César Felício, de Belo Horizonte
Valor Econômico - 17/02/2010
Estado que tem na mineração e na exploração de seus derivados a sua origem, Minas Gerais começa a contabilizar no primeiro trimestre deste ano o tamanho do desastre na economia local provocado pela crise mundial de 2008. O setor mineral e metalúrgico, que puxou a queda, só começou a reagir a partir de agosto e os primeiros números sobre o desempenho de 2009 são altamente negativos.
Segundo apurou o IBGE, em dados compilados pela Fundação João Pinheiro, do governo estadual, a produção física de extração mineral caiu 25,1% no ano passado. A de produtos metálicos despencou 32,8%. No setor de máquinas e equipamentos, o recuo foi de 29,9%. A metalurgia básica teve decréscimo de 26,32% . Mesmo o setor de veículos e autopeças teve uma queda de 4,1%, embora a principal empresa do segmento, a Fiat Automóveis, tenha tido uma produção ligeiramente maior.
A maior das mineradoras, a Vale , freou bruscamente seus investimentos e sua produção de ferro em Minas Gerais, sobretudo no primeiro trimestre de 2009. Segundo informação divulgada pela empresa, o minério de ferro no sistema Sudeste, composto pelas minas de Itabira, Mariana e minas centrais, além de uma produção muito pequena em Urucum e Corumbá , no Mato Grosso do Sul, teve sua extração reduzida de 115 milhões para 89 milhões de toneladas. No sistema Sul, com mineração em Itabirito , Vargem Grande e Paraopeba, a produção mineral caiu de 80,4 milhões para 55,2 milhões de toneladas.
Percentualmente, a extração em Minas caiu de 64,9% para 60,4% em relação ao total extraído pela empresa. A desaceleração na produção mineral também se refletiu no investimento menor realizado pela Vale em Minas no ano passado. A empresa havia aplicado em 2008 US$ 5,2 bilhões no Estado, valor que caiu para US$ 3,98 bilhões em 2009, uma redução de 24%. Outra consequência direta da decisão de reduzir a produção no Estado foi a diminuição da carga transportada pela Ferrovia Centro Atlântica (FCA), que caiu de 11,2 milhões para 10,6 milhões de toneladas.
Nos municípios em que a Vale atua, apenas Itabira e Nova Lima registraram aumento na geração de empregos formais, segundo dados do Ministério do Trabalho. Houve saldo negativo na geração de emprego em municípios menores, como Mariana, Itabirito, Barão de Cocais e São Gonçalo do Rio Abaixo, onde está a mina Brucutu.
A retração do emprego ocorreu também nos municípios de atuação das demais mineradoras, como Congonhas, área da CSN, e Brumadinho, da Vallourec & Mannesmann. Em termos globais, o emprego na indústria extrativa mineral recuou 8% em Minas Gerais. "É um resultado que não destoa do quadro nacional, mas que em Minas ganha relevo pelo peso que a setor tem no Estado", disse o pesquisador do IBGE Antonio Brás.
No setor siderúrgico, as grandes empresas, como Usiminas, Gerdau e ArcelorMittal, mostraram recuperação de resultados já no terceiro trimestre do ano passado, mas as guseiras independentes continuam retraídas. Segundo o Sindicato da Indústria do Ferro de Minas Gerais, dos 106 fornos das 60 guseiras que operam no Estado, 71 viraram o ano paralisados. "Nossa média histórica de produção é de 450 mil toneladas mensais. Chegamos a cair para 100 mil toneladas e agora estamos com 230 mil toneladas ao mês", avaliou o presidente do Sindicato, Paulino Cícero, ex-ministro das Minas e Energia no governo Itamar Franco.
"Entregava até 35 mil toneladas por mês, em contratos de exportação para Taiwan. Agora, estou produzindo 7 mil toneladas", comentou o ex-governador Newton Cardoso, dono da Companhia Siderúrgica Pitangui, uma das maiores do Estado. A tonelada do gusa, que chegou a ser cotada a US$ 900 em 2008, está em torno de US$ 380 atualmente. A recuperação da produção no final do ano, contudo, fez com que os polos guseiros de Minas fechassem o ano com saldo positivo de empregos. Foi o caso de Sete Lagoas, Divinópolis e Itaúna.
A demanda menor das guseiras também afetou o resultado da produção de carvão vegetal. Segundo dados da secretaria mineira de Agricultura, no ano passado houve uma queda de 24,5% no volume produzido, e de 54% no valor da produção.
Na indústria metalúrgica de bens acabados, mesmo incentivos fiscais do governo federal não produziram resultado positivo em 2009. Foi o caso do setor automotivo. A Fiat Automóveis elevou ligeiramente sua produção, passando de 722 mil para 736,6 mil unidades entre o ano retrasado e o passado, mas a produção física em Minas Gerais do setor como um todo caiu 4,1%. Segundo avaliação do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), em 2009 houve recuo de 1,4% do faturamento no mercado mineiro. Mas o prejuízo foi concentrado nos três primeiros meses do ano, quando o faturamento recuou 15%.
quarta-feira, 17 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Outra que continua valendo
A coluna abaixo foi uma das primeiras que escrevi ao chegar em Belo Horizonte, no Valor, em 3 de março de 2009. Não há muito para retificar. Ou nada.
A imagem do espelho em Minas
Autor: César Felício - Valor Econômico
Em relação ao quadro nacional, a sucessão mineira é o Brasil com sinal trocado. Se na sucessão presidencial os governadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) ameaçam fragmentar o lado oposicionista, está no PT a divisão entre duas candidaturas à chefia do Executivo: uma de oposição dura em relação ao comando atual, representada pelo ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e outra que cultiva boas relações com o Palácio da Liberdade, encabeçada pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.
Deverá vir como candidato do PSDB um tecnocrata clássico, considerado o gerente do atual governo: o vice-governador Antonio Junho Anastasia. É o equivalente mineiro à escolha lulista da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para disputar o Planalto.
O elemento original é que no quadro mineiro o PMDB deverá ter candidato. É o ministro das Comunicações, Hélio Costa, que já tentou o cargo em 1990 e 1994. Pairam incertas personalidades que se aproximam mais do perfil de grandes eleitores do que de possíveis candidatos. Com prestígio popular em alta em função do martírio pessoal, o vice-presidente José Alencar é peça decisiva que oscila fora da órbita tucana. Colaborador nas vitórias tanto de Aécio quanto de Lula no passado, o ex-presidente Itamar Franco deve seguir sua tradição de definir-se por último. Operador da micropolítica municipal, o empresário, ex-ministro e ex-vice-governador Walfrido Mares Guia deve voltar a atuar em 2010, provavelmente do lado petista.
Anastasia no passado chegou a ser identificado em uma publicação mineira como "um popular", na legenda de uma foto em que aparecia abraçado a uma figura mais conhecida. Jamais disputou uma eleição e nem possui um passado marcado pela participação em movimentos de contestação ao regime, como Dilma. Nas últimas semanas intensificou sua agenda no interior do Estado, em atividades que buscam claramente identificar sua pessoa com o governo tucano.
A possível candidatura de Anastasia surgiu diante da falta de opções dentro do PSDB. A competição entre os grupos tucanos pela proximidade em relação a Aécio impediu que surgisse no partido outro nome além do vice, que assume a posição de titular no próximo ano seja qual for o destino do governador, que sairá para disputar a Presidência ou uma cadeira ao Senado. Em tese, Anastasia representaria um alto risco para Aécio, dificultando o projeto do mineiro de disputar a candidatura presidencial com Serra. Mas mesmo críticos ao Palácio da Liberdade comentam que o vice tem vocação política. "Ele surpreende pela flexibilidade, pela habilidade em fazer concessões em pontos que não alteram a essência do que busca. Sua capacidade negociadora é grande", diz o cientista político Rudá Ricci.
Sua possível candidatura em 2010 conta com trunfos: gravitariam em sua volta grande parte dos 852 prefeitos mineiros e a maior parte do empresariado, além da simpatia da mídia local. O retrospecto é ligeiramente favorável ao oficialismo em Minas. Nas 11 eleições democráticas no Estado desde 1947, o candidato governista venceu em cinco: Bias Fortes, em 1955, Newton Cardoso, em 1986, Eduardo Azeredo, em 1994, e nas duas eleições de Aécio, em 2002 e 2006. Há uma concentração de vitórias no período mais recente. A oposição ao Palácio da Liberdade ganhou em 1950, com Juscelino Kubitschek; 1960, com Magalhães Pinto; 1965, com Israel Pinheiro; 1982, com Tancredo Neves; e 1998, com Itamar Franco. Foram outras cinco vitórias, quatro delas na fase pré-redemocratização. Muito desgastado, Newton Cardoso não participou da própria sucessão em 1990.
A eleição municipal do ano passado, contudo, foi um sinal preocupante para o aecismo. O grupo do governador assistiu ao crescimento do PT e do PMDB nas grandes cidades, ainda que o PSDB tenha se mantido com o maior número de prefeituras, ao vencer em 159 cidades.
A ânsia do PT nacional em fechar um acordo com o PMDB pode beneficiar Hélio Costa, que viu a vitória escapar na última hora nas duas eleições que disputou. E que, de certa maneira, voltou a ser um quase vencedor na eleição em Belo Horizonte no ano passado, com a candidatura do deputado Leonardo Quintão. Caso consolide sua candidatura, Costa deverá ser visto como o principal inimigo a ser batido pelo grupo de Aécio. O governador está muito mais distante do ministro das Comunicações do que dos seus dois adversários petistas. Em pesquisas não publicadas que circularam entre petistas e aliados de Aécio, Hélio Costa aparece na dianteira.
O potencial destrutivo da disputa entre Pimentel e Patrus não pode ser subestimado. No PT, o cenário de guerra para a escolha de candidatos é um roteiro quase permanente de derrotas futuras, como mostram os casos do Rio Grande do Sul em 2002 e de São Paulo em 2006. Muito ligado a Dilma, Pimentel poderá ser desviado da eleição para outra função. Mas mesmo neste caso, não é certo que Patrus seria o beneficiado. Os aliados do ex-prefeito sempre lembram a importância do PT abrir espaço para PMDB e outros parceiros na eleição estadual. Mineira de nascimento e de início de militância política, Dilma poderá atuar no quadro regional de um modo mais incisivo do que faria no Rio Grande do Sul, onde tem seu domicílio eleitoral.
Segundo maior colégio eleitoral do País, Minas parece subverter sua tradição de início tardio do processo sucessório. "A eleição só começa depois das paradas militares" era um dito célebre do ex-governador Hélio Garcia, que queria com isso dizer que somente após 7 de setembro, cerca de um mês antes das eleições, o quadro político tornava-se claro. Diante da nebulosidade do quadro eleitoral em São Paulo, onde Serra ainda irá arbitrar quem será o candidato tucano, em caso de conseguir a candidatura presidencial em 2010, e o PT enfrenta uma escassez de nomes viáveis, Minas ao que tudo indica deverá mostrar o seu jogo antes.
A imagem do espelho em Minas
Autor: César Felício - Valor Econômico
Em relação ao quadro nacional, a sucessão mineira é o Brasil com sinal trocado. Se na sucessão presidencial os governadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) ameaçam fragmentar o lado oposicionista, está no PT a divisão entre duas candidaturas à chefia do Executivo: uma de oposição dura em relação ao comando atual, representada pelo ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e outra que cultiva boas relações com o Palácio da Liberdade, encabeçada pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.
Deverá vir como candidato do PSDB um tecnocrata clássico, considerado o gerente do atual governo: o vice-governador Antonio Junho Anastasia. É o equivalente mineiro à escolha lulista da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para disputar o Planalto.
O elemento original é que no quadro mineiro o PMDB deverá ter candidato. É o ministro das Comunicações, Hélio Costa, que já tentou o cargo em 1990 e 1994. Pairam incertas personalidades que se aproximam mais do perfil de grandes eleitores do que de possíveis candidatos. Com prestígio popular em alta em função do martírio pessoal, o vice-presidente José Alencar é peça decisiva que oscila fora da órbita tucana. Colaborador nas vitórias tanto de Aécio quanto de Lula no passado, o ex-presidente Itamar Franco deve seguir sua tradição de definir-se por último. Operador da micropolítica municipal, o empresário, ex-ministro e ex-vice-governador Walfrido Mares Guia deve voltar a atuar em 2010, provavelmente do lado petista.
Anastasia no passado chegou a ser identificado em uma publicação mineira como "um popular", na legenda de uma foto em que aparecia abraçado a uma figura mais conhecida. Jamais disputou uma eleição e nem possui um passado marcado pela participação em movimentos de contestação ao regime, como Dilma. Nas últimas semanas intensificou sua agenda no interior do Estado, em atividades que buscam claramente identificar sua pessoa com o governo tucano.
A possível candidatura de Anastasia surgiu diante da falta de opções dentro do PSDB. A competição entre os grupos tucanos pela proximidade em relação a Aécio impediu que surgisse no partido outro nome além do vice, que assume a posição de titular no próximo ano seja qual for o destino do governador, que sairá para disputar a Presidência ou uma cadeira ao Senado. Em tese, Anastasia representaria um alto risco para Aécio, dificultando o projeto do mineiro de disputar a candidatura presidencial com Serra. Mas mesmo críticos ao Palácio da Liberdade comentam que o vice tem vocação política. "Ele surpreende pela flexibilidade, pela habilidade em fazer concessões em pontos que não alteram a essência do que busca. Sua capacidade negociadora é grande", diz o cientista político Rudá Ricci.
Sua possível candidatura em 2010 conta com trunfos: gravitariam em sua volta grande parte dos 852 prefeitos mineiros e a maior parte do empresariado, além da simpatia da mídia local. O retrospecto é ligeiramente favorável ao oficialismo em Minas. Nas 11 eleições democráticas no Estado desde 1947, o candidato governista venceu em cinco: Bias Fortes, em 1955, Newton Cardoso, em 1986, Eduardo Azeredo, em 1994, e nas duas eleições de Aécio, em 2002 e 2006. Há uma concentração de vitórias no período mais recente. A oposição ao Palácio da Liberdade ganhou em 1950, com Juscelino Kubitschek; 1960, com Magalhães Pinto; 1965, com Israel Pinheiro; 1982, com Tancredo Neves; e 1998, com Itamar Franco. Foram outras cinco vitórias, quatro delas na fase pré-redemocratização. Muito desgastado, Newton Cardoso não participou da própria sucessão em 1990.
A eleição municipal do ano passado, contudo, foi um sinal preocupante para o aecismo. O grupo do governador assistiu ao crescimento do PT e do PMDB nas grandes cidades, ainda que o PSDB tenha se mantido com o maior número de prefeituras, ao vencer em 159 cidades.
A ânsia do PT nacional em fechar um acordo com o PMDB pode beneficiar Hélio Costa, que viu a vitória escapar na última hora nas duas eleições que disputou. E que, de certa maneira, voltou a ser um quase vencedor na eleição em Belo Horizonte no ano passado, com a candidatura do deputado Leonardo Quintão. Caso consolide sua candidatura, Costa deverá ser visto como o principal inimigo a ser batido pelo grupo de Aécio. O governador está muito mais distante do ministro das Comunicações do que dos seus dois adversários petistas. Em pesquisas não publicadas que circularam entre petistas e aliados de Aécio, Hélio Costa aparece na dianteira.
O potencial destrutivo da disputa entre Pimentel e Patrus não pode ser subestimado. No PT, o cenário de guerra para a escolha de candidatos é um roteiro quase permanente de derrotas futuras, como mostram os casos do Rio Grande do Sul em 2002 e de São Paulo em 2006. Muito ligado a Dilma, Pimentel poderá ser desviado da eleição para outra função. Mas mesmo neste caso, não é certo que Patrus seria o beneficiado. Os aliados do ex-prefeito sempre lembram a importância do PT abrir espaço para PMDB e outros parceiros na eleição estadual. Mineira de nascimento e de início de militância política, Dilma poderá atuar no quadro regional de um modo mais incisivo do que faria no Rio Grande do Sul, onde tem seu domicílio eleitoral.
Segundo maior colégio eleitoral do País, Minas parece subverter sua tradição de início tardio do processo sucessório. "A eleição só começa depois das paradas militares" era um dito célebre do ex-governador Hélio Garcia, que queria com isso dizer que somente após 7 de setembro, cerca de um mês antes das eleições, o quadro político tornava-se claro. Diante da nebulosidade do quadro eleitoral em São Paulo, onde Serra ainda irá arbitrar quem será o candidato tucano, em caso de conseguir a candidatura presidencial em 2010, e o PT enfrenta uma escassez de nomes viáveis, Minas ao que tudo indica deverá mostrar o seu jogo antes.
sábado, 13 de março de 2010
Continua valendo
Esta coluna foi escrita em 25 de janeiro de 2008, há mais de dois anos. Como voltaram a falar do tema, resolvi postá-la.
"O plano B do DEM para a sucessão "
César Felício
Criatividade para lançar candidatos que lhes permitam entrar nas negociações eleitorais com algo nas mãos é algo que nunca faltou aos pefelistas, os atuais "democratas". Da imaginação de parte de seus dirigentes brotou a solução Silvio Santos para substituir Aureliano Chaves, na campanha de 1989, Antonio Carlos Magalhães em 1994, Roseana Sarney em 2002 e Cesar Maia em 2006. Em nenhum dos casos a candidatura se concretizou e para 2010 o partido já sinalizou aos tucanos que está disposto a abrir mão do lugar de vice em uma chapa. Nem por isso deixou de conceber um plano alternativo.
A aposta da vez para protagonista do enredo da candidatura própria é a senadora Kátia Abreu, uma rica viúva goiana que iniciou sua vida pública em Tocantins há menos de dez anos. Sua escolha para dar o parecer contra a emenda constitucional que prorrogava a cobrança da CPMF fez parte desta estratégia. Permitiu à senadora debutar na grande imprensa. Sua provável eleição este ano para a presidência da Confederação Nacional da Agricultura a insere na elite dos negociadores empresariais.
Pecuarista e sojicultora, Kátia Abreu transferiu formalmente suas propriedades aos filhos e mostra um articulado discurso conservador. Procura afastar-se da fracassada experiência de Ronaldo Caiado na eleição presidencial de 1989. Comandante da UDR, Caiado parou no grito o programa de reforma agrária do governo Sarney. Montado em um cavalo branco, lançou-se candidato à sua sucessão e declarou-se "a força que vem do interior". Teve 1% dos votos.
"A UDR teve seu papel importante na defesa do direito à propriedade. Quanto mais forte este direito, mais o país cresce. Mas agora há desafios diferentes. O foco político do partido é a busca da modernização nacional. A defesa da propriedade é exercida em outros foros", afirmou a senadora, ao comentar se não era um problema ter a defesa do direito à propriedade como bandeira em um país onde a maioria da população não possui coisa alguma.
Ideologicamente, a novidade "democrata" declara-se ultraliberal. "Acredito no talento das pessoas. O governo tem que ter o tamanho necessário: cuidar de Segurança, Saúde, Educação, Habitação e só. A iniciativa privada deve prevalecer no resto", disse. Ao ser lembrada que o termo "liberal" pode ter outro significado em questões de direito individual, como aborto e casamento de homossexuais, a senadora demarcou as fronteiras com clareza. "Sou extremamente liberal nas questões econômicas", frisou.
Kátia Abreu, o protótipo para testes em 2010
É na assertividade que Kátia Abreu empolga os estrategistas do DEM. "Ela é um personagem bem diferente da Roseana", comentou um dirigente partidário. Roseana subiu nas pesquisas entre 2001 e 2002 explorando nas inserções comerciais do partido o fato de ser mulher. Mas em termos políticos, sempre foi uma adepta da escola do pai: parece ter a indefinição ideológica como meta. Também anima os dirigentes do DEM outra peculiaridade: Kátia Abreu não pertence a uma oligarquia familiar, como costuma ocorrer com as mulheres que disputam eleições em partidos conservadores. Dos seus sete irmãos, nenhum está na política. A senadora entrou na cena eleitoral representando os interesses do empresariado rural.
Em preparação para desempenhar o papel de presidenciável, Kátia Abreu é uma hipótese mais paupável para a Vice-Presidência em uma composição com os tucanos. A discrição no trabalho partidário para burilar a senadora como um nome nacional foi rompida pelo prefeito do Rio, Cesar Maia, que a citou como opção presidencial em entrevista a Heloisa Magalhães e Ana Paula Grabois no Valor.
Acostumada a contar gado e sacas de soja, a senadora procura não se perder em abstrações: acha que, se der, concorre ao governo de Tocantins em 2010. "Fiquei muito feliz com a declaração do Cesar Maia, mas tem muita gente com prioridade para entrar nesta disputa. O que eu digo é que o partido quer ter candidatura própria", afirmou.
Contra os anseios do DEM, está o fato de o palanque televisivo ter se tornado mais modesto. Os partidos não podem mais usar os programas eleitorais nacionais e regionais na televisão com a flexibilidade que alavancou Roseana há seis anos. Em janeiro do ano passado, uma resolução do TSE podou em 20 minutos o espaço partidário na mídia eletrônico.
Da janela do adversário
A última rodada de pesquisas de intenção de voto presidenciável encomendada pelo DEM chamou a atenção dos dirigentes pelos oposicionistas pelo desempenho dos petistas. A sondagem mostra que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, já saiu do traço, embora ainda esteja distante, muito distante de Ciro Gomes (PSB) no campo governista. Já o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, obteve um percentual tão baixo que deixa evidente a sua fragilidade mesmo em Minas Gerais, seu domicílio eleitoral. A ministra do Turismo, Marta Suplicy, não foi incluída no levantamento".
"O plano B do DEM para a sucessão "
César Felício
Criatividade para lançar candidatos que lhes permitam entrar nas negociações eleitorais com algo nas mãos é algo que nunca faltou aos pefelistas, os atuais "democratas". Da imaginação de parte de seus dirigentes brotou a solução Silvio Santos para substituir Aureliano Chaves, na campanha de 1989, Antonio Carlos Magalhães em 1994, Roseana Sarney em 2002 e Cesar Maia em 2006. Em nenhum dos casos a candidatura se concretizou e para 2010 o partido já sinalizou aos tucanos que está disposto a abrir mão do lugar de vice em uma chapa. Nem por isso deixou de conceber um plano alternativo.
A aposta da vez para protagonista do enredo da candidatura própria é a senadora Kátia Abreu, uma rica viúva goiana que iniciou sua vida pública em Tocantins há menos de dez anos. Sua escolha para dar o parecer contra a emenda constitucional que prorrogava a cobrança da CPMF fez parte desta estratégia. Permitiu à senadora debutar na grande imprensa. Sua provável eleição este ano para a presidência da Confederação Nacional da Agricultura a insere na elite dos negociadores empresariais.
Pecuarista e sojicultora, Kátia Abreu transferiu formalmente suas propriedades aos filhos e mostra um articulado discurso conservador. Procura afastar-se da fracassada experiência de Ronaldo Caiado na eleição presidencial de 1989. Comandante da UDR, Caiado parou no grito o programa de reforma agrária do governo Sarney. Montado em um cavalo branco, lançou-se candidato à sua sucessão e declarou-se "a força que vem do interior". Teve 1% dos votos.
"A UDR teve seu papel importante na defesa do direito à propriedade. Quanto mais forte este direito, mais o país cresce. Mas agora há desafios diferentes. O foco político do partido é a busca da modernização nacional. A defesa da propriedade é exercida em outros foros", afirmou a senadora, ao comentar se não era um problema ter a defesa do direito à propriedade como bandeira em um país onde a maioria da população não possui coisa alguma.
Ideologicamente, a novidade "democrata" declara-se ultraliberal. "Acredito no talento das pessoas. O governo tem que ter o tamanho necessário: cuidar de Segurança, Saúde, Educação, Habitação e só. A iniciativa privada deve prevalecer no resto", disse. Ao ser lembrada que o termo "liberal" pode ter outro significado em questões de direito individual, como aborto e casamento de homossexuais, a senadora demarcou as fronteiras com clareza. "Sou extremamente liberal nas questões econômicas", frisou.
Kátia Abreu, o protótipo para testes em 2010
É na assertividade que Kátia Abreu empolga os estrategistas do DEM. "Ela é um personagem bem diferente da Roseana", comentou um dirigente partidário. Roseana subiu nas pesquisas entre 2001 e 2002 explorando nas inserções comerciais do partido o fato de ser mulher. Mas em termos políticos, sempre foi uma adepta da escola do pai: parece ter a indefinição ideológica como meta. Também anima os dirigentes do DEM outra peculiaridade: Kátia Abreu não pertence a uma oligarquia familiar, como costuma ocorrer com as mulheres que disputam eleições em partidos conservadores. Dos seus sete irmãos, nenhum está na política. A senadora entrou na cena eleitoral representando os interesses do empresariado rural.
Em preparação para desempenhar o papel de presidenciável, Kátia Abreu é uma hipótese mais paupável para a Vice-Presidência em uma composição com os tucanos. A discrição no trabalho partidário para burilar a senadora como um nome nacional foi rompida pelo prefeito do Rio, Cesar Maia, que a citou como opção presidencial em entrevista a Heloisa Magalhães e Ana Paula Grabois no Valor.
Acostumada a contar gado e sacas de soja, a senadora procura não se perder em abstrações: acha que, se der, concorre ao governo de Tocantins em 2010. "Fiquei muito feliz com a declaração do Cesar Maia, mas tem muita gente com prioridade para entrar nesta disputa. O que eu digo é que o partido quer ter candidatura própria", afirmou.
Contra os anseios do DEM, está o fato de o palanque televisivo ter se tornado mais modesto. Os partidos não podem mais usar os programas eleitorais nacionais e regionais na televisão com a flexibilidade que alavancou Roseana há seis anos. Em janeiro do ano passado, uma resolução do TSE podou em 20 minutos o espaço partidário na mídia eletrônico.
Da janela do adversário
A última rodada de pesquisas de intenção de voto presidenciável encomendada pelo DEM chamou a atenção dos dirigentes pelos oposicionistas pelo desempenho dos petistas. A sondagem mostra que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, já saiu do traço, embora ainda esteja distante, muito distante de Ciro Gomes (PSB) no campo governista. Já o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, obteve um percentual tão baixo que deixa evidente a sua fragilidade mesmo em Minas Gerais, seu domicílio eleitoral. A ministra do Turismo, Marta Suplicy, não foi incluída no levantamento".
quarta-feira, 10 de março de 2010
O Lulécio
Na manhã de 1° de outubro de 2006, logo depois de votar em São Paulo acompanhado de José Serra, o candidato tucano à presidência, Geraldo Alckmin, entrou em um jatinho no aeroporto de Congonhas para acompanhar Aécio Neves às urnas em seu voto em Belo Horizonte. Em que pese as aparências, não era Alckmin que com este gesto apoiava Aécio-reeleito na ocasião com 77% dos votos válidos- mas era o governador mineiro que procurava aparecer como o grande eleitor em Minas para o PSDB, na surpreendente arrancada de Alckmin nos últimos dias de campanha, que tirou a vitória no primeiro turno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Aécio já havia sido o anfitrião da convenção nacional do PSDB que homologou o paulista Alckmin como candidato, em junho. Depois , reuniu-se com os prefeitos de sua enorme base de apoio para pedir empenho na eleição do correligionário. Mas como foi Lula que teve a maioria absoluta dos votos em Minas Gerais tanto no primeiro, como no segundo turno, tornou-se evidente que boa parte dos eleitores mineiros votou no petista para a presidência e no tucano para governador.
Deduzir daí que houve um caso clássico de traição política na eleição mineira daquele ano é uma manobra arriscada. E mais frágil ainda é imaginar que a história da eleição anterior servirá como advertência a Serra no Estado, em 2010. É bem possível que Serra perca a eleição em Minas Gerais, por motivos que passam longe da falta de apoio das lideranças locais. Aécio fez mais por Alckmin em 2006 do que Serra fez pelo mesmo na candidato na eleição municipal paulistana de 2008 .
A votação do candidato tucano à presidência praticamente dobrou em Minas Gerais entre 2002 e 2006. Serra há quase oito anos obteve 22,8% dos votos mineiros , enquanto Alckmin alcançou 40,6%. Pensar que faltou então empenho de Aécio para eleger Serra em 2002 é uma construção frágil, uma vez que naquele ano o governador mineiro era Itamar Franco, pelo PMDB, e o capital político e eleitoral de Aécio era consideravelmente menor.
O voto Lulécio existiu pela outra via, como procurou demonstrador o pesquisador Pedro Mundim, doutorando em ciências políticas pelo IUPERJ, em um artigo que escreveu sobre a eleição de 2006 disponível na Internet. A aliança entre o PT e o PMDB de Minas produziu fissuras nos dois partidos que estimulou o apoio da base lulista à reeleição do governador. A manobra foi conveniente para o Palácio do Planalto e o então coordenador político do governo federal, Walfrido Mares Guia, administrou a adesão de prefeitos, algumas dezenas deles pertencentes ao PT, à candidatura tucana ao governo estadual.
Dentro do PT , a dissidência partiu do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Na capital mineira, Aécio tinha tido 44% dos votos em 2002. Quatro anos depois, recebeu 82%. O candidato petista Nilmário Miranda despencou de 42% para 15,8%. Já o voto de Lula não teve variação relevante. O presidente recebeu 53% dos votos mineiros em 2002 e 50,6% em 2006. Em Belo Horizonte, Lula caiu , e muito: desceu de 58,4% em 2002 para 44,5% quatro anos depois. Ou seja: foi maior o contingente de lulistas que votaram em Aécio do que de aecistas que abandonaram Alckmin e sufragaram Lula.
A aliança entre petistas e pemedebistas foi determinante para se entender o funcionamento desta dimensão do Lulécio. Poucos seres humanos são tão odiados em Belo Horizonte como o ex-governador e empresário Newton Cardoso, que foi o candidato de Nilmário ao Senado em 2006. Mundim não conseguiu medir, estatisticamente, até que ponto a chapa com Newton moveu votos de Nilmário para Aécio. Mas o fato é que quando Newton e Nilmário concorreram ao governo em 2002, somaram 36% dos votos. Juntos na mesma chapa, perderam quatorze pontos percentuais.
Na base política municipal de Aécio, a maior parte de seus apoiadores ficou com Alckmin, não obstante a ação pelo Lulécio desenvolvida por Mares Guia. “Esperava-se que Aécio fosse um bom cabo eleitoral de Alckmin e os dados mostram que foi isso o que de fato aconteceu”, escreveu Mundim. Quem não permaneceu com o tucano para a presidência foram os eleitores.
Um balanço publicado pelo “Correio de Uberlândia” logo após a eleição, analisou o comportamento dos vinte prefeitos que compõem a sub-região do Alto Paranaíba, parte integrante do Triângulo, no oeste mineiro. Todos os vinte eram da base de sustentação de Aécio. O governador mineiro levou para Alckmin o apoio público de nove deles. Quatro aderiram ao Lulécio e sete permaneceram neutros. Entre os nove prefeitos que apoiaram Alckmin, Lula ganhou em sete municípios e perdeu em dois. Entre as vitórias petistas, esteve Uberlândia , a cidade mais importante. Das quatro governadas por prefeitos apoiadores de Lula, o petista venceu em três.
“Não houve uma eleição casada em termos ideológicos, mas houve uma eleição casada, em preceitos racionais”, concluiu Mundim. Em outras palavras, os mineiros estavam em 2006 satisfeitos tanto com o governo Lula quanto com o governo Aécio e quiseram votar pela continuidade.
Em setembro de 2006, Aécio conseguiu 68% de bom e ótimo em uma pesquisa de avaliação do governo feita pelo Ibope. Agora, está com 76%, de acordo com uma sondagem do Vox Populi. Se conseguiu transferir parte desta avaliação para Alckmin em 2006, é razoável supor que possa impulsionar a votação de Serra para um patamar acima de 40% no próximo ano. O problema é que Dilma Rousseff também terá fortes candidatos regionais a impulsioná-la e Lula a carregá-la nos ombros. A última pesquisa Datafolha em Minas mostrou Serra com 39% e Dilma com 20%. A sondagem mostra que Dilma percentualmente já está mais forte em Minas do que em São Paulo, Ceará, Distrito Federal, Paraná e Santa Catarina, em cenários que incluem Ciro Gomes como candidato.
O Lulécio, em 2006, falseou a análise do resultado. Aécio obteve vinte e sete pontos percentuais a mais que Lula, porque boa parte dos votos lulistas não foi para Nilmário Miranda. Criou-se a noção duvidosa de que o governador é o dono dos votos em Minas Gerais. A eleição de 2010 pode mostrar, de maneira mais exata, qual o tamanho da fatia de Lula na mente dos 15 milhões de eleitores mineiros.
(coluna publicada no Valor em 4.01.2010)
Aécio já havia sido o anfitrião da convenção nacional do PSDB que homologou o paulista Alckmin como candidato, em junho. Depois , reuniu-se com os prefeitos de sua enorme base de apoio para pedir empenho na eleição do correligionário. Mas como foi Lula que teve a maioria absoluta dos votos em Minas Gerais tanto no primeiro, como no segundo turno, tornou-se evidente que boa parte dos eleitores mineiros votou no petista para a presidência e no tucano para governador.
Deduzir daí que houve um caso clássico de traição política na eleição mineira daquele ano é uma manobra arriscada. E mais frágil ainda é imaginar que a história da eleição anterior servirá como advertência a Serra no Estado, em 2010. É bem possível que Serra perca a eleição em Minas Gerais, por motivos que passam longe da falta de apoio das lideranças locais. Aécio fez mais por Alckmin em 2006 do que Serra fez pelo mesmo na candidato na eleição municipal paulistana de 2008 .
A votação do candidato tucano à presidência praticamente dobrou em Minas Gerais entre 2002 e 2006. Serra há quase oito anos obteve 22,8% dos votos mineiros , enquanto Alckmin alcançou 40,6%. Pensar que faltou então empenho de Aécio para eleger Serra em 2002 é uma construção frágil, uma vez que naquele ano o governador mineiro era Itamar Franco, pelo PMDB, e o capital político e eleitoral de Aécio era consideravelmente menor.
O voto Lulécio existiu pela outra via, como procurou demonstrador o pesquisador Pedro Mundim, doutorando em ciências políticas pelo IUPERJ, em um artigo que escreveu sobre a eleição de 2006 disponível na Internet. A aliança entre o PT e o PMDB de Minas produziu fissuras nos dois partidos que estimulou o apoio da base lulista à reeleição do governador. A manobra foi conveniente para o Palácio do Planalto e o então coordenador político do governo federal, Walfrido Mares Guia, administrou a adesão de prefeitos, algumas dezenas deles pertencentes ao PT, à candidatura tucana ao governo estadual.
Dentro do PT , a dissidência partiu do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Na capital mineira, Aécio tinha tido 44% dos votos em 2002. Quatro anos depois, recebeu 82%. O candidato petista Nilmário Miranda despencou de 42% para 15,8%. Já o voto de Lula não teve variação relevante. O presidente recebeu 53% dos votos mineiros em 2002 e 50,6% em 2006. Em Belo Horizonte, Lula caiu , e muito: desceu de 58,4% em 2002 para 44,5% quatro anos depois. Ou seja: foi maior o contingente de lulistas que votaram em Aécio do que de aecistas que abandonaram Alckmin e sufragaram Lula.
A aliança entre petistas e pemedebistas foi determinante para se entender o funcionamento desta dimensão do Lulécio. Poucos seres humanos são tão odiados em Belo Horizonte como o ex-governador e empresário Newton Cardoso, que foi o candidato de Nilmário ao Senado em 2006. Mundim não conseguiu medir, estatisticamente, até que ponto a chapa com Newton moveu votos de Nilmário para Aécio. Mas o fato é que quando Newton e Nilmário concorreram ao governo em 2002, somaram 36% dos votos. Juntos na mesma chapa, perderam quatorze pontos percentuais.
Na base política municipal de Aécio, a maior parte de seus apoiadores ficou com Alckmin, não obstante a ação pelo Lulécio desenvolvida por Mares Guia. “Esperava-se que Aécio fosse um bom cabo eleitoral de Alckmin e os dados mostram que foi isso o que de fato aconteceu”, escreveu Mundim. Quem não permaneceu com o tucano para a presidência foram os eleitores.
Um balanço publicado pelo “Correio de Uberlândia” logo após a eleição, analisou o comportamento dos vinte prefeitos que compõem a sub-região do Alto Paranaíba, parte integrante do Triângulo, no oeste mineiro. Todos os vinte eram da base de sustentação de Aécio. O governador mineiro levou para Alckmin o apoio público de nove deles. Quatro aderiram ao Lulécio e sete permaneceram neutros. Entre os nove prefeitos que apoiaram Alckmin, Lula ganhou em sete municípios e perdeu em dois. Entre as vitórias petistas, esteve Uberlândia , a cidade mais importante. Das quatro governadas por prefeitos apoiadores de Lula, o petista venceu em três.
“Não houve uma eleição casada em termos ideológicos, mas houve uma eleição casada, em preceitos racionais”, concluiu Mundim. Em outras palavras, os mineiros estavam em 2006 satisfeitos tanto com o governo Lula quanto com o governo Aécio e quiseram votar pela continuidade.
Em setembro de 2006, Aécio conseguiu 68% de bom e ótimo em uma pesquisa de avaliação do governo feita pelo Ibope. Agora, está com 76%, de acordo com uma sondagem do Vox Populi. Se conseguiu transferir parte desta avaliação para Alckmin em 2006, é razoável supor que possa impulsionar a votação de Serra para um patamar acima de 40% no próximo ano. O problema é que Dilma Rousseff também terá fortes candidatos regionais a impulsioná-la e Lula a carregá-la nos ombros. A última pesquisa Datafolha em Minas mostrou Serra com 39% e Dilma com 20%. A sondagem mostra que Dilma percentualmente já está mais forte em Minas do que em São Paulo, Ceará, Distrito Federal, Paraná e Santa Catarina, em cenários que incluem Ciro Gomes como candidato.
O Lulécio, em 2006, falseou a análise do resultado. Aécio obteve vinte e sete pontos percentuais a mais que Lula, porque boa parte dos votos lulistas não foi para Nilmário Miranda. Criou-se a noção duvidosa de que o governador é o dono dos votos em Minas Gerais. A eleição de 2010 pode mostrar, de maneira mais exata, qual o tamanho da fatia de Lula na mente dos 15 milhões de eleitores mineiros.
(coluna publicada no Valor em 4.01.2010)
A nova geração e o que permanece
Quando o PT foi constituído, em fevereiro de 1980, o novo presidente estadual da sigla no Rio Grande do Norte, Eraldo Paiva, tinha três anos. O presidente mineiro, Reginaldo Lopes, contava com sete anos. O da Paraíba, Rodrigo Soares, era uma criança de cinco anos de idade. A prefeita de Fortaleza e presidente do PT cearense, Luizianne Lins, devia estar preocupada com as espinhas em seu rosto, aos 12 anos.
Ao completar os 30 anos, o partido do presidente começa, tardiamente, a fazer uma troca de geração em sua classe dirigente. É ainda um processo incipiente, dado que os fundadores do PT tinham pouco ou nenhuma experiência política e ainda estão na ativa. E os novos presidentes estaduais, empossados entre esta semana e a próxima, mostram que o partido teve um desenvolvimento endógeno.
O PT pode lutar para manter o privilégio de receber para seus candidatos doações ocultas de empresários, mas, de maneira diferente do que ocorre em relação a PSDB e PMDB, por exemplo, não há empresários e fazendeiros nos comandos estaduais. Tampouco são comuns os dirigentes que carregam “Filho” ou “Neto” em seus sobrenomes. Entre os presidentes estaduais, há um só ponto fora da curva: o de Ângela Portela, presidente do PT roraimense e primeira dama do ex-governador Flamarion Portela, cassado pela Justiça Eleitoral em 2004.
Entre os dirigentes estaduais há muita gente vinda dos movimentos de base da Igreja Católica, pelo menos nove casos de egressos do sindicalismo do funcionalismo público e até mesmo um ex-metalúrgico, o deputado federal Luiz Sérgio , do Rio de Janeiro. São basicamente as mesmas fontes que alimentaram o PT nos anos 80 e 90. Eraldo Paiva, vereador em São Gonçalo do Amarante (RN), é o caçula de uma família de dez filhos, todos nos movimentos sociais tocados pela Igreja Católica. Seu irmão mais velho é padre.
A fotografia inicial mostrando uma nova geração petista também ancorada em movimentos sociais, Igreja, funcionalismo público e sindicalismo não deixa de causar estranheza, uma vez que as mudanças do espectro ideológico do PT de 1980 e o de 2010 são óbvias. As diferenças, essenciais, residem nos detalhes.
Nem sempre, por exemplo, será o presidente estadual do PT quem distribuirá as cartas este ano. Ao contrário do que ocorria no passado, em que a máquina partidária influía e manietava os detentores de mandato eletivo, desta vez, em muitos estados, são os petistas de prestígio eleitoral que controlam a burocracia interna.
É o caso do Paraná, em que Enio Verri, um tecnocrata com mestrado e doutorado em economia, é ligado ao ministro do Planejamento Paulo Bernardo, e do Mato Grosso do Sul, em que o advogado Marcus Garcia está no comando por obra de um acordo entre o senador Delcídio do Amaral Gomez e o ex-governador Zeca do PT.
A origem em movimentos sociais não chega a ocultar, por outro lado, o fato que muitos dirigentes da sigla participaram das estruturas do poder federal ou do estadual antes da eleição interna do ano passado. É uma passagem que apaga a pista inicial e entroniza o petista na elite dirigente do País. O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, podia ser contado como oriundo do sindicalismo no funcionalismo público há muito tempo atrás. Hoje, é melhor considerá-lo o ex-presidente da BR Distribuidora e ex-senador por Sergipe.
É caso semelhante o de Alagoas, em que o presidente estadual Joaquim Brito foi presidente da CEAL, distribuidora de energia elétrica; ou Goiás, onde Valdi Camárcio, este um petista histórico, se elegeu depois de ter sido presidente da Funasa; ou o de Jonas Paulo, da Bahia, que passou por uma diretoria da Codevasf.
As três décadas de partido também fizeram com que ocorresse uma cristalização parlamentar, ou a profissionalização política da velha guarda partidária. O deputado federal Carlos Santana (RJ) está no quinto mandato. Arlindo Chinaglia (SP) , no quarto. Eduardo Suplicy (SP) no terceiro mandato de senador. Entre Câmara e Senado, Paulo Paim (RS) está no Congresso desde a Constituinte. Bom lembrar que, em 1986, doze dos 16 deputados eleitos pelo partido não tinham experiência legislativa. Em 2006, estavam nesta situação somente 26 dos 83 deputados petistas. Um sinal eloqüente que a passagem do vendaval do mensalão pouco transformou o partido.Em trinta anos de travessia, o PT ainda exibe diferenças em relação aos demais partidos. Mas somente na superfície assemelha-se ao que já foi.
(coluna publicada no Valor em 9.02.2010)
Quando o PT foi constituído, em fevereiro de 1980, o novo presidente estadual da sigla no Rio Grande do Norte, Eraldo Paiva, tinha três anos. O presidente mineiro, Reginaldo Lopes, contava com sete anos. O da Paraíba, Rodrigo Soares, era uma criança de cinco anos de idade. A prefeita de Fortaleza e presidente do PT cearense, Luizianne Lins, devia estar preocupada com as espinhas em seu rosto, aos 12 anos.
Ao completar os 30 anos, o partido do presidente começa, tardiamente, a fazer uma troca de geração em sua classe dirigente. É ainda um processo incipiente, dado que os fundadores do PT tinham pouco ou nenhuma experiência política e ainda estão na ativa. E os novos presidentes estaduais, empossados entre esta semana e a próxima, mostram que o partido teve um desenvolvimento endógeno.
O PT pode lutar para manter o privilégio de receber para seus candidatos doações ocultas de empresários, mas, de maneira diferente do que ocorre em relação a PSDB e PMDB, por exemplo, não há empresários e fazendeiros nos comandos estaduais. Tampouco são comuns os dirigentes que carregam “Filho” ou “Neto” em seus sobrenomes. Entre os presidentes estaduais, há um só ponto fora da curva: o de Ângela Portela, presidente do PT roraimense e primeira dama do ex-governador Flamarion Portela, cassado pela Justiça Eleitoral em 2004.
Entre os dirigentes estaduais há muita gente vinda dos movimentos de base da Igreja Católica, pelo menos nove casos de egressos do sindicalismo do funcionalismo público e até mesmo um ex-metalúrgico, o deputado federal Luiz Sérgio , do Rio de Janeiro. São basicamente as mesmas fontes que alimentaram o PT nos anos 80 e 90. Eraldo Paiva, vereador em São Gonçalo do Amarante (RN), é o caçula de uma família de dez filhos, todos nos movimentos sociais tocados pela Igreja Católica. Seu irmão mais velho é padre.
A fotografia inicial mostrando uma nova geração petista também ancorada em movimentos sociais, Igreja, funcionalismo público e sindicalismo não deixa de causar estranheza, uma vez que as mudanças do espectro ideológico do PT de 1980 e o de 2010 são óbvias. As diferenças, essenciais, residem nos detalhes.
Nem sempre, por exemplo, será o presidente estadual do PT quem distribuirá as cartas este ano. Ao contrário do que ocorria no passado, em que a máquina partidária influía e manietava os detentores de mandato eletivo, desta vez, em muitos estados, são os petistas de prestígio eleitoral que controlam a burocracia interna.
É o caso do Paraná, em que Enio Verri, um tecnocrata com mestrado e doutorado em economia, é ligado ao ministro do Planejamento Paulo Bernardo, e do Mato Grosso do Sul, em que o advogado Marcus Garcia está no comando por obra de um acordo entre o senador Delcídio do Amaral Gomez e o ex-governador Zeca do PT.
A origem em movimentos sociais não chega a ocultar, por outro lado, o fato que muitos dirigentes da sigla participaram das estruturas do poder federal ou do estadual antes da eleição interna do ano passado. É uma passagem que apaga a pista inicial e entroniza o petista na elite dirigente do País. O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, podia ser contado como oriundo do sindicalismo no funcionalismo público há muito tempo atrás. Hoje, é melhor considerá-lo o ex-presidente da BR Distribuidora e ex-senador por Sergipe.
É caso semelhante o de Alagoas, em que o presidente estadual Joaquim Brito foi presidente da CEAL, distribuidora de energia elétrica; ou Goiás, onde Valdi Camárcio, este um petista histórico, se elegeu depois de ter sido presidente da Funasa; ou o de Jonas Paulo, da Bahia, que passou por uma diretoria da Codevasf.
As três décadas de partido também fizeram com que ocorresse uma cristalização parlamentar, ou a profissionalização política da velha guarda partidária. O deputado federal Carlos Santana (RJ) está no quinto mandato. Arlindo Chinaglia (SP) , no quarto. Eduardo Suplicy (SP) no terceiro mandato de senador. Entre Câmara e Senado, Paulo Paim (RS) está no Congresso desde a Constituinte. Bom lembrar que, em 1986, doze dos 16 deputados eleitos pelo partido não tinham experiência legislativa. Em 2006, estavam nesta situação somente 26 dos 83 deputados petistas. Um sinal eloqüente que a passagem do vendaval do mensalão pouco transformou o partido.Em trinta anos de travessia, o PT ainda exibe diferenças em relação aos demais partidos. Mas somente na superfície assemelha-se ao que já foi.
(coluna publicada no Valor em 9.02.2010)
Balanço social de pouco brilho
Entre os muitos roteiros sonhados pela ala serrista do PSDB para convencer o governador Aécio Neves a aceitar a vaga de vice na chapa de Serra à presidência está a carta social: seria oferecido a Aécio um ministério estratégico, como educação ou saúde, para que desta plataforma o mineiro saltasse para uma aventura presidencial no longínquo 2018, conforme descreveu no mês passado Caio Junqueira no Valor.
É uma hipótese remota, mas que desperta a curiosidade sobre o que foi a gestão social dos oito anos de governo Aécio em Minas Gerais. Criador de um modelo nacional de gestão administrativa, com resultados financeiros surpreendentes, Aécio teve um desempenho discreto em relação ao que a marquetagem chama de “cuidar de gente”. A focalização e um certo conservadorismo nas ações marcaram sua administração. Aqui se tratará de Segurança Pública, Educação e Desenvolvimento Social.
Aécio conseguiu diminuir a violência urbana em Minas Gerais, mas de maneira bem menos acentuada do que foi feito em São Paulo. Entre 1990 e 2002 , o desemprego na região metropolitana de Belo Horizonte dobrou de 10% para 20% o que colaborou para que , ao assumir o governo, em 2003, Aécio administrasse uma crise na segurança pública, com a violência subindo exponencialmente. O governador procurou integrar as polícias civil e militar e lançou mão até de uma PPP para ampliar vagas no sistema prisional.
No único indicador de segurança pública que permite comparação entre diversos locais e análise em séries longas de tempo- o índice de homicídios dolosos por grupo de 100 mil habitantes- a reação foi discreta. Em 2008, o índice ficou em 30,9 na capital mineira. Era de 36,8 em 2002 , tendo atingido um pico de 52,8 em 2004 e recuado desde então. A população carcerária em estabelecimentos prisionais passou de 5,6 mil para 30,2 mil entre 2003 e 2008, mas no ano retrasado ainda havia 15,8 mil presos em delegacias da Polícia Civil.
Na educação, Aécio teve como seu maior problema demonstrar com resultados o acerto de seu governo. A grande aposta da gestão Aécio foi a criação de uma rede de escolas referência, com tratamento privilegiado na distribuição de recursos. A rede começou em 2004 com 223 escolas selecionadas por meio de um processo competitivo. Em 2007, 713 escolas já eram referência.
“É uma visão antiga de focalização, uma vez que cria ilhas de excelência. Não faz sentido o poder público fomentar uma estrutura elitizada de educação”, afirmou um conhecido crítico do governo mineiro na área, o sociólogo Rudá Ricci, do Instituto Cultiva. Ricci concede um ponto favorável a Aécio no setor: O estado de fato foi o primeiro a garantir nove anos de ensino fundamental, uma política estabelecida nacionalmente, mas de adesão gradual.
Em comparação a outros estados, o desempenho de Aécio Neves na educação mostrou aspectos discutíveis. Minas Gerais foi o único entre os 26 estados e o Distrito Federal em que a avaliação do IDEB nas séries iniciais do ensino fundamental não subiu entre 2005 e 2007. No ensino médio, a avaliação ficou estacionada em 3,8, enquanto subiu em treze estados.Nas séries finais do ensino fundamental, a avaliação aumentou de 3,8 para 4. Levando-se em conta apenas as escolas da rede estadual, o panorama não muda muito: a nota nas séries iniciais do ensino fundamental ficou em 4,9 entre 2005 e 2007, enquanto subiu em todos os demais estados das regiões sudeste, centro-oeste e sul. Como Minas, ficaram apenas Bahia, Pará, Roraima e Amapá.
A secretária da Educação, Vanessa Guimarães, apresentou à época uma contestação por escrito ao IDEB, afirmando que os resultados apurados eram inconsistentes. Apontou, entre outros elementos, que o indicador elaborado pelo ministério da Educação indicava melhorias em relação ao que ocorreu em Minas nos índices de estados que passaram por cinco meses de greve na rede escolar.
Na área de desenvolvimento social, somente agora, em 2010, Aécio conseguiu dar escala a um de seus principais projetos, o programa Travessia, que direciona investimentos em saúde, saneamento, educação, infra-estrutura e geração de renda nas áreas mais pobres do Estado. Ao ser lançado, em 2008, o programa beneficiou apenas cinco cidades. Este ano, em que Aécio será governador apenas até o final de março, o Travessia deve atingir a marca de cem municípios, uma aplicação de R$ 345 milhões.
Mais abrangente, o Programa de Combate à Pobreza Rural, com recursos do Banco Mundial, chegou a 188 municípios, mas os recursos aplicados são modestos: o programa se estrutura em uma linha de crédito de US$ 70 milhões.
Pulverizadas em várias iniciativas, a ação social está fadada a passar a não imprimir uma marca no governo Aécio. Para a eleição de 2010, ele se apresentará com os bons resultados do “choque de gestão”. E para a posteridade, talvez o governador seja lembrado pelo gigante de 100 mil metros cúbicos de concreto, 13 mil toneladas de aço, 10 mil metros cúbicos de vidro e 77 elevadores que construiu na periferia de Belo Horizonte. Esplendor da tecnocracia, a Cidade Administrativa de Aécio, que deve começar a operar possivelmente fevereiro, poderá ser a mais perfeita tradução
(coluna publicada em 20.01.2010)
Entre os muitos roteiros sonhados pela ala serrista do PSDB para convencer o governador Aécio Neves a aceitar a vaga de vice na chapa de Serra à presidência está a carta social: seria oferecido a Aécio um ministério estratégico, como educação ou saúde, para que desta plataforma o mineiro saltasse para uma aventura presidencial no longínquo 2018, conforme descreveu no mês passado Caio Junqueira no Valor.
É uma hipótese remota, mas que desperta a curiosidade sobre o que foi a gestão social dos oito anos de governo Aécio em Minas Gerais. Criador de um modelo nacional de gestão administrativa, com resultados financeiros surpreendentes, Aécio teve um desempenho discreto em relação ao que a marquetagem chama de “cuidar de gente”. A focalização e um certo conservadorismo nas ações marcaram sua administração. Aqui se tratará de Segurança Pública, Educação e Desenvolvimento Social.
Aécio conseguiu diminuir a violência urbana em Minas Gerais, mas de maneira bem menos acentuada do que foi feito em São Paulo. Entre 1990 e 2002 , o desemprego na região metropolitana de Belo Horizonte dobrou de 10% para 20% o que colaborou para que , ao assumir o governo, em 2003, Aécio administrasse uma crise na segurança pública, com a violência subindo exponencialmente. O governador procurou integrar as polícias civil e militar e lançou mão até de uma PPP para ampliar vagas no sistema prisional.
No único indicador de segurança pública que permite comparação entre diversos locais e análise em séries longas de tempo- o índice de homicídios dolosos por grupo de 100 mil habitantes- a reação foi discreta. Em 2008, o índice ficou em 30,9 na capital mineira. Era de 36,8 em 2002 , tendo atingido um pico de 52,8 em 2004 e recuado desde então. A população carcerária em estabelecimentos prisionais passou de 5,6 mil para 30,2 mil entre 2003 e 2008, mas no ano retrasado ainda havia 15,8 mil presos em delegacias da Polícia Civil.
Na educação, Aécio teve como seu maior problema demonstrar com resultados o acerto de seu governo. A grande aposta da gestão Aécio foi a criação de uma rede de escolas referência, com tratamento privilegiado na distribuição de recursos. A rede começou em 2004 com 223 escolas selecionadas por meio de um processo competitivo. Em 2007, 713 escolas já eram referência.
“É uma visão antiga de focalização, uma vez que cria ilhas de excelência. Não faz sentido o poder público fomentar uma estrutura elitizada de educação”, afirmou um conhecido crítico do governo mineiro na área, o sociólogo Rudá Ricci, do Instituto Cultiva. Ricci concede um ponto favorável a Aécio no setor: O estado de fato foi o primeiro a garantir nove anos de ensino fundamental, uma política estabelecida nacionalmente, mas de adesão gradual.
Em comparação a outros estados, o desempenho de Aécio Neves na educação mostrou aspectos discutíveis. Minas Gerais foi o único entre os 26 estados e o Distrito Federal em que a avaliação do IDEB nas séries iniciais do ensino fundamental não subiu entre 2005 e 2007. No ensino médio, a avaliação ficou estacionada em 3,8, enquanto subiu em treze estados.Nas séries finais do ensino fundamental, a avaliação aumentou de 3,8 para 4. Levando-se em conta apenas as escolas da rede estadual, o panorama não muda muito: a nota nas séries iniciais do ensino fundamental ficou em 4,9 entre 2005 e 2007, enquanto subiu em todos os demais estados das regiões sudeste, centro-oeste e sul. Como Minas, ficaram apenas Bahia, Pará, Roraima e Amapá.
A secretária da Educação, Vanessa Guimarães, apresentou à época uma contestação por escrito ao IDEB, afirmando que os resultados apurados eram inconsistentes. Apontou, entre outros elementos, que o indicador elaborado pelo ministério da Educação indicava melhorias em relação ao que ocorreu em Minas nos índices de estados que passaram por cinco meses de greve na rede escolar.
Na área de desenvolvimento social, somente agora, em 2010, Aécio conseguiu dar escala a um de seus principais projetos, o programa Travessia, que direciona investimentos em saúde, saneamento, educação, infra-estrutura e geração de renda nas áreas mais pobres do Estado. Ao ser lançado, em 2008, o programa beneficiou apenas cinco cidades. Este ano, em que Aécio será governador apenas até o final de março, o Travessia deve atingir a marca de cem municípios, uma aplicação de R$ 345 milhões.
Mais abrangente, o Programa de Combate à Pobreza Rural, com recursos do Banco Mundial, chegou a 188 municípios, mas os recursos aplicados são modestos: o programa se estrutura em uma linha de crédito de US$ 70 milhões.
Pulverizadas em várias iniciativas, a ação social está fadada a passar a não imprimir uma marca no governo Aécio. Para a eleição de 2010, ele se apresentará com os bons resultados do “choque de gestão”. E para a posteridade, talvez o governador seja lembrado pelo gigante de 100 mil metros cúbicos de concreto, 13 mil toneladas de aço, 10 mil metros cúbicos de vidro e 77 elevadores que construiu na periferia de Belo Horizonte. Esplendor da tecnocracia, a Cidade Administrativa de Aécio, que deve começar a operar possivelmente fevereiro, poderá ser a mais perfeita tradução
(coluna publicada em 20.01.2010)
Em tempo de debates sobre o culto à personalidade que o filme “Lula-o filho do Brasil”, de Fabio Barreto pode desencadear, será oportuno compará-lo com o olhar britânico de Richard Bourne, jornalista e pesquisador da Universidade de Londres, sobre o mesmo personagem. Enquanto o filme de Barreto-gravemente acidentado na noite de sábado-encerra no momento em que o presidente ingressa na arena pública, o livro de Bourne, “Lula of Brazil-The story so far”, ou “Lula- a história até agora”, editado pela Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, busca unir o ontem e o hoje, o filho de dona Lindu com o presidente comensal de banqueiros e donos de usinas, o retirante nordestino com o protagonista em conferências internacionais de chefes de Estado.
A obra será lançada no Brasil nos próximos dias , pela Geração Editorial e trata da biografia do presidente e de todo seu primeiro mandato. O escândalo do mensalão é objeto de dois capítulos. A política social do governo, de um. Afora quatro erros factuais graves ( Lula não se candidatou a um segundo mandato como deputado em 1990, o vice-presidente José Alencar não é evangélico, Fortaleza não é a capital do Maranhão e Zélia Cardoso de Mello não nasceu em Alagoas), o livro é minucioso ao descrever os limites da transformação que Lula proporcionou no País.
O mensalão é descrito como uma capitulação do PT aos esquemas tradicionais de se fazer política no Brasil. E o saldo administrativo mostra a atenuação de problemas crônicas, e não sua correção. “ O grande problema é que o governo Lula não conduziu uma campanha total contra a desigualdade social , a despeito do que o presidente dissera em batalhas eleitorais anteriores. Isto foi inviabilizado não apenas pelas políticas econômicas relativamente ortodoxas, mas também pela falta de vontade de desafiar os interesses daqueles que se beneficiam do status quo”, afirmou, em tradução livre, à página 131 do livro.
( coluna publicada no Valor em 20.12.2009)
A obra será lançada no Brasil nos próximos dias , pela Geração Editorial e trata da biografia do presidente e de todo seu primeiro mandato. O escândalo do mensalão é objeto de dois capítulos. A política social do governo, de um. Afora quatro erros factuais graves ( Lula não se candidatou a um segundo mandato como deputado em 1990, o vice-presidente José Alencar não é evangélico, Fortaleza não é a capital do Maranhão e Zélia Cardoso de Mello não nasceu em Alagoas), o livro é minucioso ao descrever os limites da transformação que Lula proporcionou no País.
O mensalão é descrito como uma capitulação do PT aos esquemas tradicionais de se fazer política no Brasil. E o saldo administrativo mostra a atenuação de problemas crônicas, e não sua correção. “ O grande problema é que o governo Lula não conduziu uma campanha total contra a desigualdade social , a despeito do que o presidente dissera em batalhas eleitorais anteriores. Isto foi inviabilizado não apenas pelas políticas econômicas relativamente ortodoxas, mas também pela falta de vontade de desafiar os interesses daqueles que se beneficiam do status quo”, afirmou, em tradução livre, à página 131 do livro.
( coluna publicada no Valor em 20.12.2009)
A nova audiência
Quem circula na parte mais abastada de Belo Horizonte, a chamada região “Centro Sul”, dificilmente se depara com um galpão marcado pelo logotipo azul e amarelo informando que ali está uma loja da rede “BH Supermercados”. A trajetória desta empresa exemplifica um pouco algumas mudanças no País nos últimos anos.
Voltada para a chamada “classe C”, categoria que reúne as famílias com renda mensal entre dois e cinco salários mínimos, a rede, fundado em 1996, tinha 25 lojas em 2004, 68 lojas em 2006 e 86 pontos de venda em 2008, quando finalmente parou a expansão. Em junho do ano passado, segundo balanço da Associação Mineira dos Supermercados, atingiu a marca de R$ 1 bilhão de faturamento anual. Sem vender um iogurte sequer para a classe média alta.
Entre 2004 e 2008, um imenso contingente populacional elevou o padrão de consumo, mantendo-se em bairros marcados pela pobreza. É a nova classe média com poucos anos de estudo, mas que começa a ser estudada, em um espectro amplo do pensamento acadêmico. Este ano, já está nas livrarias o livro “A Classe Média Brasileira”, de Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, dois cientistas políticos identificados com a oposição; e em breve será publicado “Lulismo-Da era dos movimentos sociais à ascensão da nova classe média brasileira”, do sociólogo Rudá Ricci, um ex-petista articulador de ONGs na área da educação.
São dois pólos opostos no pensamento, que convergem na constatação de que cresceu a população nesta faixa de renda, que passou a constituir a maioria absoluta da população. Divergem os autores na análise das implicações políticas deste crescimento. Ricci afirma que a ascensão desta nova classe média consolida a dissociação entre petismo- o primeiro ainda vinculado a movimentos sociais- e o lulismo, um movimento que aposta no fortalecimento do estado como fomentador de um novo padrão de consumo, e não de transformações radicais na sociedade.
Neste ponto, o sociólogo aproxima-se do diagnóstico do lulismo feito pelo ex-porta-voz da presidência e cientista político André Singer, em seu artigo “Raízes ideológicas e sociais do lulismo”, publicado no final do ano passado pela revista do CEBRAP. A diferença essencial é que Singer acredita que Lula dissociou-se do petismo, reelegendo-se em 2006, ao atender aos padrões conservadores de pensamento das classes mais pobres, que o derrotaram em 1989,1994 e 1998, jogando ao mar a classe média ancorada em sindicatos, universidades e funcionalismo. Já Ricci vê no crescimento da classe C o combustível para esta dissociação.
A classe C, segundo Ricci, mora em lugares pobres e mimetiza o consumo das classes mais ricas. É refratária à leitura, mas busca a Internet. Religiosa e conservadora em questões comportamentais, é totalmente pragmática nas questões políticas. Ao mirar neste público, que busca uma modernização conservadora, Lula torna a esquerda petista uma mera caudatária do centrismo.
Desde o início de seu governo, o presidente foi alienando os movimentos sociais e ícones da esquerda do poder. Ricci lembra de Frei Betto a Marina Silva, passando por Heloisa Helena, Cristovam Buarque, Fernando Gabeira, Chico de Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e figuras menos conhecidas como o militante católico Ivo Poletto, ao mesmo tempo em que consolidou alianças conservadoras. Mas, por meio de recursos estatais e concessões do ponto de vista formal, desarticulou qualquer maré contrária dos antigos aliados. Ricci cita o Plano Nacional de Direitos Humanos e a Consolidação das Leis Sociais como duas iniciativas que blindam o governo de ofensivas pela esquerda.
O cientista político Amaury de Souza não está tão certo que o crescimento da classe C tenha alimentado a reeleição em 2006. Lembra que as pesquisas da época mostram que a fonte de votos lulista provinha da população que ganhava até dois mínimos mensais. Na classe C, havia uma divisão entre Lula e Alckmin, opinião também de Singer. Esta população, de acordo com Souza, está mais próxima da angústia do que da euforia.
Dados de uma pesquisa de opinião encomendada por Souza e Lamounier mostram que 50% dos integrantes da classe C declaram estar endividados e 64% afirmaram ter cortado gastos em 2008, antes mesmo da crise econômica global que chegou aos jornais em setembro e à economia real algumas semanas mais tarde.
Esta classe média não atribui a Lula seus problemas financeiros, mas a instabilidade econômica a torna especialmente conservadora. Teme a inflação, e começa a sentir o peso dos impostos ao sair das faixas de isenção de tributos como o de Renda e o IPTU. Pelo forte peso evangélico em sua formação, tende a ser suscetível a um discurso pró-família, contra aborto, casamento homossexual e vida afetiva heterodoxa. A conclusão de Souza é que a conformação social que deu a Lula um sucesso retumbante em 2006 mudou. E a nova classe média está longe de ser um feudo seu. Ainda será disputada nas urnas
(Publicado no Valor em 4.02.2010)
Quem circula na parte mais abastada de Belo Horizonte, a chamada região “Centro Sul”, dificilmente se depara com um galpão marcado pelo logotipo azul e amarelo informando que ali está uma loja da rede “BH Supermercados”. A trajetória desta empresa exemplifica um pouco algumas mudanças no País nos últimos anos.
Voltada para a chamada “classe C”, categoria que reúne as famílias com renda mensal entre dois e cinco salários mínimos, a rede, fundado em 1996, tinha 25 lojas em 2004, 68 lojas em 2006 e 86 pontos de venda em 2008, quando finalmente parou a expansão. Em junho do ano passado, segundo balanço da Associação Mineira dos Supermercados, atingiu a marca de R$ 1 bilhão de faturamento anual. Sem vender um iogurte sequer para a classe média alta.
Entre 2004 e 2008, um imenso contingente populacional elevou o padrão de consumo, mantendo-se em bairros marcados pela pobreza. É a nova classe média com poucos anos de estudo, mas que começa a ser estudada, em um espectro amplo do pensamento acadêmico. Este ano, já está nas livrarias o livro “A Classe Média Brasileira”, de Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, dois cientistas políticos identificados com a oposição; e em breve será publicado “Lulismo-Da era dos movimentos sociais à ascensão da nova classe média brasileira”, do sociólogo Rudá Ricci, um ex-petista articulador de ONGs na área da educação.
São dois pólos opostos no pensamento, que convergem na constatação de que cresceu a população nesta faixa de renda, que passou a constituir a maioria absoluta da população. Divergem os autores na análise das implicações políticas deste crescimento. Ricci afirma que a ascensão desta nova classe média consolida a dissociação entre petismo- o primeiro ainda vinculado a movimentos sociais- e o lulismo, um movimento que aposta no fortalecimento do estado como fomentador de um novo padrão de consumo, e não de transformações radicais na sociedade.
Neste ponto, o sociólogo aproxima-se do diagnóstico do lulismo feito pelo ex-porta-voz da presidência e cientista político André Singer, em seu artigo “Raízes ideológicas e sociais do lulismo”, publicado no final do ano passado pela revista do CEBRAP. A diferença essencial é que Singer acredita que Lula dissociou-se do petismo, reelegendo-se em 2006, ao atender aos padrões conservadores de pensamento das classes mais pobres, que o derrotaram em 1989,1994 e 1998, jogando ao mar a classe média ancorada em sindicatos, universidades e funcionalismo. Já Ricci vê no crescimento da classe C o combustível para esta dissociação.
A classe C, segundo Ricci, mora em lugares pobres e mimetiza o consumo das classes mais ricas. É refratária à leitura, mas busca a Internet. Religiosa e conservadora em questões comportamentais, é totalmente pragmática nas questões políticas. Ao mirar neste público, que busca uma modernização conservadora, Lula torna a esquerda petista uma mera caudatária do centrismo.
Desde o início de seu governo, o presidente foi alienando os movimentos sociais e ícones da esquerda do poder. Ricci lembra de Frei Betto a Marina Silva, passando por Heloisa Helena, Cristovam Buarque, Fernando Gabeira, Chico de Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e figuras menos conhecidas como o militante católico Ivo Poletto, ao mesmo tempo em que consolidou alianças conservadoras. Mas, por meio de recursos estatais e concessões do ponto de vista formal, desarticulou qualquer maré contrária dos antigos aliados. Ricci cita o Plano Nacional de Direitos Humanos e a Consolidação das Leis Sociais como duas iniciativas que blindam o governo de ofensivas pela esquerda.
O cientista político Amaury de Souza não está tão certo que o crescimento da classe C tenha alimentado a reeleição em 2006. Lembra que as pesquisas da época mostram que a fonte de votos lulista provinha da população que ganhava até dois mínimos mensais. Na classe C, havia uma divisão entre Lula e Alckmin, opinião também de Singer. Esta população, de acordo com Souza, está mais próxima da angústia do que da euforia.
Dados de uma pesquisa de opinião encomendada por Souza e Lamounier mostram que 50% dos integrantes da classe C declaram estar endividados e 64% afirmaram ter cortado gastos em 2008, antes mesmo da crise econômica global que chegou aos jornais em setembro e à economia real algumas semanas mais tarde.
Esta classe média não atribui a Lula seus problemas financeiros, mas a instabilidade econômica a torna especialmente conservadora. Teme a inflação, e começa a sentir o peso dos impostos ao sair das faixas de isenção de tributos como o de Renda e o IPTU. Pelo forte peso evangélico em sua formação, tende a ser suscetível a um discurso pró-família, contra aborto, casamento homossexual e vida afetiva heterodoxa. A conclusão de Souza é que a conformação social que deu a Lula um sucesso retumbante em 2006 mudou. E a nova classe média está longe de ser um feudo seu. Ainda será disputada nas urnas
(Publicado no Valor em 4.02.2010)
A estrela não sobe
O amplo noticiário sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos lançou uma curiosa zona de dúvidas no meio empresarial em relação à ministra da Casa Civil e pré-candidata petista Dilma Rousseff. Começaram a cogitar a possibilidade, de, quem sabe, Dilma ser realmente uma pessoa de esquerda, mais à esquerda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Capaz até mesmo de tirar do plano discursivo as bandeiras tradicionais , aquelas vermelhas com uma estrela branca no meio, que tanto assustavam certos setores da sociedade antes da campanha presidencial marcada por Duda Mendonça, de um lado e a “Carta ao Povo Brasileiro”, do outro.
É uma preocupação curiosa, dada a maneira como Lula está construindo a candidatura da sua ungida. São condições que apontam para um ambiente político não muito propício a movimentos bruscos. Para efeito de análise, tome-se um improvável cenário de uma acachapante vitória da candidata e de seus aliados.
Pela moldura lulista, que implica sacrificar a candidatura própria petista em todas as ocasiões em que há um forte candidato aliado e há divisão dentro do partido, na hipótese mais favorável o PT pode emergir em novembro com oito governos estaduais, sendo quatro relevantes- Bahia, Pará, Rio Grande do Sul e Distrito Federal- e quatro de estados pequenos: Sergipe, Acre, Mato Grosso do Sul e Piauí. O PMDB, além da vice-presidência, poderia contar pelo lado governista da sigla com outros sete governos : Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraíba e Maranhão. Entre os aliados conservadores, é possível que o PR vença no Amazonas e no Tocantins , o PTB em Alagoas e o PP em Santa Catarina e Roraima. Entre os parceiros tradicionais do petismo, o PDT talvez ganhe no Paraná e no Amapá e o PSB no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco.
Neste cenário de pesadelo para a oposição, que, é necessário frisar, não é o mais provável, os governistas só teriam derrotas claras em São Paulo, com o PSDB, e em Rondônia, com PSDB ou PPS. Emergeria das urnas , em um quadro destes, que é o melhor possível para o governo, uma grande força centrista, do PMDB, PP, PTB e PR, governando cerca de 35% do PIB. O PSDB, com São Paulo, teria mando em 33%. E PT e parceiros de esquerda ficariam aproximadamente com o outro terço. No Congresso Nacional devem ser mantidas as características de presidencialismo de coalizão em que maiorias são negociadas proposta a proposta.
Em um também improvável cenário de derrota total de Dilma, os governistas venceriam apenas em Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Amazonas, Acre, Amapá e Espírito Santo. O PT ficaria reduzido a um único governo e os tucanos talvez levassem São Paulo, Minas, Paraná, Pará, Goiás, Roraima, Rondônia, Tocantins, Alagoas e Piauí. Os integrantes do DEM poderiam triunfar no Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Bahia, Sergipe e Santa Catarina. Aliados no PMDB, PSC e no PV poderiam levar Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul. Observe-se que é maior o número de candidatos fortes armados diretamente pelo PSDB dentro do seu universo de aliados do que o do PT em relação ao universo lulista.
Uma vitória retumbante de Serra significaria o fortalecimento do PSDB, na mesma medida em que o sucesso de Dilma não significa força para o petismo. O PT serve de moeda de troca para alianças em vários estados, sendo Minas Gerais o da vez. O PSDB, caso venha a sacrificar seus candidatos para beneficiar aliados, o fará talvez no Tocantins, Paraná , Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso. “Nossa aliança é menor e a deles é enorme , despertando ambições desmedidas. Pelo menos um lado bom esta circunstância tem: é mais fácil para nós organizar palanques, enquanto para o PT o retrato de 2010 será amargo”, comenta o ex-ministro Roberto Brant, um integrante do DEM.
As concessões organizadas por Lula para alavancar a sua candidata devem confirmar a interrupção da escalada de crescimento petista já sentida na eleição de 2006 e dissociar, para sempre, o petismo do lulismo. O primeiro ainda guarda aspectos de uma confusa frente de movimentos sociais. O segundo tem no nacionalismo e no fortalecimento do Estado seus principais traços distintivos.
Foi a dissociação entre o presidente e o partido que paulatinamente levou às dissidências que garantiram o segundo turno em 2006, com Heloisa Helena e Cristovam Buarque, e que podem garanti-lo novamente, com Marina Silva. Egressa do PDT, Dilma representa o lulismo, e não o petismo e talvez exatamente por isso tenha sido a escolhida de Lula, em detrimento de outras opções dentro da sigla
(coluna publicada no Valor em 28.01.2010)
O amplo noticiário sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos lançou uma curiosa zona de dúvidas no meio empresarial em relação à ministra da Casa Civil e pré-candidata petista Dilma Rousseff. Começaram a cogitar a possibilidade, de, quem sabe, Dilma ser realmente uma pessoa de esquerda, mais à esquerda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Capaz até mesmo de tirar do plano discursivo as bandeiras tradicionais , aquelas vermelhas com uma estrela branca no meio, que tanto assustavam certos setores da sociedade antes da campanha presidencial marcada por Duda Mendonça, de um lado e a “Carta ao Povo Brasileiro”, do outro.
É uma preocupação curiosa, dada a maneira como Lula está construindo a candidatura da sua ungida. São condições que apontam para um ambiente político não muito propício a movimentos bruscos. Para efeito de análise, tome-se um improvável cenário de uma acachapante vitória da candidata e de seus aliados.
Pela moldura lulista, que implica sacrificar a candidatura própria petista em todas as ocasiões em que há um forte candidato aliado e há divisão dentro do partido, na hipótese mais favorável o PT pode emergir em novembro com oito governos estaduais, sendo quatro relevantes- Bahia, Pará, Rio Grande do Sul e Distrito Federal- e quatro de estados pequenos: Sergipe, Acre, Mato Grosso do Sul e Piauí. O PMDB, além da vice-presidência, poderia contar pelo lado governista da sigla com outros sete governos : Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraíba e Maranhão. Entre os aliados conservadores, é possível que o PR vença no Amazonas e no Tocantins , o PTB em Alagoas e o PP em Santa Catarina e Roraima. Entre os parceiros tradicionais do petismo, o PDT talvez ganhe no Paraná e no Amapá e o PSB no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco.
Neste cenário de pesadelo para a oposição, que, é necessário frisar, não é o mais provável, os governistas só teriam derrotas claras em São Paulo, com o PSDB, e em Rondônia, com PSDB ou PPS. Emergeria das urnas , em um quadro destes, que é o melhor possível para o governo, uma grande força centrista, do PMDB, PP, PTB e PR, governando cerca de 35% do PIB. O PSDB, com São Paulo, teria mando em 33%. E PT e parceiros de esquerda ficariam aproximadamente com o outro terço. No Congresso Nacional devem ser mantidas as características de presidencialismo de coalizão em que maiorias são negociadas proposta a proposta.
Em um também improvável cenário de derrota total de Dilma, os governistas venceriam apenas em Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Amazonas, Acre, Amapá e Espírito Santo. O PT ficaria reduzido a um único governo e os tucanos talvez levassem São Paulo, Minas, Paraná, Pará, Goiás, Roraima, Rondônia, Tocantins, Alagoas e Piauí. Os integrantes do DEM poderiam triunfar no Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Bahia, Sergipe e Santa Catarina. Aliados no PMDB, PSC e no PV poderiam levar Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul. Observe-se que é maior o número de candidatos fortes armados diretamente pelo PSDB dentro do seu universo de aliados do que o do PT em relação ao universo lulista.
Uma vitória retumbante de Serra significaria o fortalecimento do PSDB, na mesma medida em que o sucesso de Dilma não significa força para o petismo. O PT serve de moeda de troca para alianças em vários estados, sendo Minas Gerais o da vez. O PSDB, caso venha a sacrificar seus candidatos para beneficiar aliados, o fará talvez no Tocantins, Paraná , Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso. “Nossa aliança é menor e a deles é enorme , despertando ambições desmedidas. Pelo menos um lado bom esta circunstância tem: é mais fácil para nós organizar palanques, enquanto para o PT o retrato de 2010 será amargo”, comenta o ex-ministro Roberto Brant, um integrante do DEM.
As concessões organizadas por Lula para alavancar a sua candidata devem confirmar a interrupção da escalada de crescimento petista já sentida na eleição de 2006 e dissociar, para sempre, o petismo do lulismo. O primeiro ainda guarda aspectos de uma confusa frente de movimentos sociais. O segundo tem no nacionalismo e no fortalecimento do Estado seus principais traços distintivos.
Foi a dissociação entre o presidente e o partido que paulatinamente levou às dissidências que garantiram o segundo turno em 2006, com Heloisa Helena e Cristovam Buarque, e que podem garanti-lo novamente, com Marina Silva. Egressa do PDT, Dilma representa o lulismo, e não o petismo e talvez exatamente por isso tenha sido a escolhida de Lula, em detrimento de outras opções dentro da sigla
(coluna publicada no Valor em 28.01.2010)
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