Salvo raras exceções, empresário procura estar perto da perspectiva de poder. Na Argentina, retórica peronista à parte, não é diferente. A matéria abaixo saiu no dia 1° de setembro, no Valor. O jantar mencionado no texto reuniu o dobro do público projetado.
A presidente da Argentina Cristina Kirchner e o meio patronal aceleraram a aproximação a poucas semanas do início oficial da campanha presidencial deste ano. A eleição é em outubro. A presidente será homenageada em jantar para mil pessoas promovido amanhã pela União Industrial Argentina (UIA), no Dia da Indústria. O evento vai ocorrer em um palco governista: as centenas de empresários irão se deslocar até a periferia de Buenos Aires, onde o governo organiza desde julho a Tecnópolis, uma mostra de realizações científicas e tecnológicas do país.
A celebração acontecerá seis dias depois de Cristina elevar o salário mínimo de 1,8 mil para 2,3 mil pesos argentinos. O aumento, de 25%, mantém o país no teto das remunerações desse tipo na América Latina, com um valor próximo a US$ 600, mas foi uma derrota para a poderosa CGT. A central sindical, junto com a menor e mais radical CTA, reivindicava reajuste de 40%. O reajuste não garante ganhos reais aos trabalhadores, já que a inflação anual no país está entre 20% e 25%. E ficou próximo dos 18% sugeridos pelas entidades patronais.
Logo após as prévias partidárias de 14 de agosto, em que Cristina surpreendeu ao conseguir 50% dos votos, sinalizando vitória em primeiro turno em outubro, a presidente fez declarações conciliadoras, dizendo que em um cenário de crise internacional não iria tensionar as relações sociais e que iria "governar para todos". O presidente da UIA, Ignacio Mendiguren, festejou a mudança de tom e afirmou que, privadamente, já havia tempo que o ânimo da presidente estava longe da confrontação.
"A prévia foi fundamental para mover os empresários para uma aproximação, porque sinalizou com mais quatro anos de convivência com este governo. Mas partiram da Casa Rosada dois gestos: a atenuação do rigor na política cambial, que permitiu o peso desvalorizar cerca de 5% nas últimas semanas e reduziu perda de competitividade do setor exportador, e o aumento moderado do salário mínimo, que beneficia as empresas pequenas e médias e serve como referencial de reajustes das categorias organizadas no próximo ano", comentou o economista Ricardo Delgado, sócio da empresa de consultoria Analytica.
A moderação de Cristina pode representar alguma turbulência na relação com setores empresariais do Brasil. Segundo disse Mendiguren ontem, "o Brasil está compensando defasagens cambiais com medidas que, na prática, podem ampliar a vantagem brasileira na relação bilateral". Essa percepção sugere pressão sobre o governo por mais protecionismo.
A lista de contenciosos entre o grupo kirchnerista e o empresariado é extensa e foi aberta no primeiro ano de governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, quando ocorreram reestatizações. O último atrito de grande porte ocorreu em abril, quando o governo decidiu nomear diretores para as empresas que têm parte de seu controle acionário em mãos de fundos de pensão estatizados.
O ímpeto oposicionista do meio industrial começou a arrefecer diante de políticas governamentais para manter a economia aquecida, no momento em que eclodiu a crise econômica global. Entre estas medidas, estão iniciativas de fomento à produção, como o uso dos recursos do fundo Bicentenário, fonte pública de financiamentos que atende desde pequenos produtores até multinacionais como Fiat, Pirelli e Peugeot Citroën.
A aproximação entre o governo e o meio industrial não é uniforme. "Cristina se aproxima da UIA, onde o peso de estabelecimentos pequenos e médios e de base regional é expressivo. Com a Associação Empresária Argentina (AEA), onde estão presentes grandes grupos de diversos setores, o diálogo continua difícil. Mas mesmo lá já foram lançadas pontes", observou o diretor de uma multinacional.
A AEA tem como um de seus vice-presidentes Hector Magnetto, do grupo de mídia Clarín, a quem o governo argentino tenta debilitar de diversas maneiras. Mas vários de seus integrantes foram chamados a compor o grupo empresarial binacional com o Brasil, que servirá como uma câmara de consultas dos dois governos e que foi criado no último encontro presidencial entre Cristina e a presidente brasileira Dilma Rousseff.
Mesmo no setor rural, mais radical e principal fator da derrota do governo na eleição legislativa de 2009, Cristina procurou avançar. Neste segmento, a divisão do meio patronal é percebida com maior clareza. Embora o presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcatti, permaneça um duro crítico do governo, Eduardo Buzzi, dirigente da Federação Agrária Argentina (FAA), que representa pequenos e médios proprietários rurais, passou a negociar com Cristina. Em nota, Buzzi afirmou na ocasião que "nos últimos tempos, parece que existem alguns gestos isolados do Executivo tendentes a melhorar algumas situações específicas de urgência de alguns produtores agropecuários".
Logo após as prévia, Cristina prometeu trabalhar para acelerar no Congresso a tramitação do projeto que limita a venda de terras na Argentina a estrangeiros, uma bandeira da FAA. O trabalho da presidente de dividir as lideranças no campo é facilitado pelas condições excepcionais de mercado da soja, principal commodity argentina. Segundo dados divulgados no domingo, o valor das exportações primárias do país subiu 37% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período no ano passado. "As cidades do interior estão nadando em ouro, e isso tende a suavizar as posições", disse o cientista político Diego Raus, da Universidade de Buenos Aires.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Ping com Vicente Palermo
Publicado no Valor , dia 1/09/2011
O triunfo de Cristina
Por César Felício | De Buenos Aires
Índices crescentes de consumo popular, políticas de transferência de renda em ascensão, um histórico de atritos com grandes conglomerados de mídia e um enfrentamento com uma oposição que tem dificuldades de se renovar e propor alternativas. O cenário montado na Argentina às vésperas da eleição presidencial que deve dar um novo mandato à presidente Cristina Fernandez de Kirchner se assemelha ao que marcou o Brasil nas sucessões presidenciais de 2006 e 2010, mas o cientista político Vicente Palermo propõe jogar luz sobre as diferenças entre a hegemonia do kirchnerismo e o fenômeno do lulismo no Brasil. E a principal delas é o risco concreto de uma mudança constitucional que permita ao grupo atual continuar exercendo o poder.
Frequentador da Cantina do Lucas, tradicional reduto boêmio do centro de Belo Horizonte, e proprietário de um apartamento no Corte do Cantagalo, entre a Lagoa e Copacabana, no Rio, Vicente Palermo, de 60 anos, é pesquisador independente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e especialista em história latino-americana comparada contemporânea.
Cristina teve 50,3% dos votos na eleição primária realizada no dia 21. É mais que o dobro da soma de seus dois principais adversários, o dissidente peronista Eduardo Duhalde e o deputado Ricardo Alfonsín, da tradicional União Cívica Radical, e é um prenúncio do que acontecerá na eleição presidencial, em outubro. Em 2009, na sequência de uma derrota parlamentar, Cristina lançou o programa Asignación Universal por Hijo (AUH), que paga 2 milhões de benefícios e atinge cerca de 7 milhões de pessoas. Por um ano, representa um gasto de 9,6 bilhões de pesos argentinos, ou algo como US$ 2,4 bilhões. Proporcionalmente, não está longe do programa Bolsa Família, que envolve gastos de R$ 14,4 bilhões para pagar cerca de 12 milhões de benefícios.
Em entrevista ao Valor, Palermo alerta sobre a possibilidade de reforma constitucional na Argentina. O sistema de modificação no país é mais rígido do que o brasileiro. Para mudar a Constituição, é preciso que o Congresso Nacional aprove por dois terços dos votos a convocação de uma Constituinte para deliberar sobre uma mudança específica. Leia os principais trechos da entrevista:
Valor: Cristina Kirchner conseguiu uma votação surpreendente, depois de um período de grande desgaste, obtendo seus maiores índices nas províncias mais pobres, como Santiago del Estero, onde conseguiu 80% dos votos nas eleições primárias. Estamos diante de um fenômeno semelhante ao da reeleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, em que o eleitorado petista migrou das classes médias urbanas para as faixas de menor renda?
Vicente Palermo: O fenômeno brasileiro foi diferente, porque no Brasil o PT realmente substituiu sua base eleitoral por outra, na qual jamais havia entrado. Foi uma mudança mais profunda. Na Argentina, a surpresa que estamos vivendo é a da magnitude do triunfo que Cristina está por conseguir. Tradicionalmente, as províncias mais pobres argentinas tendem a votar com o governo, sobretudo se o governo é peronista. O mais interessante é o desempenho que a presidente obteve nas regiões que concentram o agronegócio.
Valor: Ali, o esperado era uma derrota, depois da confrontação entre o governo e os produtores rurais que marcou o início do mandato de Cristina?
Palermo: Essa derrota aconteceu na eleição parlamentar de dois anos atrás e o que se esperava era que aquela tendência se mantivesse no campo, mas Cristina conseguiu se recuperar nessas regiões. Ela aprendeu lições com aquele resultado e é visível que o governo, desde então, evita complicações com o setor produtivo. Mas a recuperação dela não pode ser entendida isolada de outros fatores, como o bem-estar gerado pelos efeitos materiais do crescimento, a construção de uma imagem de liderança pessoal, por sua campanha e a implantação de políticas sociais. Estou falando da "Asignación Universal por Hijo", da distribuição de notebooks, de subsídios às mulheres que são mães de família, a um conjunto bastante amplo de políticas. Cristina soube manter a iniciativa política administrativa mesmo com minoria no Congresso. A oposição não soube barrar esse processo.
Valor: Essas circunstâncias não reforçam o paralelo entre Lula e Dilma no Brasil e o casal Kirchner na Argentina?
Palermo: Argentina e Brasil estão se beneficiando há alguns anos de um contexto internacional favorável a países com esse tipo de base produtiva e existe e uma convergência em relação a políticas dirigidas à inclusão social. Mas a forma de liderança política não poderia ser mais diferente.
Valor: De que modo essa diferença se traduz?
Palermo: É cedo para analisar Dilma Rousseff. As constantes mudanças no ministério aparentemente sinalizam para algo positivo, que é a preocupação com o combate à corrupção, mas podem também indicar problemas mais profundos no grupo governista. Mas podemos analisar Lula. Ele foi um homem institucional ao comandar o país. Governou negociando com sua base. Impôs sua agenda, mas não tirou a preeminência do Congresso e de seus governadores aliados. Fez o clássico presidencialismo de coalizão. Néstor e Cristina Kirchner fazem uma gestão imperial. Lula deu espaço para os partidos desenvolverem seu jogo, inclusive para o roubo. Estamos longe de dizer que nesse processo ele foi angelical. Na Argentina, Cristina não tem ministros, tem funcionários. Seu governo não conta com aliados, mas com homens e mulheres que servem à presidente.
Valor: Nesse sentido, há condições para que ela repita em 2015, no fim de seu provável segundo mandato, o mesmo que Lula fez em 2010, investindo o capital político para eleger Dilma Rousseff?
Palermo: O capital político de Cristina neste instante é enorme, mas eleger um sucessor é muito difícil. Não foi simples mesmo para Lula, conforme mostrou a eleição brasileira. Dilma não teve uma vitória folgada. Qualquer nome que ela apresente vai despertar resistências desde cedo no conjunto de líderes no peronismo, que, sem terem sido consultados ao longo do governo, aparecem como eventuais pretendentes. Por outro lado, ela não pode descuidar do tema, sob pena de ser atropelada pela própria sucessão. Investir em um sucessor é o que Lula fez, mas não creio que esse caminho, embora aconselhável, seja o mais provável. Há outros caminhos muito tentadores, como o de reformar a Constituição e adotar o parlamentarismo. Seria uma maneira de ela continuar. A oposição não se abriria para conversar sobre isso e o governo teria que ir para um jogo do tudo ou nada. É exatamente o jogo que Cristina gosta de fazer. Isso é tecnicamente possível e essa solução será tentadora.
Valor: Se ela é capaz de fazer isso, não poderia mudar a Constituição só para ter um terceiro mandato?
Palermo: Isso seria demasiado brutal e ela não teria respaldo para mudar a Constituição. A alteração da Carta na Argentina, pelas regras do sistema, exigiria um horizonte mais amplo de mudança. O parlamentarismo abre caminho para a permanência dando esse horizonte mais amplo. A reeleição para mais um mandato levanta resistência em todos os países que adotaram esse instituto. Países como o Brasil e a Argentina já cometeram no passado o erro sério de permitir que um presidente reeleito uma vez esteja habilitado a disputar de novo, passado um mandato.
Valor: O que é exatamente o caso de Lula no Brasil.
Palermo: Também é o caso de Fernando Henrique Cardoso. A possibilidade de um presidente reeleito voltar no futuro é um erro sério que se cometeu, porque introduz um elemento de perpetuação que quebra a própria lógica da reeleição. Lideranças exitosas ficam tentadas a fazer algo destrutivo no plano político para viabilizarem sua volta.
Valor: Como o quê, por exemplo?
Palermo: Como eleger um sucessor e depois reduzi-lo, transformá-lo apenas em uma plataforma para voltar ao poder. É um processo que deixa custos. Aqui na Argentina, os dois casos de presidentes que voltaram ao poder foram experiências infelizes. A volta de Hipolito Yrigoyen, em 1928, resultou no primeiro golpe militar no país, dois anos depois. A de Juan Domingo Perón, em 1973, foi simplesmente catastrófica.
O triunfo de Cristina
Por César Felício | De Buenos Aires
Índices crescentes de consumo popular, políticas de transferência de renda em ascensão, um histórico de atritos com grandes conglomerados de mídia e um enfrentamento com uma oposição que tem dificuldades de se renovar e propor alternativas. O cenário montado na Argentina às vésperas da eleição presidencial que deve dar um novo mandato à presidente Cristina Fernandez de Kirchner se assemelha ao que marcou o Brasil nas sucessões presidenciais de 2006 e 2010, mas o cientista político Vicente Palermo propõe jogar luz sobre as diferenças entre a hegemonia do kirchnerismo e o fenômeno do lulismo no Brasil. E a principal delas é o risco concreto de uma mudança constitucional que permita ao grupo atual continuar exercendo o poder.
Frequentador da Cantina do Lucas, tradicional reduto boêmio do centro de Belo Horizonte, e proprietário de um apartamento no Corte do Cantagalo, entre a Lagoa e Copacabana, no Rio, Vicente Palermo, de 60 anos, é pesquisador independente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e especialista em história latino-americana comparada contemporânea.
Cristina teve 50,3% dos votos na eleição primária realizada no dia 21. É mais que o dobro da soma de seus dois principais adversários, o dissidente peronista Eduardo Duhalde e o deputado Ricardo Alfonsín, da tradicional União Cívica Radical, e é um prenúncio do que acontecerá na eleição presidencial, em outubro. Em 2009, na sequência de uma derrota parlamentar, Cristina lançou o programa Asignación Universal por Hijo (AUH), que paga 2 milhões de benefícios e atinge cerca de 7 milhões de pessoas. Por um ano, representa um gasto de 9,6 bilhões de pesos argentinos, ou algo como US$ 2,4 bilhões. Proporcionalmente, não está longe do programa Bolsa Família, que envolve gastos de R$ 14,4 bilhões para pagar cerca de 12 milhões de benefícios.
Em entrevista ao Valor, Palermo alerta sobre a possibilidade de reforma constitucional na Argentina. O sistema de modificação no país é mais rígido do que o brasileiro. Para mudar a Constituição, é preciso que o Congresso Nacional aprove por dois terços dos votos a convocação de uma Constituinte para deliberar sobre uma mudança específica. Leia os principais trechos da entrevista:
Valor: Cristina Kirchner conseguiu uma votação surpreendente, depois de um período de grande desgaste, obtendo seus maiores índices nas províncias mais pobres, como Santiago del Estero, onde conseguiu 80% dos votos nas eleições primárias. Estamos diante de um fenômeno semelhante ao da reeleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, em que o eleitorado petista migrou das classes médias urbanas para as faixas de menor renda?
Vicente Palermo: O fenômeno brasileiro foi diferente, porque no Brasil o PT realmente substituiu sua base eleitoral por outra, na qual jamais havia entrado. Foi uma mudança mais profunda. Na Argentina, a surpresa que estamos vivendo é a da magnitude do triunfo que Cristina está por conseguir. Tradicionalmente, as províncias mais pobres argentinas tendem a votar com o governo, sobretudo se o governo é peronista. O mais interessante é o desempenho que a presidente obteve nas regiões que concentram o agronegócio.
Valor: Ali, o esperado era uma derrota, depois da confrontação entre o governo e os produtores rurais que marcou o início do mandato de Cristina?
Palermo: Essa derrota aconteceu na eleição parlamentar de dois anos atrás e o que se esperava era que aquela tendência se mantivesse no campo, mas Cristina conseguiu se recuperar nessas regiões. Ela aprendeu lições com aquele resultado e é visível que o governo, desde então, evita complicações com o setor produtivo. Mas a recuperação dela não pode ser entendida isolada de outros fatores, como o bem-estar gerado pelos efeitos materiais do crescimento, a construção de uma imagem de liderança pessoal, por sua campanha e a implantação de políticas sociais. Estou falando da "Asignación Universal por Hijo", da distribuição de notebooks, de subsídios às mulheres que são mães de família, a um conjunto bastante amplo de políticas. Cristina soube manter a iniciativa política administrativa mesmo com minoria no Congresso. A oposição não soube barrar esse processo.
Valor: Essas circunstâncias não reforçam o paralelo entre Lula e Dilma no Brasil e o casal Kirchner na Argentina?
Palermo: Argentina e Brasil estão se beneficiando há alguns anos de um contexto internacional favorável a países com esse tipo de base produtiva e existe e uma convergência em relação a políticas dirigidas à inclusão social. Mas a forma de liderança política não poderia ser mais diferente.
Valor: De que modo essa diferença se traduz?
Palermo: É cedo para analisar Dilma Rousseff. As constantes mudanças no ministério aparentemente sinalizam para algo positivo, que é a preocupação com o combate à corrupção, mas podem também indicar problemas mais profundos no grupo governista. Mas podemos analisar Lula. Ele foi um homem institucional ao comandar o país. Governou negociando com sua base. Impôs sua agenda, mas não tirou a preeminência do Congresso e de seus governadores aliados. Fez o clássico presidencialismo de coalizão. Néstor e Cristina Kirchner fazem uma gestão imperial. Lula deu espaço para os partidos desenvolverem seu jogo, inclusive para o roubo. Estamos longe de dizer que nesse processo ele foi angelical. Na Argentina, Cristina não tem ministros, tem funcionários. Seu governo não conta com aliados, mas com homens e mulheres que servem à presidente.
Valor: Nesse sentido, há condições para que ela repita em 2015, no fim de seu provável segundo mandato, o mesmo que Lula fez em 2010, investindo o capital político para eleger Dilma Rousseff?
Palermo: O capital político de Cristina neste instante é enorme, mas eleger um sucessor é muito difícil. Não foi simples mesmo para Lula, conforme mostrou a eleição brasileira. Dilma não teve uma vitória folgada. Qualquer nome que ela apresente vai despertar resistências desde cedo no conjunto de líderes no peronismo, que, sem terem sido consultados ao longo do governo, aparecem como eventuais pretendentes. Por outro lado, ela não pode descuidar do tema, sob pena de ser atropelada pela própria sucessão. Investir em um sucessor é o que Lula fez, mas não creio que esse caminho, embora aconselhável, seja o mais provável. Há outros caminhos muito tentadores, como o de reformar a Constituição e adotar o parlamentarismo. Seria uma maneira de ela continuar. A oposição não se abriria para conversar sobre isso e o governo teria que ir para um jogo do tudo ou nada. É exatamente o jogo que Cristina gosta de fazer. Isso é tecnicamente possível e essa solução será tentadora.
Valor: Se ela é capaz de fazer isso, não poderia mudar a Constituição só para ter um terceiro mandato?
Palermo: Isso seria demasiado brutal e ela não teria respaldo para mudar a Constituição. A alteração da Carta na Argentina, pelas regras do sistema, exigiria um horizonte mais amplo de mudança. O parlamentarismo abre caminho para a permanência dando esse horizonte mais amplo. A reeleição para mais um mandato levanta resistência em todos os países que adotaram esse instituto. Países como o Brasil e a Argentina já cometeram no passado o erro sério de permitir que um presidente reeleito uma vez esteja habilitado a disputar de novo, passado um mandato.
Valor: O que é exatamente o caso de Lula no Brasil.
Palermo: Também é o caso de Fernando Henrique Cardoso. A possibilidade de um presidente reeleito voltar no futuro é um erro sério que se cometeu, porque introduz um elemento de perpetuação que quebra a própria lógica da reeleição. Lideranças exitosas ficam tentadas a fazer algo destrutivo no plano político para viabilizarem sua volta.
Valor: Como o quê, por exemplo?
Palermo: Como eleger um sucessor e depois reduzi-lo, transformá-lo apenas em uma plataforma para voltar ao poder. É um processo que deixa custos. Aqui na Argentina, os dois casos de presidentes que voltaram ao poder foram experiências infelizes. A volta de Hipolito Yrigoyen, em 1928, resultou no primeiro golpe militar no país, dois anos depois. A de Juan Domingo Perón, em 1973, foi simplesmente catastrófica.
O Chile ferve
Coluna publicada no Valor dia 8/9/2011
A classe média revoltada
Por César Felício
O cenário parece muito distante do Brasil. Uma classe média em ascensão nem sempre pode ser vista como âncora de estabilidade política, uma leitura usual na análise dos resultados eleitorais que levaram à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e à eleição de Dilma Rousseff para a Presidência no ano passado. Este ano, só há um país da América do Sul contaminado pela onda de insatisfação que ecoa em paisagens tão díspares como Egito e Reino Unido, Espanha e Bahrein.
É no Chile que grassa o espectro da revolta. A pátria por excelência da classe média latino-americana, o país onde a pobreza regrediu de 40% a 13% da população em 20 anos de democracia em que a alternância jamais significou ruptura de políticas, está exausta de seus governantes.
O primeiro sinal foi em 2009, quando o direitista Sebastián Piñera encerrou a experiência de quatro mandatos presidenciais seguidos da Concertación, a aliança de democratas cristãos e socialistas que desenvolveu políticas de proteção social sem alterar em sua essência os postulados liberais do ponto de vista econômico que marcaram o regime de Pinochet.
Educação como porta para a ascensão tem limite
Piñera já assumiu com um capital político reduzido. O crédito inicial que recebeu pouco foi além de seus próprios eleitores. No fim do ano passado, logo após seu maior triunfo - o perfeito resgate de 33 mineiros aprisionados por um desabamento -, conseguiu em pesquisas de opinião 55% de aprovação popular, apenas quatro pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas um ano antes. No último levantamento, publicado na segunda-feira pela mídia chilena, sua aprovação ficou em 27%.
Por enquanto Piñera lida com uma insatisfação capitaneada pelos estudantes universitários e secundaristas, que já produziu a morte de um menino de 16 anos por balas dos "carabineros", a polícia militar. Mas a possibilidade de contágio para outros setores é grande. "Sem respostas efetivas rápidas do governo, esta onda vai crescer no próximo verão. E pode se espalhar para trabalhadores, mulheres e todos os setores organizados. Há uma ameaça de levantamento social e o governo já percebeu isso", comenta a cientista política Marta Lagos, chilena, diretora da ONG Latinobarometro, especializada em pesquisas de opinião comparadas no continente.
Está em dados compilados pelo próprio governo a chave para se entender o problema. O investimento das próprias famílias na educação de seus filhos é substancial em um país onde há muitos anos o gasto público em educação é reduzido. Mutilar o papel do Estado no setor foi o último ato de Pinochet como presidente, sancionado pelo ditador por decreto um dia antes de deixar o cargo, em março de 1990. Na universidade, segundo Marta Lagos, uma família aplica cerca de US$ 40 mil para obter um diploma.
Com 52% dos chilenos enquadrados nos segmentos médios de renda, uma avalanche de jovens procurou o ensino como a grande ferramenta de mobilidade social em um país onde o sentimento de injustiça na distribuição de renda é o mais forte do continente. Segundo a pesquisa do Latinobarômetro do ano passado, apenas 12% dos chilenos consideram a distribuição da riqueza adequada. No Brasil, essa percepção é compartilhada por 21%. Na Venezuela, por 38%.
Quando Pinochet começou seu poder autocrático, nos anos 70, apenas 9% dos chilenos estavam na Universidade. Em 2003, eram 37%. Hoje, a porcentagem ronda 40%, segundo dados do Ministério da Educação do Chile. Nesta década, tal evolução convive com o endividamento crescente da população emergente. Uma pesquisa feita um ano atrás pelo Banco Central chileno mostrou que a relação do total da dívida familiar frente à renda anual dos lares do país passou de 35,4% para 59,9% entre 2000 e 2009. A sensação de vulnerabilidade aumenta ao se levar em conta que 68% da renda familiar chilena provém de salários.
A magia da educação como a grande porta para a mobilidade social aparece com nitidez na pesquisa feita pelo Instituto Nacional da Juventude, outro órgão governamental, em 2009. A principal razão apontada por jovens entre 15 e 29 anos para estarem estudando foi "melhorar a situação econômica", com 35,8% das citações. "Trabalhar no que mais gosta" foi citado por 31,7%. Mas a mesma pesquisa mostrou que, na faixa de população entre 24 e 29 anos, portanto recém-saída da faculdade, nada menos que 51,2% - maioria absoluta - afirma que trabalha em uma função "pouco ou nada relacionada" com o que estudou.
"É claro que a educação é uma ferramenta para a mobilidade social, o problema é quando ela se torna o único instrumental para isso. Vemos aqui legiões de pessoas cada vez mais vulneráveis, fazendo dívidas para três ou quatro gerações em universidades privadas que não preparam para o mercado de trabalho. Oferecem cursos como 'criminologia e prevenção de riscos', que não se sabe bem o que é", comenta Marta Lagos.
No sábado, Piñera reuniu-se pela primeira vez com os líderes estudantis, no Palácio de la Moneda, enquanto gerenciava o resgate dos mortos em um acidente aéreo que matou uma equipe de televisão e canalizou a atenção da opinião pública do país. Há razões para ceticismo sobre mudanças concretas. Há cinco anos, um movimento de estudantes secundaristas parou as cem maiores escolas do país e fez com que a presidente socialista Michelle Bachelet se comprometesse com reformas em cadeia nacional de rádio e televisão. Os estudantes pediam o fim da lei pinochetista e a presidente reformou a legislação, depois de dois anos de debate no Congresso. Foi uma resposta avaliada por Marta Lagos como limitada e lenta. No caso de Piñera, trata-se de um conservador obrigado pelas circunstâncias a promover uma renovação. Corre o risco de abrir um gigantesco fosso entre suas palavras e a ação.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
A classe média revoltada
Por César Felício
O cenário parece muito distante do Brasil. Uma classe média em ascensão nem sempre pode ser vista como âncora de estabilidade política, uma leitura usual na análise dos resultados eleitorais que levaram à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e à eleição de Dilma Rousseff para a Presidência no ano passado. Este ano, só há um país da América do Sul contaminado pela onda de insatisfação que ecoa em paisagens tão díspares como Egito e Reino Unido, Espanha e Bahrein.
É no Chile que grassa o espectro da revolta. A pátria por excelência da classe média latino-americana, o país onde a pobreza regrediu de 40% a 13% da população em 20 anos de democracia em que a alternância jamais significou ruptura de políticas, está exausta de seus governantes.
O primeiro sinal foi em 2009, quando o direitista Sebastián Piñera encerrou a experiência de quatro mandatos presidenciais seguidos da Concertación, a aliança de democratas cristãos e socialistas que desenvolveu políticas de proteção social sem alterar em sua essência os postulados liberais do ponto de vista econômico que marcaram o regime de Pinochet.
Educação como porta para a ascensão tem limite
Piñera já assumiu com um capital político reduzido. O crédito inicial que recebeu pouco foi além de seus próprios eleitores. No fim do ano passado, logo após seu maior triunfo - o perfeito resgate de 33 mineiros aprisionados por um desabamento -, conseguiu em pesquisas de opinião 55% de aprovação popular, apenas quatro pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas um ano antes. No último levantamento, publicado na segunda-feira pela mídia chilena, sua aprovação ficou em 27%.
Por enquanto Piñera lida com uma insatisfação capitaneada pelos estudantes universitários e secundaristas, que já produziu a morte de um menino de 16 anos por balas dos "carabineros", a polícia militar. Mas a possibilidade de contágio para outros setores é grande. "Sem respostas efetivas rápidas do governo, esta onda vai crescer no próximo verão. E pode se espalhar para trabalhadores, mulheres e todos os setores organizados. Há uma ameaça de levantamento social e o governo já percebeu isso", comenta a cientista política Marta Lagos, chilena, diretora da ONG Latinobarometro, especializada em pesquisas de opinião comparadas no continente.
Está em dados compilados pelo próprio governo a chave para se entender o problema. O investimento das próprias famílias na educação de seus filhos é substancial em um país onde há muitos anos o gasto público em educação é reduzido. Mutilar o papel do Estado no setor foi o último ato de Pinochet como presidente, sancionado pelo ditador por decreto um dia antes de deixar o cargo, em março de 1990. Na universidade, segundo Marta Lagos, uma família aplica cerca de US$ 40 mil para obter um diploma.
Com 52% dos chilenos enquadrados nos segmentos médios de renda, uma avalanche de jovens procurou o ensino como a grande ferramenta de mobilidade social em um país onde o sentimento de injustiça na distribuição de renda é o mais forte do continente. Segundo a pesquisa do Latinobarômetro do ano passado, apenas 12% dos chilenos consideram a distribuição da riqueza adequada. No Brasil, essa percepção é compartilhada por 21%. Na Venezuela, por 38%.
Quando Pinochet começou seu poder autocrático, nos anos 70, apenas 9% dos chilenos estavam na Universidade. Em 2003, eram 37%. Hoje, a porcentagem ronda 40%, segundo dados do Ministério da Educação do Chile. Nesta década, tal evolução convive com o endividamento crescente da população emergente. Uma pesquisa feita um ano atrás pelo Banco Central chileno mostrou que a relação do total da dívida familiar frente à renda anual dos lares do país passou de 35,4% para 59,9% entre 2000 e 2009. A sensação de vulnerabilidade aumenta ao se levar em conta que 68% da renda familiar chilena provém de salários.
A magia da educação como a grande porta para a mobilidade social aparece com nitidez na pesquisa feita pelo Instituto Nacional da Juventude, outro órgão governamental, em 2009. A principal razão apontada por jovens entre 15 e 29 anos para estarem estudando foi "melhorar a situação econômica", com 35,8% das citações. "Trabalhar no que mais gosta" foi citado por 31,7%. Mas a mesma pesquisa mostrou que, na faixa de população entre 24 e 29 anos, portanto recém-saída da faculdade, nada menos que 51,2% - maioria absoluta - afirma que trabalha em uma função "pouco ou nada relacionada" com o que estudou.
"É claro que a educação é uma ferramenta para a mobilidade social, o problema é quando ela se torna o único instrumental para isso. Vemos aqui legiões de pessoas cada vez mais vulneráveis, fazendo dívidas para três ou quatro gerações em universidades privadas que não preparam para o mercado de trabalho. Oferecem cursos como 'criminologia e prevenção de riscos', que não se sabe bem o que é", comenta Marta Lagos.
No sábado, Piñera reuniu-se pela primeira vez com os líderes estudantis, no Palácio de la Moneda, enquanto gerenciava o resgate dos mortos em um acidente aéreo que matou uma equipe de televisão e canalizou a atenção da opinião pública do país. Há razões para ceticismo sobre mudanças concretas. Há cinco anos, um movimento de estudantes secundaristas parou as cem maiores escolas do país e fez com que a presidente socialista Michelle Bachelet se comprometesse com reformas em cadeia nacional de rádio e televisão. Os estudantes pediam o fim da lei pinochetista e a presidente reformou a legislação, depois de dois anos de debate no Congresso. Foi uma resposta avaliada por Marta Lagos como limitada e lenta. No caso de Piñera, trata-se de um conservador obrigado pelas circunstâncias a promover uma renovação. Corre o risco de abrir um gigantesco fosso entre suas palavras e a ação.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Esta foi a primeira coluna que escrevi ao chegar a Buenos Aires e mostra como era imprevisível a acachapante votação obtida por Cristina Kirchner nas insólitas ( como se costuma dizer aqui) eleições primárias que aconteceram no dia 14 de agosto, em que ela teve mais de 50% dos votos e a oposição ficou afundada entre o medíocre e o ridículo, patinando em 12% cada um de seus principais candidatos.
A maior pesquisa eleitoral do mundo
César Felício
Valor Econômico - 11/08/2011
Obter as consequências esperadas em um cenário de variáveis tão múltiplas como a política é uma habilidade destinada a poucos no mundo e exemplos brasileiros de tiros pela culatra não faltam. Os acontecimentos dos próximos dias na Argentina deverão mostrar os resultados surpreendentes que podem acontecer caso avance no Brasil uma ideia que esteve em pauta no ano passado: o da realização de eleições primárias para a escolha de um candidato majoritário.
A inspiração geral é a dos Estados Unidos em que, apesar de todas as imensas condicionantes, o eleitorado é chamado a participar das escolhas dos partidos Republicano e Democrata. No Brasil, o PT e o PMDB já realizaram prévias internas para definir candidaturas majoritárias, mas coube ao hoje senador Aécio Neves (MG), com dificuldades de contornar a preferência da cúpula partidária pela candidatura presidencial do então governador paulista José Serra, propor eleições primárias no modelo clássico: abertas a todos os eleitores e com o compromisso do partido ratificar em convenção o resultado da consulta popular.
A proposta não foi para parte alguma, mas é de se prever a volta da discussão em qualquer partido que esteja desunido em relação à eleição presidencial, como desde sempre é o caso tucano. Na Argentina, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado, conseguiu tirar a novidade da prancheta. Se vivo estivesse, provavelmente estaria arrependido.
Legado de Kirchner, primárias não definem candidatos
As eleições primárias na Argentina foram introduzidas na legislação eleitoral depois da derrota governista na renovação do Congresso em 2009. Havia então muita incerteza sobre a viabilidade de uma reeleição da presidente Cristina Kirchner e vale lembrar que o peronismo estava esfacelado desde a eleição do marido, quatro anos antes.
Em 2003, foi permitido a filiados ao mesmo partido participarem de coligações diferentes e enfrentarem-se nas urnas. O peronista Nestor Kirchner elegeu-se depois da desistência do correligionário Carlos Menem em disputar um segundo turno. Ainda enfrentou outro peronista, Adolfo Rodriguez Saa.
Quatro anos depois, Cristina sucedeu ao marido batendo nas urnas apenas um colega dissidente, o mesmo Rodríguez Saa. Mas em 2009 o cenário de fragmentação da base governista era muito provável. Surgiram então as eleições primárias como um instrumento para que as diversas alas do peronismo se enfrentassem internamente e fossem constrangidas a terem um único candidato em 2011.
O que não se previa é que os dissidentes peronistas, o ex-presidente Eduardo Duhalde e o governador de San Juan Alberto Rodríguez Saa, montassem suas próprias coalizões para disputarem as eleições contra Cristina e ignorassem a escolha interna. A legislação eleitoral argentina não eliminou as estranhas disposições legais que permitem a filiados ao mesmo partido disputarem em coalizões diferentes. Também não se contava com a capacidade da presidente de se revitalizar na preferência popular com uma política de fomento ao crescimento econômico, mesmo com a escalada inflacionária. Além de, obviamente, todo o cenário político da Argentina ter mudado com a morte súbita de Nestor Kirchner exatamente um ano antes da eleição.
As eleições primárias vão acontecer na Argentina este domingo e seu efeito, do ponto de vista da consolidação do quadro de candidaturas, não irá beneficiar a presidente, já que os rivais internos do peronismo serão candidatos em qualquer circunstância. A votação deste domingo, que é uma primária aberta, ou seja, aquela em que os eleitores irão escolher um candidato independente de seu partido, interessa mais à oposição que ao kirchnerismo. Ela poderá servir para mapear qual o candidato mais habilitado para tentar polarizar a eleição presidencial de outubro com Cristina. As pouco confiáveis pesquisas argentinas mostram três candidatos na faixa entre 10% e 20%: o peronista Eduardo Duhalde, o radical Ricardo Alfonsín e a esquerdista Elisa Carrió. Cristina está entre 40% e 50%. O segundo turno na Argentina tende a ocorrer se Cristina ficar abaixo da banda mínima desta faixa. Ou seja: estas eleições primárias serão a mais cara e a mais completa pesquisa de intenção de voto do mundo, com margem de erro próxima a zero, já que o voto será obrigatório. A consulta só será decisiva para os candidatos nanicos, que só poderão se apresentar na disputa nacional caso consigam pelo menos 400 mil votos, ou 1,5% do total de votos.
Fica a questão sobre qual a influência que uma eleição prévia poderia ter tido no Brasil se ocorresse antes das convenções partidárias. Ao contrário do que ocorre na Argentina, no Brasil a oposição liderou as pesquisas até o início da campanha eleitoral. Aécio teria aceito participar de um embate com Serra e os demais candidatos e desestabilizado o preferido da cúpula? O potencial eleitoral de Marina Silva teria se evidenciado e permitiria à então senadora sair do isolamento político? Provavelmente os efeitos seriam muito mais conservadores do que estes. As eleições primárias nas províncias (na Argentina as disputas nacionais e locais não coincidem) não captaram ascensões fulminantes como a do direitista Miguel del Sel em Santa Fé e foram raríssimos os partidos que não fizeram um acerto interno antes da chamada às urnas antecipada. De concreto, fica a evidência de que não se resolvem problemas políticos com criatividade legislativa.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
A maior pesquisa eleitoral do mundo
César Felício
Valor Econômico - 11/08/2011
Obter as consequências esperadas em um cenário de variáveis tão múltiplas como a política é uma habilidade destinada a poucos no mundo e exemplos brasileiros de tiros pela culatra não faltam. Os acontecimentos dos próximos dias na Argentina deverão mostrar os resultados surpreendentes que podem acontecer caso avance no Brasil uma ideia que esteve em pauta no ano passado: o da realização de eleições primárias para a escolha de um candidato majoritário.
A inspiração geral é a dos Estados Unidos em que, apesar de todas as imensas condicionantes, o eleitorado é chamado a participar das escolhas dos partidos Republicano e Democrata. No Brasil, o PT e o PMDB já realizaram prévias internas para definir candidaturas majoritárias, mas coube ao hoje senador Aécio Neves (MG), com dificuldades de contornar a preferência da cúpula partidária pela candidatura presidencial do então governador paulista José Serra, propor eleições primárias no modelo clássico: abertas a todos os eleitores e com o compromisso do partido ratificar em convenção o resultado da consulta popular.
A proposta não foi para parte alguma, mas é de se prever a volta da discussão em qualquer partido que esteja desunido em relação à eleição presidencial, como desde sempre é o caso tucano. Na Argentina, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado, conseguiu tirar a novidade da prancheta. Se vivo estivesse, provavelmente estaria arrependido.
Legado de Kirchner, primárias não definem candidatos
As eleições primárias na Argentina foram introduzidas na legislação eleitoral depois da derrota governista na renovação do Congresso em 2009. Havia então muita incerteza sobre a viabilidade de uma reeleição da presidente Cristina Kirchner e vale lembrar que o peronismo estava esfacelado desde a eleição do marido, quatro anos antes.
Em 2003, foi permitido a filiados ao mesmo partido participarem de coligações diferentes e enfrentarem-se nas urnas. O peronista Nestor Kirchner elegeu-se depois da desistência do correligionário Carlos Menem em disputar um segundo turno. Ainda enfrentou outro peronista, Adolfo Rodriguez Saa.
Quatro anos depois, Cristina sucedeu ao marido batendo nas urnas apenas um colega dissidente, o mesmo Rodríguez Saa. Mas em 2009 o cenário de fragmentação da base governista era muito provável. Surgiram então as eleições primárias como um instrumento para que as diversas alas do peronismo se enfrentassem internamente e fossem constrangidas a terem um único candidato em 2011.
O que não se previa é que os dissidentes peronistas, o ex-presidente Eduardo Duhalde e o governador de San Juan Alberto Rodríguez Saa, montassem suas próprias coalizões para disputarem as eleições contra Cristina e ignorassem a escolha interna. A legislação eleitoral argentina não eliminou as estranhas disposições legais que permitem a filiados ao mesmo partido disputarem em coalizões diferentes. Também não se contava com a capacidade da presidente de se revitalizar na preferência popular com uma política de fomento ao crescimento econômico, mesmo com a escalada inflacionária. Além de, obviamente, todo o cenário político da Argentina ter mudado com a morte súbita de Nestor Kirchner exatamente um ano antes da eleição.
As eleições primárias vão acontecer na Argentina este domingo e seu efeito, do ponto de vista da consolidação do quadro de candidaturas, não irá beneficiar a presidente, já que os rivais internos do peronismo serão candidatos em qualquer circunstância. A votação deste domingo, que é uma primária aberta, ou seja, aquela em que os eleitores irão escolher um candidato independente de seu partido, interessa mais à oposição que ao kirchnerismo. Ela poderá servir para mapear qual o candidato mais habilitado para tentar polarizar a eleição presidencial de outubro com Cristina. As pouco confiáveis pesquisas argentinas mostram três candidatos na faixa entre 10% e 20%: o peronista Eduardo Duhalde, o radical Ricardo Alfonsín e a esquerdista Elisa Carrió. Cristina está entre 40% e 50%. O segundo turno na Argentina tende a ocorrer se Cristina ficar abaixo da banda mínima desta faixa. Ou seja: estas eleições primárias serão a mais cara e a mais completa pesquisa de intenção de voto do mundo, com margem de erro próxima a zero, já que o voto será obrigatório. A consulta só será decisiva para os candidatos nanicos, que só poderão se apresentar na disputa nacional caso consigam pelo menos 400 mil votos, ou 1,5% do total de votos.
Fica a questão sobre qual a influência que uma eleição prévia poderia ter tido no Brasil se ocorresse antes das convenções partidárias. Ao contrário do que ocorre na Argentina, no Brasil a oposição liderou as pesquisas até o início da campanha eleitoral. Aécio teria aceito participar de um embate com Serra e os demais candidatos e desestabilizado o preferido da cúpula? O potencial eleitoral de Marina Silva teria se evidenciado e permitiria à então senadora sair do isolamento político? Provavelmente os efeitos seriam muito mais conservadores do que estes. As eleições primárias nas províncias (na Argentina as disputas nacionais e locais não coincidem) não captaram ascensões fulminantes como a do direitista Miguel del Sel em Santa Fé e foram raríssimos os partidos que não fizeram um acerto interno antes da chamada às urnas antecipada. De concreto, fica a evidência de que não se resolvem problemas políticos com criatividade legislativa.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Belo Horizonte (2009-2011)
Aos meus pouquíssimos leitores, trago aqui mais uma notícia velha: estou de partida de Belo Horizonte, depois de uma permanência mais curta do que eu pensava: dois anos e meio. Vou-me embora no próximo mês para Buenos Aires, uma transferência que vinha sendo negociada há muito tempo, antes mesmo de eu chegar a Minas.
Ter ido a Minas mudou a minha vida para sempre.
Ter ido a Minas mudou a minha vida para sempre.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
O inverno tucano
O curto prazo mostrou que eu estava subestimando um pouco a capacidade tucana de fomentar crises internas. Não contava com o pouco empenho do Serra em segurar a sua tropa. A prova dos nove pode ficar clara no final deste mês, com a convenção nacional do PSDB
Sinais de vida na discussão tucana
Valor Econômico, 18/04/2011
A leitura atenta do artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para a revista "Interesse Nacional" deixa evidente que o presidente de honra tucano não propôs que o PSDB deixasse de buscar o voto da maioria da população. O ranço preconceituoso de sua referência ao "povão" o fará pagar o preço de reforçar o viés elitista de um partido que há muito tempo se desconectou do sentimento popular, mas ele não é "um idiota", conforme o próprio disse em entrevista a Cristiane Agostine, no Valor. Elaborar uma estratégia para se aproximar de determinados grupos da sociedade é diferente de fechar-se aos restantes.
O movimento de Fernando Henrique ao sugerir ao partido que exerça a oposição fora dos limites estritos dos espaços institucionais, como o Parlamento, buscando conexão com associações de bairro, profissionais do entretenimento, empresários jovens, grupos culturais de periferia e até redes de consumidores, conforme escreveu no artigo, aproxima-se do que o seu sucessor na presidência, Luiz Inácio Lula da Silva propunha em um encontro do PT sobre o socialismo em março de 2001, em São Paulo, um ano e meio antes de chegar ao poder.
O encontro se deu em um instante em que ainda não estavam dadas condicionantes que abriram o caminho para a vitória oposicionista na eleição do ano seguinte, como a fragmentação do bloco governista e a crise do apagão da energia. Havia petistas falando que o governo FHC viria com um candidato forte e que era importante o PT concorrer com os olhos na eleição de 2006.
No discurso, tal como Fernando Henrique em seu artigo, Lula falou para os próprios correligionários, não para o público externo. Depois de críticas ao capitalismo - " o capitalismo não será solução para os nossos problemas (...)por si só, é predatório (...) predestina que grande parte da população seja pobre" - o futuro presidente afirmou: "Marx imaginava uma sociedade de classes que não aconteceu. Hoje temos um novo tipo de trabalhador, terceirizado ou por conta própria. O discurso que eu fazia nos anos 80 já não vale mais. O trabalhador que eu fui é uma minoria hoje. É preciso um novo discurso para esta gente que não é mais explorada diretamente pelo patrão".
Lula obviamente não se referia à nova classe média que Fernando Henrique elegeu agora como prioridade. O sucessor do tucano mirava no segmento que se expandiu na sociedade nos anos 90, o novo proletariado, ancorado na economia informal, ou pelo menos muito distante de bater cartão: "é necessário uma política especial para os trabalhadores que estão na rua e hoje não se sentem mais representados pelas entidades tradicionais. É preciso todo um aprendizado nosso. Lamentavelmente, nós não representamos a contento os que ganham salário mínimo neste país".
O discurso de Lula em 2001 e a manifestação de Fernando Henrique agora convergem para um mesmo fenômeno: o hoje ex-presidente tucano e o petista que há dez anos ainda aspirava chegar ao poder percebiam que seus partidos haviam sofrido uma quebra de representatividade, que não poderia ser sanada da tribuna do Congresso ou com entrevistas a jornalistas, mas buscando um novo segmento da sociedade para interagir.
Em vários aspectos, o panorama desolador da institucionalidade descrito por Fernando Henrique hoje, que vai do esvaziamento do poder político dos governadores, com a concentração dos instrumentos administrativos nas mãos da União, à transformação do Congresso em uma câmara de vereadores federais e o completo esvaziamento ideológico dos partidos, já estava presente há dez anos. A grande diferença é que a ascensão de Lula ao poder também desossou os movimentos sociais, hoje em grande parte divididos entre o atrelamento total ao Planalto e a insignificância.
Neste panorama, talvez o mais lesivo aspecto para a prática política é um fenômeno que não se restringe ao Brasil: a morte cerebral dos partidos. Quando o sistema partidário deixa de buscar alianças na sociedade para se tornar apenas uma máquina de votos com a qual um agrupamento de caciques divide o botim administrativo, pode-se viver o mesmo quadro que ocorre atualmente no Peru. Naquele país, os eleitores terão em breve a oportunidade de escolher entre os dois candidatos mais detestados pela população: Ollanta Humala e Keiko Fujimori. São representantes de extremismos com alto teor de rejeição, que se beneficiaram da fragmentação do centro político entre três candidatos que se destruíram em um processo autofágico.
O sistema partidário peruano há pelo menos vinte anos entrou em colapso: cada líder político organiza seu ajuntamento para participar das eleições, sem estabelecer alianças. E desta maneira vai minando a própria estabilidade: seja Keiko ou Humala, é certo que o próximo presidente do Peru terá frágil sustentação popular, independente do que venha a fazer. O Peru é o exemplo mais recente, mas de modo algum o único, de fragilização partidária no continente. Exceção ao Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai, é o que se observa na Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador.
A profusão de partidos, paradoxalmente, é um forte indicativo de ausência de opções reais. A criação do PSD de Gilberto Kassab é um forte indicativo da aproximação do Brasil do modelo apartidário de política que viceja em parte da América do Sul. O artigo de FHC, que se segue ao pronunciamento em que o senador Aécio Neves procurou emular o avô e se colocar como liderança, são movimentos no sentido contrário. Dão demonstração de vitalidade partidária ao fomentarem o debate, de um modo só possível em partidos de oposição: não há notícias de um artigo sobre o "papel do governo" dentro do PT, como não houve este artigo dentro do PSDB entre 1995 e 2002. Há muito mais vida entre os tucanos do que no partido que se forma.
Sinais de vida na discussão tucana
Valor Econômico, 18/04/2011
A leitura atenta do artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para a revista "Interesse Nacional" deixa evidente que o presidente de honra tucano não propôs que o PSDB deixasse de buscar o voto da maioria da população. O ranço preconceituoso de sua referência ao "povão" o fará pagar o preço de reforçar o viés elitista de um partido que há muito tempo se desconectou do sentimento popular, mas ele não é "um idiota", conforme o próprio disse em entrevista a Cristiane Agostine, no Valor. Elaborar uma estratégia para se aproximar de determinados grupos da sociedade é diferente de fechar-se aos restantes.
O movimento de Fernando Henrique ao sugerir ao partido que exerça a oposição fora dos limites estritos dos espaços institucionais, como o Parlamento, buscando conexão com associações de bairro, profissionais do entretenimento, empresários jovens, grupos culturais de periferia e até redes de consumidores, conforme escreveu no artigo, aproxima-se do que o seu sucessor na presidência, Luiz Inácio Lula da Silva propunha em um encontro do PT sobre o socialismo em março de 2001, em São Paulo, um ano e meio antes de chegar ao poder.
O encontro se deu em um instante em que ainda não estavam dadas condicionantes que abriram o caminho para a vitória oposicionista na eleição do ano seguinte, como a fragmentação do bloco governista e a crise do apagão da energia. Havia petistas falando que o governo FHC viria com um candidato forte e que era importante o PT concorrer com os olhos na eleição de 2006.
No discurso, tal como Fernando Henrique em seu artigo, Lula falou para os próprios correligionários, não para o público externo. Depois de críticas ao capitalismo - " o capitalismo não será solução para os nossos problemas (...)por si só, é predatório (...) predestina que grande parte da população seja pobre" - o futuro presidente afirmou: "Marx imaginava uma sociedade de classes que não aconteceu. Hoje temos um novo tipo de trabalhador, terceirizado ou por conta própria. O discurso que eu fazia nos anos 80 já não vale mais. O trabalhador que eu fui é uma minoria hoje. É preciso um novo discurso para esta gente que não é mais explorada diretamente pelo patrão".
Lula obviamente não se referia à nova classe média que Fernando Henrique elegeu agora como prioridade. O sucessor do tucano mirava no segmento que se expandiu na sociedade nos anos 90, o novo proletariado, ancorado na economia informal, ou pelo menos muito distante de bater cartão: "é necessário uma política especial para os trabalhadores que estão na rua e hoje não se sentem mais representados pelas entidades tradicionais. É preciso todo um aprendizado nosso. Lamentavelmente, nós não representamos a contento os que ganham salário mínimo neste país".
O discurso de Lula em 2001 e a manifestação de Fernando Henrique agora convergem para um mesmo fenômeno: o hoje ex-presidente tucano e o petista que há dez anos ainda aspirava chegar ao poder percebiam que seus partidos haviam sofrido uma quebra de representatividade, que não poderia ser sanada da tribuna do Congresso ou com entrevistas a jornalistas, mas buscando um novo segmento da sociedade para interagir.
Em vários aspectos, o panorama desolador da institucionalidade descrito por Fernando Henrique hoje, que vai do esvaziamento do poder político dos governadores, com a concentração dos instrumentos administrativos nas mãos da União, à transformação do Congresso em uma câmara de vereadores federais e o completo esvaziamento ideológico dos partidos, já estava presente há dez anos. A grande diferença é que a ascensão de Lula ao poder também desossou os movimentos sociais, hoje em grande parte divididos entre o atrelamento total ao Planalto e a insignificância.
Neste panorama, talvez o mais lesivo aspecto para a prática política é um fenômeno que não se restringe ao Brasil: a morte cerebral dos partidos. Quando o sistema partidário deixa de buscar alianças na sociedade para se tornar apenas uma máquina de votos com a qual um agrupamento de caciques divide o botim administrativo, pode-se viver o mesmo quadro que ocorre atualmente no Peru. Naquele país, os eleitores terão em breve a oportunidade de escolher entre os dois candidatos mais detestados pela população: Ollanta Humala e Keiko Fujimori. São representantes de extremismos com alto teor de rejeição, que se beneficiaram da fragmentação do centro político entre três candidatos que se destruíram em um processo autofágico.
O sistema partidário peruano há pelo menos vinte anos entrou em colapso: cada líder político organiza seu ajuntamento para participar das eleições, sem estabelecer alianças. E desta maneira vai minando a própria estabilidade: seja Keiko ou Humala, é certo que o próximo presidente do Peru terá frágil sustentação popular, independente do que venha a fazer. O Peru é o exemplo mais recente, mas de modo algum o único, de fragilização partidária no continente. Exceção ao Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai, é o que se observa na Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador.
A profusão de partidos, paradoxalmente, é um forte indicativo de ausência de opções reais. A criação do PSD de Gilberto Kassab é um forte indicativo da aproximação do Brasil do modelo apartidário de política que viceja em parte da América do Sul. O artigo de FHC, que se segue ao pronunciamento em que o senador Aécio Neves procurou emular o avô e se colocar como liderança, são movimentos no sentido contrário. Dão demonstração de vitalidade partidária ao fomentarem o debate, de um modo só possível em partidos de oposição: não há notícias de um artigo sobre o "papel do governo" dentro do PT, como não houve este artigo dentro do PSDB entre 1995 e 2002. Há muito mais vida entre os tucanos do que no partido que se forma.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Uma ode ao queijo canastra
Confidência Mineira, Valor Econômico, 1/04/2011 César Felício Em Minas, a expressão "queijo minas" tem um significado completamente diferente do conhecido em São Paulo ou no Rio. Para dentro do Estado que concentra cerca de 10% da população brasileira, o queijo típico nada tem a ver com o chamado "Minas padrão" ou a massa branca e aguada também chamada de queijo frescal. O verdadeiro queijo de minas é uma peça de um quilo e meio, absolutamente circular e mais achatada que a apresentação dos queijos europeus. Uma crosta amarela formada pela cura exige um certo esforço para ser rompida e se ter acesso a um interior branco, cremoso, de sabor pronunciado e teor de sal maior que o dos queijos industriais. É feito com leite cru, não pasteurizado, uma chave que o caracteriza como artesanal e o lança na virtual clandestinidade. Ao menos pelo vídeo ou pelo cinema, os 90% de brasileiros que moram fora de Minas poderão conhecer um dos segredos compulsoriamente bem guardados pelo Estado: o queijo mineiro artesanal, produzido na serra da Canastra, na região do Serro, próxima ao Vale do Jequitinhonha e no Alto Paranaíba, área na divisa entre Minas e Goiás. A relação entre esse produto - encontrado com facilidade nas grandes cidades mineiras, mas proibido de ser vendido no varejo do resto do País - e a cultura mineira é visceral e será mostrada no documentário "O Mineiro e o Queijo", de Helvécio Ratton, com duração de 70 minutos, que será lançado no segundo semestre pela Quimera Filmes. "O queijo surgiu em Minas durante o ciclo de mineração, como uma forma de preservar um alimento que podia ser transportado para regiões de pequena produção agrícola e armazenado por longos períodos", comenta o cineasta, autor, entre outros filmes, de "Batismo de Sangue" e "Menino Maluquinho". Da produção do queijo surgiram derivados que se tornaram ícones no Estado, como o pão de queijo, feito com as raspas do produto. A maneira de produzi-lo essencialmente é a mesma desde o século XVIII: a primeira etapa é a coagulação do leite. Posteriormente se faz a prensagem; depois, a salga; em seguida, a maturação. Por último, vem a rala, para retirar o excesso de sal. A fase decisiva é a da coagulação do produto, em que são acrescentados o coalho e o "pingo". São estes dois insumos que dão o sabor e a consistência características do queijo. No período colonial, o coalho era derivado de uma enzima do estômago do boi. Hoje todos os produtores usam o coalho industrializado. O "pingo" só existe na produção artesanal: é o resíduo da prensagem do queijo finalizado no dia anterior, guardado durante a noite. O queijo artesanal é produzido em todo o Estado, mas o governo de Minas atualmente cadastra e fiscaliza os produtores de cinco regiões: Serra da Canastra, Serro, Alto Paranaíba, Campo das Vertentes, que é a região de Tiradentes, São João Del Rey e Araxá, cidade próxima à divisa com São Paulo, com produção mensal de 170 toneladas. Uma lei estadual permitirá agora o cadastramento em todo o Estado, o que pode ampliar exponencialmente a produção reconhecida: "Os cálculos preliminares indicam a existência de 6 mil produtores familiares", disse o gerente de educação sanitária do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Pedro Hartung. Como a legislação, tanto mineira quanto federal, exige que o produtor de queijo utilize o leite da própria fazenda, é impossível a sua manufatura industrial. As diferenças entre as três principais procedências não são destacadas no documentário de Ratton, mas são marcantes para quem prova os queijos. O do Serro é mais ácido, com maior teor de sal e consistência massuda. O do Alto Paranaíba é o que tem maior semelhança com o queijo industrializado. O da Canastra é o mais afamado, não sem razão: é cremoso, de forte sabor e funde quando suavemente esquentado. O documentário mostra que o do Serro é o mais antigo: trata-se da região mais próxima da área mineradora e herdou a tecnologia de portugueses oriundos da serra da Estrela. Mas faltam explicações para a excelência do queijo da Canastra: uns citam a tradição familiar, outros a excelência da água, oriunda da nascente do rio São Francisco ao pé da serra. A melhor explicação é a do mais humilde fabricante ouvido por Ratton: a presença de pastagens de capim-gordura influi na qualidade do leite do gado da região. Segundo Ratton, a nova norma do governo mineiro que estenderá a todo o Estado a certificação estadual pode evidenciar ainda mais o quadro de miséria que existe entre os produtores. "O problema é que a oferta poderá crescer, sem que cresça o mercado consumidor. O queijo artesanal só pode ser vendido em Minas, por um desacordo entre a legislação federal e a legislação mineira. É por isso que o queijo artesanal aqui é mais barato do que o industrial", disse. Um quilo de queijo artesanal da serra da Canastra, no mercado central de Belo Horizonte, pode ser encontrado a cerca de R$ 13, ante cerca de R$ 17 do queijo Minas padrão. No filme de Ratton, feito em 2010, produtores afirmam vender o produto a R$ 7 o quilo. Como é feito com leite cru, a comercialização do legítimo queijo mineiro sofre restrições do Ministério da Agricultura, já que, como se sabe desde a época de Pasteur, muitas bactérias são eliminadas com a fervura, sobretudo a "Staphylococcus aureus", que pode ser transmitida pelo leite se a vaca estiver com mamite. O suposto risco de contrair uma gastroenterocolite consumindo queijo artesanal é recebido aos risos pela maior parte de seus consumidores e pelos produtores, mas foi o que norteou o Ministério da Agricultura a exigir que o queijo feito com leite cru passe por um período de maturação. À medida que o queijo é envelhecido, ele desidrata, o que ajuda a eliminar bactérias. O queijo artesanal foi atirado na clandestinidade em 1996, quando o Ministério da Agricultura baixou a portaria 146, estipulando um prazo mínimo de 60 dias de maturação para que a venda fosse permitida. Guardado por esse prazo, o queijo artesanal torna-se bastante amarelo e com casca bem dura e os produtores reclamam que a aceitação do produto no mercado é menor. O queijo mineiro só sobreviveu em Minas porque o então governador Itamar Franco editou em 2000 uma norma estadual permitindo a venda aos mineiros do queijo elaborado com leite cru com maturação mínima de 21 dias. A luta que existe em Minas, amplificada pelo documentário, é para que o governo federal revise o prazo de maturação, o que abriria para o queijo artesanal as portas não só dos mercados paulista e fluminense, mas do mercado exterior. Os produtores poderiam sonhar em obter certificados de documentação de origem controlada (DOC), como o espumante de Champagne ou o uísque da Escócia. "O primeiro passo será conseguirmos a equivalência da fiscalização estadual à federal para derivados de leite. Em termos técnicos, o reconhecimento do selo mineiro no Sisbi [Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal]. No caso da carne, conseguimos depois de oito anos. Agora vai demorar menos", aposta Hartung. Ratton é mais pessimista. "Há interesses industriais em retardar esse processo. No fundo, é uma derivação da luta da agricultura familiar com o agronegócio." Em São Paulo, o queijo da Canastra pode ser encontrado em poucos restaurantes, que oferecem o produto com maturação de até 90 dias. "Eu uso o produto conforme estabelece a lei federal. Depois de uma maturação muito longa, é possível degustar o queijo em lascas ou ralado", comenta a chef Ana Luiza Trajano, dona do restaurante Brasil a Gosto. Para Ana Luiza, "a legislação deveria fomentar o aumento da fiscalização e não criar regras que limitam tanto a oferta disponível fora de Minas". Ana Luiza vê na mesma situação de marginalidade do queijo mineiro artesanal outros produtos que estão na raiz da gastronomia brasileira. Ela cita o mel silvestre, a rapadura e outros queijos como o requeijão-manteiga e o coalho, no Nordeste, e o de búfala do Marajó, no Pará. "Querem inviabilizar a venda de queijo de leite cru, mas se esquecem que na França e na Itália mais de 70% é fabricado com essa matéria-prima", queixa-se.
sábado, 12 de março de 2011
A alvorada egípcia, no Valor Econômico
Empresário egípcio prevê democracia e estabilidade no país
César Felício De Belo Horizonte
09/03/2011
O entusiasmo do engenheiro egípcio Emad El Sewedy, 46, morador na região de 6 de Outubro, vizinha ao Cairo, é um sinal da amplitude da base de apoio que teve a insurgência popular contra o regime liderado por Hosni Mubarak, derrubado da Presidência do Egito no último dia 11. El Sewedy é o CEO da Electrometer, uma das empresas do El Sewedy Group, um conglomerado de indústrias na área de energia que faturou US$ 1,6 bilhão nos primeiros nove meses do ano passado. El Sewedy viu de perto as manifestações da Praça Tahrir e diz não ter dúvidas de que o caminho do Egito para uma democracia é inexorável.
A Electrometer começa este ano a operar em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, uma fábrica com capacidade de produção de 700 mil medidores de energia por ano, em sociedade com a Damp, uma empresa do banco mineiro BMG. A cada dois meses, El Sewedy passa uma semana no Brasil.
Ao falar ao Valor, no saguão de um hotel em Belo Horizonte, estava empolgado com a notícia da demissão de Ahmed Shafiq, no dia 3. Último primeiro-ministro do Egito indicado por Mubarak, Shafiq foi demitido depois de uma reunião entre o Conselho Supremo das Forças Armadas, que detém o poder de fato no País, e representantes dos manifestantes. Foi substituído por Essam Sharaf, um ex-ministro de Mubarak que passou para a oposição em 2006. Para El Sewedy, foi um sinal claro de que o regime caminha para a abertura.
El Sewedy também demonstrou satisfação com a abertura de processos legais contra uma elite empresarial egípcia que era profundamente vinculada ao governo de Mubarak. A figura mais conhecida é a de Ahmed Ezz, dono de um grupo siderúrgico com produção de 5,8 milhões de toneladas de aço no ano passado e detentor de cerca de 60% do mercado egípcio. Ezz também era tesoureiro do partido do governo e um dos principais articuladores de Gamal Mubarak, que tinha pretensões de suceder o pai no governo do país.
Ao término da entrevista, gravadores já desligados, o empresário arriscou-se a fazer uma aposta a respeito do vencedor das eleições presidenciais que devem ocorrer em setembro. Disse não acreditar nas chances do secretário da Liga Árabe, Amr Mussa, nem do ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei. Segundo ele, há espaço para a vitória de alguém mais jovem e desvinculado das tradicionais estruturas políticas.
Valor: O sr. é o maior empresário egípcio no segmento eletro-eletrônico. Em que medida as mudanças no Egito podem afetar o meio empresarial como um todo e o grupo El Sewedy em particular?
Emad El Sewedy: É preciso estabelecer algumas preliminares porque é muito difícil, para quem está fora do Egito, dimensionar o que aconteceu no meu país. Os acontecimentos do início deste ano devem ser chamados de revolução. Foi algo histórico, que ninguém esperava que pudesse ocorrer, e isto vale principalmente para as pessoas que iniciaram os protestos contra o regime. O que os primeiros manifestantes buscavam talvez não fosse nem 10% das possibilidades que se abriram agora. É preciso lembrar que tudo começou com protestos contra a carestia e o fato de termos um desenvolvimento econômico concentrado, que exclui parte da sociedade. E então a magnitude disso foi crescendo e subitamente, no dia 25 de janeiro, colocou-se claramente a questão da mudança do regime, de mudança constitucional, eleições livres, do fim da corrupção. Tornou-se uma revolução política.
Valor: E as manifestações tiveram apoio no meio empresarial?
El Sewedy: A sociedade toda apoiou. O que ocorreu no Egito foi um movimento que nasceu das massas urbanas mais simples. Normalmente, as movimentações políticas começam no Exército no Egito, mas essa revolução não se apoiou em nenhum tipo de arma. Eu estive na Praça Tahrir para tentar entender o que estava acontecendo, queria ver com meus próprios olhos.
Valor: O senhor então participou das manifestações?
El Sewedy: Eu me sentia perdido ao ler o noticiário, tanto o do Egito quanto o de fora. Era estranho perceber a agitação e assistir na televisão afirmações categóricas de que nada estava acontecendo. Na mídia ocidental chegou-se até mesmo a dizer que as manifestações eram inspiradas pela Al-Qaeda, pelo Irã. Eu fui até a praça porque queria avaliar, por mim mesmo, em que medida a Irmandade Muçulmana [grupo político de inspiração islâmica] estava comandando a situação. E o que vi na praça Tahrir foi que a Irmandade estava completamente diluída no meio da multidão. Então o que devemos discutir é a razão desse temor da Irmandade Muçulmana. A revolução diminuiu, e não aumentou, as chances de eles chegarem ao poder.
Valor: Mas eles não eram o principal grupo de oposição no Egito?
El Sewedy: Nas eleições passadas, a Irmandade era a única organização oposicionista mobilizada para levar as pessoas a votar. E isso acontecia porque a maioria dos egípcios evitava votar, não confiava que as eleições fossem livres e justas. Ninguém se preocupava em participar. Agora as pessoas estão mobilizadas como nunca estiveram, e não foi a Irmandade Muçulmana que começou esse processo. As reformas constitucionais anunciadas devem aumentar ainda mais a participação política. É um ambiente muito mais aberto.
Valor: O aumento da incerteza na região levou o seu grupo a retardar decisões de investimento?
El Sewedy: No Egito não estamos suspendendo investimentos. Na semana passada assinei uma ordem para construir uma nova fábrica na área de Alexandria, porque já tínhamos tudo planejado, o financiamento assegurado, e não iríamos parar. Seguimos produzindo no Egito, como em outros países. O investimento lá em Alexandria é de US$ 5 milhões.
Valor: Mas na Líbia o grupo El Sewedy suspendeu um investimento de US$ 65 milhões em uma fábrica de cabos elétricos em Tripoli...
El Sewedy: A Líbia é uma situação totalmente diferente. A Líbia é um caos agora. O país é dividido em tribos, a população toda vem de tribos. A solidariedade não é entre o povo líbio, é intertribal. Então uma tribo apoia a revolução, outra tribo não, e quando eles se juntam, se juntam por tribo. No Egito, há um só povo. Quando se nasce no Egito, ninguém pergunta sobre sua família ou sua aldeia. Na Líbia, tudo depende de onde você veio. Durante a revolução no Egito, nem uma única igreja foi atacada, os negócios não foram saqueados, o povo se protegeu. Os militares no Egito são egípcios, não atiraram contra o próprio povo. Na Líbia você encontra uma tribo atirando na outra.
Valor: O senhor acredita que o caminho para a democracia no Egito agora é inexorável?
El Sewedy: Acredito completamente. Porque o povo não aceitará outra conduta, nada que não seja isso. As mudanças constitucionais vão todas nessa direção.
Valor: Mas a influência das Forças Armadas na política egípcia é gigantesca. É razoável pensar que o Egito terá um regime civil pela primeira vez desde a deposição do rei Faruk, em 1952?
El Sewedy: O papel das Forças Armadas é o de proteger, e não governar o Egito. Há um claro entendimento disso. Essa é uma inquestionável demanda da revolução. É claro que temos neste instante um presidente militar, e as Forças Armadas estão no controle do país, mas isto está ocorrendo justamente porque as Forças Armadas mantiveram a popularidade ao não se contraporem ao povo nas ruas. Eles viram que há um clamor por um presidente civil. Você deve ter visto que o primeiro-ministro do Egito renunciou [na semana passada]. Ele não fez isso de sua própria vontade. A demissão dele era uma demanda popular. Quem está dirigindo o Egito é a Praça Tahrir.
Valor: Há grandes empresários sendo investigados agora no Egito, que se destacaram no passado pela sustentação a Mubarak, como o caso de Ahmad Ezz, industrial do aço. Isso não causa apreensão entre o empresariado?
El Sewedy: Ahmad Ezz era tesoureiro do partido governante e tinha a maior parte do mercado doméstico do aço. Ele conseguiu licenças de importações para sua indústria do aço de maneira gratuita. Foram negócios de bilhões, e não milhões de libras [egípcias]. Ele irá a julgamento no Egito e isso é uma boa notícia para o meio empresarial. Os empresários corretos não se sentem representados por esse tipo de empreendedor.
Valor: O senhor acredita que o novo quadro político pode levar à instabilidade externa, se as relações entre Egito e Israel forem afetadas?
El Sewedy: Não acredito em mudanças, porque tanto Egito quanto Israel lucram muito com a paz. As guerras foram desastrosas para os vencedores e para perdedores no Oriente Médio.
Valor: Qual o efeito da crise para o Egito neste ano?
El Sewedy: O cenário inicial, pré-queda de Mubarak, era de a economia egípcia crescer 6% em 2011. As previsões mais realistas hoje são de crescimento de 3%, por causa da mudança política. Mas, a partir de 2012, tenho certeza de que o crescimento será bem maior que a faixa de 5%, 6% que vínhamos mantendo antes da crise. Porque no Egito o povo não estava feliz, estava estressado, e isso obviamente afetava a produtividade. Em um sistema democrático, vai aumentar a previsibilidade no país. Podemos nos tornar um portal de negócios para o Oriente Médio, a África e mesmo parte da Europa.
Valor: Porque a sua empresa decidiu investir no Brasil?
El Sewedy: Estamos focados no Brasil no mercado de medidores elétricos, em associação com o grupo BMG. Acreditamos muito no potencial deste mercado. O Brasil é um 'hub' para a América do Sul, assim como o México será o 'hub' para nós na América do Norte. Estamos começando a operar este ano e devemos ter faturamento de R$ 20 milhões, mas no médio prazo acreditamos que o governo vai fomentar a troca de medidores de energia para controlar as grandes perdas que existem no sistema. Temos capacidade de produção para 700 mil contadores em Sabará. Estamos em vários países porque optamos sempre por entrar em novos mercados. O Egito representa 15% do faturamento da Eletrometer, que está em torno de US$ 100 milhões. Estamos crescendo e fomos pouco afetados pela crise de 2008. Somos uma das empresas do grupo El Sewedy, que atua no Egito desde 1938.
Valor: Como foi o processo de instalação no Brasil? Por que o senhor optou por Minas Gerais?
El Sewedy: A parceria com o BMG começou em 2008, mas estou vindo ao Brasil desde 2006, quando comecei a estudar o mercado. Escolhemos investir em Minas Gerais porque em São Paulo já tem gente demais. Aqui em Minas tivemos acesso fácil às autoridades e encontramos nosso parceiro.
Empresário egípcio prevê democracia e estabilidade no país
César Felício De Belo Horizonte
09/03/2011
O entusiasmo do engenheiro egípcio Emad El Sewedy, 46, morador na região de 6 de Outubro, vizinha ao Cairo, é um sinal da amplitude da base de apoio que teve a insurgência popular contra o regime liderado por Hosni Mubarak, derrubado da Presidência do Egito no último dia 11. El Sewedy é o CEO da Electrometer, uma das empresas do El Sewedy Group, um conglomerado de indústrias na área de energia que faturou US$ 1,6 bilhão nos primeiros nove meses do ano passado. El Sewedy viu de perto as manifestações da Praça Tahrir e diz não ter dúvidas de que o caminho do Egito para uma democracia é inexorável.
A Electrometer começa este ano a operar em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, uma fábrica com capacidade de produção de 700 mil medidores de energia por ano, em sociedade com a Damp, uma empresa do banco mineiro BMG. A cada dois meses, El Sewedy passa uma semana no Brasil.
Ao falar ao Valor, no saguão de um hotel em Belo Horizonte, estava empolgado com a notícia da demissão de Ahmed Shafiq, no dia 3. Último primeiro-ministro do Egito indicado por Mubarak, Shafiq foi demitido depois de uma reunião entre o Conselho Supremo das Forças Armadas, que detém o poder de fato no País, e representantes dos manifestantes. Foi substituído por Essam Sharaf, um ex-ministro de Mubarak que passou para a oposição em 2006. Para El Sewedy, foi um sinal claro de que o regime caminha para a abertura.
El Sewedy também demonstrou satisfação com a abertura de processos legais contra uma elite empresarial egípcia que era profundamente vinculada ao governo de Mubarak. A figura mais conhecida é a de Ahmed Ezz, dono de um grupo siderúrgico com produção de 5,8 milhões de toneladas de aço no ano passado e detentor de cerca de 60% do mercado egípcio. Ezz também era tesoureiro do partido do governo e um dos principais articuladores de Gamal Mubarak, que tinha pretensões de suceder o pai no governo do país.
Ao término da entrevista, gravadores já desligados, o empresário arriscou-se a fazer uma aposta a respeito do vencedor das eleições presidenciais que devem ocorrer em setembro. Disse não acreditar nas chances do secretário da Liga Árabe, Amr Mussa, nem do ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei. Segundo ele, há espaço para a vitória de alguém mais jovem e desvinculado das tradicionais estruturas políticas.
Valor: O sr. é o maior empresário egípcio no segmento eletro-eletrônico. Em que medida as mudanças no Egito podem afetar o meio empresarial como um todo e o grupo El Sewedy em particular?
Emad El Sewedy: É preciso estabelecer algumas preliminares porque é muito difícil, para quem está fora do Egito, dimensionar o que aconteceu no meu país. Os acontecimentos do início deste ano devem ser chamados de revolução. Foi algo histórico, que ninguém esperava que pudesse ocorrer, e isto vale principalmente para as pessoas que iniciaram os protestos contra o regime. O que os primeiros manifestantes buscavam talvez não fosse nem 10% das possibilidades que se abriram agora. É preciso lembrar que tudo começou com protestos contra a carestia e o fato de termos um desenvolvimento econômico concentrado, que exclui parte da sociedade. E então a magnitude disso foi crescendo e subitamente, no dia 25 de janeiro, colocou-se claramente a questão da mudança do regime, de mudança constitucional, eleições livres, do fim da corrupção. Tornou-se uma revolução política.
Valor: E as manifestações tiveram apoio no meio empresarial?
El Sewedy: A sociedade toda apoiou. O que ocorreu no Egito foi um movimento que nasceu das massas urbanas mais simples. Normalmente, as movimentações políticas começam no Exército no Egito, mas essa revolução não se apoiou em nenhum tipo de arma. Eu estive na Praça Tahrir para tentar entender o que estava acontecendo, queria ver com meus próprios olhos.
Valor: O senhor então participou das manifestações?
El Sewedy: Eu me sentia perdido ao ler o noticiário, tanto o do Egito quanto o de fora. Era estranho perceber a agitação e assistir na televisão afirmações categóricas de que nada estava acontecendo. Na mídia ocidental chegou-se até mesmo a dizer que as manifestações eram inspiradas pela Al-Qaeda, pelo Irã. Eu fui até a praça porque queria avaliar, por mim mesmo, em que medida a Irmandade Muçulmana [grupo político de inspiração islâmica] estava comandando a situação. E o que vi na praça Tahrir foi que a Irmandade estava completamente diluída no meio da multidão. Então o que devemos discutir é a razão desse temor da Irmandade Muçulmana. A revolução diminuiu, e não aumentou, as chances de eles chegarem ao poder.
Valor: Mas eles não eram o principal grupo de oposição no Egito?
El Sewedy: Nas eleições passadas, a Irmandade era a única organização oposicionista mobilizada para levar as pessoas a votar. E isso acontecia porque a maioria dos egípcios evitava votar, não confiava que as eleições fossem livres e justas. Ninguém se preocupava em participar. Agora as pessoas estão mobilizadas como nunca estiveram, e não foi a Irmandade Muçulmana que começou esse processo. As reformas constitucionais anunciadas devem aumentar ainda mais a participação política. É um ambiente muito mais aberto.
Valor: O aumento da incerteza na região levou o seu grupo a retardar decisões de investimento?
El Sewedy: No Egito não estamos suspendendo investimentos. Na semana passada assinei uma ordem para construir uma nova fábrica na área de Alexandria, porque já tínhamos tudo planejado, o financiamento assegurado, e não iríamos parar. Seguimos produzindo no Egito, como em outros países. O investimento lá em Alexandria é de US$ 5 milhões.
Valor: Mas na Líbia o grupo El Sewedy suspendeu um investimento de US$ 65 milhões em uma fábrica de cabos elétricos em Tripoli...
El Sewedy: A Líbia é uma situação totalmente diferente. A Líbia é um caos agora. O país é dividido em tribos, a população toda vem de tribos. A solidariedade não é entre o povo líbio, é intertribal. Então uma tribo apoia a revolução, outra tribo não, e quando eles se juntam, se juntam por tribo. No Egito, há um só povo. Quando se nasce no Egito, ninguém pergunta sobre sua família ou sua aldeia. Na Líbia, tudo depende de onde você veio. Durante a revolução no Egito, nem uma única igreja foi atacada, os negócios não foram saqueados, o povo se protegeu. Os militares no Egito são egípcios, não atiraram contra o próprio povo. Na Líbia você encontra uma tribo atirando na outra.
Valor: O senhor acredita que o caminho para a democracia no Egito agora é inexorável?
El Sewedy: Acredito completamente. Porque o povo não aceitará outra conduta, nada que não seja isso. As mudanças constitucionais vão todas nessa direção.
Valor: Mas a influência das Forças Armadas na política egípcia é gigantesca. É razoável pensar que o Egito terá um regime civil pela primeira vez desde a deposição do rei Faruk, em 1952?
El Sewedy: O papel das Forças Armadas é o de proteger, e não governar o Egito. Há um claro entendimento disso. Essa é uma inquestionável demanda da revolução. É claro que temos neste instante um presidente militar, e as Forças Armadas estão no controle do país, mas isto está ocorrendo justamente porque as Forças Armadas mantiveram a popularidade ao não se contraporem ao povo nas ruas. Eles viram que há um clamor por um presidente civil. Você deve ter visto que o primeiro-ministro do Egito renunciou [na semana passada]. Ele não fez isso de sua própria vontade. A demissão dele era uma demanda popular. Quem está dirigindo o Egito é a Praça Tahrir.
Valor: Há grandes empresários sendo investigados agora no Egito, que se destacaram no passado pela sustentação a Mubarak, como o caso de Ahmad Ezz, industrial do aço. Isso não causa apreensão entre o empresariado?
El Sewedy: Ahmad Ezz era tesoureiro do partido governante e tinha a maior parte do mercado doméstico do aço. Ele conseguiu licenças de importações para sua indústria do aço de maneira gratuita. Foram negócios de bilhões, e não milhões de libras [egípcias]. Ele irá a julgamento no Egito e isso é uma boa notícia para o meio empresarial. Os empresários corretos não se sentem representados por esse tipo de empreendedor.
Valor: O senhor acredita que o novo quadro político pode levar à instabilidade externa, se as relações entre Egito e Israel forem afetadas?
El Sewedy: Não acredito em mudanças, porque tanto Egito quanto Israel lucram muito com a paz. As guerras foram desastrosas para os vencedores e para perdedores no Oriente Médio.
Valor: Qual o efeito da crise para o Egito neste ano?
El Sewedy: O cenário inicial, pré-queda de Mubarak, era de a economia egípcia crescer 6% em 2011. As previsões mais realistas hoje são de crescimento de 3%, por causa da mudança política. Mas, a partir de 2012, tenho certeza de que o crescimento será bem maior que a faixa de 5%, 6% que vínhamos mantendo antes da crise. Porque no Egito o povo não estava feliz, estava estressado, e isso obviamente afetava a produtividade. Em um sistema democrático, vai aumentar a previsibilidade no país. Podemos nos tornar um portal de negócios para o Oriente Médio, a África e mesmo parte da Europa.
Valor: Porque a sua empresa decidiu investir no Brasil?
El Sewedy: Estamos focados no Brasil no mercado de medidores elétricos, em associação com o grupo BMG. Acreditamos muito no potencial deste mercado. O Brasil é um 'hub' para a América do Sul, assim como o México será o 'hub' para nós na América do Norte. Estamos começando a operar este ano e devemos ter faturamento de R$ 20 milhões, mas no médio prazo acreditamos que o governo vai fomentar a troca de medidores de energia para controlar as grandes perdas que existem no sistema. Temos capacidade de produção para 700 mil contadores em Sabará. Estamos em vários países porque optamos sempre por entrar em novos mercados. O Egito representa 15% do faturamento da Eletrometer, que está em torno de US$ 100 milhões. Estamos crescendo e fomos pouco afetados pela crise de 2008. Somos uma das empresas do grupo El Sewedy, que atua no Egito desde 1938.
Valor: Como foi o processo de instalação no Brasil? Por que o senhor optou por Minas Gerais?
El Sewedy: A parceria com o BMG começou em 2008, mas estou vindo ao Brasil desde 2006, quando comecei a estudar o mercado. Escolhemos investir em Minas Gerais porque em São Paulo já tem gente demais. Aqui em Minas tivemos acesso fácil às autoridades e encontramos nosso parceiro.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A retirada de Patrus Ananias
Valor Econômico, 4 de fevereiro de 2011
Há políticos que procuram construir sua imagem pública como realizadores de obras, ou com a identificação com uma determinada classe ou grupo social, ou alinhando-se a uma corrente ideológica. E há os que se consolidam investindo na construção de uma personalidade atraente para a opinião pública, a encarnação de um conjunto de virtudes. Os mais bem sucedidos costumam ser os que fazem uma composição de todos os fatores ao longo da vida pública, ou com ao menos mais de um deles.
Ex-ministro do Desenvolvimento Social por seis anos, o advogado mineiro Patrus Ananias é um dos que encarnam a figura do homem virtuoso, de maneira análoga à dos senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, entre poucos outros. A começar pela austeridade: ele atualmente pode ser encontrado nos dias úteis, das 8h às 14h, dando expediente na Escola do Legislativo da Assembleia mineira, onde entrou por concurso em 1982 e para onde sempre volta quando está sem mandato.
Trabalha em um ambiente coletivo e nem sequer tem um ramal de telefone próprio. Há 19 anos mora no mesmo endereço, um apartamento no bairro de Funcionários, em Belo Horizonte, área em que o preço mais comum para imóveis está em torno de R$ 5 mil o metro quadrado. Algo que nem sempre acontece com políticos que administraram orçamentos bilionários.
Católico convicto, Patrus foi um dos escalados para visitar as paróquias entre o primeiro o segundo turno da eleição no ano passado, na tentativa de reaproximar os fiéis da candidatura da hoje presidente Dilma Rousseff. Seu preparo intelectual não é pouco: professor de direito na PUC mineira, deixa ao alcance da mão leituras densas, como "Ideologia e contraideologia", de Alfredo Bosi.
Como prefeito de Belo Horizonte nos anos 90 e ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, responsável por nada menos que a implantação do programa Bolsa Família, seu saldo administrativo está muito acima do regular.
O ex-ministro deixa poucas pistas para se entender porque sua carreira política chega a um momento de ostracismo com resultados eleitorais absolutamente pobres.
Patrus ganhou três eleições: vereador em 1988, prefeito em 1992 e deputado federal dez anos depois. Perdeu quatro: vereador em 1982, senador em 1990, governador em 1998 e vice-governador no ano passado. Viveu no governo Lula sua grande oportunidade, ao capitanear um programa que movimentava R$ 40 bilhões.
Chegou a ser citado como presidenciável. Mas não conseguiu nem ser candidato ao Senado. Há muitos anos tornou-se minoritário dentro do PT mineiro. Sugerido como opção para o ministério ou o segundo escalão do governo de Dilma, seu nome foi ignorado. Comenta-se que o veto teria partido de Lula, que atribui a Patrus a divisão petista que levou à derrota eleitoral em Minas no ano passado.
Patrus foi muito menos longe do que os próprios exemplos já citados dos que têm a virtude como trunfo: Suplicy conseguiu eleger-se três vezes senador por São Paulo e Simon chegou a ser governador gaúcho. Uma das explicações possíveis pode ser a baixa aptidão por liderança. Patrus não é um líder, segundo suas próprias palavras. "Não tenho grupo e nem seguidores. Eu tenho interlocutores, companheiros. Quem quer ter seguidores precisa ter uma trajetória inflexível, retilínea, que obriga a tornar a política uma profissão. Foi uma opção minha não ser assim", comenta.
O ex-ministro não cogita participar das eleições no próximo ano. Pretende escrever uma tese de doutorado sobre políticas sociais. Patrus não se considera o autor do programa Bolsa Família: lembra que a proposta foi formulada no fim de 2003, antes de sua entrada no ministério. E nem avoca para o sucesso do programa parte da responsabilidade pela reeleição de Lula em 2006, ano em que o presidente estava ferido pelo escândalo do mensalão. "O programa nunca sofreu oposição nem do PSDB e nem do DEM exatamente pelo caráter republicano que ele ganhou ao ser implantado", diz.
Para Patrus, o programa não chegou a erradicar a fome no Brasil. "Acabou a fome endêmica, aquela em que havia uma discussão sobre quantos milhões eram atingidos, mas permanece uma fome ligada ao núcleo duro da miséria, às pessoas que são incadastráveis pela regra atual, por não terem domicílio ou mesmo registro civil. São os moradores de rua, alguns quilombolas, algumas comunidades indígenas", afirma. Para avançar a este ponto, segundo Patrus, seria necessário agora estabelecer programas envolvendo diversos ministério em uma única ação. "A tarefa que existia no governo Lula era acabar com a fome como um fenômeno generalizado e isto nós fizemos", afirma.
Há relatos de antigos aliados de Patrus sobre a frustração que o petista causou entre os apoiadores ao se recusar a assumir compromissos políticos normais em campanhas, como a divisão futura de espaços políticos e o equacionamento de questões de financiamento. Sua intransigência ao estabelecer alianças em bases ideológicas foi interpretada como arrogância. O risco de um político que transforma a austeridade em um dos pilares de sua imagem é, de maneira involuntária, estabelecer uma relação de superioridade com os que não agem assim. E, por tabela, tornar-se uma figura relativamente solitária. O advérbio faz muita diferença. Patrus não pretende encerrar 30 anos de militância política. Ele deixa pairar no seu horizonte a perspectiva eleitoral em 2014. "O que estou vivendo agora é um período sabático", disse, usando um adjetivo que indica claramente a suspensão de uma atividade em caráter temporário, e não um estranho recomeço.
Há políticos que procuram construir sua imagem pública como realizadores de obras, ou com a identificação com uma determinada classe ou grupo social, ou alinhando-se a uma corrente ideológica. E há os que se consolidam investindo na construção de uma personalidade atraente para a opinião pública, a encarnação de um conjunto de virtudes. Os mais bem sucedidos costumam ser os que fazem uma composição de todos os fatores ao longo da vida pública, ou com ao menos mais de um deles.
Ex-ministro do Desenvolvimento Social por seis anos, o advogado mineiro Patrus Ananias é um dos que encarnam a figura do homem virtuoso, de maneira análoga à dos senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, entre poucos outros. A começar pela austeridade: ele atualmente pode ser encontrado nos dias úteis, das 8h às 14h, dando expediente na Escola do Legislativo da Assembleia mineira, onde entrou por concurso em 1982 e para onde sempre volta quando está sem mandato.
Trabalha em um ambiente coletivo e nem sequer tem um ramal de telefone próprio. Há 19 anos mora no mesmo endereço, um apartamento no bairro de Funcionários, em Belo Horizonte, área em que o preço mais comum para imóveis está em torno de R$ 5 mil o metro quadrado. Algo que nem sempre acontece com políticos que administraram orçamentos bilionários.
Católico convicto, Patrus foi um dos escalados para visitar as paróquias entre o primeiro o segundo turno da eleição no ano passado, na tentativa de reaproximar os fiéis da candidatura da hoje presidente Dilma Rousseff. Seu preparo intelectual não é pouco: professor de direito na PUC mineira, deixa ao alcance da mão leituras densas, como "Ideologia e contraideologia", de Alfredo Bosi.
Como prefeito de Belo Horizonte nos anos 90 e ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, responsável por nada menos que a implantação do programa Bolsa Família, seu saldo administrativo está muito acima do regular.
O ex-ministro deixa poucas pistas para se entender porque sua carreira política chega a um momento de ostracismo com resultados eleitorais absolutamente pobres.
Patrus ganhou três eleições: vereador em 1988, prefeito em 1992 e deputado federal dez anos depois. Perdeu quatro: vereador em 1982, senador em 1990, governador em 1998 e vice-governador no ano passado. Viveu no governo Lula sua grande oportunidade, ao capitanear um programa que movimentava R$ 40 bilhões.
Chegou a ser citado como presidenciável. Mas não conseguiu nem ser candidato ao Senado. Há muitos anos tornou-se minoritário dentro do PT mineiro. Sugerido como opção para o ministério ou o segundo escalão do governo de Dilma, seu nome foi ignorado. Comenta-se que o veto teria partido de Lula, que atribui a Patrus a divisão petista que levou à derrota eleitoral em Minas no ano passado.
Patrus foi muito menos longe do que os próprios exemplos já citados dos que têm a virtude como trunfo: Suplicy conseguiu eleger-se três vezes senador por São Paulo e Simon chegou a ser governador gaúcho. Uma das explicações possíveis pode ser a baixa aptidão por liderança. Patrus não é um líder, segundo suas próprias palavras. "Não tenho grupo e nem seguidores. Eu tenho interlocutores, companheiros. Quem quer ter seguidores precisa ter uma trajetória inflexível, retilínea, que obriga a tornar a política uma profissão. Foi uma opção minha não ser assim", comenta.
O ex-ministro não cogita participar das eleições no próximo ano. Pretende escrever uma tese de doutorado sobre políticas sociais. Patrus não se considera o autor do programa Bolsa Família: lembra que a proposta foi formulada no fim de 2003, antes de sua entrada no ministério. E nem avoca para o sucesso do programa parte da responsabilidade pela reeleição de Lula em 2006, ano em que o presidente estava ferido pelo escândalo do mensalão. "O programa nunca sofreu oposição nem do PSDB e nem do DEM exatamente pelo caráter republicano que ele ganhou ao ser implantado", diz.
Para Patrus, o programa não chegou a erradicar a fome no Brasil. "Acabou a fome endêmica, aquela em que havia uma discussão sobre quantos milhões eram atingidos, mas permanece uma fome ligada ao núcleo duro da miséria, às pessoas que são incadastráveis pela regra atual, por não terem domicílio ou mesmo registro civil. São os moradores de rua, alguns quilombolas, algumas comunidades indígenas", afirma. Para avançar a este ponto, segundo Patrus, seria necessário agora estabelecer programas envolvendo diversos ministério em uma única ação. "A tarefa que existia no governo Lula era acabar com a fome como um fenômeno generalizado e isto nós fizemos", afirma.
Há relatos de antigos aliados de Patrus sobre a frustração que o petista causou entre os apoiadores ao se recusar a assumir compromissos políticos normais em campanhas, como a divisão futura de espaços políticos e o equacionamento de questões de financiamento. Sua intransigência ao estabelecer alianças em bases ideológicas foi interpretada como arrogância. O risco de um político que transforma a austeridade em um dos pilares de sua imagem é, de maneira involuntária, estabelecer uma relação de superioridade com os que não agem assim. E, por tabela, tornar-se uma figura relativamente solitária. O advérbio faz muita diferença. Patrus não pretende encerrar 30 anos de militância política. Ele deixa pairar no seu horizonte a perspectiva eleitoral em 2014. "O que estou vivendo agora é um período sabático", disse, usando um adjetivo que indica claramente a suspensão de uma atividade em caráter temporário, e não um estranho recomeço.
A porta que não será trancada
Esta coluna foi publicada em 28 de janeiro, no Valor Econômico. De lá para cá, a situação no Egito agravou-se muito, parece começar uma acomodação e a cúpula em Lima deve ser adiada para abril. Dilma continua muda sobre os acontecimentos.
A presidente Dilma Rousseff tem um encontro marcado com uma crise no próximo mês, quando deve comparecer à cúpula dos países do mundo árabe e da América do Sul, em Lima, no dia 16. Será a estreia da presidente em um cenário global, uma vez que Dilma não quis circular por Davos. A cúpula de Lima, talvez o mais abrangente encontro intercontinental de chefes de Estado do que outrora se convencionava chamar de "Terceiro Mundo", vai reunir o grupo de 34 países pela terceira vez, agora mais do que nunca marcados pelo contraste institucional: do lado sul-americano, não é possível caracterizar governo algum, nem mesmo o mais controverso, de Hugo Chávez na Venezuela, como uma ditadura. No mundo árabe, a dificuldade é a oposta. Os fatos dos últimos dias, envolvendo Tunísia e Egito, falam por si.
Essa assimetria institucional jamais foi um problema para o antecessor de Dilma e nem para a aproximação entre os dois blocos, que vem sendo bem-sucedida. Economicamente, o movimento comercial entre o Brasil e o mundo árabe quadruplicou nos últimos oito anos; o Egito assinou um acordo de livre comércio com o Mercosul e a Jordânia deve ser o próximo a fazê-lo. No plano político, o encontro está sendo precedido por uma onda de países latino-americanos que reconheceram o direito da Palestina ser estabelecida com as fronteiras anteriores a 1967.
Há dúvidas sobre o grau de pragmatismo que a presidente - vítima de uma ditadura de uma forma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais foi - terá no cenário internacional. Poucos dias atrás, em nota, Dilma prometeu conferir à questão dos direitos humanos "um lugar central em nossa política externa, sem seletividade e tratamento discriminatório". A cúpula de Lima pode ser tanto um momento de afirmação dessa centralidade como uma boa ocasião de separar a retórica da "realpolitik".
Cúpula separa ações de retórica
A depender do rumo que a crise nos países árabes tome, existe até uma possibilidade de que se reforce a aproximação do Brasil com o mundo árabe. "O que nós estamos testemunhando agora é claramente uma vitória dos reformistas", comenta a jornalista americana de origem libanesa Octavia Nasr, dona da empresa de consultoria Bridges Media. Octavia trabalhou por 20 anos na CNN e foi coordenadora de cobertura em assuntos do Oriente Médio, e ganhou notoriedade no ano passado quando foi demitida por colocar no Twitter um comentário lamentando a morte de um líder religioso pertencente ao Hezbollah. Segundo a jornalista, torna-se cada vez mais difícil impedir uma guinada democrática tanto na Tunísia quanto no Egito, com chances da onda atingir outros países. Caso prevaleça o reformismo, estará criada uma alternativa à bipolaridade entre o fundamentalismo islâmico de um lado e o regime ditatorial de corte personalista, militar ou de partido único, do outro. Aumentará o nível de conforto do Brasil em alinhar-se com o mundo árabe.
O risco, conforme a própria Octavia lembra, é o de grupos como o da Irmandade Muçulmana surfarem na onda que se ergue contra Hosni Mubarak no Egito e que se insinua em outros países. A resposta poderá vir apenas em setembro, mês das eleições egípcias. "Será duro para Mubarak concorrer novamente ou eleger o filho Gamal Mubarak", comenta a jornalista. As eleições no mundo árabe são famosas por garantir reconduções com votações acima de 90% do total de sufrágios, maiorias que paradoxalmente retiram, e não concedem, credibilidade a seus beneficiários.
É uma questão complexa ligar a crise nos países árabes à economia. Pelos indicadores normalmente usados para avaliação, o quadro tunisiano e egípcio é de difícil caracterização. Nem o egípcio Mubarak e nem o tunisiano Ben Ali enfrentaram uma recessão em suas longas ditaduras, mas ambos os países sofrem de problemas que se tornaram crônicos. Segundo o Banco Mundial, o último ano em que houve retração econômica na Tunísia foi 1986. No Egito, não houve caso algum nas últimas três décadas.
As altas taxas de desemprego podem ser uma explicação para a cólera das multidões, já que o Oriente Médio e Norte da África possuem regionalmente a maior taxa mundial de mão de obra desocupada, segundo a instituição. E essa não é uma situação observada apenas nos últimos anos: os indicadores do Banco Mundial mostram que o índice anda estável, acima dos dois dígitos, na Tunísia e no Egito desde 2000. O ingrediente essencial para a explosão foi a ditadura em si, que produziu um regime fechado a tal ponto que o desespero de um camelô que se imolou ao ter a mercadoria apreendida pela polícia catalisou a revolta contra o regime tunisiano.
Difícil é deixar de ver com ceticismo o resultado concreto dessas explosões. "Não há essencialmente nada de novo no Oriente Médio. Os governos podem cair, mas os regimes ficam", comentou o professor Paulo Vizentini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor do livro "Relações Internacionais do Brasil - de Vargas a Lula". Segundo Vizentini, a desorganização das oposições, a ausência de uma classe média estruturada e a falta de pressão internacional são fatores que conspiram a favor do status quo.
Vizentini também é cauteloso ao demarcar a diferença que Dilma poderá ter de Lula no plano externo. "Lula foi um criador de oportunidades, que abriu várias frentes simultâneas. Dilma tende a dar conteúdo a essas iniciativas, onde isso for possível", afirma. A presidente não abrirá novas portas, mas dificilmente trancará alguma.
A presidente Dilma Rousseff tem um encontro marcado com uma crise no próximo mês, quando deve comparecer à cúpula dos países do mundo árabe e da América do Sul, em Lima, no dia 16. Será a estreia da presidente em um cenário global, uma vez que Dilma não quis circular por Davos. A cúpula de Lima, talvez o mais abrangente encontro intercontinental de chefes de Estado do que outrora se convencionava chamar de "Terceiro Mundo", vai reunir o grupo de 34 países pela terceira vez, agora mais do que nunca marcados pelo contraste institucional: do lado sul-americano, não é possível caracterizar governo algum, nem mesmo o mais controverso, de Hugo Chávez na Venezuela, como uma ditadura. No mundo árabe, a dificuldade é a oposta. Os fatos dos últimos dias, envolvendo Tunísia e Egito, falam por si.
Essa assimetria institucional jamais foi um problema para o antecessor de Dilma e nem para a aproximação entre os dois blocos, que vem sendo bem-sucedida. Economicamente, o movimento comercial entre o Brasil e o mundo árabe quadruplicou nos últimos oito anos; o Egito assinou um acordo de livre comércio com o Mercosul e a Jordânia deve ser o próximo a fazê-lo. No plano político, o encontro está sendo precedido por uma onda de países latino-americanos que reconheceram o direito da Palestina ser estabelecida com as fronteiras anteriores a 1967.
Há dúvidas sobre o grau de pragmatismo que a presidente - vítima de uma ditadura de uma forma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais foi - terá no cenário internacional. Poucos dias atrás, em nota, Dilma prometeu conferir à questão dos direitos humanos "um lugar central em nossa política externa, sem seletividade e tratamento discriminatório". A cúpula de Lima pode ser tanto um momento de afirmação dessa centralidade como uma boa ocasião de separar a retórica da "realpolitik".
Cúpula separa ações de retórica
A depender do rumo que a crise nos países árabes tome, existe até uma possibilidade de que se reforce a aproximação do Brasil com o mundo árabe. "O que nós estamos testemunhando agora é claramente uma vitória dos reformistas", comenta a jornalista americana de origem libanesa Octavia Nasr, dona da empresa de consultoria Bridges Media. Octavia trabalhou por 20 anos na CNN e foi coordenadora de cobertura em assuntos do Oriente Médio, e ganhou notoriedade no ano passado quando foi demitida por colocar no Twitter um comentário lamentando a morte de um líder religioso pertencente ao Hezbollah. Segundo a jornalista, torna-se cada vez mais difícil impedir uma guinada democrática tanto na Tunísia quanto no Egito, com chances da onda atingir outros países. Caso prevaleça o reformismo, estará criada uma alternativa à bipolaridade entre o fundamentalismo islâmico de um lado e o regime ditatorial de corte personalista, militar ou de partido único, do outro. Aumentará o nível de conforto do Brasil em alinhar-se com o mundo árabe.
O risco, conforme a própria Octavia lembra, é o de grupos como o da Irmandade Muçulmana surfarem na onda que se ergue contra Hosni Mubarak no Egito e que se insinua em outros países. A resposta poderá vir apenas em setembro, mês das eleições egípcias. "Será duro para Mubarak concorrer novamente ou eleger o filho Gamal Mubarak", comenta a jornalista. As eleições no mundo árabe são famosas por garantir reconduções com votações acima de 90% do total de sufrágios, maiorias que paradoxalmente retiram, e não concedem, credibilidade a seus beneficiários.
É uma questão complexa ligar a crise nos países árabes à economia. Pelos indicadores normalmente usados para avaliação, o quadro tunisiano e egípcio é de difícil caracterização. Nem o egípcio Mubarak e nem o tunisiano Ben Ali enfrentaram uma recessão em suas longas ditaduras, mas ambos os países sofrem de problemas que se tornaram crônicos. Segundo o Banco Mundial, o último ano em que houve retração econômica na Tunísia foi 1986. No Egito, não houve caso algum nas últimas três décadas.
As altas taxas de desemprego podem ser uma explicação para a cólera das multidões, já que o Oriente Médio e Norte da África possuem regionalmente a maior taxa mundial de mão de obra desocupada, segundo a instituição. E essa não é uma situação observada apenas nos últimos anos: os indicadores do Banco Mundial mostram que o índice anda estável, acima dos dois dígitos, na Tunísia e no Egito desde 2000. O ingrediente essencial para a explosão foi a ditadura em si, que produziu um regime fechado a tal ponto que o desespero de um camelô que se imolou ao ter a mercadoria apreendida pela polícia catalisou a revolta contra o regime tunisiano.
Difícil é deixar de ver com ceticismo o resultado concreto dessas explosões. "Não há essencialmente nada de novo no Oriente Médio. Os governos podem cair, mas os regimes ficam", comentou o professor Paulo Vizentini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor do livro "Relações Internacionais do Brasil - de Vargas a Lula". Segundo Vizentini, a desorganização das oposições, a ausência de uma classe média estruturada e a falta de pressão internacional são fatores que conspiram a favor do status quo.
Vizentini também é cauteloso ao demarcar a diferença que Dilma poderá ter de Lula no plano externo. "Lula foi um criador de oportunidades, que abriu várias frentes simultâneas. Dilma tende a dar conteúdo a essas iniciativas, onde isso for possível", afirma. A presidente não abrirá novas portas, mas dificilmente trancará alguma.
A eleição volta a mover a roda
Valor Econômico, 21 de janeiro de 2011
Sem o cabresto que as direções nacionais dos partidos colocaram sobre as situações políticas regionais no ano passado, a perspectiva eleitoral de 2012 começa a ganhar velocidade para decolagem. Houve tempo em que o começo de uma administração federal levava a um grande realinhamento partidário entre os parlamentares. Como o Judiciário instituiu a norma de garantir o mandato proporcional ao partido, e não ao eleito, são os prefeitos que começam a mover as divisões partidárias de espaço em seus redutos.
Trata-se de um movimento descentralizado, uma vez que a Presidência da República deixa de ser o referencial para a organização de alianças. Não deve haver dentro do PT, por exemplo, uma orientação para abrir mão de candidaturas próprias em nome da aliança nacional, como se deu no ano passado. E nem um alinhamento em regra entre PSDB e DEM.
Tendem a migrar de partido pelo menos dois prefeitos de capital, Gilberto Kassab, de São Paulo, e João Henrique, de Salvador, ambos sem ter como concorrer novamente em 2012, mas com perspectivas significativamente diferentes: o primeiro busca alçar voo para 2014; o segundo tenta sobreviver politicamente. Sem a perspectiva de mudança partidária, há sinais de um rompimento à vista em Belo Horizonte, onde o prefeito Márcio Lacerda (PSB) vai armando sua candidatura à reeleição.
Na capital mineira, há quase uma competição entre PSDB e PT para saber quem tem o prefeito do PSB como aliado preferencial. Márcio Lacerda é um tímido em ações administrativas ou políticas, mas favorito a ganhar um novo mandato pelas dificuldades tucanas e petistas de se estruturarem ou reestruturarem em Belo Horizonte. É uma reviravolta irônica em relação a 2008. Naquela ocasião, o então prefeito Fernando Pimentel forçou o PT a apoiar um aliado do então governador Aécio Neves para a sua sucessão.
Pimentel e Aécio praticaram um jogo de esperteza, em que o petista lançava uma ponte no universo aecista para se credenciar na eleição seguinte e o tucano tentava fincar um pé na base do lulismo. É um cenário que não se repete em 2012, eleição em que o atual prefeito passou a ser visto como um trunfo, e não peso. Já os padrinhos de 2008 não conseguiram tudo que esperavam da insólita aliança.
Pimentel passou a enfrentar resistência crescente dentro do PT e a divisão partidária fez com que o partido fosse cabalmente derrotado no ano passado: Minas é o único grande Estado em que nenhum petista ganhou cargo majoritário. Aécio divide-se entre atrair parte da base lulista e afirmar-se como uma liderança de oposição a Dilma. Lacerda poderá escolher entre manter-se aliado ao PT e firmar uma aliança com o PSDB.
Tanto PT quanto PSDB querem condicionar o apoio a Lacerda a um compromisso em 2014, mas se fragilizam pela falta de alternativas a um voo próprio, inevitável para quem for preterido pelo prefeito. O tucano mais citado, o deputado federal Rodrigo de Castro, teve votação pífia na cidade: 13 mil votos, o 20º mais votado. No PT, Pimentel já avisou que não há hipótese de entrar na disputa e o ex-ministro Patrus Ananias foi humilhado por consecutivas derrotas nas eleições internas do partido. Sobra o vice-prefeito, Roberto de Carvalho. Para desestabilizá-lo, Lacerda sem pressa alimenta expectativas no PSDB: apoiou um tucano para a presidência da Câmara dos Vereadores e acena com espaço na administração, sem mover um músculo da face sequer sobre 2014, a preocupação maior de Kassab.
O prefeito paulista está imerso em uma guerra por ocupação de espaços desde que ficou patente que o cenário mais provável para a eleição estadual será o de confronto entre o seu projeto político e o dos tucanos. Pretende manter em seu redil o DEM, onde conta com seis deputados federais e herdar o espólio político do quercismo no PMDB do vice-presidente Michel Temer. Irá aguardar o novo desenho da cúpula do DEM para definir se fica ou sai do partido.
Segundo um antigo aliado do prefeito, Kassab se sentiria mais confortável para sair se a atual direção, sob comando do deputado Rodrigo Maia, fosse derrotada. Na hipótese de seus inimigos prevalecerem, Kassab não teria como migrar para o PMDB e mandar no DEM paulista. Seria alta a possibilidade da direção nacional impedir que os parlamentares aliados de Kassab o acompanhassem no PMDB. O prefeito teria que mudar de casa sem levar a mobília.
A sinalização de que o PSDB poderia compor com o prefeito para um candidato único em 2012 é vista dentro do bloco que apoia o governador como retórica. "Kassab e Alckmin só estarão juntos em 2012 se o [José] Serra ou o Aloysio [Nunes Ferreira] se lançarem candidatos a prefeito", afirmou um dirigente do PPS.
Em Salvador, João Henrique tenta sobreviver em um cenário de falência política, desencadeado quando teve suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Município. O prefeito está sendo virtualmente expulso do PMDB pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, provavelmente aborrecido com o comportamento do prefeito na eleição estadual, em que Geddel ficou em terceiro para governador. Vivendo o seu auge na Bahia, o governador Jaques Wagner já indicou o deputado Nelson Pellegrino para ser o candidato do PT a prefeito, o que autorizou aliados a começarem a especular sobre o impeachment de João Henrique.
Interessado em fechar uma aliança com o PMDB, o DEM também joga o prefeito ao mar: "ele que vá procurar abrigo com o governador", comentou o deputado José Carlos Aleluia, derrotado ao Senado e pré-candidato a prefeito. João Henrique negocia sua filiação com o varejo da Câmara dos Vereadores, encarregada de examinar o parecer do Tribunal de Contas. Provavelmente irá para um partido de pequeno porte e a chance maior é de que termine o seu mandato no prazo normal. João Henrique é um sobrevivente: em 2008 conseguiu se reeleger mesmo com um índice de aprovação inferior a 30% e contra PT, PSDB e DEM. Contou na ocasião com a sombra de Geddel, mas dificilmente deixará de estar exposto ao sol na eleição do próximo ano. Sua provável saída do PMDB, segundo avalia um antigo aliado no PT, deve reduzir sua influência no processo eleitoral ao ponto da que o então prefeito de São Paulo Celso Pitta exerceu na eleição de 2000.
Sem o cabresto que as direções nacionais dos partidos colocaram sobre as situações políticas regionais no ano passado, a perspectiva eleitoral de 2012 começa a ganhar velocidade para decolagem. Houve tempo em que o começo de uma administração federal levava a um grande realinhamento partidário entre os parlamentares. Como o Judiciário instituiu a norma de garantir o mandato proporcional ao partido, e não ao eleito, são os prefeitos que começam a mover as divisões partidárias de espaço em seus redutos.
Trata-se de um movimento descentralizado, uma vez que a Presidência da República deixa de ser o referencial para a organização de alianças. Não deve haver dentro do PT, por exemplo, uma orientação para abrir mão de candidaturas próprias em nome da aliança nacional, como se deu no ano passado. E nem um alinhamento em regra entre PSDB e DEM.
Tendem a migrar de partido pelo menos dois prefeitos de capital, Gilberto Kassab, de São Paulo, e João Henrique, de Salvador, ambos sem ter como concorrer novamente em 2012, mas com perspectivas significativamente diferentes: o primeiro busca alçar voo para 2014; o segundo tenta sobreviver politicamente. Sem a perspectiva de mudança partidária, há sinais de um rompimento à vista em Belo Horizonte, onde o prefeito Márcio Lacerda (PSB) vai armando sua candidatura à reeleição.
Na capital mineira, há quase uma competição entre PSDB e PT para saber quem tem o prefeito do PSB como aliado preferencial. Márcio Lacerda é um tímido em ações administrativas ou políticas, mas favorito a ganhar um novo mandato pelas dificuldades tucanas e petistas de se estruturarem ou reestruturarem em Belo Horizonte. É uma reviravolta irônica em relação a 2008. Naquela ocasião, o então prefeito Fernando Pimentel forçou o PT a apoiar um aliado do então governador Aécio Neves para a sua sucessão.
Pimentel e Aécio praticaram um jogo de esperteza, em que o petista lançava uma ponte no universo aecista para se credenciar na eleição seguinte e o tucano tentava fincar um pé na base do lulismo. É um cenário que não se repete em 2012, eleição em que o atual prefeito passou a ser visto como um trunfo, e não peso. Já os padrinhos de 2008 não conseguiram tudo que esperavam da insólita aliança.
Pimentel passou a enfrentar resistência crescente dentro do PT e a divisão partidária fez com que o partido fosse cabalmente derrotado no ano passado: Minas é o único grande Estado em que nenhum petista ganhou cargo majoritário. Aécio divide-se entre atrair parte da base lulista e afirmar-se como uma liderança de oposição a Dilma. Lacerda poderá escolher entre manter-se aliado ao PT e firmar uma aliança com o PSDB.
Tanto PT quanto PSDB querem condicionar o apoio a Lacerda a um compromisso em 2014, mas se fragilizam pela falta de alternativas a um voo próprio, inevitável para quem for preterido pelo prefeito. O tucano mais citado, o deputado federal Rodrigo de Castro, teve votação pífia na cidade: 13 mil votos, o 20º mais votado. No PT, Pimentel já avisou que não há hipótese de entrar na disputa e o ex-ministro Patrus Ananias foi humilhado por consecutivas derrotas nas eleições internas do partido. Sobra o vice-prefeito, Roberto de Carvalho. Para desestabilizá-lo, Lacerda sem pressa alimenta expectativas no PSDB: apoiou um tucano para a presidência da Câmara dos Vereadores e acena com espaço na administração, sem mover um músculo da face sequer sobre 2014, a preocupação maior de Kassab.
O prefeito paulista está imerso em uma guerra por ocupação de espaços desde que ficou patente que o cenário mais provável para a eleição estadual será o de confronto entre o seu projeto político e o dos tucanos. Pretende manter em seu redil o DEM, onde conta com seis deputados federais e herdar o espólio político do quercismo no PMDB do vice-presidente Michel Temer. Irá aguardar o novo desenho da cúpula do DEM para definir se fica ou sai do partido.
Segundo um antigo aliado do prefeito, Kassab se sentiria mais confortável para sair se a atual direção, sob comando do deputado Rodrigo Maia, fosse derrotada. Na hipótese de seus inimigos prevalecerem, Kassab não teria como migrar para o PMDB e mandar no DEM paulista. Seria alta a possibilidade da direção nacional impedir que os parlamentares aliados de Kassab o acompanhassem no PMDB. O prefeito teria que mudar de casa sem levar a mobília.
A sinalização de que o PSDB poderia compor com o prefeito para um candidato único em 2012 é vista dentro do bloco que apoia o governador como retórica. "Kassab e Alckmin só estarão juntos em 2012 se o [José] Serra ou o Aloysio [Nunes Ferreira] se lançarem candidatos a prefeito", afirmou um dirigente do PPS.
Em Salvador, João Henrique tenta sobreviver em um cenário de falência política, desencadeado quando teve suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Município. O prefeito está sendo virtualmente expulso do PMDB pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, provavelmente aborrecido com o comportamento do prefeito na eleição estadual, em que Geddel ficou em terceiro para governador. Vivendo o seu auge na Bahia, o governador Jaques Wagner já indicou o deputado Nelson Pellegrino para ser o candidato do PT a prefeito, o que autorizou aliados a começarem a especular sobre o impeachment de João Henrique.
Interessado em fechar uma aliança com o PMDB, o DEM também joga o prefeito ao mar: "ele que vá procurar abrigo com o governador", comentou o deputado José Carlos Aleluia, derrotado ao Senado e pré-candidato a prefeito. João Henrique negocia sua filiação com o varejo da Câmara dos Vereadores, encarregada de examinar o parecer do Tribunal de Contas. Provavelmente irá para um partido de pequeno porte e a chance maior é de que termine o seu mandato no prazo normal. João Henrique é um sobrevivente: em 2008 conseguiu se reeleger mesmo com um índice de aprovação inferior a 30% e contra PT, PSDB e DEM. Contou na ocasião com a sombra de Geddel, mas dificilmente deixará de estar exposto ao sol na eleição do próximo ano. Sua provável saída do PMDB, segundo avalia um antigo aliado no PT, deve reduzir sua influência no processo eleitoral ao ponto da que o então prefeito de São Paulo Celso Pitta exerceu na eleição de 2000.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Leão americano, muito mais implacável
Um conjunto de medidas discretamente colocados dentro do "Hire Act", a lei para geração de empregos, assinada pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama em março deste ano, já desperta apreensão em bancos brasileiros. Pelas medidas que entram em vigor em janeiro de 2013, as instituições financeiras estrangeiras que não fornecerem à IRS, a autoridade tributária dos Estados Unidos, uma série de informações sobre seus correntistas que sejam pessoas físicas ou jurídicas norte-americanas estarão sujeitas a uma retenção de 30% sobre os rendimentos obtido nos Estados Unidos, seja de aplicações financeiras, seja com a venda de títulos e seguros.
O assunto é discutido com especial atenção entre os bancos com atuação importante tanto nos Estados Unidos como no Brasil. As informações sobre a movimentação financeira serão exigidas para todas as operações com valor agregado acima de US$ 50 mil. Uma dessas instituições financeiras já fez um levantamento inicial sobre quantas contas de pessoas físicas no Brasil estariam atingidas: seriam cerca de 1,5 mil contas de cidadãos americanos declarados, mas o universo certamente é maior , já que o banco ainda está levantando quantos correntistas pessoas jurídicas possuem pelo menos 10% de sua propriedade em mãos norte-americanas, caso sejam empresas de capital fechado.
Neste último caso, ainda que a empresa para efeitos legais seja considerada estrangeira nos Estados Unidos, a sua conta corrente é considerada uma conta norte-americana. De acordo com o "Hire Act", basta esta participação acionária para que o banco tenha que prestar informações sobre o correntista ao governo dos Estados Unidos.
"Para estarmos a salvo de qualquer penalidade nos Estados Unidos, vamos ter que exigir novas informações dos nossos correntistas aqui no Brasil. Precisaremos investigar a composição acionária das empresas interessadas em abrir uma conta, para saber se elas têm ou não investidores norte-americanos", comentou um executivo que analisa o caso para esta instituição financeira.
Um escritório de advocacia norte-americana que acompanha as discussões sobre a aplicação da lei ressalva que as retenções só poderão acontecer quando o correntista tiver alguma fonte de renda nos Estados Unidos. "Quem não tem renda originada nos Estados Unidos não está sujeito a penalidade alguma", argumentou um advogado deste escritório, sob reserva. Mas admitiu que a lei poderá ter impacto em um primeiro momento nos mercados norte-americanos. " Suspeito que haverá alguma relutância de certos investidores em aplicar nos Estados Unidos, por não quererem prestar informações sobre seus correntistas ao IRS. Uma vez esclarecidos detalhes sobre como obedecer a esta lei , as instituições financeiras mais sofisticadas vão arcar com os custos da informação e estabelecer protocolos para o cumprimento das exigências", opinou.
A lei prevê retenções até 30% para os rendimentos gerados nos Estados Unidos a partir de 14 de setembro deste ano. Segundo este advogada, a motivação da lei foi a descoberta que bancos suíços estavam orientando correntistas que eram contribuintes norte-americanos a abrirem empresas offshore para esconderem seus rendimentos reais do fisco daquele País. Por isto a nova lei decidiu aplicar penalidades que, na prática, transferem o pagamento do imposto devido aos bancos estrangeiros que não colaborarem.> As informações que teriam que ser prestadas a IRS são a identidade de cada correntista, o número da conta, seu saldo e a movimentação de entradas e retiradas, exceto pagamentos feitos a governos e instituições multilaterais. Para evitar a retenção automática de 30% das rendas geradas nos Estados Unidos, cada instituição financeira teria que assinar um acordo de colaboração com o governo dos Estados Unidos para identificar os correntistas norte-americanos e as empresas de capital fechado com investimento norte-americano.
Em seguida, a instituição financeira precisa obter uma licença formal do correntista para que as informações sejam prestadas ao fisco norte-americano. Caso não consiga esta licença, o próprio banco deve fazer a retenção das rendas obtidas pelos correntistas nos Estados Unidos e encerrar a conta. As exigências são feitas não apenas a bancos mas a outras empresas que são consideradas financeiras em um contexto mais amplo, como seguradoras e corretoras que comercializem títulos, derivativos e fundos hedge e equity.
O assunto é discutido com especial atenção entre os bancos com atuação importante tanto nos Estados Unidos como no Brasil. As informações sobre a movimentação financeira serão exigidas para todas as operações com valor agregado acima de US$ 50 mil. Uma dessas instituições financeiras já fez um levantamento inicial sobre quantas contas de pessoas físicas no Brasil estariam atingidas: seriam cerca de 1,5 mil contas de cidadãos americanos declarados, mas o universo certamente é maior , já que o banco ainda está levantando quantos correntistas pessoas jurídicas possuem pelo menos 10% de sua propriedade em mãos norte-americanas, caso sejam empresas de capital fechado.
Neste último caso, ainda que a empresa para efeitos legais seja considerada estrangeira nos Estados Unidos, a sua conta corrente é considerada uma conta norte-americana. De acordo com o "Hire Act", basta esta participação acionária para que o banco tenha que prestar informações sobre o correntista ao governo dos Estados Unidos.
"Para estarmos a salvo de qualquer penalidade nos Estados Unidos, vamos ter que exigir novas informações dos nossos correntistas aqui no Brasil. Precisaremos investigar a composição acionária das empresas interessadas em abrir uma conta, para saber se elas têm ou não investidores norte-americanos", comentou um executivo que analisa o caso para esta instituição financeira.
Um escritório de advocacia norte-americana que acompanha as discussões sobre a aplicação da lei ressalva que as retenções só poderão acontecer quando o correntista tiver alguma fonte de renda nos Estados Unidos. "Quem não tem renda originada nos Estados Unidos não está sujeito a penalidade alguma", argumentou um advogado deste escritório, sob reserva. Mas admitiu que a lei poderá ter impacto em um primeiro momento nos mercados norte-americanos. " Suspeito que haverá alguma relutância de certos investidores em aplicar nos Estados Unidos, por não quererem prestar informações sobre seus correntistas ao IRS. Uma vez esclarecidos detalhes sobre como obedecer a esta lei , as instituições financeiras mais sofisticadas vão arcar com os custos da informação e estabelecer protocolos para o cumprimento das exigências", opinou.
A lei prevê retenções até 30% para os rendimentos gerados nos Estados Unidos a partir de 14 de setembro deste ano. Segundo este advogada, a motivação da lei foi a descoberta que bancos suíços estavam orientando correntistas que eram contribuintes norte-americanos a abrirem empresas offshore para esconderem seus rendimentos reais do fisco daquele País. Por isto a nova lei decidiu aplicar penalidades que, na prática, transferem o pagamento do imposto devido aos bancos estrangeiros que não colaborarem.> As informações que teriam que ser prestadas a IRS são a identidade de cada correntista, o número da conta, seu saldo e a movimentação de entradas e retiradas, exceto pagamentos feitos a governos e instituições multilaterais. Para evitar a retenção automática de 30% das rendas geradas nos Estados Unidos, cada instituição financeira teria que assinar um acordo de colaboração com o governo dos Estados Unidos para identificar os correntistas norte-americanos e as empresas de capital fechado com investimento norte-americano.
Em seguida, a instituição financeira precisa obter uma licença formal do correntista para que as informações sejam prestadas ao fisco norte-americano. Caso não consiga esta licença, o próprio banco deve fazer a retenção das rendas obtidas pelos correntistas nos Estados Unidos e encerrar a conta. As exigências são feitas não apenas a bancos mas a outras empresas que são consideradas financeiras em um contexto mais amplo, como seguradoras e corretoras que comercializem títulos, derivativos e fundos hedge e equity.
A "presidenta": primeira obra da presidente
César Felício
Valor Econômico
07/01/2011
Uma vez posto que gramaticalmente tanto "presidente" como "presidenta" são aceitáveis para se referir à chefe (ou chefa?) de Estado Dilma Rousseff, cabe a reflexão de por que a escolha oficial por "presidenta", uma vez que não há gestos gratuitos na política. A questão simbólica sintetiza toda a estratégia de opinião pública de Dilma na reta final do governo do antecessor e em sua primeira semana presidencial.
Durante a campanha eleitoral, seja porque havia outra mulher como candidata à presidência, seja porque Lula era uma figura tão central e tão solar que obscurecia a personalidade de sua indicada, a questão de gênero não teve papel relevante. Por vezes a sensação é de que estava em jogo no Brasil uma espécie de terceiro mandato disfarçado para o presidente, como se Dilma não existisse.
Paradoxalmente, Dilma começou a construir a sua imagem após a sua eleição. É o que observa o cientista Antonio Lavareda, dono da empresa de consultoria MCI e atuante em campanhas do PSDB e do DEM nos anos 90 e filiado ao PSDB desde 2009.
"Foi só agora que a questão de gênero ganhou um significado especialíssimo, porque garante à Dilma um caráter único. Assim como nunca houve um presidente como Lula, ela , a 'presidenta', também é diferente de tudo. Todos os demais foram apenas presidentes", observou Lavareda.
A busca de símbolos que reforçam a questão de gênero não se limitou à gramática, mas se estendeu ao entorno imediato de Dilma: do ministério com nove Pastas ocupadas por mulheres até às policiais que fazem sua segurança. Não é pouco o fato de Dilma ter destacado a sua condição na primeira frase de seu discurso inaugural: "Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher. Sinto uma imensa honra por essa escolha do povo brasileiro e sei do significado histórico desta decisão", disse. Discorre sobre o tema nos quatro parágrafos seguintes e só então afirma que irá consolidar conquistas do antecessor.
"Depois de uma campanha fria, em que havia apenas um apelo racional para o voto em Dilma, que era a defesa da continuidade, era necessário agora colocar um pouco de emoção para gerar empatia com a opinião pública" , interpreta outro especialista em pesquisas, o cientista político Marcos Coimbra, do instituto Vox Populi.
Sobre o "significado histórico" da posse de uma presidente tudo indica que não será pequeno. Para feministas, poderá ter o poder de uma revolução nas mentes. "A presença dela na Presidência transforma a formação da representação social da mulher. O imaginário social muda", avalia a historiadora Tânia Navarro-Swain, professora aposentada da UnB que criou o primeiro mestrado e doutorado em estudos feministas do país. Segundo a professora, uma presidente desestabiliza a vinculação da mulher com o espaço privado da sociedade e do homem com o espaço público.
A professora relembra uma famosa frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, mas torna-se uma". "Existe uma construção social do ser, que no Brasil associa o feminino com a fragilidade, a inconsistência, a irracionalidade. Dilma quebra esta imagem. Até a voz dela é impositiva, de mando", disse. A historiadora não mostra o mesmo entusiasmo em relação ao ministério montado por ela. "São nove ministras, mas com exceção de Miriam Belchior, no Planejamento, as demais estão confinadas a áreas laterais da administração, usualmente identificadas com o feminismo, como o Desenvolvimento Social e a Cultura, ou então em Pastas totalmente irrelevantes, como Pesca". Neste ponto, aponta a professora, não há diferenças entre o governo de Dilma e o de seu antecessor. A própria Dilma foi a única ministra com poder efetivo na administração de Lula.
Descendo à questão pragmática da manutenção da popularidade, a perspectiva internacional mostra que o encantamento da opinião com a mandatária mulher dura pouco. Ministra da Defesa no governo de Ricardo Lagos, a chilena Michelle Bachelet se viu em meio a uma crise que comprometeu sua imagem poucos meses depois da posse, ao enfrentar protestos de estudantes secundaristas, em 2006. Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner começa a recuperar sua popularidade somente nas últimas semanas, após a comoção despertada pela morte do marido e antecessor. E é no momento em que começaram as dificuldades, que não tardará, que a questão de gênero pode deixar de ser um trunfo, ou até mesmo pesar contra. "Não há dúvida que um insucesso da sua administração será associado ao fato de ela ser mulher", opina Tânia Navarro.
Valor Econômico
07/01/2011
Uma vez posto que gramaticalmente tanto "presidente" como "presidenta" são aceitáveis para se referir à chefe (ou chefa?) de Estado Dilma Rousseff, cabe a reflexão de por que a escolha oficial por "presidenta", uma vez que não há gestos gratuitos na política. A questão simbólica sintetiza toda a estratégia de opinião pública de Dilma na reta final do governo do antecessor e em sua primeira semana presidencial.
Durante a campanha eleitoral, seja porque havia outra mulher como candidata à presidência, seja porque Lula era uma figura tão central e tão solar que obscurecia a personalidade de sua indicada, a questão de gênero não teve papel relevante. Por vezes a sensação é de que estava em jogo no Brasil uma espécie de terceiro mandato disfarçado para o presidente, como se Dilma não existisse.
Paradoxalmente, Dilma começou a construir a sua imagem após a sua eleição. É o que observa o cientista Antonio Lavareda, dono da empresa de consultoria MCI e atuante em campanhas do PSDB e do DEM nos anos 90 e filiado ao PSDB desde 2009.
"Foi só agora que a questão de gênero ganhou um significado especialíssimo, porque garante à Dilma um caráter único. Assim como nunca houve um presidente como Lula, ela , a 'presidenta', também é diferente de tudo. Todos os demais foram apenas presidentes", observou Lavareda.
A busca de símbolos que reforçam a questão de gênero não se limitou à gramática, mas se estendeu ao entorno imediato de Dilma: do ministério com nove Pastas ocupadas por mulheres até às policiais que fazem sua segurança. Não é pouco o fato de Dilma ter destacado a sua condição na primeira frase de seu discurso inaugural: "Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher. Sinto uma imensa honra por essa escolha do povo brasileiro e sei do significado histórico desta decisão", disse. Discorre sobre o tema nos quatro parágrafos seguintes e só então afirma que irá consolidar conquistas do antecessor.
"Depois de uma campanha fria, em que havia apenas um apelo racional para o voto em Dilma, que era a defesa da continuidade, era necessário agora colocar um pouco de emoção para gerar empatia com a opinião pública" , interpreta outro especialista em pesquisas, o cientista político Marcos Coimbra, do instituto Vox Populi.
Sobre o "significado histórico" da posse de uma presidente tudo indica que não será pequeno. Para feministas, poderá ter o poder de uma revolução nas mentes. "A presença dela na Presidência transforma a formação da representação social da mulher. O imaginário social muda", avalia a historiadora Tânia Navarro-Swain, professora aposentada da UnB que criou o primeiro mestrado e doutorado em estudos feministas do país. Segundo a professora, uma presidente desestabiliza a vinculação da mulher com o espaço privado da sociedade e do homem com o espaço público.
A professora relembra uma famosa frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, mas torna-se uma". "Existe uma construção social do ser, que no Brasil associa o feminino com a fragilidade, a inconsistência, a irracionalidade. Dilma quebra esta imagem. Até a voz dela é impositiva, de mando", disse. A historiadora não mostra o mesmo entusiasmo em relação ao ministério montado por ela. "São nove ministras, mas com exceção de Miriam Belchior, no Planejamento, as demais estão confinadas a áreas laterais da administração, usualmente identificadas com o feminismo, como o Desenvolvimento Social e a Cultura, ou então em Pastas totalmente irrelevantes, como Pesca". Neste ponto, aponta a professora, não há diferenças entre o governo de Dilma e o de seu antecessor. A própria Dilma foi a única ministra com poder efetivo na administração de Lula.
Descendo à questão pragmática da manutenção da popularidade, a perspectiva internacional mostra que o encantamento da opinião com a mandatária mulher dura pouco. Ministra da Defesa no governo de Ricardo Lagos, a chilena Michelle Bachelet se viu em meio a uma crise que comprometeu sua imagem poucos meses depois da posse, ao enfrentar protestos de estudantes secundaristas, em 2006. Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner começa a recuperar sua popularidade somente nas últimas semanas, após a comoção despertada pela morte do marido e antecessor. E é no momento em que começaram as dificuldades, que não tardará, que a questão de gênero pode deixar de ser um trunfo, ou até mesmo pesar contra. "Não há dúvida que um insucesso da sua administração será associado ao fato de ela ser mulher", opina Tânia Navarro.
sábado, 1 de janeiro de 2011
a história das mães
Além das histórias descritas abaixo, publicadas no Valor no dia 30, há uma outra, que só soube depois da publicação: Jânio era tão fascinado pela mãe que pegou um sapato de salto alto de dona Leonor, depois do falecimento dela, e o preencheu com uma solda de metal, fazendo uma espécie de peso de papel. Usava o objeto em sua escrivaninha. Quem relatou a homenagem foi a historiadora Maria Vitória Benevides, ao relembrar um encontro que teve com o ex-presidente para uma pesquisa acadêmica que fazia. O caso está contado no livro de Ricardo Arnt sobre o ex-presidente.
Alvorada terá presença de mãe depois de 50 anos
Cesar Felício De Belo Horizonte
30/12/2010
A dona de casa Dilma Jane da Silva Rousseff, 86 anos, será a primeira mãe de um governante a morar na residência presidencial desde 1961, quando Jânio Quadros morou por sete meses com a mulher, Eloá, a filha, Dirce, e a mãe, Leonor, no Palácio da Alvorada. À época, Dilma Silva ainda não havia enviuvado do búlgaro naturalizado Pedro Rousseff e , conforme disse em entrevistas, jamais imaginara que a menina de então catorze anos incompletos chegaria a tal posição. A mãe da presidente Dilma Rousseff deixou a casa no Jardim São Luiz, o melhor bairro na região da Lagoa da Pampulha, no norte de Belo Horizonte, em meados de dezembro. A ampla residência só será usada em ocasiões eventuais, de visita à cidade em que a filha nasceu e em que morou por quase 70 anos.
A mãe da presidente declarou logo após a vitória da filha que não deverá exercer papel algum em Brasília, o que tem sido a regra na história republicana, em que as primeiras-damas é que são encarregadas de cumprirem certos ritos cerimoniais e tarefas assistenciais. A convivência de Dilma Rousseff com a mãe foi entrecortada. A presidente eleita saiu de casa antes de completar 20 anos, quando se casou com Claudio Galeno, seu primeiro marido, e passou a militar na luta armada. Dilma Jane voltaria a encontrar a filha entre 1970 e 1973 , nas visitas que fez à filha na prisão , em São Paulo. Em entrevista ao jornal "O Globo", a mãe da presidente relembrou aquele período como um "calvário": dividia-se entre as visitas semanais a Dilma, para quem levava queijos e livros, e os cuidados com a filha caçula, Zana, que adoeceu e morreu de infecção hospitalar com apenas 25 anos, em 1976. Ouviu as histórias das torturas que a filha sofreu, mas disse em entrevistas ter aprendido a conter emoções: "chorar não adianta", comentou em entrevista à TV Globo. Segundo o futuro ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel declarou em entrevista à revista "Marie Claire", durante a prisão da filha, Dilma Jane foi convertida do catolicismo para o protestantismo pelo pai de Pimentel, que era pastor metodista.
Chegaram ao poder com as mães vivas os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Jânio, José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Exceto o caso de Jânio, em todos os demais as mães permaneceram longe do palácio presidencial. Somente dona Leda Collor de Mello teve um papel protagonista durante a presidência do filho, quando em 1992 tentou interceder por um acordo entre o então presidente e seu irmão, Pedro Collor. Diretor do jornal "Gazeta de Alagoas", Pedro Collor ameaçava denunciar um esquema de corrupção liderado pelo tesoureiro do irmão na campanha presidencial, Paulo César Farias, o PC, ao perceber que havia uma operação em curso para prejudicar seus negócios.
Controladora da holding familiar, dona Leda não conseguiu fazer Pedro e Fernando reatarem. A crise doméstica e política colaborou para que seus problemas cardíacos se agravassem até um colapso em setembro de 1992, durante o início do processo de impeachment do filho. Inconsciente a apartir de então, dona Leda morreu em fevereiro de 1995.
O mesmo ano em que o filho de dona Leda perdeu o cargo de presidente foi definido pelo seu sucessor, Itamar Franco, como "um ano muito triste". A mãe de Itamar, Itália Cautiero, morreu em dezembro, vinte dias antes da posse definitiva do filho na Presidência. Havia passado os últimos seis anos de vida inconsciente, em razão de um derrame cerebral, mas sua morte desestabilizou o filho, que trancou-se por dias em Juiz de Fora em meio a uma crise governamental, que culminaria naquele mês com a troca do ministro da Fazenda. O pai de Itamar morreu ainda durante a gravidez da mãe, e Itália Cautiero vendia marmita para criar sozinha os filhos, nos anos 30.
A mãe de Getúlio, Cândida Vargas, ficou ao lado do marido Manoel Vargas em São Borja até morrer, em 1936, quando o filho já exercia a Presidência no Rio há seis anos. Obscurecida pela presença do esposo patriarca, dona Cândida não teve para Getúlio a importância central que a professora Júlia Kubitscheck terminou por exercer sobre o filho Juscelino. Viúva desde quando o futuro presidente tinha apenas dois anos e em meio a uma grande escassez de recursos, dona Júlia fazia com que o filho assistisse a todas as suas aulas, de manhã e de tarde, por não ter com quem deixá-lo. Mais tarde, empenhou seus bens para que JK pudesse estudar medicina em Belo Horizonte. O antigo presidente se referiu à Júlia como "minha mãe e mestra" ao dar um depoimento ao centro de documentação da Fundação Getúlio Vargas, um mês antes de morrer,em 1976. Dona Júlia morreu em Belo Horizonte aos 98 anos, em 1971, e em sua velhice conviveu mais com outros familiares que não Juscelino. Esteve presente na inauguração de Brasília, em 1960.
Relatos mostram que Leonor Quadros teve ativa participação nas campanhas do filho em São Paulo nos anos 50, mas foi apenas uma expectadora de sua rápida Presidência. Estava no Alvorada quando o filho renunciou, em 25 de agosto, e o acompanhou na viagem por navio à Europa, logo a seguir. A de perfil mais discreto foi a mãe de Sarney, dona Kiola, que permaneceu recolhida no Maranhão durante todo seu governo. Falecida em 2004, há apenas um registro de alguma interferência sua na longa carreira política do filho: nos anos 90, teria pedido para Sarney dificultar a aprovação da reforma da Previdência do governo Fernando Henrique.
Alvorada terá presença de mãe depois de 50 anos
Cesar Felício De Belo Horizonte
30/12/2010
A dona de casa Dilma Jane da Silva Rousseff, 86 anos, será a primeira mãe de um governante a morar na residência presidencial desde 1961, quando Jânio Quadros morou por sete meses com a mulher, Eloá, a filha, Dirce, e a mãe, Leonor, no Palácio da Alvorada. À época, Dilma Silva ainda não havia enviuvado do búlgaro naturalizado Pedro Rousseff e , conforme disse em entrevistas, jamais imaginara que a menina de então catorze anos incompletos chegaria a tal posição. A mãe da presidente Dilma Rousseff deixou a casa no Jardim São Luiz, o melhor bairro na região da Lagoa da Pampulha, no norte de Belo Horizonte, em meados de dezembro. A ampla residência só será usada em ocasiões eventuais, de visita à cidade em que a filha nasceu e em que morou por quase 70 anos.
A mãe da presidente declarou logo após a vitória da filha que não deverá exercer papel algum em Brasília, o que tem sido a regra na história republicana, em que as primeiras-damas é que são encarregadas de cumprirem certos ritos cerimoniais e tarefas assistenciais. A convivência de Dilma Rousseff com a mãe foi entrecortada. A presidente eleita saiu de casa antes de completar 20 anos, quando se casou com Claudio Galeno, seu primeiro marido, e passou a militar na luta armada. Dilma Jane voltaria a encontrar a filha entre 1970 e 1973 , nas visitas que fez à filha na prisão , em São Paulo. Em entrevista ao jornal "O Globo", a mãe da presidente relembrou aquele período como um "calvário": dividia-se entre as visitas semanais a Dilma, para quem levava queijos e livros, e os cuidados com a filha caçula, Zana, que adoeceu e morreu de infecção hospitalar com apenas 25 anos, em 1976. Ouviu as histórias das torturas que a filha sofreu, mas disse em entrevistas ter aprendido a conter emoções: "chorar não adianta", comentou em entrevista à TV Globo. Segundo o futuro ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel declarou em entrevista à revista "Marie Claire", durante a prisão da filha, Dilma Jane foi convertida do catolicismo para o protestantismo pelo pai de Pimentel, que era pastor metodista.
Chegaram ao poder com as mães vivas os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Jânio, José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Exceto o caso de Jânio, em todos os demais as mães permaneceram longe do palácio presidencial. Somente dona Leda Collor de Mello teve um papel protagonista durante a presidência do filho, quando em 1992 tentou interceder por um acordo entre o então presidente e seu irmão, Pedro Collor. Diretor do jornal "Gazeta de Alagoas", Pedro Collor ameaçava denunciar um esquema de corrupção liderado pelo tesoureiro do irmão na campanha presidencial, Paulo César Farias, o PC, ao perceber que havia uma operação em curso para prejudicar seus negócios.
Controladora da holding familiar, dona Leda não conseguiu fazer Pedro e Fernando reatarem. A crise doméstica e política colaborou para que seus problemas cardíacos se agravassem até um colapso em setembro de 1992, durante o início do processo de impeachment do filho. Inconsciente a apartir de então, dona Leda morreu em fevereiro de 1995.
O mesmo ano em que o filho de dona Leda perdeu o cargo de presidente foi definido pelo seu sucessor, Itamar Franco, como "um ano muito triste". A mãe de Itamar, Itália Cautiero, morreu em dezembro, vinte dias antes da posse definitiva do filho na Presidência. Havia passado os últimos seis anos de vida inconsciente, em razão de um derrame cerebral, mas sua morte desestabilizou o filho, que trancou-se por dias em Juiz de Fora em meio a uma crise governamental, que culminaria naquele mês com a troca do ministro da Fazenda. O pai de Itamar morreu ainda durante a gravidez da mãe, e Itália Cautiero vendia marmita para criar sozinha os filhos, nos anos 30.
A mãe de Getúlio, Cândida Vargas, ficou ao lado do marido Manoel Vargas em São Borja até morrer, em 1936, quando o filho já exercia a Presidência no Rio há seis anos. Obscurecida pela presença do esposo patriarca, dona Cândida não teve para Getúlio a importância central que a professora Júlia Kubitscheck terminou por exercer sobre o filho Juscelino. Viúva desde quando o futuro presidente tinha apenas dois anos e em meio a uma grande escassez de recursos, dona Júlia fazia com que o filho assistisse a todas as suas aulas, de manhã e de tarde, por não ter com quem deixá-lo. Mais tarde, empenhou seus bens para que JK pudesse estudar medicina em Belo Horizonte. O antigo presidente se referiu à Júlia como "minha mãe e mestra" ao dar um depoimento ao centro de documentação da Fundação Getúlio Vargas, um mês antes de morrer,em 1976. Dona Júlia morreu em Belo Horizonte aos 98 anos, em 1971, e em sua velhice conviveu mais com outros familiares que não Juscelino. Esteve presente na inauguração de Brasília, em 1960.
Relatos mostram que Leonor Quadros teve ativa participação nas campanhas do filho em São Paulo nos anos 50, mas foi apenas uma expectadora de sua rápida Presidência. Estava no Alvorada quando o filho renunciou, em 25 de agosto, e o acompanhou na viagem por navio à Europa, logo a seguir. A de perfil mais discreto foi a mãe de Sarney, dona Kiola, que permaneceu recolhida no Maranhão durante todo seu governo. Falecida em 2004, há apenas um registro de alguma interferência sua na longa carreira política do filho: nos anos 90, teria pedido para Sarney dificultar a aprovação da reforma da Previdência do governo Fernando Henrique.
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