Salvo raras exceções, empresário procura estar perto da perspectiva de poder. Na Argentina, retórica peronista à parte, não é diferente. A matéria abaixo saiu no dia 1° de setembro, no Valor. O jantar mencionado no texto reuniu o dobro do público projetado.
A presidente da Argentina Cristina Kirchner e o meio patronal aceleraram a aproximação a poucas semanas do início oficial da campanha presidencial deste ano. A eleição é em outubro. A presidente será homenageada em jantar para mil pessoas promovido amanhã pela União Industrial Argentina (UIA), no Dia da Indústria. O evento vai ocorrer em um palco governista: as centenas de empresários irão se deslocar até a periferia de Buenos Aires, onde o governo organiza desde julho a Tecnópolis, uma mostra de realizações científicas e tecnológicas do país.
A celebração acontecerá seis dias depois de Cristina elevar o salário mínimo de 1,8 mil para 2,3 mil pesos argentinos. O aumento, de 25%, mantém o país no teto das remunerações desse tipo na América Latina, com um valor próximo a US$ 600, mas foi uma derrota para a poderosa CGT. A central sindical, junto com a menor e mais radical CTA, reivindicava reajuste de 40%. O reajuste não garante ganhos reais aos trabalhadores, já que a inflação anual no país está entre 20% e 25%. E ficou próximo dos 18% sugeridos pelas entidades patronais.
Logo após as prévias partidárias de 14 de agosto, em que Cristina surpreendeu ao conseguir 50% dos votos, sinalizando vitória em primeiro turno em outubro, a presidente fez declarações conciliadoras, dizendo que em um cenário de crise internacional não iria tensionar as relações sociais e que iria "governar para todos". O presidente da UIA, Ignacio Mendiguren, festejou a mudança de tom e afirmou que, privadamente, já havia tempo que o ânimo da presidente estava longe da confrontação.
"A prévia foi fundamental para mover os empresários para uma aproximação, porque sinalizou com mais quatro anos de convivência com este governo. Mas partiram da Casa Rosada dois gestos: a atenuação do rigor na política cambial, que permitiu o peso desvalorizar cerca de 5% nas últimas semanas e reduziu perda de competitividade do setor exportador, e o aumento moderado do salário mínimo, que beneficia as empresas pequenas e médias e serve como referencial de reajustes das categorias organizadas no próximo ano", comentou o economista Ricardo Delgado, sócio da empresa de consultoria Analytica.
A moderação de Cristina pode representar alguma turbulência na relação com setores empresariais do Brasil. Segundo disse Mendiguren ontem, "o Brasil está compensando defasagens cambiais com medidas que, na prática, podem ampliar a vantagem brasileira na relação bilateral". Essa percepção sugere pressão sobre o governo por mais protecionismo.
A lista de contenciosos entre o grupo kirchnerista e o empresariado é extensa e foi aberta no primeiro ano de governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, quando ocorreram reestatizações. O último atrito de grande porte ocorreu em abril, quando o governo decidiu nomear diretores para as empresas que têm parte de seu controle acionário em mãos de fundos de pensão estatizados.
O ímpeto oposicionista do meio industrial começou a arrefecer diante de políticas governamentais para manter a economia aquecida, no momento em que eclodiu a crise econômica global. Entre estas medidas, estão iniciativas de fomento à produção, como o uso dos recursos do fundo Bicentenário, fonte pública de financiamentos que atende desde pequenos produtores até multinacionais como Fiat, Pirelli e Peugeot Citroën.
A aproximação entre o governo e o meio industrial não é uniforme. "Cristina se aproxima da UIA, onde o peso de estabelecimentos pequenos e médios e de base regional é expressivo. Com a Associação Empresária Argentina (AEA), onde estão presentes grandes grupos de diversos setores, o diálogo continua difícil. Mas mesmo lá já foram lançadas pontes", observou o diretor de uma multinacional.
A AEA tem como um de seus vice-presidentes Hector Magnetto, do grupo de mídia Clarín, a quem o governo argentino tenta debilitar de diversas maneiras. Mas vários de seus integrantes foram chamados a compor o grupo empresarial binacional com o Brasil, que servirá como uma câmara de consultas dos dois governos e que foi criado no último encontro presidencial entre Cristina e a presidente brasileira Dilma Rousseff.
Mesmo no setor rural, mais radical e principal fator da derrota do governo na eleição legislativa de 2009, Cristina procurou avançar. Neste segmento, a divisão do meio patronal é percebida com maior clareza. Embora o presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcatti, permaneça um duro crítico do governo, Eduardo Buzzi, dirigente da Federação Agrária Argentina (FAA), que representa pequenos e médios proprietários rurais, passou a negociar com Cristina. Em nota, Buzzi afirmou na ocasião que "nos últimos tempos, parece que existem alguns gestos isolados do Executivo tendentes a melhorar algumas situações específicas de urgência de alguns produtores agropecuários".
Logo após as prévia, Cristina prometeu trabalhar para acelerar no Congresso a tramitação do projeto que limita a venda de terras na Argentina a estrangeiros, uma bandeira da FAA. O trabalho da presidente de dividir as lideranças no campo é facilitado pelas condições excepcionais de mercado da soja, principal commodity argentina. Segundo dados divulgados no domingo, o valor das exportações primárias do país subiu 37% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período no ano passado. "As cidades do interior estão nadando em ouro, e isso tende a suavizar as posições", disse o cientista político Diego Raus, da Universidade de Buenos Aires.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
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