terça-feira, 19 de outubro de 2010

Lembranças de um segundo turno

Valor Econômico, 15/10/2010

Faltavam dez dias para o primeiro turno das eleições presidenciais no Peru em 1990 e o escritor Mario Vargas Llosa estava no patamar de 40% das intenções de voto. Dois adversários brigavam pelo segundo posto, entre 15% e 20% e aquele que veio a ser o prêmio Nobel de Literatura deste ano sonhava com a vitória na primeira votação. Foi quando se preparava para um comício em Cuzco que recebeu um telefonema de seu marqueteiro. Vargas Llosa ouvia pela primeira vez o relato de uma surpresa monumental.

"Tinham acabado de receber a última pesquisa e nos bairros de periferia e favelas de Lima - 60% da população da capital - o candidato Alberto Fujimori decolara de forma vertiginosa", segundo escreveu em sua autobiografia "Peixe na Água". A perplexidade era evidente: "perguntei quem era e de onde vinha esse Fujimori, que parecia começar a existir como candidato. Até aquele momento, não acredito ter pensado nele uma vez que fosse". Líder de uma coalizão que pregava um choque econômico neoliberal, Vargas Llosa terminou com magros 29% dos votos no primeiro turno, cinco pontos percentuais a frente de Fujimori.

No segundo turno, coube a Vargas Llosa vivenciar uma experiência rara em eleições presidenciais no mundo: a de sofrer uma virada. O escritor obteve 60 dias depois 34% do total. As diferenças entre a história do Peru em 1990 e a do Brasil de hoje são evidentes, a começar do fato de que Vargas Llosa era um candidato de oposição a um governo impopular. Guardadas as proporções, o segundo turno entre Vargas Llosa e Fujimori equivaleria no Brasil a uma disputa entre José Serra e Tiririca. Mas o relato confessional de Vargas Llosa sobre o choque que um segundo turno leva a quem não o esperava nos remetem a perplexidades do presente.

A começar do espanto. O então líder nas pesquisas se instalou na suíte do andar mais alto do Sheraton com sua família e ficou meditando nos cinco anos em que teria que deixar a literatura para governar o Peru. Ao receber a primeira projeção, relata Vargas Llosa ."percebi a catástrofe: não era necessário ter o dom da profecia para adivinhar o futuro. Haveria um segundo turno". O escritor desce ao saguão. "O hotel estava com uma atmosfera fúnebre. Nos corredores, expressões de indescritível surpresa e algumas, também de fúria. Quando consegui falar, agradeci a "vitória"".

Vargas Llosa em seguida cometeu um erro político: calculou que era melhor pactuar um apoio a Fujimori do que assistir a seu adversário negociar com Alan García, o presidente peruano de então e que está hoje novamente no poder. Mas recuou ao perceber que poderia ter o apoio da Igreja Católica na segunda rodada, já que Fujimori tinha sólido suporte evangélico. Era o momento em que começava a se aprofundar a distância entre o que o candidato era e o que tinha que parecer ser.

A eleição peruana passou a girar em torno da religião, ainda que Vargas Llosa fosse, e provavelmente ainda é, um agnóstico público. "O processo tomaria um rumo que me fez sentir preso na armadilha de uma teia de mal-entendidos (...)a partir desse momento, a luta eleitoral foi adotando uma fisionomia de guerra religiosa, em que os ingênuos temores, os preconceitos e as armas limpas se misturavam aos sujos e aos golpes baixos e as mais pérfidas manobras de um e de outro lado, a extremos que beiravam a farsa e o surrealismo", comentou o escritor, posto literalmente de joelhos pela conveniência política. Sua campanha passou a ser movida a procissões. E não ficou nisso: "Era indispensável uma campanha negativa contra Fujimori (...) pude intuir os escabrosos níveis de imundície em que tanto meus partidários como meus adversários haveriam de incorrer nas semanas subsequentes".

Da religião passou-se para a família. Teve de tudo: acusações de exploração de lenocínio, incesto e consumo de drogas foram algumas citadas por Vargas Llosa, tendo ora sua campanha como vítima, ora como algoz. O escritor, acostumado a ambientes selecionados, se transformou em outra pessoa. "Para demolir a imagem de homem arrogante e distanciado do povo (...) ficou decidido que, naquela segunda etapa, eu não faria as caminhadas protegido por guarda-costas. Estes iriam mais adiante, dispersos na multidão, que poderia aproximar-se de mim, apertar a minha mão, tocar-me e abraçar-me e também, às vezes, arrancar pedaços de minha roupa ou derrubar-me ao chão e me arrebentar, se tivessem ganas".

Passou-se a apostar todas as fichas no debate, o que Vargas Llosa chamou de "ponto culminante"do segundo turno. Sua participação foi marcada pela agressividade. Chegou a citar até a queda da produção leiteira das vacas da escola de agronomia na universidade em que Fujimori havia sido reitor. Saiu dos estúdios convencido de que havia esmagado seu oponente. "Todas as pesquisas me deram por vencedor, e algumas com 15 ou 20 pontos de vantagem", escreveu.

Ao perder, Vargas Llosa deu adeus ao mundo político e não escondeu o amargor com o processo eleitoral, no qual "o funcionamento da democracia passava a ser uma espécie de paródia na qual os mais cínicos e espertos sempre levavam a melhor". Mas no próprio capítulo final de sua obra ele demonstrou que a fonte da sua derrota não estava no pântano religioso em que havia se transformado a campanha do segundo turno: ele relatou a visita que fez a uma sala de pesquisa qualitativa, atrás de um espelho que o permitia assistir a tudo sem ser visto ou ouvido. Percebeu que nenhum ataque colaria em Fujimori vindo de alguém que encarava a mais perfeita definição de elite. "Quando lhes perguntaram porque não votavam em mim, ficaram desconcertados por terem que dar uma explicação sobre algo em que jamais haviam pensado. (..) a resposta que melhor pareceu sintetizar o sentimento de todos foi: "esse é o dos ricos, não é?""

Uma das razões pelas quais o jogo da sucessão de 2010 ainda não está jogado é que uma certa dúvida paira sobre qual efeito terá no Brasil a cristalização de um dos candidatos como representante da "elite". No Peru em 1990, este foi o lugar destinado a Vargas Llosa. No Brasil, o Plano Real tirou Fernando Henrique Cardoso desta posição em 1994 e Luiz Inácio Lula da Silva colocou Geraldo Alckmin dentro do cercado em 2006. Neste momento, há uma tentativa em curso da campanha de Dilma Rousseff em reeditar a luta de ricos e pobres, contraposta às promessas de aumentos para o salário mínimo e Bolsa Família feitas por Serra. Talvez seja aí, e não em Erenices, Paulos Pretos e histerias religiosas que se trave a batalha de outubro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A volta dos que não foram

Um dos aspectos curiosos nestes segundo turno é a avaliação da grande perda que Dilma estaria tendo entre os evangélicos e os católicos conservadores. O que mais me intriga é este segundo grupo, que eu conheço bem. Os católicos conservadores nunca estiveram em outro lado nas eleições presidenciais que não fosse o de candidatos igualmente católicos e igualmente conservadores. Ou seja: jamais apoiaram Dilma.
Aliás, basta examinar alguns bairros com maior proporção de população católica praticante para se compreender o fenômeno. Ele se torna ainda mais claro se compararmos os locais com a menor proporção de praticantes.
Em 2007, a própria CNBB pagou uma pesquisa para mapear o envolvimento religioso da população, feita pelo sociológo César Romero Jacob, do Rio.
Em coberturas por ocasião da visita do Papa, anotei alguns dados, que transcrevo abaixo. Os percentuais dizem respeito à população católica praticante:
São Paulo- Cidade Tiradentes- 40,8%- Jardim Paulista-82,8%
Rio de Janeiro- Campo Grande-41,2%-Copacabana- 76,9%
Salvador- Lobato- 37,8% -Pituba- 79,3%
Belo Horizonte- Barreiro-55,5%-Savassi-83%
Fortaleza- Bairro José Walter-70,4%- Meirelles-89,5%.

Moradores de bairros aprazíveis nas grandes cidades não costumam votar em ninguém aparentado com a esquerda. Tenha ou não a candidata um vice satanista.

A maior vitória de Marina

O voto em Sabará, onde o Brasil foi mais Marina
Valor Econômico, 6/10/2010
De Sabará (MG)
No caminho de Belo Horizonte a Sabará, passando pelo populoso bairro de General Carneiro, é difícil encontrar muro branco sem cartazes ou pichações em favor do governador Antonio Anastasia (PSDB), do senador eleito Aécio Neves (PSDB) e dos candidatos derrotados ao governo, Hélio Costa (PMDB) e ao Senado, Fernando Pimentel (PT). Para não falar da propaganda de candidatos a deputado federal e estadual, sobretudo a do cacique local, o deputado estadual reeleito Wander Borges, presidente do PSB mineiro. O que não se vê é qualquer menção aos candidatos presidenciais José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e a derrotada Marina Silva (PV).
A quase inexistente campanha presidencial em Sabará (MG) foi o principal combustível para explicar os 42,5% dos votos que Marina Silva teve na cidade, em sua maior vitória proporcional do país. A petista Dilma Rousseff teve 35,8% dos votos dos 80 mil eleitores da cidade e o tucano José Serra, 20,2%. Cidade-dormitório de BH, a apenas 20 quilômetros de distância, Sabará acentuou a tendência já registrada na capital. Em BH, Marina teve a sua maior votação entre as capitais, com 39,9% do total.
"Talvez os aliados de Dilma e Serra tenham priorizado outros embates. Nas últimas 48 horas da campanha, não se empunhou bandeiras por aqui. Foi uma virada silenciosa", constatou a deputada federal Jô Moraes (PC do B-MG), referindo-se à capital. Marina foi ainda bem votada em outras cidades da região metropolitana, ficando em segundo lugar em Santa Luzia (36,9%), Betim (31,5%), Contagem (34,7%), Ribeirão das Neves (31,7%) e Ibirité (30%).

Em Sabará, a campanha presidencial também se viu diante de um vazio. A cidade é governada pelo irmão de Wander Borges, William Borges, do PV. O próprio William afirma que ele e Wander são, acima de tudo, aecistas. "Temos um vínculo muito profundo com Aécio e Anastasia, são R$ 40 milhões de investimentos aplicados aqui", afirmou. O PSDB é inexistente na cidade: não tem um vereador sequer. E para os irmãos Borges, Aécio só pediu votos à reeleição de Anastasia. Com apoio tucano para a reeleição a deputado estadual, Wander Borges em momento algum pediu votos para Dilma. A campanha da petista ficou a cargo do vice-prefeito da cidade, Argemiro Ramos , que coligou-se aos Borges e ao pequeno PMDB local.
William Borges atendeu ao pedido do presidente regional do PV, o ex-vice-prefeito de BH, Ronaldo Vasconcelos, e chegou a pedir votos para Marina em alguns eventos de campanha , dos candidatos do PV que apoiava para deputado, nenhum deles entre os mais votados da cidade. Mas há dúvidas em Sabará se o resultado derivou unicamente do prestígio dos Borges. "Concretamente ninguém fez campanha para presidente algum", comentou um adversário local dos Borges, o vereador Jessé Batista (PMDB).
Em um segundo turno, os apoiadores de Dilma temem o engajamento da família Borges na campanha de Serra, caso sejam instados a isso por Aécio. "Não há dúvidas de que ele tem poder de fogo para direcionar grande parte do eleitorado de Sabará. E é extremamente ligado a Aécio", comentou outra oposicionista, a vereadora Terezinha Van Stralen, a única do PT na Câmara.
A influência de Wander Borges sobre o eleitorado de Sabará é grande, mas descendente. Ele reelegeu-se deputado estadual, mas obteve votação abaixo da esperada na cidade. O parlamentar conseguiu 28 mil votos em Sabará, o equivalente a 40% dos válidos. Em 2006, havia obtido 34 mil votos, ou 58% do total. A hipótese de engajamento de Aécio é vista com ceticismo por William Borges.
Ao ser perguntado sobre seu comportamento no segundo turno, afirma: "Vou aguardar a posição de Marina". E se a posição de Marina for pela neutralidade? "Aí vou aguardar a posição do PV". E se o PV liberar seus filiados? "Teria dificuldades em apoiar o PT. Poderia não fazer nada". E se Aécio pedir o empenho da família para Serra? "Ele não vai pedir. Não pediu no primeiro turno, não acredito que peça agora", disse. O engajamento dos Borges em uma campanha tucana já não existiu em 2006, ocasião em que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve 57% dos votos no primeiro turno e o tucano Geraldo Alckmin, 30%.
Os 80 mil eleitores de Sabará estão dispersos por doze bairros sem ligação entre si, dos quais o centro histórico - ao lado de Mariana o mais antigo de Minas, fundado pelo bandeirante Borba Gato na virada do século 17 para o 18 - é um dos menores núcleos populacionais. A cidade até pouco tempo atrás vivia em função da siderúrgica Belgo Mineira, a mais antiga de Minas Gerais, fundada em 1919, que empregava 4,2 mil operários em sua indústria na cidade. Hoje, poucas centenas trabalham na unidade da Arcelor Mittal, que incorporou a antiga empresa. Os ex-funcionários da Belgo tornaram-se prestadores de serviço ou quando bem sucedidos montaram pequenas metalúrgicas com, no máximo, vinte empregados. A pulverização tirou a expressão política do Sindicato dos Metalúrgicos local.
Grandes favelas foram erguidas na divisa com BH, com forte inclinação evangélica. Em um dos bairros, o de Nossa Senhora de Fátima, há 65 templos evangélicos e três igrejas católicas, com apenas um padre. Teria começado na saída dos cultos e das três faculdades privadas a onda a favor de Marina . "Senti a tendência a favor dela quando fui pedir votos nas denominações", disse Jessé Batista, evangélico. "Pastores vieram confirmar se Marina era realmente da Assembleia de Deus. Queriam só saber se não havia sido adesão oportunista", afirmou William Borges.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Democracia tem preço

Valor Econômico, 29/09/2010
As eleições de 2010 deverão movimentar pelo menos o dobro dos recursos de 2006. A estimativa toma como como base a previsão de limite de gastos dos candidatos - que indica também qual a receita pretendida - o orçamento da Justiça Eleitoral para este ano, as expectativas dos setores diretamente beneficiados pela escolha popular, como a indústria gráfica e o setor de locação de automóveis. É uma soma que parte de um patamar de R$ 3,5 bilhões, mas que pode ultrapassar R$ 15 bilhões, caso os candidatos se aproximem do limite legal que declararam ao registrar suas candidaturas.
Em 2006, os candidatos a presidente e governador declararam a intenção de movimentar R$ 1,226 bilhão. Este limite passou para R$ 1,988 bilhão, um aumento de 62% ante uma inflação acumulada de 20,8% pelo IPCA. A variação da previsão de despesas dos senadores passou de R$ 809 milhões para R$ 1,115 bilhão, em eleições que partem de bases diferentes. Em 2006 a renovação era de um terço do Senado e agora é de dois terços.

Não existe uma totalização da previsão de gastos dos candidatos a deputado federal este ano, mas é certo que o resultado final ultrapassou, com vantagem, os R$ 6,96 bilhões declarados como limite há quatro anos. A maior parte dos candidatos, ou precisamente 3.380 dos 6.028 concorrentes, declarou a intenção de gastar valores entre R$ 1,8 milhão e R$ 6 milhões. Somente esta fatia soma R$ 11,946 bilhões. Estão fora deste conjunto os partidos que declararam a intenção de arrecadar valores que fogem da realidade - como os seis candidatos do PSL de Goiás que colocaram um limite de gastos de R$ 50 milhões cada, ou as pequenas siglas de esquerda, como o PSOL, PCB, PSTU e PCO, que nunca excedem R$ 300 mil nas previsões de gastos de seus candidatos.
Há quatro anos, os candidatos a deputado federal e estadual, somados, declararam um limite de gastos de R$ 17,6 bilhões e apresentaram uma movimentação para a Justiça Eleitoral quase vinte vezes menor, de R$ 830 milhões, segundo dados da ONG "Às Claras", com base em números oficiais. No grupo das coligações que lançaram candidatos com previsão de gastos entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, o aumento médio do limite em relação a 2006 é de 100%, o mesmo padrão que se observa na eleição dos candidatos majoritários, seja para presidente ou governador.
Este ano, os candidatos apostaram alto de maneira generalizada. O tucano José Serra pediu um limite de gastos de R$ 180 milhões, mais que o dobro do que o PSDB solicitou há quatro anos. A petista Dilma Rousseff apresentou um limite de R$ 157 milhões. O mesmo quadro se repete entre os principais candidatos a governador. Em 2006, o então candidato à reeleição tucano Aécio Neves orçou em R$ 20 milhões a sua campanha em Minas Gerais. O atual candidato do PSDB, o governador Antonio Anastasia, requisitou a licença para gastar R$ 35 milhões. No Maranhão, a governadora Roseana Sarney (PMDB) está com um limite de gastos de R$ 40 milhões, ante apenas R$ 12 milhões há quatro anos. No caso da nova candidatura ao governo do Paraná do senador Osmar Dias (PDT) o limite quase quadruplicou: passou de R$ 11 milhões para R$ 42 milhões.
As estimativas dos gastos dos principais candidatos costumam convergir para o resultado final. Em 2006, o então presidente candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva fez uma previsão de despesas de R$ 89 milhões, pediu posteriormente à Justiça Eleitoral a permissão para gastos adicionais de R$ 10 milhões e apresentou no fim do processo um relatório de despesas de R$ 91 milhões. O então presidenciável tucano Geraldo Alckmin estimou gastar R$ 85 milhões e relacionou despesas de R$ 79 milhões. Mas não são bom parâmetro para candidaturas pouco competitivas. O candidato a presidente pelo PDT em 2006, Cristovam Buarque, projetou uma despesa de R$ 20 milhões e declarou gastos de apenas R$ 1,7 milhão. As duas primeiras parciais divulgadas pelo TSE mostram números ainda baixos: Dilma Rousseff declarou despesas de R$ 38,9 milhões, Serra lançou R$ 25,2 milhões e Marina Silva, que tem um limite de gastos de R$ 90 milhões, apenas R$ 11,7 milhões.
Parte do projetado aumento de gastos indica a elevação de custos, o maior dos quais no segmento imobiliário. De agosto de 2006 a agosto deste ano, de acordo com o Secovi de São Paulo, o valor médio da locação cresceu 50,9%. Entre os beneficiários diretos do mercado eleitoral, os anos pares são vistos como uma espécie de safra, que garante faturamento maior, sobretudo para as pequenas empresas. "A locação de automóveis para fins eleitorais não é um mercado que interesse às grandes empresas do setor, mas todos se beneficiam em cadeia, já que eles absorvem 12% da oferta", avaliou o presidente do Conselho Nacional da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis ( ABLA), Paulo Gaba Junior. O empresário afirmou ser difícil precisar o que as eleições significam no faturamento do setor, já que o mercado de locação de automóveis cresce ano a ano desde 2003 movido por outros fatores, como a tendência de empresas em buscar frotas terceirizadas. No ano passado, o setor faturou R$ 4,4 bilhões e a previsão para este ano é de um crescimento de 15%.
A conta é feita com maior precisão na Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf). Segundo Fábio Mortara, presidente da seção paulista da entidade, é possível estimar que o impacto será de 8% a 12% sobre o faturamento do segmento promocional do mercado gráfico, que representa R$ 2,7 bilhões, ou 12% da área gráfica como um todo. Em 2009, a produção da indústria gráfica no Brasil foi de R$ 23 bilhões. O crescimento projetado para o segmento promocional representaria um aumento de R$ 340 milhões. "No nosso segmento as eleições gerais nem significam tanto como as eleições municipais, já que a demanda por material gráfico é maior entre os vereadores, que muitas vezes não têm mídia eletrônica. Nem todas as gráficas trabalham com o mercado político, mas as que entram nesta área chegam a dizer que o ganho no faturamento equivale a um décimo-terceiro salário", comparou Mortara.
A Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), que representa as empresas de táxi aéreo, informou que dois meses antes das eleições aumenta entre 30% e 40% a utilização de aviões executivos e helicópteros em relação a anos sem eleições.
Segundo a Abag, o peso de voos fretados para campanhas eleitorais oscila entre 30% e 40% do faturamento das empresas de táxi aéreo. Em comparação com 2006, a Abag acrescenta que a oferta de voos executivos é maior neste ano em virtude do aumento da frota brasileira para fretamento, hoje em 12,4 mil aeronaves. A Abag não soube estimar o aumento de custos de um vôo entre 2006 e 2010.
Do gasto da Justiça Eleitoral em si a dotação orçamentária prevista para este ano é de R$ 549, 3 milhões. Na eleição de 2006, a dotação era de R$ 515,8 milhões e o efetivamente gasto foi de R$ 450,5 milhões, em valores corrigidos pelo IPCA. O maior investimento é no maquinário para a votação eletrônica. O TSE gastou R$ 236 milhões, aí incluídas as urnas eletrônicas modelo UE 2009, que vêm acopladas a um leitor biométrico que identificará o eleitor por meio das impressões digitais. A votação biométrica está em testes no país e deve ser aplicada em 60 municípios de 23 Estados. Outros R$ 82,2 milhões estão reservados para a alimentação dos dois milhões de mesários convocados a trabalhar nas eleições.
Ainda se adiciona às despesas eleitorais os recursos do Fundo Partidário, este ano orçado em R$ 200,9 milhões. É um total 40,8% superior em termos nominais aos R$ 142,6 milhões rateados. O Fundo Partidário é alimentado pelas multas e penalidades eleitorais, recursos financeiros legais, doações espontâneas privadas e dotações orçamentárias. É rateado proporcionalmente entre os partidos.
A eleição ainda representará compensações expressivas para as emissoras de rádio e televisão. Elas são ressarcidas pela Receita Federal por 80% do que ganhariam se não fossem obrigadas a ceder tempo para o horário eleitoral gratuito, sob forma de renúncia fiscal. Este ano, segundo avaliação feita pela ONG Contas Abertas, disponível na Internet, a renúncia chegará a R$ 851 milhões, ante R$ 228 milhões da eleição passada. A mudança na incidência, com a inclusão de pequenas emissoras no grupo das ressarcidas e uma nova fórmula de cálculo explicam a grande variação. Segundo o diretor jurídico da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Rodolfo Machado Moura, a renúncia fiscal gera créditos que são abatidos do imposto de renda devido pelas empresas e não pode ser considerada uma receita. (Colaborou Alberto Komatsu, de São Paulo)

Felizmente estão mudando de assunto

Sobre toda esta polêmica religiosa no segundo turno, que, felizmente, começa a perder terreno, algumas coisas ficam nítidas. A primeira é a saudade que a figura da atriz Regina Duarte desperta. A imagem dela temerosa com a vitória de Lula em 2002 nos remete a um tempo em que a propaganda de José Serra não era tão reacionária, em que não havia a "reinaldazevedização" do seu discurso. Nada contra Reinaldo Azevedo em si ou suas idéias, algumas das quais compartilho: a questão é o método, o radicalismo, a destruição, e não o combate, ao adversário.
A segunda certeza é a da estreiteza da candidatura de Dilma Rousseff. Suas tentativas de parecer o que não é são evidentemente patéticas. Durante toda a campanha a petista desprezou o pensamento e o debate com as Igrejas. Deixou de ir a dois encontros de religiosos com os candidatos. Privilegiou o anticlericalismo feminista ao se manifestar sobre o aborto no tempo em que interessava a ela jogar para o público interno.
Dilma parece ter percebido que aborto não é uma questão de saúde pública-ou pelo menos não se resume a isso. É um tema também que toca o próprio conceito de mundo das pessoas, inclusive o que se entende por concepção de vida e limites para a liberdade individual. Exatamente por isso nunca deveria ser tema de uma campanha presidencial. O local para esta discussão só pode ser um: o Congresso Nacional. E, de preferência, com decisão seguida por referendo popular.

sábado, 2 de outubro de 2010

Bipartidarismo?

Confirmadas as pesquisas neste domingo, o erro maior dos analistas políticos não foi subestimar o potencial de transferência de votos de Lula ou superestimar a força de José Serra. Ouvi muita gente gabaritada garantir que Marina Silva não passaria de 5%. A mulher pode ter até 20% dos votos válidos. O Brasil está muito longe de se resumir ao Fla-Flu PT X PMDB e os votos da senadora acreana ( me recuso a escrever acriano) poderão provar isso.

A história da eleição mineira

"Prestígio de Aécio alavanca Anastasia"
Valor , 1/10/2010



O governador de Minas Gerais, Antonio Junho Anastasia (PSDB), chega às eleições neste domingo com chances de se reeleger no primeiro turno. Conta com 43% de intenções de voto na pesquisa do Datafolha divulgada ontem, ante 36% do senador Hélio Costa (PMDB) e 5% da soma de outros candidatos. O tucano teve 52% dos votos válidos, percentual que está dentro da margem de erro para definir se haverá ou não um segundo turno, mas uma pesquisa divulgada segunda-feira pelo Ibope mostrava o tucano em ascensão, com 13 pontos de vantagem.
Se reeleito, Anastasia repete a trajetória de outros tecnocratas, como os prefeitos de São Paulo, Celso Pitta, ou do Rio, Luís Paulo Conde, que ganharam eleições graças ao prestígio de um padrinho político. No caso mineiro é o ex-governador Aécio Neves (PSDB), com 67% de intenções de voto no Datafolha para o Senado, que pode ainda eleger o colega de chapa, o ex-presidente e ex-governador Itamar Franco (PPS), que obteve 43% das citações. O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT) ficou com 34%.
A provável derrota de Hélio Costa e de Pimentel deve fomentar a divisão dentro do petismo mineiro. Na reta final da campanha, o rival interno de Pimentel, Patrus Ananias, candidato a vice na chapa de Hélio, responsabilizou a ala de Pimentel pelo mau desempenho do pemedebista na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo o Datafolha, Anastasia abre 26 pontos na capital mineira.
Fracassou em Minas Gerais, em todos os sentidos, os movimentos pela nacionalização da campanha. Nem Hélio Costa conseguiu dividendos da aliança do PT e do apoio da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - presenças diárias em sua propaganda televisiva - e nem o candidato presidencial tucano, José Serra, conseguiu associar o seu nome aos de Aécio e Anastasia, mesmo visitando Minas Gerais 14 vezes durante a campanha. O eleitor deve votar pela continuidade dos atuais grupos políticos, tanto no plano estadual, quanto no plano nacional, da mesma forma que fez em 2006, quando Aécio e Lula se reelegeram com grandes votações no Estado.


Tamanha era a aposta das cúpulas nacionais do PSDB, do PT e do PMDB de que a eleição mineira teria grande impacto na sucessão presidencial que o quadro da disputa regional demorou muito a se definir. Só se delineou às vésperas das convenções, em maio, quando ficou claro que Aécio não seria candidato a vice na chapa de José Serra. O processo eleitoral foi deflagrado em dezembro do ano passado, com três acontecimentos: a retirada da pré-candidatura presidencial de Aécio Neves e as eleições internas para os diretórios estaduais do PT e do PMDB.
Ao deixar a cena tucana para José Serra, Aécio automaticamente definiu o então vice-governador Antonio Anastasia (PSDB) como o seu candidato. Até então, Aécio ainda considerava outra hipótese: a de apoiar a candidatura de Hélio Costa, como forma de construir uma base monolítica em Minas para a aventura presidencial e inviabilizar as negociações para uma aliança entre PT e PMDB.
A luta dentro do PMDB deu uma clara vantagem para Costa e seus aliados, que conseguiram 57% dos votos para a eleição do deputado federal Antonio Andrade como presidente estadual. Isso retirou das negociações eleitorais os rivais internos, sendo o ex-governador Newton Cardoso o mais forte deles. Caso perdesse a eleição interna, Hélio Costa já havia definido que tentaria a reeleição ao Senado.
A desgastante eleição direta do PT, marcada por acusações generalizadas de fraude, não deu uma vitória clara ao grupo de Fernando Pimentel, que controla a direção estadual. Assim que o resultado oficial foi proclamado, com a reeleição por estreita margem do deputado federal Reginaldo Lopes como presidente estadual, o então ministro do Desenvolvimento Social Patrus Ananias pediu prévias para a escolha do candidato do partido a governador. A divisão petista alavancou a articulação em Brasília para que Minas Gerais entrasse no dote dos apoios regionais petistas ao PMDB, exigidos para consolidar a aliança entre os dois partidos. A prévia foi realizada em março, época em que os dois lados do PT já sabiam que as cúpulas nacionais petistas e pemedebistas já haviam acertado a aliança em torno de Hélio Costa.
Patrus terminou por se tornar vice na chapa de Hélio Costa, e Pimentel, candidato ao Senado. Mas a solução não foi agregadora: os aliados de Pimentel foram permanentemente acusados de falta de engajamento na campanha de Hélio. O ex-prefeito argumentou que, como candidato isolado a uma das duas vagas ao Senado, não poderia realizar sua campanha associado ao pemedebista, já que Aécio e Itamar realizavam a campanha em conjunto. Patrus tornou-se um candidato a vice fora do padrão: recebeu a coordenação da campanha presidencial em Minas e todo o material de campanha de Hélio Costa destacava de forma igual o seu nome e o do titular da chapa.
Era uma tentativa de agregar os votos petistas a Hélio, que se revelou mal-sucedida. O senador pemedebista encerrou a campanha em torno dos 35% nas pesquisas de intenção de voto, o mesmo patamar onde estava no começo do ano, em simulações que incluíam os dois petistas como adversários. As 13 visitas da candidata presidencial petista Dilma Rousseff a Minas Gerais tampouco o impulsionaram. Os votos dados aos líderes petistas migraram para Anastasia, que entrou na corrida para governador patinando em torno de 10%.
Para viabilizar seu candidato, entre janeiro e março, Aécio deu início a um frenesi de viagens ao interior. Professor de direito na UFMG e burocrata, ex-secretário de Cultura, Planejamento e Segurança em duas administrações estaduais e ministro interino do Trabalho na Presidência de Fernando Henrique Cardoso, o então vice-governador sempre foi reconhecido nos ambientes políticos e empresariais como o gerente da máquina do governo, mas Anastasia era virtualmente um anônimo fora dos corredores palacianos. Aécio administrou uma disputa entre o PP e o DEM pela vice na chapa de Anastasia que não deixou sequelas. Montou uma chapa ao Senado com o ex-presidente Itamar Franco (PPS) disputando a segunda vaga, fechando a porta para uma articulação informal entre seu nome e o de Pimentel.
Teve o cuidado de atrair o PDT e o PSB, abrindo caminho para o chamado "Dilmasia", a associação informal em apoio a Dilma para presidente e Anastasia para governador, alimentada especialmente pelos partidos que fazem parte simultaneamente das bases de Aécio e Lula. É o caso do PSB, do PDT, PP e PR. Na reta final da campanha, os tucanos investiram na atração de prefeitos petistas e pemedebistas de pequenas cidades.
As cúpulas do PT e do PMDB jogaram pesado para tentar fazer que o "Dilmasia" se tornasse um "Dilmélio": houve uma intervenção no pequeno PRB do vice-presidente José Alencar para que o partido saísse da base tucana e uma tumultuada convenção do PR, em que o presidente estadual da sigla, o ex-vice-governador e presidente da Confederação Nacional dos Transportes, Clésio Andrade, foi batido pelos deputados e prefeitos do partido, que preferiam se associar a Anastasia.
Aos 73 anos e marcado pelas derrotas ao governo estadual em 1990 e 1994, Hélio Costa empenhou-se durante a campanha em reposicionar-se ideologicamente. O senador concorreu a governador nas eleições anteriores apoiado em alianças conservadoras. No primeiro caso, com o então presidente Fernando Collor. No segundo, tendo o então PFL, hoje DEM, na posição de vice. Nesta campanha, Costa colocou-se como um emissário de Brasília. Destacou que permaneceu cinco anos no ministério de Lula. Chegou a chorar, ao referir-se ao presidente em entrevistas. Disse claramente que a sua eleição era a condição para que Minas tivesse um tratamento privilegiado, caso Dilma fosse eleita. E cobrou permanentemente o apoio de Lula, de Dilma e dos petistas locais.
Sob responsabilidade do marqueteiro Duda Mendonça, a propaganda de Hélio Costa curiosamente abandonou o tom emotivo que caracteriza as suas peças para uma argumentação racional. O primeiro eixo era valorizar a aliança: vote em um (Hélio) e eleja dois (Hélio e Patrus), era o principal mote da campanha. O segundo eixo era a presença de Dilma e Lula como cabos eleitorais. Subentendia-se que a eleição de um governador opositor em Minas Gerais poderia prejudicar o Estado.
Já Anastasia fez uma campanha absolutamente integrada a de Aécio, em que o bairrismo foi exaltado. O nome de sua coligação era "Sou Minas Gerais" e o símbolo, o triângulo vermelho da bandeira do Estado. "As questões de Minas são decididas pelos mineiros", tornou-se um bordão antinacionalizador de sua campanha. O candidato tucano à Presidência, José Serra, teve presença discreta. A música que embalou os programas de TV foi gravada por vários cantores mineiros tradicionais, como Milton Nascimento, Beto Guedes, Flavio Venturini e o grupo Skank. A mensagem subliminar é que o voto em Anastasia alimentava a pretensão de Aécio de concorrer futuramente à Presidência, estruturando a volta de Minas Gerais ao centro da política nacional.