, foi socialista. Em outros, pregou uma democracia islâmica", comenta Vizentini.
O que a movimentação de Chávez também deixa claro são os pontos de contato existentes entre a oposição ao venezuelano e a outros dirigentes vinculados à esquerda no continente, mesmo separados pelo tempo histórico e pelo espaço. Um mesmo discurso estava presente na oposição a Perón e a Getúlio nos anos 40 e 50. Reapareceu, quase igual, no tipo de ataque recebido ano passado por Lopez Obrador no México e Evo Morales na Bolívia. Mais do que denunciar defeitos iguais, o discurso anti-populista revela a coerência de uma elite na América Latina.
Por César Felício
É uma sintomática coincidência que os partidos de esquerda na América Latina promovam uma cúpula na semana em que o presidente venezuelano Hugo Chávez proclama seu caráter socialista. O grupo que se reúne a partir de hoje em San Salvador, tendo como anfitrião a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), atende pelo nome de "Foro de São Paulo" e nasceu sob o patrocínio do PT, em 1990.
Os encontros anuais não costumam chamar muita atenção, a não ser de certos radicais de direita no Brasil, que os desenham como uma espécie de Operação Condor com sinal ideológico invertido. A leitura do texto que servirá de base para os debates, divulgado em espanhol na página eletrônica do PT, permite divisar os limites da guinada latino-americana para a esquerda.
O documento foi escrito por dois representantes de partidos governistas -- o PT, no Brasil, e o Movimento 5ª República, na Venezuela -- e dois oposicionistas, o PRD mexicano e a salvadorenha FMLN. O texto lembra que na primeira reunião do grupo, em 1990, os integrantes estavam no governo em um único país: Cuba. Hoje desfrutam o poder na Venezuela, Brasil, Bolívia, Nicarágua, Argentina, Chile, Uruguai e Equador. Até que ponto governariam como desejam é outro tema. Os limites a um poder absoluto parecem incomodar os participantes do encontro.
"Nossa chegada ao governo significa que passamos a controlar uma cota de poder, mas as outras cotas continuam sob controle das classes dominantes. Os chamados mercados, as grandes empresas de comunicação, os setores da alta burocracia do Estado, os comandos centrais das Forças Armadas, os poderes Legislativo e Judiciário, além da influência dos governos estrangeiros, competem com o poder que possuímos quando ocupamos a Presidência", diz o texto.
Antes de ser uma verdadeira marcha ao socialismo, a ofensiva de Chávez, com medidas tais como a nacionalização de multinacionais da telefonia e a cassação da concessão de emissoras de televisão, sugere a coroação de um processo de concentração de poder, que começou com seu confronto com o Congresso e a Suprema Corte, ao convocar a Assembléia Constituinte em 1999, passou pela queda de braço com os funcionários da petroleira PDVSA, em 2002, pelas provocações aos Estados Unidos e o duelo contra a mídia, ao vencer o referendo sobre a sua permanência no cargo em 2004.
As instâncias de poder foram vencidas uma a uma e o resultado é palpável. Segundo a pesquisa de opinião desenvolvida no ano passado pelo Barômetro Ibero-Americano de Governabilidade, em 2002 as empresas privadas (89%), o sistema bancário (80%) e a mídia impressa e televisiva (77%) eram as instituições mais admiradas da Venezuela. Quatro anos depois, quem assume o primeiro plano são as Forças Armadas, com 67%.
"Socialismo" de Chávez é concentração de poder
O cenário em todos os demais países autoriza a pensar que Chávez é uma exceção no contexto latino-americano, bancada pelo barril de petróleo a mais de US$ 50. No Uruguai, articula-se um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Na Nicarágua, os sandinistas prometem respeitar contratos. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi em seu primeiro mandato um construtor de superávits primários.
"Interessa tanto à esquerda quanto à direita falar em uma onda política na América Latina, porque a transposição internacional de realidades é sempre sedutora, mas o que vejo é uma certa perplexidade. A esquerda está com dificuldade de traçar rumos", comenta um especialista, o historiador e cientista político Paulo Vizentini, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em vez de uma opção ideológica, foi a demanda generalizada por políticas sociais, em relação às quais os governos eleitos no início dos anos 90 foram incapazes de atender, que levou os grupos de origem esquerdista ao poder.
Para Vizentini, mesmo no caso de Chávez é difícil delinear aonde se quer chegar. Guardadas as óbvias diferenças -- Chávez nunca financiou o terrorismo -- pode-se traçar um paralelo entre o venezuelano e o presidente líbio Muammar Kadhafi. "Khadafi tem origem militar, substituiu uma petromonarquia e fez uma certa distribuição da prosperidade do petróleo para uma população pequena, com renda per capita alta. Seu discurso teve diferentes oscilações ao longo do tempo, é difícil até hoje defini-lo. Em certos momentos, foi socialista. Em outros, pregou uma democracia islâmica", comenta Vizentini.
O que a movimentação de Chávez também deixa claro são os pontos de contato existentes entre a oposição ao venezuelano e a outros dirigentes vinculados à esquerda no continente, mesmo separados pelo tempo histórico e pelo espaço. Um mesmo discurso estava presente na oposição a Perón e a Getúlio nos anos 40 e 50. Reapareceu, quase igual, no tipo de ataque recebido ano passado por Lopez Obrador no México e Evo Morales na Bolívia. Mais do que denunciar defeitos iguais, o discurso anti-populista revela a coerência de uma elite na América Latina.
Chico de Oliveira-2009
2009-05-27 - Jornal Valor Econômico
César Felício
"Consenso despolitiza sociedade e coloca Lula à direita de FHC"
Entrevista: Cientista político eleitor de Lula diz que a disputa de 2010 será esvaziada de política e regionalista
Intelectual historicamente identificado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo sido filiado ao PT até 2003, o professor aposentado de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Francisco de Oliveira tornou-se ao longo do atual governo um dos mais cáusticos críticos à esquerda do lulismo. Para este ano, o acadêmico pernambucano de 75 anos, conhecido como Chico de Oliveira, prepara um livro que irá retratar a construção de uma hegemonia às avessas. Ou seja: como um líder popular carismático trabalharia no sentido contrário aos interesses da base que o elegeu.
No ano em que rompeu com o PT, Oliveira desferiu no front literário um dos mais contundentes ataques sofridos por Lula, ao escrever "o Ornitorrinco", um posfácio ao seu livro Crítica da Razão Dualista, editado pela primeira vez em 1972.
Neste posfácio, Oliveira procurou fazer uma aproximação entre a elite dirigente do PT e a da oposição tucana, que teriam como grande traço de união o controle do acesso a fundos públicos.
Em setembro de 2004, Oliveira participou da criação do P-SOL, formado por dissidentes do PT que discordavam da moderação econômica do governo Lula, particularmente da reforma da previdência. Meses depois, o partido receberia outra maré de adesões de desiludidos com o petismo depois da eclosão do escândalo do mensalão.
Com a eleição de 2006, ocorre um novo afastamento. Oliveira discordou da condução da candidatura presidencial da então senadora Heloísa Helena (AL), sobretudo da decisão da sigla de permanecer neutra no segundo turno da eleição presidencial, e declarou voto pela reeleição de Lula. Chegou a definir a campanha da candidata do P-SOL, calcada nas denúncias contra o governo federal no plano ético, como um "udenismo de esquerda".
No início da crise econômica global, em janeiro deste ano, Oliveira propôs que o governo federal radicalizasse suas políticas de desenvolvimento, sugerindo que se criassem "cinco Embraer por ano", uma maneira de defender a maior participação do Estado na economia. Mas a ausência de mudanças na estratégia governamental ao longo deste ano fez com que o sociólogo voltasse à posição crítica dos últimos tempos.
Nesta entrevista, concedida por telefone ao Valor, Chico de Oliveira demonstra ceticismo em relação a mudanças no quadro político com as eleições presidenciais do próximo ano. Eis a entrevista:
Valor: Qual a avaliação que o senhor faz do governo Lula, já em seu penúltimo ano? O senhor rompeu publicamente com o PT em 2003, mas depois declarou voto pela reeleição de Lula em 2006...
Francisco de Oliveira: A minha declaração de voto em 2006 foi uma atitude política. Lula estava sob ataque de forças opositoras naquele momento e havia a esperança, uma palavra que nem gosto de usar, de que um segundo mandato fosse promotor de mudanças, mas hoje podemos ver que não houve nenhuma mudança e essa chance passou. O governo de Lula, concretamente, não demonstrou nenhum avanço social no plano dos direitos. Do ponto de vista da condução econômica é uma administração medíocre, que pensou que se salvaria da crise global e percebe-se que não tem nenhum domínio da situação. Economicamente o governo Lula é um barco à deriva, que se as ondas forem boas chega a um bom porto, e caso contrário, não.
Valor: Que comparação pode-se fazer com o governo FHC?
Oliveira: Lula está à direita de Fernando Henrique [Cardoso] ao não recompor as estruturas do Estado e não avançar na ampliação de direitos. O presidente tenta se legitimar promovendo consensos que passam pela cooptação dos mais pobres. O Bolsa Família não é um direito, mas uma dádiva. Neste sentido, vivemos na gestão dele uma regressão política, porque no governo Lula houve uma diminuição do grau de participação popular na esfera pública. E quando se projeta o cenário de 2010 percebe-se como Lula resulta regressivo. Com a força perdida pelo PT e a ausência de alternativas de Lula, uma vez que a doença de sua candidata mostra sinais de gravidade, aparece o terceiro mandato.
Valor: O senhor acha que o governo está criando um caldo de cultura para o terceiro mandato?
Oliveira: Sim, porque Lula aparece, para os olhos de determinados segmentos do meio político e popular, como o homem providencial. E neste sentido a possibilidade de um terceiro mandato é perigosa. Getúlio [Vargas] ensaiou isso com o queremismo, em 1945. Agora, pode muito bem surgir um queremismo lulista: o povo ir às ruas para pedir a continuidade do governo.
Valor: E o senhor acha que o povo irá às ruas?
Oliveira: Não digo o povo, uma categoria imprecisa, mas o PT e a CUT ainda têm capacidade para promover barulho, e barulho é o que é decisivo em uma questão como essa.
Valor: Porque no campo da esquerda nem o P-SOL, nem outras siglas conseguiram se firmar como alternativas a Lula?
Oliveira: Nada surgiu porque, ao tornar-se um mito popular, Lula tornou-se infuso à política. Ele produz um consenso de forças sociais, que estão todas muito contentes com o governo, e assim torna impossível ao eleitorado fazer escolhas reais. Isto explica porque Heloísa Helena, apesar do apelo popular que teve e tem, não se tornar uma alternativa. Vivemos um consenso conservador, no sentido de não se transformar nada, mesmo com a presença das massas populares neste consenso.
Valor: Ao romper com o PT, o senhor disse que o partido poderia ter o mesmo destino do peronismo, tornando-se uma força política que não consegue ter referências ideológicas e prende-se ao espólio de uma liderança...
Oliveira: Se fiz esta aproximação, foi um equívoco meu. A mídia brasileira por vezes passa uma ideia equivocada do que foi [Juan Domingo] Perón na Argentina. O Perón não despolitizou o país. Sob o vezo do autoritarismo, em seu período se produziu uma ampliação de direitos tal que a tradicional oligarquia argentina jamais se recuperou. No caso de Lula, está ocorrendo exatamente o contrário, a diminuição do espaço da política na sociedade.
Valor: O governo Lula não investiu na inclusão de minorias nos espaços de poder, por meio de políticas de ação afirmativas para negros e mulheres?
Oliveira: Ele tomou os vestígios de um discurso sociológico fajuto para negar o conflito de classes. Veja, com a análise da questão das classes se mata as charadas no Brasil. Quando a gente pensa a sociedade por meio destas clivagens de gênero e raça, não se mata charada nenhuma. O problema do Brasil é de uma grande maioria, virtual totalidade mulata, e não pode ser resolvido por políticas afirmativas étnicas, diferentemente do que ocorre na Bolívia e na Venezuela, onde a chave étnica é decisiva. Para resolver os problemas de exclusão social no Brasil, é preciso enfrentar problemas de classe. A política de cotas só faz reafirmar a exclusão. Qual as chances concretas que um negro com grau universitário obtido graças às cotas ampliação de direitos combatem a discriminação.
Valor: O senhor analisa o governo Lula como o autor de uma guinada conservadora, mas, com instrumentos como a Carta ao Povo Brasileiro, Lula já não se elegeu sob este signo?
Oliveira: Pelo contrário, Lula foi eleito em um processo de força popular crescente de um movimento político, que acumulou energia de eleição em eleição desde os anos 80. Não foi um episódio que se resume à crônica de 2002, foi um processo longo. Lula foi eleito com uma base progressista. Não houve nenhuma chancela do eleitorado para o que ele faria a seguir.
Valor: Além de sua gestão econômica até certo ponto surpreendente, o primeiro mandato de Lula foi marcado pelos escândalos na área ética, dos quais o do mensalão foi o mais emblemático. Por que a ressonância popular destes problemas foi zero?
Oliveira: Há uma tendência popular de nivelar a todos. Historicamente, a questão ética só estigmatiza políticos de estatura menor, como os exemplos recentes de [Paulo] Maluf e [Orestes] Quércia. Gostaria que tivesse sido diferente, mas este fator jamais foi decisivo em eleições brasileiras e não será na próxima.
Valor: Qual o balanço que o senhor faz da oposição brasileira nestes últimos sete anos?
Oliveira: Que crítica a oposição pode fazer ao governo Lula? Objetivamente nenhuma. Os governadores José Serra e Aécio Neves estão do mesmo lado. Em termos concretos, já há tempos a oposição deixou de existir. Isto porque a política no Brasil perdeu a capacidade decisória.
Valor: Que diferenças o senhor identifica entre Serra e Aécio?
Oliveira: Rejeito ambos por motivos diferentes. Aécio parece mais um político superficial que se faz sob a herança política familiar. Nunca vi uma opinião dele que impressionasse. Serra é uma surpresa. Faz um governo gerencial e até reacionário, ao lidar com o funcionalismo e com a universidade pública. É um político que gradualmente se converteu, quando vemos o passado dele e o local onde atua agora. É o grande líder conservador.
Valor: Sob que signo será disputada a eleição presidencial do próximo ano?
Oliveira: A eleição de 2010 será despolitizada e regionalista. Vejo agora a articulação entre São Paulo e Minas. Antes era o café com leite, hoje talvez seja o café com leite de um lado, a cana e a indústria do outro... a eleição caminha para ser uma disputa entre a confluência de São Paulo com Minas em contraposição à confluência do Nordeste e do Norte. É uma disputa que se dá em termos regionais, sem nenhum ponto político, nenhuma discussão de concepção propriamente política. Ao criar um consenso, Lula foi fortemente despolitizador. É uma dinâmica diferente do tempo de Fernando Henrique. Fernando Henrique buscou subjugar as forças contrárias, Lula as desmobiliza.
Valor: E que papel jogam atualmente os movimentos sociais?
Oliveira: Os movimentos sociais estão apagados, porque tratam-se em sua maioria de articulações em torno de objetivos pontuais, o que tornam limitadas as possibilidades de crescimento. O mais importante deles, que é o MST, busca saídas para a sobrevivência.
Valor: Esta desmobilização política não é um fenômeno global?
Oliveira: Ela é um fenômeno mundial. A França elegeu [Nicolas] Sarkozy, um direitista que se disfarça. Nos Estados Unidos, temos [Barack] Obama, que está recuando de suas posições iniciais. Na Alemanha, Ângela Merkel faz uma conciliação que junta sociais democratas e conservadores. E na Rússia, há um florescer do autocratismo. Todo mundo está convergindo para um ponto médio, que é uma espécie de anulação das posições. Mas no Brasil é mais grave, porque aqui a desigualdade é muito maior.
César Felício
"Consenso despolitiza sociedade e coloca Lula à direita de FHC"
Entrevista: Cientista político eleitor de Lula diz que a disputa de 2010 será esvaziada de política e regionalista
Intelectual historicamente identificado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo sido filiado ao PT até 2003, o professor aposentado de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Francisco de Oliveira tornou-se ao longo do atual governo um dos mais cáusticos críticos à esquerda do lulismo. Para este ano, o acadêmico pernambucano de 75 anos, conhecido como Chico de Oliveira, prepara um livro que irá retratar a construção de uma hegemonia às avessas. Ou seja: como um líder popular carismático trabalharia no sentido contrário aos interesses da base que o elegeu.
No ano em que rompeu com o PT, Oliveira desferiu no front literário um dos mais contundentes ataques sofridos por Lula, ao escrever "o Ornitorrinco", um posfácio ao seu livro Crítica da Razão Dualista, editado pela primeira vez em 1972.
Neste posfácio, Oliveira procurou fazer uma aproximação entre a elite dirigente do PT e a da oposição tucana, que teriam como grande traço de união o controle do acesso a fundos públicos.
Em setembro de 2004, Oliveira participou da criação do P-SOL, formado por dissidentes do PT que discordavam da moderação econômica do governo Lula, particularmente da reforma da previdência. Meses depois, o partido receberia outra maré de adesões de desiludidos com o petismo depois da eclosão do escândalo do mensalão.
Com a eleição de 2006, ocorre um novo afastamento. Oliveira discordou da condução da candidatura presidencial da então senadora Heloísa Helena (AL), sobretudo da decisão da sigla de permanecer neutra no segundo turno da eleição presidencial, e declarou voto pela reeleição de Lula. Chegou a definir a campanha da candidata do P-SOL, calcada nas denúncias contra o governo federal no plano ético, como um "udenismo de esquerda".
No início da crise econômica global, em janeiro deste ano, Oliveira propôs que o governo federal radicalizasse suas políticas de desenvolvimento, sugerindo que se criassem "cinco Embraer por ano", uma maneira de defender a maior participação do Estado na economia. Mas a ausência de mudanças na estratégia governamental ao longo deste ano fez com que o sociólogo voltasse à posição crítica dos últimos tempos.
Nesta entrevista, concedida por telefone ao Valor, Chico de Oliveira demonstra ceticismo em relação a mudanças no quadro político com as eleições presidenciais do próximo ano. Eis a entrevista:
Valor: Qual a avaliação que o senhor faz do governo Lula, já em seu penúltimo ano? O senhor rompeu publicamente com o PT em 2003, mas depois declarou voto pela reeleição de Lula em 2006...
Francisco de Oliveira: A minha declaração de voto em 2006 foi uma atitude política. Lula estava sob ataque de forças opositoras naquele momento e havia a esperança, uma palavra que nem gosto de usar, de que um segundo mandato fosse promotor de mudanças, mas hoje podemos ver que não houve nenhuma mudança e essa chance passou. O governo de Lula, concretamente, não demonstrou nenhum avanço social no plano dos direitos. Do ponto de vista da condução econômica é uma administração medíocre, que pensou que se salvaria da crise global e percebe-se que não tem nenhum domínio da situação. Economicamente o governo Lula é um barco à deriva, que se as ondas forem boas chega a um bom porto, e caso contrário, não.
Valor: Que comparação pode-se fazer com o governo FHC?
Oliveira: Lula está à direita de Fernando Henrique [Cardoso] ao não recompor as estruturas do Estado e não avançar na ampliação de direitos. O presidente tenta se legitimar promovendo consensos que passam pela cooptação dos mais pobres. O Bolsa Família não é um direito, mas uma dádiva. Neste sentido, vivemos na gestão dele uma regressão política, porque no governo Lula houve uma diminuição do grau de participação popular na esfera pública. E quando se projeta o cenário de 2010 percebe-se como Lula resulta regressivo. Com a força perdida pelo PT e a ausência de alternativas de Lula, uma vez que a doença de sua candidata mostra sinais de gravidade, aparece o terceiro mandato.
Valor: O senhor acha que o governo está criando um caldo de cultura para o terceiro mandato?
Oliveira: Sim, porque Lula aparece, para os olhos de determinados segmentos do meio político e popular, como o homem providencial. E neste sentido a possibilidade de um terceiro mandato é perigosa. Getúlio [Vargas] ensaiou isso com o queremismo, em 1945. Agora, pode muito bem surgir um queremismo lulista: o povo ir às ruas para pedir a continuidade do governo.
Valor: E o senhor acha que o povo irá às ruas?
Oliveira: Não digo o povo, uma categoria imprecisa, mas o PT e a CUT ainda têm capacidade para promover barulho, e barulho é o que é decisivo em uma questão como essa.
Valor: Porque no campo da esquerda nem o P-SOL, nem outras siglas conseguiram se firmar como alternativas a Lula?
Oliveira: Nada surgiu porque, ao tornar-se um mito popular, Lula tornou-se infuso à política. Ele produz um consenso de forças sociais, que estão todas muito contentes com o governo, e assim torna impossível ao eleitorado fazer escolhas reais. Isto explica porque Heloísa Helena, apesar do apelo popular que teve e tem, não se tornar uma alternativa. Vivemos um consenso conservador, no sentido de não se transformar nada, mesmo com a presença das massas populares neste consenso.
Valor: Ao romper com o PT, o senhor disse que o partido poderia ter o mesmo destino do peronismo, tornando-se uma força política que não consegue ter referências ideológicas e prende-se ao espólio de uma liderança...
Oliveira: Se fiz esta aproximação, foi um equívoco meu. A mídia brasileira por vezes passa uma ideia equivocada do que foi [Juan Domingo] Perón na Argentina. O Perón não despolitizou o país. Sob o vezo do autoritarismo, em seu período se produziu uma ampliação de direitos tal que a tradicional oligarquia argentina jamais se recuperou. No caso de Lula, está ocorrendo exatamente o contrário, a diminuição do espaço da política na sociedade.
Valor: O governo Lula não investiu na inclusão de minorias nos espaços de poder, por meio de políticas de ação afirmativas para negros e mulheres?
Oliveira: Ele tomou os vestígios de um discurso sociológico fajuto para negar o conflito de classes. Veja, com a análise da questão das classes se mata as charadas no Brasil. Quando a gente pensa a sociedade por meio destas clivagens de gênero e raça, não se mata charada nenhuma. O problema do Brasil é de uma grande maioria, virtual totalidade mulata, e não pode ser resolvido por políticas afirmativas étnicas, diferentemente do que ocorre na Bolívia e na Venezuela, onde a chave étnica é decisiva. Para resolver os problemas de exclusão social no Brasil, é preciso enfrentar problemas de classe. A política de cotas só faz reafirmar a exclusão. Qual as chances concretas que um negro com grau universitário obtido graças às cotas ampliação de direitos combatem a discriminação.
Valor: O senhor analisa o governo Lula como o autor de uma guinada conservadora, mas, com instrumentos como a Carta ao Povo Brasileiro, Lula já não se elegeu sob este signo?
Oliveira: Pelo contrário, Lula foi eleito em um processo de força popular crescente de um movimento político, que acumulou energia de eleição em eleição desde os anos 80. Não foi um episódio que se resume à crônica de 2002, foi um processo longo. Lula foi eleito com uma base progressista. Não houve nenhuma chancela do eleitorado para o que ele faria a seguir.
Valor: Além de sua gestão econômica até certo ponto surpreendente, o primeiro mandato de Lula foi marcado pelos escândalos na área ética, dos quais o do mensalão foi o mais emblemático. Por que a ressonância popular destes problemas foi zero?
Oliveira: Há uma tendência popular de nivelar a todos. Historicamente, a questão ética só estigmatiza políticos de estatura menor, como os exemplos recentes de [Paulo] Maluf e [Orestes] Quércia. Gostaria que tivesse sido diferente, mas este fator jamais foi decisivo em eleições brasileiras e não será na próxima.
Valor: Qual o balanço que o senhor faz da oposição brasileira nestes últimos sete anos?
Oliveira: Que crítica a oposição pode fazer ao governo Lula? Objetivamente nenhuma. Os governadores José Serra e Aécio Neves estão do mesmo lado. Em termos concretos, já há tempos a oposição deixou de existir. Isto porque a política no Brasil perdeu a capacidade decisória.
Valor: Que diferenças o senhor identifica entre Serra e Aécio?
Oliveira: Rejeito ambos por motivos diferentes. Aécio parece mais um político superficial que se faz sob a herança política familiar. Nunca vi uma opinião dele que impressionasse. Serra é uma surpresa. Faz um governo gerencial e até reacionário, ao lidar com o funcionalismo e com a universidade pública. É um político que gradualmente se converteu, quando vemos o passado dele e o local onde atua agora. É o grande líder conservador.
Valor: Sob que signo será disputada a eleição presidencial do próximo ano?
Oliveira: A eleição de 2010 será despolitizada e regionalista. Vejo agora a articulação entre São Paulo e Minas. Antes era o café com leite, hoje talvez seja o café com leite de um lado, a cana e a indústria do outro... a eleição caminha para ser uma disputa entre a confluência de São Paulo com Minas em contraposição à confluência do Nordeste e do Norte. É uma disputa que se dá em termos regionais, sem nenhum ponto político, nenhuma discussão de concepção propriamente política. Ao criar um consenso, Lula foi fortemente despolitizador. É uma dinâmica diferente do tempo de Fernando Henrique. Fernando Henrique buscou subjugar as forças contrárias, Lula as desmobiliza.
Valor: E que papel jogam atualmente os movimentos sociais?
Oliveira: Os movimentos sociais estão apagados, porque tratam-se em sua maioria de articulações em torno de objetivos pontuais, o que tornam limitadas as possibilidades de crescimento. O mais importante deles, que é o MST, busca saídas para a sobrevivência.
Valor: Esta desmobilização política não é um fenômeno global?
Oliveira: Ela é um fenômeno mundial. A França elegeu [Nicolas] Sarkozy, um direitista que se disfarça. Nos Estados Unidos, temos [Barack] Obama, que está recuando de suas posições iniciais. Na Alemanha, Ângela Merkel faz uma conciliação que junta sociais democratas e conservadores. E na Rússia, há um florescer do autocratismo. Todo mundo está convergindo para um ponto médio, que é uma espécie de anulação das posições. Mas no Brasil é mais grave, porque aqui a desigualdade é muito maior.
A conferir
Esta é de 23-03-2010,
Por César Felício,
No Valor Econômico
O Senado em 2011 poderá ganhar uma conformação mais parecida com a Câmara, com o PMDB e o PT fazendo as maiores bancadas, seguidos por PSDB e DEM. Atualmente, os tucanos e os integrantes do DEM possuem respectivamente as segunda e terceira maiores bancadas da Casa. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve no Senado as suas maiores derrotas políticas, como o fim da cobrança da CPMF, em 2007 e o funcionamento de até três CPIs simultaneamente.
Segundo levantamento do diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz, das 54 vagas do Senado em jogo este ano, 14 ou 15 serão de senadores que conseguirão a reeleição, patamar idêntico ao registrado em 2002.
Nas demais cadeiras, a vantagem é dos atuais governistas. "A oposição é naturalmente prejudicada em uma disputa como essa, pela perda de interlocução que teve com o poder central há oito anos e que só será sentida agora", comentou Queiroz.
Entre os partidos situacionistas, o PMDB não tende a ter um crescimento expressivo, já que renova 14 de suas atuais 17 cadeiras e tem boa parte de sua bancada formada por suplentes. Abrindo mão da disputa por diversos governos estaduais, por orientação do próprio presidente, o PT criou espaços para avançar no Senado.
É precisamente o que ocorre em Estados do Nordeste, como Pernambuco e Ceará, ou do Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nos Estados nordestinos, caso PT e PSB se coliguem na eleição presidencial, os petistas não devem apresentar candidato próprio ao governo estadual. Cria-se a possibilidade de eleição respectivamente do ex-prefeito do Recife João Paulo Lima e Silva, e do atual ministro da Previdência Social, José Pimentel. O primeiro ainda disputa a vaga com o ex-ministro da Saúde Humberto Costa.
No Paraná, a aliança com o atual senador Osmar Dias (PDT) abre espaço para Gleisi Hoffmann, mulher do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, tentar o Senado. No Rio de Janeiro, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, e a ex-governadora Benedita da Silva, disputam com chances uma cadeira na chapa que apoiará a reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB).
No Espírito Santo, o PT deve apoiar a candidatura do vice-governador Ricardo Ferraço (PMDB) e o prefeito de Vitória, o petista João Coser, é o mais provável candidato a substituir o governador Paulo Hartung (PMDB) na disputa por uma cadeira ao Senado.
Pelas contas do Diap, o PT sairia dos seus atuais 11 senadores (dois deles suplentes) para um patamar entre 13 e 15 parlamentares. Já o PMDB, atualmente com 17 integrantes do Senado, não tende a crescer. O levantamento mostra entre 14 e 16 cadeiras para o partido. Queiroz não arrisca prognósticos sobre a segunda vaga ao Senado em diversos estados, mas a chance do partido reduzir a bancada é mínima.
Em pelo menos três estados sem previsão do levantamento há fortes candidatos peemedebistas: No Mato Grosso do Sul, o deputado federal Waldemir Moka; em Tocantins, o ex-governador Marcelo Miranda e no Sergipe, o deputado federal Jackson Barreto. Em Goiás, o diretor do Diap acredita na possível candidatura ao Senado do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Também é cotada para a vaga, caso Meirelles não entre na disputa, a deputada federal Íris Araújo (PMDB).
Para Queiroz, os atuais comandantes da bancada peemedebista tendem a reeleger-se. Renan Calheiros ampliou suas possibilidades em Alagoas ao conseguir deslocar para a disputa pelo governo estadual o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT). Romero Jucá não tem competidores fortes em Roraima. Já Valdir Raupp deverá ser o segundo mais votado em Rondônia. O presidente da Casa, senador José Sarney (AP), conta com mais quatro anos de mandato.
O panorama é adverso para a oposição. Na avaliação de Queiroz, dos principais senadores oposicionistas que buscam um novo mandato, apenas três - Heráclito Fortes (DEM-PI), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) - estão em situação relativamente confortável. Já Arthur Virgilio (PSDB-AM), Sergio Guerra (PSDB-PE), José Agripino Maia (DEM-RN) e Marco Maciel (DEM-PE) enfrentam ao mesmo tempo os governos federal e estadual e contam com adversários fortes.
Pelo levantamento, o PSDB pode cair de 14 senadores para um patamar entre 9 e 10 e o DEM, que conta com bancada idêntica à dos tucanos, para algo entre 8 ou 9. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), tende a tornar-se o parlamentar mais votado no campo oposicionista, se concretizar a sua candidatura ao Senado. Mas terá que se esforçar para garantir a maior votação em Minas, caso o vice-presidente José Alencar (PRB) seja candidato.
No levantamento feito por Queiroz, não há apostas sobre a segunda vaga na Bahia e no Maranhão. De acordo com o diretor, trata-se de estados que reúnem duas características que tornam o quadro obscuro: há a presença de suplentes, ACM Júnior (DEM-BA) e Mauro Fecury (PMDB-MA) que, em tese, teriam dificuldade para renovar o mandato, e não há polarização na disputa estadual, o que retarda as composições para o Senado. Na Bahia, PMDB e PT tendem a apresentar candidaturas separadas para o governo. No Maranhão, a divisão é entre a governadora Roseana Sarney (PMDB) e o deputado federal Flavio Dino (PCdoB).
Confirmada esta projeção, o atual líder nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), iria encontrar-se em situação semelhante à de Lula em 2003, logo depois de ter sido eleito para o seu primeiro mandato como presidente da República: a de ter de lidar com um Senado potencialmente hostil.
Em caso de vitória da virtual candidata petista, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a presidente precisaria aplainar as divisões internas do PMDB e do próprio PT para garantir trânsito na Casa.
Os dois partidos protagonizaram a última disputa da Mesa Diretora em 2009. Os desdobramentos da guerra entre José Sarney e o senador Tião Viana (AC) alimentaram uma onda de denúncias que paralisou o Senado.
Por César Felício,
No Valor Econômico
O Senado em 2011 poderá ganhar uma conformação mais parecida com a Câmara, com o PMDB e o PT fazendo as maiores bancadas, seguidos por PSDB e DEM. Atualmente, os tucanos e os integrantes do DEM possuem respectivamente as segunda e terceira maiores bancadas da Casa. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve no Senado as suas maiores derrotas políticas, como o fim da cobrança da CPMF, em 2007 e o funcionamento de até três CPIs simultaneamente.
Segundo levantamento do diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz, das 54 vagas do Senado em jogo este ano, 14 ou 15 serão de senadores que conseguirão a reeleição, patamar idêntico ao registrado em 2002.
Nas demais cadeiras, a vantagem é dos atuais governistas. "A oposição é naturalmente prejudicada em uma disputa como essa, pela perda de interlocução que teve com o poder central há oito anos e que só será sentida agora", comentou Queiroz.
Entre os partidos situacionistas, o PMDB não tende a ter um crescimento expressivo, já que renova 14 de suas atuais 17 cadeiras e tem boa parte de sua bancada formada por suplentes. Abrindo mão da disputa por diversos governos estaduais, por orientação do próprio presidente, o PT criou espaços para avançar no Senado.
É precisamente o que ocorre em Estados do Nordeste, como Pernambuco e Ceará, ou do Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nos Estados nordestinos, caso PT e PSB se coliguem na eleição presidencial, os petistas não devem apresentar candidato próprio ao governo estadual. Cria-se a possibilidade de eleição respectivamente do ex-prefeito do Recife João Paulo Lima e Silva, e do atual ministro da Previdência Social, José Pimentel. O primeiro ainda disputa a vaga com o ex-ministro da Saúde Humberto Costa.
No Paraná, a aliança com o atual senador Osmar Dias (PDT) abre espaço para Gleisi Hoffmann, mulher do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, tentar o Senado. No Rio de Janeiro, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, e a ex-governadora Benedita da Silva, disputam com chances uma cadeira na chapa que apoiará a reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB).
No Espírito Santo, o PT deve apoiar a candidatura do vice-governador Ricardo Ferraço (PMDB) e o prefeito de Vitória, o petista João Coser, é o mais provável candidato a substituir o governador Paulo Hartung (PMDB) na disputa por uma cadeira ao Senado.
Pelas contas do Diap, o PT sairia dos seus atuais 11 senadores (dois deles suplentes) para um patamar entre 13 e 15 parlamentares. Já o PMDB, atualmente com 17 integrantes do Senado, não tende a crescer. O levantamento mostra entre 14 e 16 cadeiras para o partido. Queiroz não arrisca prognósticos sobre a segunda vaga ao Senado em diversos estados, mas a chance do partido reduzir a bancada é mínima.
Em pelo menos três estados sem previsão do levantamento há fortes candidatos peemedebistas: No Mato Grosso do Sul, o deputado federal Waldemir Moka; em Tocantins, o ex-governador Marcelo Miranda e no Sergipe, o deputado federal Jackson Barreto. Em Goiás, o diretor do Diap acredita na possível candidatura ao Senado do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Também é cotada para a vaga, caso Meirelles não entre na disputa, a deputada federal Íris Araújo (PMDB).
Para Queiroz, os atuais comandantes da bancada peemedebista tendem a reeleger-se. Renan Calheiros ampliou suas possibilidades em Alagoas ao conseguir deslocar para a disputa pelo governo estadual o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT). Romero Jucá não tem competidores fortes em Roraima. Já Valdir Raupp deverá ser o segundo mais votado em Rondônia. O presidente da Casa, senador José Sarney (AP), conta com mais quatro anos de mandato.
O panorama é adverso para a oposição. Na avaliação de Queiroz, dos principais senadores oposicionistas que buscam um novo mandato, apenas três - Heráclito Fortes (DEM-PI), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) - estão em situação relativamente confortável. Já Arthur Virgilio (PSDB-AM), Sergio Guerra (PSDB-PE), José Agripino Maia (DEM-RN) e Marco Maciel (DEM-PE) enfrentam ao mesmo tempo os governos federal e estadual e contam com adversários fortes.
Pelo levantamento, o PSDB pode cair de 14 senadores para um patamar entre 9 e 10 e o DEM, que conta com bancada idêntica à dos tucanos, para algo entre 8 ou 9. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), tende a tornar-se o parlamentar mais votado no campo oposicionista, se concretizar a sua candidatura ao Senado. Mas terá que se esforçar para garantir a maior votação em Minas, caso o vice-presidente José Alencar (PRB) seja candidato.
No levantamento feito por Queiroz, não há apostas sobre a segunda vaga na Bahia e no Maranhão. De acordo com o diretor, trata-se de estados que reúnem duas características que tornam o quadro obscuro: há a presença de suplentes, ACM Júnior (DEM-BA) e Mauro Fecury (PMDB-MA) que, em tese, teriam dificuldade para renovar o mandato, e não há polarização na disputa estadual, o que retarda as composições para o Senado. Na Bahia, PMDB e PT tendem a apresentar candidaturas separadas para o governo. No Maranhão, a divisão é entre a governadora Roseana Sarney (PMDB) e o deputado federal Flavio Dino (PCdoB).
Confirmada esta projeção, o atual líder nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), iria encontrar-se em situação semelhante à de Lula em 2003, logo depois de ter sido eleito para o seu primeiro mandato como presidente da República: a de ter de lidar com um Senado potencialmente hostil.
Em caso de vitória da virtual candidata petista, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a presidente precisaria aplainar as divisões internas do PMDB e do próprio PT para garantir trânsito na Casa.
Os dois partidos protagonizaram a última disputa da Mesa Diretora em 2009. Os desdobramentos da guerra entre José Sarney e o senador Tião Viana (AC) alimentaram uma onda de denúncias que paralisou o Senado.
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