No Valor Econômico, 26/11/2010
Os tanques ingressando em cena ontem no Rio de Janeiro podem ser o símbolo de uma inflexão da crise de segurança na cidade. O sociólogo Claudio Beato, colaborador das administrações tucanas em Minas Gerais, e o juiz aposentado Walter Maierovitch, integrante do governo Fernando Henrique que tornou-se um crítico ácido das políticas de segurança tanto do PSDB quanto do PT, divergem em muitas coisas, mas convergem no essencial: se o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) resistir à tentação de fazer um pacto informal com o crime organizado, precisará também se acautelar contra a belicização do problema.Uma guerra contra o crime organizado pode ser perdida, como está ocorrendo no México, onde o foco da ação é militar. Aliás, são abundantes os exemplos internacionais da pouca eficácia de tanques em conflitos urbanos. Ou pode ser razoavelmente bem sucedida, como se dá na Itália, onde se investiu em inteligência policial, legislação penal e a vigilância sobre as penitenciárias, . No caso do Rio, já se sai com a enorme desvantagem de não se ter o governo federal no centro das ações, o que coloca como primeira missão para o governador pressionar Brasília a participar de um problema impossível de ser tratado no âmbito estadual estrito.A militarização do combate aos cartéis no México, com a presença de 50 mil soldados do exército agindo em lugar da polícia, está na matriz do banho de sangue promovido por narcotraficantes naquele País. No México atual, existem lugares em que jornalistas só saem para trabalhar em equipe como medida de auto-preservação e o governo Felipe Calderón convive com pessoas sendo chacinadas em cemitérios, ao enterrarem seus mortos, que não são poucos: segundo expôs a blogueira Judith Torrea em um congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo ( Abraji) em janeiro, havia em Ciudad Juarez, município de 1,3 milhão de habitantes, 10 mil casas comerciais abandonadas e 27 assassinatos diários, em média.Felipe Calderón declarou sua guerra no primeiro dia em que assumiu seu governo, em 2006. A oposição, cética, apontou um empenho seletivo no combate aos cartéis: a ofensiva visaria a debilitar o cartel de Ciudad Juarez, ligado ao PRI, em detrimento do cartel de Sinaloa, que teria vinculações com o situacionista PAN. Mas fatos recentes enfraqueceram esta hipótese, como a morte do capo "Nacho" Coronel em combate com os militares e apreensões recordes de maconha do cartel supostamente protegido pelo governo.Faltou ao México uma política de controle social nos territórios reconquistados ao crime, como se propõem fazer as UPPs. Mas a reação das facções criminosas à disposição do governo para o confronto levaram à perenização do conflito, um caminho que o Rio se arrisca a seguir, até porque o problema fluminense se divide em duas camadas: a do narcotráfico de base territorial, do Comando Vermelho e dos Amigos dos Amigos (ADA), com suas cúpulas instaladas dentro das cadeias, que está no centro dos acontecimentos dos últimos dias, e a das milícias que ajudaram a expulsar o primeiro grupo dos morros."As milícias por enquanto não estão sendo tocadas. Estes grupos possuem um enraizamento na polícia e na política muito maior que o das facções, que estão acuadas. Quando forem combatidas, levarão o nível de conflito a uma estrutura muito mais alta", comentou Beato, que coordena o CRISP, o núcleo de estudos de segurança pública da UFMG. Na opinião de Beato, comete-se no Rio um erro de estratégia simétrico ao do México. Naquele País, Calderón teria se equivocado ao querer atacar os cartéis e reformar o aparelho policial ao mesmo tempo. " Uma das mais célebres maneiras de não fazer nada é se propor a fazer tudo", comentou. No Rio, Cabral pecaria pelo extremo gradualismo: "UPP não substitui uma política de segurança. E neste sentido o governo do Rio não toma iniciativas. É apenas reativo. Há outras maneiras de agir além de botar tanques nos morros", disse.Possivelmente um dos mais atuantes especialistas brasileiros em crime organizado internacional, o ex-secretário nacional Antidrogas Walter Maierovitch, lembra que um dos chefões sicilianos, Bernardo Provenzano, conseguiu ficar 43 foragido da Justiça sem jamais sair da Sicília. "Foi a prova mais cabal de como bandos de matriz mafiosa tinham o controle territorial e social das áreas em que atuavam", comentou. Tanto em Nápoles quanto no Rio, o crime se divide em uma miríade de facções que se articulam no momento em que são acuadas. Esta demarcação territorial, em sua opinião, aproxima o Rio do sul da Itália e o afasta do México.Desde 1982, o País investiu na mudança de regras do sistema prisional e penal, e a desunião entre os grupos criminosos fomentou delações que culminaram na condenação de 360 mafiosos em 1987. Muitos magistrados e agentes do aparelho institucional do Estado, como Dalla Chiesa, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, foram fuzilados ou voaram pelos ares em atentados promovidos em represália pelas quadrilhas.O resultado final, segundo Maierovitch, é que tornou-se inviável a comunicação entre as bases criminosas dentro e fora dos presídios, além da fonte financeira ter diminuído drasticamente. "Nos últimos dez anos, as divisões especializadas da Polícia e da Justiça desfalcaram o patrimônio da máfia em 3 bilhões de euros. No Brasil apreendem-se drogas e armas sem dinheiro e todo mundo acha normal", comentou Maierovitch.Não deixa de ser curiosa a recorrente pregação do presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso contra o "pensamento único" que estaria grassando no país em favor do lulismo. Na segunda-feira, em um seminário em Belo Horizonte, o único presidente duas vezes eleito com maioria absoluta dos votos, detentor, em seu primeiro mandato, da mais sólida estrutura política que um governante democrático já teve no país, chegou a afirmar que o Brasil vive um momento de "extrema monopolização do poder". O quadro assustador que Fernando Henrique descreve para seu partido e seus aliados assemelha-se às análises que transitavam na oposição a seu governo nos anos 90. Também ali, na esteira de derrotas eleitorais, enxergou-se um governo de maioria acachapante no Congresso, com mídia dócil ou de baixa repercussão, e movimentos sociais cooptados ou impotentes. O PSDB chegou a ser associado à Gestapo. Nos anos 80, foi a vez do PMDB ser comparado ao PRI mexicano após as eleições de 1986, marcadas pelo Plano Cruzado. Em todos os casos, a tese da hegemonia não sobreviveu à eleição seguinte
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Dilma: o erro mudou?
Sob a égide de Pessoa, a economista no poder
Valor Econômico, 12/11/2010
Sempre lembrada como egressa da luta armada, não são muitos os que ressaltam outro traço definidor da presidente eleita Dilma Vana Rousseff, que a distingue dos seus antecessores imediatos e da nuvem de bacharéis e militares que comandaram a trajetória republicana do Brasil: a única nascida em Belo Horizonte a chegar à Presidência será também a primeira economista a ocupar o cargo.
Convém cautela antes de se concluir que a escolha profissional de Dilma é apenas uma curiosidade de sua biografia, como é no caso de Fernando Collor. Formado em economia em 1971, o hoje senador por Alagoas provavelmente não dedicou sequer quinze minutos de sua vida a exercer a carreira. Foi no exercício da Ciência Econômica que Dilma fez a transição em sua vida pública de mulher de um deputado do PDT gaúcho para tecnocrata ouvida com atenção pelo então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2001, na reunião de assessores petistas que discutiu o apagão de energia no governo Fernando Henrique.
Em um evento empresarial recente em Belo Horizonte, o economista-chefe do HSBC, André Loes, observou o alcance que a particularidade pode ter: "Minha impressão é que Dilma gosta mais de intervenção estatal do que de Estado grande propriamente dito. Tecnocratas normalmente não tem perfil gastador".
A produção acadêmica de Dilma, que só pôde terminar a graduação em 1977 e não concluiu mestrado ou doutorado, é pequena, mas corrobora a aposta de Loes. Iniciou-se quatro anos depois da formatura, com um ensaio sobre o desenvolvimento capitalista do Rio Grande do Sul, apresentado em um Congresso de Economistas do Terceiro Mundo, em Havana, aberto por Fidel Castro. Ganhou mais consistência dez anos mais tarde, quando Dilma esteve no comando da Fundação de Economia e Estatística do Estado, inicialmente assinando seus artigos como "Dilma Linhares", o sobrenome de seu primeiro marido.
Defesa de Estado regulador desde a origem
Ao analisar as privatizações do setor elétrico no Chile e na Argentina, em artigo publicado em 1995, Dilma expôs algumas de suas ideias sobre o papel do Estado na economia. "O resultado global da privatização aponta para o descalabro", sentenciou. Mas o que incomodava a economista não era a privatização em si feita no setor elétrico, e sim questões de forma.
Dilma alertava para os riscos de se substituir um monopólio estatal por monopólios privados. "Tanto o Estado pode estar interessado em controlar uma indústria privada, como também, o que é até mais usual, uma indústria privada pode estar interessada em manipular o Estado para seu próprio benefício econômico. A ideia que atribui à qualidade privada da propriedade o condão de construir uma relação de prudente distância entre o governo e a referida indústria, é, sem dúvida, no melhor dos casos, ingênua", escreveu.
Para Dilma, os mecanismos de pulverização de capital adotados no Chile, como a venda de ações em bolsa e a entrega de participação acionária a empregados e a fundos de pensões não representou mais que uma balela. "Na verdade, o capitalismo popular consistiu na criação e no fortalecimento de um significativo mercado financeiro e acionário, mantendo-se a propriedade concentrada em poucas mãos". Considerava o pecado original de todo o processo a ausência de mecanismos fortes de intervenção estatal. "A atividade reguladora do Estado não podia ter sido debilitada, como de fato ocorreu, mas sim, deveria ter sido reforçada", escreveu, fazendo a cobrança: "Que o Estado empresário ao desaparecer leve consigo o Estado regular, não pode ser explicado".
Em seus artigos na revista da fundação, a economista anteviu, dois anos antes, o solavanco da desvalorização brusca do real em 1999, ao escrever sobre os três anos do plano de estabilização econômica e demonstrou impaciência com a estratégia gradualista de correção cambial que o então presidente do Banco Central, Gustavo Franco, executava em 1997. "Seria aconselhável uma certa cautela diante dessa ampliação da liquidez internacional", escreveu, referindo-se ao afluxo de capital especulativo que o Brasil recebia, "seja para dar maior eficácia à política monetária internamente, seja para minimizar os prejuízos inevitáveis de uma contração da liquidez e de uma fuga de capitais, está na ordem do dia o alongamento dos prazos das obrigações externas e internas do país", propôs Dilma.
A economista se exasperava com a tendência da equipe econômica de então de lançar títulos públicos de vencimento mais longo no mercado internacional indexados pela variação cambial. "A maior probabilidade é que este alongamento se torne sinônimo dolarização da dívida pública e privada", afirmou.
Dilma reconheceu o papel das privatizações no primeiro mandato de Fernando Henrique para estabilizar momentaneamente a economia. "Sem dúvida, o programa de privatização assegura tanto um elevado ingresso de investimento direto como um montante significativo de reservas". Mas ressaltou que as desestatizações não seriam dique para um movimento de evasão de investidores. E soube precisar em que momento haveria esta desestabilização, ainda que os sinais de crise já fossem evidentes. "O último semestre de 1997 e o ano seguinte estarão marcados pela expectativa de um ataque especulativo contra o real", afirmou, ao concluir o texto "Política monetária e sistema financeiro: a elevação das taxas de juros e a concentração bancária".
Em seus textos acadêmicos, em que abusa da locução "no que se refere" para iniciar seus parágrafos, a economista que disse na entrevista ao "Jornal Nacional" jamais ter imaginado que seria um dia presidente da República só se permite a um momento de poesia: ao escolher versos de Fernando Pessoa como epígrafe para o ensaio sobre as privatizações do Chile e da Argentina, que levam a pensar sobre o sentido das grandes transformações. "Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade nem veio e nem se foi. O erro mudou".
Valor Econômico, 12/11/2010
Sempre lembrada como egressa da luta armada, não são muitos os que ressaltam outro traço definidor da presidente eleita Dilma Vana Rousseff, que a distingue dos seus antecessores imediatos e da nuvem de bacharéis e militares que comandaram a trajetória republicana do Brasil: a única nascida em Belo Horizonte a chegar à Presidência será também a primeira economista a ocupar o cargo.
Convém cautela antes de se concluir que a escolha profissional de Dilma é apenas uma curiosidade de sua biografia, como é no caso de Fernando Collor. Formado em economia em 1971, o hoje senador por Alagoas provavelmente não dedicou sequer quinze minutos de sua vida a exercer a carreira. Foi no exercício da Ciência Econômica que Dilma fez a transição em sua vida pública de mulher de um deputado do PDT gaúcho para tecnocrata ouvida com atenção pelo então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2001, na reunião de assessores petistas que discutiu o apagão de energia no governo Fernando Henrique.
Em um evento empresarial recente em Belo Horizonte, o economista-chefe do HSBC, André Loes, observou o alcance que a particularidade pode ter: "Minha impressão é que Dilma gosta mais de intervenção estatal do que de Estado grande propriamente dito. Tecnocratas normalmente não tem perfil gastador".
A produção acadêmica de Dilma, que só pôde terminar a graduação em 1977 e não concluiu mestrado ou doutorado, é pequena, mas corrobora a aposta de Loes. Iniciou-se quatro anos depois da formatura, com um ensaio sobre o desenvolvimento capitalista do Rio Grande do Sul, apresentado em um Congresso de Economistas do Terceiro Mundo, em Havana, aberto por Fidel Castro. Ganhou mais consistência dez anos mais tarde, quando Dilma esteve no comando da Fundação de Economia e Estatística do Estado, inicialmente assinando seus artigos como "Dilma Linhares", o sobrenome de seu primeiro marido.
Defesa de Estado regulador desde a origem
Ao analisar as privatizações do setor elétrico no Chile e na Argentina, em artigo publicado em 1995, Dilma expôs algumas de suas ideias sobre o papel do Estado na economia. "O resultado global da privatização aponta para o descalabro", sentenciou. Mas o que incomodava a economista não era a privatização em si feita no setor elétrico, e sim questões de forma.
Dilma alertava para os riscos de se substituir um monopólio estatal por monopólios privados. "Tanto o Estado pode estar interessado em controlar uma indústria privada, como também, o que é até mais usual, uma indústria privada pode estar interessada em manipular o Estado para seu próprio benefício econômico. A ideia que atribui à qualidade privada da propriedade o condão de construir uma relação de prudente distância entre o governo e a referida indústria, é, sem dúvida, no melhor dos casos, ingênua", escreveu.
Para Dilma, os mecanismos de pulverização de capital adotados no Chile, como a venda de ações em bolsa e a entrega de participação acionária a empregados e a fundos de pensões não representou mais que uma balela. "Na verdade, o capitalismo popular consistiu na criação e no fortalecimento de um significativo mercado financeiro e acionário, mantendo-se a propriedade concentrada em poucas mãos". Considerava o pecado original de todo o processo a ausência de mecanismos fortes de intervenção estatal. "A atividade reguladora do Estado não podia ter sido debilitada, como de fato ocorreu, mas sim, deveria ter sido reforçada", escreveu, fazendo a cobrança: "Que o Estado empresário ao desaparecer leve consigo o Estado regular, não pode ser explicado".
Em seus artigos na revista da fundação, a economista anteviu, dois anos antes, o solavanco da desvalorização brusca do real em 1999, ao escrever sobre os três anos do plano de estabilização econômica e demonstrou impaciência com a estratégia gradualista de correção cambial que o então presidente do Banco Central, Gustavo Franco, executava em 1997. "Seria aconselhável uma certa cautela diante dessa ampliação da liquidez internacional", escreveu, referindo-se ao afluxo de capital especulativo que o Brasil recebia, "seja para dar maior eficácia à política monetária internamente, seja para minimizar os prejuízos inevitáveis de uma contração da liquidez e de uma fuga de capitais, está na ordem do dia o alongamento dos prazos das obrigações externas e internas do país", propôs Dilma.
A economista se exasperava com a tendência da equipe econômica de então de lançar títulos públicos de vencimento mais longo no mercado internacional indexados pela variação cambial. "A maior probabilidade é que este alongamento se torne sinônimo dolarização da dívida pública e privada", afirmou.
Dilma reconheceu o papel das privatizações no primeiro mandato de Fernando Henrique para estabilizar momentaneamente a economia. "Sem dúvida, o programa de privatização assegura tanto um elevado ingresso de investimento direto como um montante significativo de reservas". Mas ressaltou que as desestatizações não seriam dique para um movimento de evasão de investidores. E soube precisar em que momento haveria esta desestabilização, ainda que os sinais de crise já fossem evidentes. "O último semestre de 1997 e o ano seguinte estarão marcados pela expectativa de um ataque especulativo contra o real", afirmou, ao concluir o texto "Política monetária e sistema financeiro: a elevação das taxas de juros e a concentração bancária".
Em seus textos acadêmicos, em que abusa da locução "no que se refere" para iniciar seus parágrafos, a economista que disse na entrevista ao "Jornal Nacional" jamais ter imaginado que seria um dia presidente da República só se permite a um momento de poesia: ao escolher versos de Fernando Pessoa como epígrafe para o ensaio sobre as privatizações do Chile e da Argentina, que levam a pensar sobre o sentido das grandes transformações. "Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade nem veio e nem se foi. O erro mudou".
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
O ineditismo de 2010
Valor Econômico, 1/11/2010
Quantas vezes na história do Brasil houve uma sequência de dois presidentes democraticamente eleitos que cumpriram seus mandatos na integralidade? Nunca. Salvo alguma catástrofe, o primeiro caso será registrado na virada deste ano, com o fim do período presidencial de Lula. A extrema instabilidade brasileira é uma marca não genuinamente nacional, mas latino-americana.
No próximo ano, a mesma sequência poderá se dar também pela primeira vez na história da Argentina, caso Cristina Kirchner conclua seu mandato e não se reeleja. E em 2012 será inaugurada na história do México, se considerarmos consolidada a democracia naquele país apenas em 2000.
Em uma eleição marcada por ataques pessoais, palhaços deputados e "patéticos empates" no Supremo Tribunal Federal, como a eles se referiu o PMDB do Pará em nota oficial, é importante assinalar o ineditismo que indica um aprimoramento insuspeito, a julgar pelo debate dos últimos dias.
Uma piada circulou pela internet nos últimos dias em um blog satírico, o "Torre do Marfim": "A única certeza é que o Brasil estará em uma ditadura fascista a partir do próximo ano. Pelo menos é o que PT e PSDB garantem um em relação ao outro". Fora do universo da caricatura, pode-se apostar em um destino mais ameno para o país, que viria mesmo se Serra tivesse conseguido virar a eleição.
"Não estamos vivendo uma radicalização ideológica como a que o Brasil assistiu nos anos 30 e nos anos 60. O que existe agora é algo diferente, é a cristalização de identidades políticas. O Brasil caminha para um modelo próximo do americano, em que um grupo partidário não significa apenas um conjunto de políticas econômicas e sociais, mas também representa determinados conceitos nas questões tidas como de foro íntimo, como as comportamentais", opina o cientista político Amaury de Souza, da empresa de consultoria MCM, do Rio de Janeiro.
Para Amaury de Souza, a ascensão da nova classe média criou o ambiente para que a eleição tivesse uma pauta conservadora. "Está aumentando o contingente social de pessoas suscetíveis não apenas a um discurso de se preservar conquistas materiais, mas também manter valores morais e religiosos. Isto só ficou nítido no segundo turno", disse.
A própria fluidez das maiorias congressuais, em que nenhum partido conta com mais de 25% nas duas Casas, é um contrapeso a qualquer veleidade autoritária que Dilma possa vir a ter dentro de dois meses.
Trata-se de um exemplo curioso de como a incapacidade do Congresso em promover uma reforma política ganha contornos positivos. A literatura não é avara de exemplos de mudanças no sistema de eleição congressual que colaboraram para o reforço da autoridade do Executivo, seja no redesenho de distritos eleitorais, seja nas regras de composição das listas partidárias. Muito se fala na necessidade das maiorias estáveis no Congresso, mas a barganha dá garantias que a submissão elimina.
"Estamos entrando em uma fase de grande estabilização do ponto institucional, mas isto não deriva das coalizões eleitorais. Elas não irão se reproduzir no Congresso. Os partidos montam alianças algumas vezes vastíssimas, outras vezes bem restritas, mas no Legislativo o governo tem que negociar com interesses conflitantes da sociedade. Não teremos nenhum trator acachapante passando por cima de um legislador dócil", disse o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que nos anos 60 se notabilizou por escrever um livro um ano antes do golpe de 1964 em que apontava a ruptura institucional como iminente. "A tendência agora claramente é a da acomodação, exatamente porque a radicalização das eleições presidenciais não se expressou nem na dos deputados e dos senadores, nem na dos governadores", disse.
Para Wanderley Guilherme, a campanha mais agressiva desde 1989 começou a ocorrer por um fator externo a idiossincrasias petistas ou tucanas. "A Marina Silva foi o vetor meigo e suave pelo qual o obscurantismo latente na sociedade brasileira foi para o primeiro plano do debate eleitoral. Se ela tivesse ido para o segundo turno, estaríamos agora discutindo a proibição das pesquisas de células-tronco. Este tipo de pauta teve guarida na agenda dela", afirmou.
Para o futuro imediato, as questões de ordem moral devem voltar a perder substância. Saem menor das urnas o PSDB, o DEM e o PPS, mas a oposição a Dilma não se resume ao ambiente partidário nem se enfraquece na mesma proporção. Interesses transversais às barreiras da filiação, como o dos grupos de pressão dentro do Congresso, saberão se fazer ouvidos. E a presidente terá que lidar com um conjunto de governadores que se sentem seus credores, e não devedores, no processo eleitoral.
Quantas vezes na história do Brasil houve uma sequência de dois presidentes democraticamente eleitos que cumpriram seus mandatos na integralidade? Nunca. Salvo alguma catástrofe, o primeiro caso será registrado na virada deste ano, com o fim do período presidencial de Lula. A extrema instabilidade brasileira é uma marca não genuinamente nacional, mas latino-americana.
No próximo ano, a mesma sequência poderá se dar também pela primeira vez na história da Argentina, caso Cristina Kirchner conclua seu mandato e não se reeleja. E em 2012 será inaugurada na história do México, se considerarmos consolidada a democracia naquele país apenas em 2000.
Em uma eleição marcada por ataques pessoais, palhaços deputados e "patéticos empates" no Supremo Tribunal Federal, como a eles se referiu o PMDB do Pará em nota oficial, é importante assinalar o ineditismo que indica um aprimoramento insuspeito, a julgar pelo debate dos últimos dias.
Uma piada circulou pela internet nos últimos dias em um blog satírico, o "Torre do Marfim": "A única certeza é que o Brasil estará em uma ditadura fascista a partir do próximo ano. Pelo menos é o que PT e PSDB garantem um em relação ao outro". Fora do universo da caricatura, pode-se apostar em um destino mais ameno para o país, que viria mesmo se Serra tivesse conseguido virar a eleição.
"Não estamos vivendo uma radicalização ideológica como a que o Brasil assistiu nos anos 30 e nos anos 60. O que existe agora é algo diferente, é a cristalização de identidades políticas. O Brasil caminha para um modelo próximo do americano, em que um grupo partidário não significa apenas um conjunto de políticas econômicas e sociais, mas também representa determinados conceitos nas questões tidas como de foro íntimo, como as comportamentais", opina o cientista político Amaury de Souza, da empresa de consultoria MCM, do Rio de Janeiro.
Para Amaury de Souza, a ascensão da nova classe média criou o ambiente para que a eleição tivesse uma pauta conservadora. "Está aumentando o contingente social de pessoas suscetíveis não apenas a um discurso de se preservar conquistas materiais, mas também manter valores morais e religiosos. Isto só ficou nítido no segundo turno", disse.
A própria fluidez das maiorias congressuais, em que nenhum partido conta com mais de 25% nas duas Casas, é um contrapeso a qualquer veleidade autoritária que Dilma possa vir a ter dentro de dois meses.
Trata-se de um exemplo curioso de como a incapacidade do Congresso em promover uma reforma política ganha contornos positivos. A literatura não é avara de exemplos de mudanças no sistema de eleição congressual que colaboraram para o reforço da autoridade do Executivo, seja no redesenho de distritos eleitorais, seja nas regras de composição das listas partidárias. Muito se fala na necessidade das maiorias estáveis no Congresso, mas a barganha dá garantias que a submissão elimina.
"Estamos entrando em uma fase de grande estabilização do ponto institucional, mas isto não deriva das coalizões eleitorais. Elas não irão se reproduzir no Congresso. Os partidos montam alianças algumas vezes vastíssimas, outras vezes bem restritas, mas no Legislativo o governo tem que negociar com interesses conflitantes da sociedade. Não teremos nenhum trator acachapante passando por cima de um legislador dócil", disse o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que nos anos 60 se notabilizou por escrever um livro um ano antes do golpe de 1964 em que apontava a ruptura institucional como iminente. "A tendência agora claramente é a da acomodação, exatamente porque a radicalização das eleições presidenciais não se expressou nem na dos deputados e dos senadores, nem na dos governadores", disse.
Para Wanderley Guilherme, a campanha mais agressiva desde 1989 começou a ocorrer por um fator externo a idiossincrasias petistas ou tucanas. "A Marina Silva foi o vetor meigo e suave pelo qual o obscurantismo latente na sociedade brasileira foi para o primeiro plano do debate eleitoral. Se ela tivesse ido para o segundo turno, estaríamos agora discutindo a proibição das pesquisas de células-tronco. Este tipo de pauta teve guarida na agenda dela", afirmou.
Para o futuro imediato, as questões de ordem moral devem voltar a perder substância. Saem menor das urnas o PSDB, o DEM e o PPS, mas a oposição a Dilma não se resume ao ambiente partidário nem se enfraquece na mesma proporção. Interesses transversais às barreiras da filiação, como o dos grupos de pressão dentro do Congresso, saberão se fazer ouvidos. E a presidente terá que lidar com um conjunto de governadores que se sentem seus credores, e não devedores, no processo eleitoral.
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