Sob a égide de Pessoa, a economista no poder
Valor Econômico, 12/11/2010
Sempre lembrada como egressa da luta armada, não são muitos os que ressaltam outro traço definidor da presidente eleita Dilma Vana Rousseff, que a distingue dos seus antecessores imediatos e da nuvem de bacharéis e militares que comandaram a trajetória republicana do Brasil: a única nascida em Belo Horizonte a chegar à Presidência será também a primeira economista a ocupar o cargo.
Convém cautela antes de se concluir que a escolha profissional de Dilma é apenas uma curiosidade de sua biografia, como é no caso de Fernando Collor. Formado em economia em 1971, o hoje senador por Alagoas provavelmente não dedicou sequer quinze minutos de sua vida a exercer a carreira. Foi no exercício da Ciência Econômica que Dilma fez a transição em sua vida pública de mulher de um deputado do PDT gaúcho para tecnocrata ouvida com atenção pelo então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2001, na reunião de assessores petistas que discutiu o apagão de energia no governo Fernando Henrique.
Em um evento empresarial recente em Belo Horizonte, o economista-chefe do HSBC, André Loes, observou o alcance que a particularidade pode ter: "Minha impressão é que Dilma gosta mais de intervenção estatal do que de Estado grande propriamente dito. Tecnocratas normalmente não tem perfil gastador".
A produção acadêmica de Dilma, que só pôde terminar a graduação em 1977 e não concluiu mestrado ou doutorado, é pequena, mas corrobora a aposta de Loes. Iniciou-se quatro anos depois da formatura, com um ensaio sobre o desenvolvimento capitalista do Rio Grande do Sul, apresentado em um Congresso de Economistas do Terceiro Mundo, em Havana, aberto por Fidel Castro. Ganhou mais consistência dez anos mais tarde, quando Dilma esteve no comando da Fundação de Economia e Estatística do Estado, inicialmente assinando seus artigos como "Dilma Linhares", o sobrenome de seu primeiro marido.
Defesa de Estado regulador desde a origem
Ao analisar as privatizações do setor elétrico no Chile e na Argentina, em artigo publicado em 1995, Dilma expôs algumas de suas ideias sobre o papel do Estado na economia. "O resultado global da privatização aponta para o descalabro", sentenciou. Mas o que incomodava a economista não era a privatização em si feita no setor elétrico, e sim questões de forma.
Dilma alertava para os riscos de se substituir um monopólio estatal por monopólios privados. "Tanto o Estado pode estar interessado em controlar uma indústria privada, como também, o que é até mais usual, uma indústria privada pode estar interessada em manipular o Estado para seu próprio benefício econômico. A ideia que atribui à qualidade privada da propriedade o condão de construir uma relação de prudente distância entre o governo e a referida indústria, é, sem dúvida, no melhor dos casos, ingênua", escreveu.
Para Dilma, os mecanismos de pulverização de capital adotados no Chile, como a venda de ações em bolsa e a entrega de participação acionária a empregados e a fundos de pensões não representou mais que uma balela. "Na verdade, o capitalismo popular consistiu na criação e no fortalecimento de um significativo mercado financeiro e acionário, mantendo-se a propriedade concentrada em poucas mãos". Considerava o pecado original de todo o processo a ausência de mecanismos fortes de intervenção estatal. "A atividade reguladora do Estado não podia ter sido debilitada, como de fato ocorreu, mas sim, deveria ter sido reforçada", escreveu, fazendo a cobrança: "Que o Estado empresário ao desaparecer leve consigo o Estado regular, não pode ser explicado".
Em seus artigos na revista da fundação, a economista anteviu, dois anos antes, o solavanco da desvalorização brusca do real em 1999, ao escrever sobre os três anos do plano de estabilização econômica e demonstrou impaciência com a estratégia gradualista de correção cambial que o então presidente do Banco Central, Gustavo Franco, executava em 1997. "Seria aconselhável uma certa cautela diante dessa ampliação da liquidez internacional", escreveu, referindo-se ao afluxo de capital especulativo que o Brasil recebia, "seja para dar maior eficácia à política monetária internamente, seja para minimizar os prejuízos inevitáveis de uma contração da liquidez e de uma fuga de capitais, está na ordem do dia o alongamento dos prazos das obrigações externas e internas do país", propôs Dilma.
A economista se exasperava com a tendência da equipe econômica de então de lançar títulos públicos de vencimento mais longo no mercado internacional indexados pela variação cambial. "A maior probabilidade é que este alongamento se torne sinônimo dolarização da dívida pública e privada", afirmou.
Dilma reconheceu o papel das privatizações no primeiro mandato de Fernando Henrique para estabilizar momentaneamente a economia. "Sem dúvida, o programa de privatização assegura tanto um elevado ingresso de investimento direto como um montante significativo de reservas". Mas ressaltou que as desestatizações não seriam dique para um movimento de evasão de investidores. E soube precisar em que momento haveria esta desestabilização, ainda que os sinais de crise já fossem evidentes. "O último semestre de 1997 e o ano seguinte estarão marcados pela expectativa de um ataque especulativo contra o real", afirmou, ao concluir o texto "Política monetária e sistema financeiro: a elevação das taxas de juros e a concentração bancária".
Em seus textos acadêmicos, em que abusa da locução "no que se refere" para iniciar seus parágrafos, a economista que disse na entrevista ao "Jornal Nacional" jamais ter imaginado que seria um dia presidente da República só se permite a um momento de poesia: ao escolher versos de Fernando Pessoa como epígrafe para o ensaio sobre as privatizações do Chile e da Argentina, que levam a pensar sobre o sentido das grandes transformações. "Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade nem veio e nem se foi. O erro mudou".
terça-feira, 23 de novembro de 2010
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