quinta-feira, 7 de março de 2013
Na periferia de Buenos Aires, feira atrai multidão
Materia publicada no Valor, em 20 de janeiro de 2012
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Por Cesar Felício | Lomas de Zamora (Argentina)
Em La Salada, seis mil vendedores atendem mais de 20 mil consumidores por dia: o metro quadrado custa US$ 10 mil.
Um dos mais rentáveis negócios imobiliários da Argentina está às margens de uma vala de esgoto a céu aberto, o rio Riachuelo, que separa Buenos Aires do município suburbano de Lomas de Zamora. E é do lado de Lomas, em meio a milhares de casas térreas sem reboco e ruas de terra, que se comercializa o metro quadrado a US$ 10 mil. Em uma área que até os anos 90 era ocupada por balneários populares, funciona duas vezes por semana a feira de roupas e calçados de La Salada.
De acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, está entre os cinco maiores centros de venda informal, pirataria e contrabando da América Latina: rivaliza com Ciudad del Este, no Paraguai, San Andrecito, na Colômbia, Tepito no México e a feira da Bahía, em Guayaquil, no Equador. O relatório, cuja versão mais recente foi divulgada há um mês, afirma que "seis mil vendedores comercializam para 20 mil consumidores por jornada ". Ao avaliar a dimensão da feira, os burocratas norte-americanos pecaram por conservadorismo. Seis mil vendedores são apenas os que ocupam o espaço coberto nas áreas de Urkupiña, Ocean e Punta Mogotes. E vinte mil são apenas os consumidores que chegam nos ônibus fretados às terças-feiras e aos domingos, os dois dias de funcionamento da feira.
"Apenas um em cada cinco chegam à feira nestes ônibus", diz Jorge Castillo, que administra o espaço de Punta Mogotes, a maior das feiras, e que registrou comercialmente a marca de La Salada. A conta que ele faz é surpreendente. " Cada um dos postos consegue 45 mil pesos, em média, por semana, o que dá 180 mil pesos por mês. Considerando só os que estão nas áreas regulares, são 1 bilhão de pesos mensais, ou 12 bilhões por ano. Pelo câmbio de hoje, estamos falando em US$ 2,7 bilhões".
"Castillo não exagera com estas cifras, sobretudo quando se pensa que há pelo menos outros dez mil vendedores nas áreas descobertas", diz um adversário declarado do administrador de La Salada, o ativista social Gustavo Vera, que dirige a ONG "La Alameda", dedicada a combater o trabalho em condições degradantes exercido por imigrantes bolivianos. Desde 2006, Vera denunciou 32 confecções que vendem em La Salada e empregavam em condições comprometedoras 526 trabalhadores.
Um par de tênis para crianças custa 50 pesos, cerca de R$ 20. Uma calça jeans para homem é 70 pesos e um vestido para mulheres gordas é 60 pesos. Cobra-se muito pouco pelas roupas em La Salada porque são as próprias confecções que fazem a venda. Em geral, a produção de camisas e sapatos é feita em fundo de quintal, não raramente por imigrantes bolivianos. O nível de informalidade laboral é próximo a 100%. Os ocupantes dos boxes de venda são registrados como "monotributistas", o equivalente ao Simples na Argentina, e não pagam mais que duzentos pesos por mês. "Cada feirante é produtor e tem 30% de lucro sobre o custo da matéria prima. O custo social não existe, porque não há empregados", disse Castillo.
A maior margem está nas marcas pirateadas. Camisetas Adidas, Nike ou GAP são vendidas por 30 pesos, doze vezes menos que o registrado no shopping center da avenida Figueroa Alcorta, no Barrio Parque, um dos mais sofisticados de Buenos Aires. "La Salada é um fenômeno produzido pela rebelião das pequenas confecções contra o comércio tradicional e contra as marcas. Os maiores responsáveis pelas piratarias são os próprios fornecedores das grifes", diz Vera, lembrando que há 80 varejistas de marca na Argentina sendo processadas por comercializarem roupas produzidas em condições degradantes.
Segundo um levantamento da Câmara Argentina de Comércio (CAC), metade das mercadorias vendidas por camelôs nas ruas de Buenos Aires é falsificada ou tem origem no contrabando. "Não temos como fazer a mesma avaliação em La Salada, pelas dificuldades de ingresso dos pesquisadores no local, mas nossa estimativa é que o percentual seja o mesmo, já que os camelôs são quase todos intermediários de mercadorias compradas lá", observou o economista chefe da CAC, Gabriel Molteni.
A segmentação do setor de confecção favorece a atividade ilegal. A produção de uma camisa envolve desde o fornecedor da fibra, passando pelo produtor do pano, indo a seguir pelas unidades que fazem o corte, a estamparia e a costura. "Na produção da matéria prima há um grande controle e casos de sonegação, trabalho escravo e pirataria são isolados. Mas as atividades de confecção são pulverizadas. Há 252 mil costureiros na Argentina. Destes, 78% dão origem a produtos com algum grau de ilegalidade. E desta mão de obra, 150 mil trabalhadores são provenientes da Bolívia", disse Vera.
A ponta desse varejo é alvo da repressão estatal no momento. A Prefeitura de Buenos Aires começou no mês passado a retirar camelôs das ruas do centro da cidade, eliminando uma das engrenagens da venda. As ações de maior impacto aconteceram na rua Florida, muito frequentada por turistas brasileiros. Como La Salada fica muito distante do centro da capital e em um subúrbio marcado pela criminalidade, a intermediação das mercadorias torna-se uma decorrência da demanda. "La Salada originou pelo menos 42 'saladitas', dentro de Buenos Aires, que são concentrações de vendedores ambulantes que vendem as mesmas mercadorias", disse Molteni.
Na última semana, a gendarmeria, um braço do governo federal, removeu barracas de cerca de 10 mil vendedores de La Salada que compunham uma quarta feira, a de La Ribera. Estes ambulantes ocupavam as margens do Riachuelo na área externa a das três feiras regulares. "Eram um universo ilegal dentro do universo ilegal, que vendiam ainda mais barato porque sequer pagavam o aluguel de espaço e o monotributo", afirmou Molteni. A operação teve amparo judicial e foi motivada pelos trabalhos para o saneamento do rio, que exige a desocupação das áreas de risco. Os feirantes removidos tentaram ocupar áreas mais próximas a das feiras legais, e houve enfrentamento armado. O tiroteio de quinze minutos na manhã de sábado teria durado quinze minutos e tido pelo menos cinco baleados.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
La Matanza, pista para a reeleição de Cristina
No ano passado, a presidente argentina Cristina Kirchner esteve na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e aceitou responder perguntas do aluno. Apertada pelas questões, todas feitas por estudantes argentinos, Cristina saiu-se com essa "Garotos, estamos em Harvard...não estamos em La Matanza". O tom depreciativo é uma injustiça de Cristina: foi graças a La Matanza e outras cidades que ela foi reeleita de forma espetacular em 2011.
Abaixo, a matéria que o Valor deu em outubro daquele mês.
Cesar Felício, no Valor Econômico
O segundo maior município da Argentina está fora de qualquer roteiro turístico e não é considerado propriamente uma cidade nem pelos próprios argentinos. Dividido em 15 núcleos urbanos sem um centro que se destaque, o município de La Matanza, que faz divisa à oeste com Buenos Aires, atingiu no censo nacional do ano passado 1,8 milhão de habitantes e possui a marca de 142 “villas”, isto é, favelas. E é uma das chaves para se entender porque a presidente Cristina Kirchner é favorita para a reeleição na disputa presidencial que vai acontecer em 24 de outubro.
Lá nasceu, em dezembro de 2009, a variante argentina do programa Bolsa Família, a “Asignación Universal por Hijo” (AUH, aporte universal por filho), que garante um pagamento equivalente a cerca de US$ 67 por filho em famílias carentes. São 300 mil benefícios estimados para La Matanza, que proporcionou à presidente 61% dos 605,1 mil votos da localidade nas prévias partidárias de agosto, nove pontos percentuais acima da média nacional. No país, o governo federal deve fechar o ano pagando 3,6 milhões de benefícios para 1,9 milhão de famílias. A conta chega a 9 bilhões de pesos, ou cerca de US$ 2,1 bilhões.
A AUH é o trunfo mais recente, mas está longe de ser a única arma no arsenal de benefícios sociais do governo, comandada pela ministra de Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner, cunhada da presidente e irmã do falecido ex-presidente Néstor Kirchner. Representa cerca de 40% dos 26 bilhões de pesos previstos para a área no Orçamento de 2012. Em março do ano passado, 21% da população declarou receber benefícios do governo, segundo uma pesquisa coordenada por German Lodola, professor da Universidade Torcuato di Tella.
Fora a AUH, os benefícios sociais mais relevantes em La Matanza são os repasses para cooperativas de trabalho, que, em época eleitoral, se transformam em um esteio para os candidatos kirchneristas. Em La Matanza, 156 cooperativas estavam inscritas no final do ano passado no programa “Argentina Trabaja”, que paga benefícios de 1.300 pesos para cada integrante. Em todo o país, o programa paga subsídio para 190 mil pessoas.
“Aqui as eleições se decidem pelos planos sociais”, lamentou Silvia Flores, diretora de La Juanita, no distrito de Laferrere, uma das raras cooperativas de trabalho que não estão alinhadas ao governo. O pai de Silvia, Hector Flores, um piqueteiro nos anos 90, é candidato a Senador pela Coalizão Cívica, partido que lançou à Presidência a deputada Elisa Carrió e que teve 3% dos votos nas prévias.
“A geração de emprego é enorme nestes últimos oito anos, mas não chegamos aos padrões que tínhamos antes da crise. A força do governo aqui se explica pelo crescimento econômico e pelo pagamento de benefícios”, confirmou o secretário municipal de Produção, Francisco Lamanna, alinhado ao kirchnerismo.
Não há dados precisos sobre emprego e crescimento econômico na cidade, mas Lamanna afirma que existem atualmente 7.500 estabelecimentos industriais em La Matanza. Em 2003, data do último levantamento oficial, havia 2.759. E, há 20 anos, de acordo com Lamanna, eram 12 mil. “Muitas das novas fábricas são de fundo de quintal, do ramo calçadista ou têxtil. O processo produtivo mudou”, afirmou o secretário.
La Matanza já foi uma importante referência da indústria argentina. Entre as décadas de 40 e 60, marcadas pela ascensão e primeira queda do caudilho Juan Domingo Perón, a cidade recebeu a instalação de montadoras de automóveis, como Mercedes Benz e Chrysler, no distrito de Virrey del Pino, e de siderúrgicas como a Acindar, no distrito de La Tablada. Em 1949, Perón inaugurou o distrito de Ciudad Evita, planejado para ser um bairro residencial modelo para a classe operária. Nos anos 60, a área dividiu a vocação industrial com o polo automotivo instalado em Córdoba. A partir de então, teve início a desindustrialização.
O crescimento demográfico, contudo, se acelerou nas últimas décadas. Neste século, a população cresceu 47% entre 2000 e 2010. O aluvião de quase 600 mil novos habitantes fez crescer a pobreza e a informalidade. Poucos moradores desse grupo se instalaram em áreas regularizadas. Segundo dados da província de Buenos Aires, houve um aumento de apenas 15,6% na área legalmente ocupada por novas edificações em La Matanza entre 2004 e 2008. Nesse período, o crescimento das construções em nível regional foi de 65%.
Em suas áreas mais pobres, La Matanza mudou a sua vocação de região industrial para cidade dormitório de trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, ambulantes e outros integrantes do mercado informal. Um levantamento de 2005 apontava que 60% da mão de obra não era registrada. Nos distritos mais próximos de Buenos Aires desenvolveu-se o setor de serviços. Desativada nos anos 80, a antiga fábrica da Chrysler, no distrito de San Justo, é hoje sede de uma universidade com 40 mil alunos.
“As fábricas se tornaram cascas vazias. Muitas delas foram ocupadas por trabalhadores, que se organizaram em cooperativas. Muitas delas passaram a receber subsídios do governo, e outras se converteram em investimentos comerciais ou imobiliários”, disse o presidente da Câmara de Indústria e Comércio de La Matanza, Luis Mogno, dono de uma metalúrgica que fornece componentes para refrigeradores.
As diferenças entre os 15 distritos de La Matanza alimentam movimentos pela separação. “La Matanza é tão grande que se torna um objeto do desejo para qualquer político, mas aqui é um somatório de diversas cidades dormitório de Buenos Aires e alguma indústria. Com a divisão, a estrutura de clientela do poder se romperia, e haveria uma disputa pelos novos municípios. É a unidade que faz com que o poder não se rompa”, diz o deputado federal Hector Flores, que concorre com chances ínfimas ao Senado.
“La Matanza é acima de tudo uma unidade política, e não econômica. Mas a estrutura enxuta é um diferencial que temos. São 6,5 mil funcionários públicos, 25 vereadores e um prefeito para quase 2 milhões de pessoas. A sociedade não estaria disposta a multiplicar essa estrutura por quatro”, afirmou o secretário municipal Lamanna.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Estão no lugar de sempre
Salvo raras exceções, empresário procura estar perto da perspectiva de poder. Na Argentina, retórica peronista à parte, não é diferente. A matéria abaixo saiu no dia 1° de setembro, no Valor. O jantar mencionado no texto reuniu o dobro do público projetado.
A presidente da Argentina Cristina Kirchner e o meio patronal aceleraram a aproximação a poucas semanas do início oficial da campanha presidencial deste ano. A eleição é em outubro. A presidente será homenageada em jantar para mil pessoas promovido amanhã pela União Industrial Argentina (UIA), no Dia da Indústria. O evento vai ocorrer em um palco governista: as centenas de empresários irão se deslocar até a periferia de Buenos Aires, onde o governo organiza desde julho a Tecnópolis, uma mostra de realizações científicas e tecnológicas do país.
A celebração acontecerá seis dias depois de Cristina elevar o salário mínimo de 1,8 mil para 2,3 mil pesos argentinos. O aumento, de 25%, mantém o país no teto das remunerações desse tipo na América Latina, com um valor próximo a US$ 600, mas foi uma derrota para a poderosa CGT. A central sindical, junto com a menor e mais radical CTA, reivindicava reajuste de 40%. O reajuste não garante ganhos reais aos trabalhadores, já que a inflação anual no país está entre 20% e 25%. E ficou próximo dos 18% sugeridos pelas entidades patronais.
Logo após as prévias partidárias de 14 de agosto, em que Cristina surpreendeu ao conseguir 50% dos votos, sinalizando vitória em primeiro turno em outubro, a presidente fez declarações conciliadoras, dizendo que em um cenário de crise internacional não iria tensionar as relações sociais e que iria "governar para todos". O presidente da UIA, Ignacio Mendiguren, festejou a mudança de tom e afirmou que, privadamente, já havia tempo que o ânimo da presidente estava longe da confrontação.
"A prévia foi fundamental para mover os empresários para uma aproximação, porque sinalizou com mais quatro anos de convivência com este governo. Mas partiram da Casa Rosada dois gestos: a atenuação do rigor na política cambial, que permitiu o peso desvalorizar cerca de 5% nas últimas semanas e reduziu perda de competitividade do setor exportador, e o aumento moderado do salário mínimo, que beneficia as empresas pequenas e médias e serve como referencial de reajustes das categorias organizadas no próximo ano", comentou o economista Ricardo Delgado, sócio da empresa de consultoria Analytica.
A moderação de Cristina pode representar alguma turbulência na relação com setores empresariais do Brasil. Segundo disse Mendiguren ontem, "o Brasil está compensando defasagens cambiais com medidas que, na prática, podem ampliar a vantagem brasileira na relação bilateral". Essa percepção sugere pressão sobre o governo por mais protecionismo.
A lista de contenciosos entre o grupo kirchnerista e o empresariado é extensa e foi aberta no primeiro ano de governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, quando ocorreram reestatizações. O último atrito de grande porte ocorreu em abril, quando o governo decidiu nomear diretores para as empresas que têm parte de seu controle acionário em mãos de fundos de pensão estatizados.
O ímpeto oposicionista do meio industrial começou a arrefecer diante de políticas governamentais para manter a economia aquecida, no momento em que eclodiu a crise econômica global. Entre estas medidas, estão iniciativas de fomento à produção, como o uso dos recursos do fundo Bicentenário, fonte pública de financiamentos que atende desde pequenos produtores até multinacionais como Fiat, Pirelli e Peugeot Citroën.
A aproximação entre o governo e o meio industrial não é uniforme. "Cristina se aproxima da UIA, onde o peso de estabelecimentos pequenos e médios e de base regional é expressivo. Com a Associação Empresária Argentina (AEA), onde estão presentes grandes grupos de diversos setores, o diálogo continua difícil. Mas mesmo lá já foram lançadas pontes", observou o diretor de uma multinacional.
A AEA tem como um de seus vice-presidentes Hector Magnetto, do grupo de mídia Clarín, a quem o governo argentino tenta debilitar de diversas maneiras. Mas vários de seus integrantes foram chamados a compor o grupo empresarial binacional com o Brasil, que servirá como uma câmara de consultas dos dois governos e que foi criado no último encontro presidencial entre Cristina e a presidente brasileira Dilma Rousseff.
Mesmo no setor rural, mais radical e principal fator da derrota do governo na eleição legislativa de 2009, Cristina procurou avançar. Neste segmento, a divisão do meio patronal é percebida com maior clareza. Embora o presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcatti, permaneça um duro crítico do governo, Eduardo Buzzi, dirigente da Federação Agrária Argentina (FAA), que representa pequenos e médios proprietários rurais, passou a negociar com Cristina. Em nota, Buzzi afirmou na ocasião que "nos últimos tempos, parece que existem alguns gestos isolados do Executivo tendentes a melhorar algumas situações específicas de urgência de alguns produtores agropecuários".
Logo após as prévia, Cristina prometeu trabalhar para acelerar no Congresso a tramitação do projeto que limita a venda de terras na Argentina a estrangeiros, uma bandeira da FAA. O trabalho da presidente de dividir as lideranças no campo é facilitado pelas condições excepcionais de mercado da soja, principal commodity argentina. Segundo dados divulgados no domingo, o valor das exportações primárias do país subiu 37% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período no ano passado. "As cidades do interior estão nadando em ouro, e isso tende a suavizar as posições", disse o cientista político Diego Raus, da Universidade de Buenos Aires.
A presidente da Argentina Cristina Kirchner e o meio patronal aceleraram a aproximação a poucas semanas do início oficial da campanha presidencial deste ano. A eleição é em outubro. A presidente será homenageada em jantar para mil pessoas promovido amanhã pela União Industrial Argentina (UIA), no Dia da Indústria. O evento vai ocorrer em um palco governista: as centenas de empresários irão se deslocar até a periferia de Buenos Aires, onde o governo organiza desde julho a Tecnópolis, uma mostra de realizações científicas e tecnológicas do país.
A celebração acontecerá seis dias depois de Cristina elevar o salário mínimo de 1,8 mil para 2,3 mil pesos argentinos. O aumento, de 25%, mantém o país no teto das remunerações desse tipo na América Latina, com um valor próximo a US$ 600, mas foi uma derrota para a poderosa CGT. A central sindical, junto com a menor e mais radical CTA, reivindicava reajuste de 40%. O reajuste não garante ganhos reais aos trabalhadores, já que a inflação anual no país está entre 20% e 25%. E ficou próximo dos 18% sugeridos pelas entidades patronais.
Logo após as prévias partidárias de 14 de agosto, em que Cristina surpreendeu ao conseguir 50% dos votos, sinalizando vitória em primeiro turno em outubro, a presidente fez declarações conciliadoras, dizendo que em um cenário de crise internacional não iria tensionar as relações sociais e que iria "governar para todos". O presidente da UIA, Ignacio Mendiguren, festejou a mudança de tom e afirmou que, privadamente, já havia tempo que o ânimo da presidente estava longe da confrontação.
"A prévia foi fundamental para mover os empresários para uma aproximação, porque sinalizou com mais quatro anos de convivência com este governo. Mas partiram da Casa Rosada dois gestos: a atenuação do rigor na política cambial, que permitiu o peso desvalorizar cerca de 5% nas últimas semanas e reduziu perda de competitividade do setor exportador, e o aumento moderado do salário mínimo, que beneficia as empresas pequenas e médias e serve como referencial de reajustes das categorias organizadas no próximo ano", comentou o economista Ricardo Delgado, sócio da empresa de consultoria Analytica.
A moderação de Cristina pode representar alguma turbulência na relação com setores empresariais do Brasil. Segundo disse Mendiguren ontem, "o Brasil está compensando defasagens cambiais com medidas que, na prática, podem ampliar a vantagem brasileira na relação bilateral". Essa percepção sugere pressão sobre o governo por mais protecionismo.
A lista de contenciosos entre o grupo kirchnerista e o empresariado é extensa e foi aberta no primeiro ano de governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, quando ocorreram reestatizações. O último atrito de grande porte ocorreu em abril, quando o governo decidiu nomear diretores para as empresas que têm parte de seu controle acionário em mãos de fundos de pensão estatizados.
O ímpeto oposicionista do meio industrial começou a arrefecer diante de políticas governamentais para manter a economia aquecida, no momento em que eclodiu a crise econômica global. Entre estas medidas, estão iniciativas de fomento à produção, como o uso dos recursos do fundo Bicentenário, fonte pública de financiamentos que atende desde pequenos produtores até multinacionais como Fiat, Pirelli e Peugeot Citroën.
A aproximação entre o governo e o meio industrial não é uniforme. "Cristina se aproxima da UIA, onde o peso de estabelecimentos pequenos e médios e de base regional é expressivo. Com a Associação Empresária Argentina (AEA), onde estão presentes grandes grupos de diversos setores, o diálogo continua difícil. Mas mesmo lá já foram lançadas pontes", observou o diretor de uma multinacional.
A AEA tem como um de seus vice-presidentes Hector Magnetto, do grupo de mídia Clarín, a quem o governo argentino tenta debilitar de diversas maneiras. Mas vários de seus integrantes foram chamados a compor o grupo empresarial binacional com o Brasil, que servirá como uma câmara de consultas dos dois governos e que foi criado no último encontro presidencial entre Cristina e a presidente brasileira Dilma Rousseff.
Mesmo no setor rural, mais radical e principal fator da derrota do governo na eleição legislativa de 2009, Cristina procurou avançar. Neste segmento, a divisão do meio patronal é percebida com maior clareza. Embora o presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcatti, permaneça um duro crítico do governo, Eduardo Buzzi, dirigente da Federação Agrária Argentina (FAA), que representa pequenos e médios proprietários rurais, passou a negociar com Cristina. Em nota, Buzzi afirmou na ocasião que "nos últimos tempos, parece que existem alguns gestos isolados do Executivo tendentes a melhorar algumas situações específicas de urgência de alguns produtores agropecuários".
Logo após as prévia, Cristina prometeu trabalhar para acelerar no Congresso a tramitação do projeto que limita a venda de terras na Argentina a estrangeiros, uma bandeira da FAA. O trabalho da presidente de dividir as lideranças no campo é facilitado pelas condições excepcionais de mercado da soja, principal commodity argentina. Segundo dados divulgados no domingo, o valor das exportações primárias do país subiu 37% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período no ano passado. "As cidades do interior estão nadando em ouro, e isso tende a suavizar as posições", disse o cientista político Diego Raus, da Universidade de Buenos Aires.
Ping com Vicente Palermo
Publicado no Valor , dia 1/09/2011
O triunfo de Cristina
Por César Felício | De Buenos Aires
Índices crescentes de consumo popular, políticas de transferência de renda em ascensão, um histórico de atritos com grandes conglomerados de mídia e um enfrentamento com uma oposição que tem dificuldades de se renovar e propor alternativas. O cenário montado na Argentina às vésperas da eleição presidencial que deve dar um novo mandato à presidente Cristina Fernandez de Kirchner se assemelha ao que marcou o Brasil nas sucessões presidenciais de 2006 e 2010, mas o cientista político Vicente Palermo propõe jogar luz sobre as diferenças entre a hegemonia do kirchnerismo e o fenômeno do lulismo no Brasil. E a principal delas é o risco concreto de uma mudança constitucional que permita ao grupo atual continuar exercendo o poder.
Frequentador da Cantina do Lucas, tradicional reduto boêmio do centro de Belo Horizonte, e proprietário de um apartamento no Corte do Cantagalo, entre a Lagoa e Copacabana, no Rio, Vicente Palermo, de 60 anos, é pesquisador independente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e especialista em história latino-americana comparada contemporânea.
Cristina teve 50,3% dos votos na eleição primária realizada no dia 21. É mais que o dobro da soma de seus dois principais adversários, o dissidente peronista Eduardo Duhalde e o deputado Ricardo Alfonsín, da tradicional União Cívica Radical, e é um prenúncio do que acontecerá na eleição presidencial, em outubro. Em 2009, na sequência de uma derrota parlamentar, Cristina lançou o programa Asignación Universal por Hijo (AUH), que paga 2 milhões de benefícios e atinge cerca de 7 milhões de pessoas. Por um ano, representa um gasto de 9,6 bilhões de pesos argentinos, ou algo como US$ 2,4 bilhões. Proporcionalmente, não está longe do programa Bolsa Família, que envolve gastos de R$ 14,4 bilhões para pagar cerca de 12 milhões de benefícios.
Em entrevista ao Valor, Palermo alerta sobre a possibilidade de reforma constitucional na Argentina. O sistema de modificação no país é mais rígido do que o brasileiro. Para mudar a Constituição, é preciso que o Congresso Nacional aprove por dois terços dos votos a convocação de uma Constituinte para deliberar sobre uma mudança específica. Leia os principais trechos da entrevista:
Valor: Cristina Kirchner conseguiu uma votação surpreendente, depois de um período de grande desgaste, obtendo seus maiores índices nas províncias mais pobres, como Santiago del Estero, onde conseguiu 80% dos votos nas eleições primárias. Estamos diante de um fenômeno semelhante ao da reeleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, em que o eleitorado petista migrou das classes médias urbanas para as faixas de menor renda?
Vicente Palermo: O fenômeno brasileiro foi diferente, porque no Brasil o PT realmente substituiu sua base eleitoral por outra, na qual jamais havia entrado. Foi uma mudança mais profunda. Na Argentina, a surpresa que estamos vivendo é a da magnitude do triunfo que Cristina está por conseguir. Tradicionalmente, as províncias mais pobres argentinas tendem a votar com o governo, sobretudo se o governo é peronista. O mais interessante é o desempenho que a presidente obteve nas regiões que concentram o agronegócio.
Valor: Ali, o esperado era uma derrota, depois da confrontação entre o governo e os produtores rurais que marcou o início do mandato de Cristina?
Palermo: Essa derrota aconteceu na eleição parlamentar de dois anos atrás e o que se esperava era que aquela tendência se mantivesse no campo, mas Cristina conseguiu se recuperar nessas regiões. Ela aprendeu lições com aquele resultado e é visível que o governo, desde então, evita complicações com o setor produtivo. Mas a recuperação dela não pode ser entendida isolada de outros fatores, como o bem-estar gerado pelos efeitos materiais do crescimento, a construção de uma imagem de liderança pessoal, por sua campanha e a implantação de políticas sociais. Estou falando da "Asignación Universal por Hijo", da distribuição de notebooks, de subsídios às mulheres que são mães de família, a um conjunto bastante amplo de políticas. Cristina soube manter a iniciativa política administrativa mesmo com minoria no Congresso. A oposição não soube barrar esse processo.
Valor: Essas circunstâncias não reforçam o paralelo entre Lula e Dilma no Brasil e o casal Kirchner na Argentina?
Palermo: Argentina e Brasil estão se beneficiando há alguns anos de um contexto internacional favorável a países com esse tipo de base produtiva e existe e uma convergência em relação a políticas dirigidas à inclusão social. Mas a forma de liderança política não poderia ser mais diferente.
Valor: De que modo essa diferença se traduz?
Palermo: É cedo para analisar Dilma Rousseff. As constantes mudanças no ministério aparentemente sinalizam para algo positivo, que é a preocupação com o combate à corrupção, mas podem também indicar problemas mais profundos no grupo governista. Mas podemos analisar Lula. Ele foi um homem institucional ao comandar o país. Governou negociando com sua base. Impôs sua agenda, mas não tirou a preeminência do Congresso e de seus governadores aliados. Fez o clássico presidencialismo de coalizão. Néstor e Cristina Kirchner fazem uma gestão imperial. Lula deu espaço para os partidos desenvolverem seu jogo, inclusive para o roubo. Estamos longe de dizer que nesse processo ele foi angelical. Na Argentina, Cristina não tem ministros, tem funcionários. Seu governo não conta com aliados, mas com homens e mulheres que servem à presidente.
Valor: Nesse sentido, há condições para que ela repita em 2015, no fim de seu provável segundo mandato, o mesmo que Lula fez em 2010, investindo o capital político para eleger Dilma Rousseff?
Palermo: O capital político de Cristina neste instante é enorme, mas eleger um sucessor é muito difícil. Não foi simples mesmo para Lula, conforme mostrou a eleição brasileira. Dilma não teve uma vitória folgada. Qualquer nome que ela apresente vai despertar resistências desde cedo no conjunto de líderes no peronismo, que, sem terem sido consultados ao longo do governo, aparecem como eventuais pretendentes. Por outro lado, ela não pode descuidar do tema, sob pena de ser atropelada pela própria sucessão. Investir em um sucessor é o que Lula fez, mas não creio que esse caminho, embora aconselhável, seja o mais provável. Há outros caminhos muito tentadores, como o de reformar a Constituição e adotar o parlamentarismo. Seria uma maneira de ela continuar. A oposição não se abriria para conversar sobre isso e o governo teria que ir para um jogo do tudo ou nada. É exatamente o jogo que Cristina gosta de fazer. Isso é tecnicamente possível e essa solução será tentadora.
Valor: Se ela é capaz de fazer isso, não poderia mudar a Constituição só para ter um terceiro mandato?
Palermo: Isso seria demasiado brutal e ela não teria respaldo para mudar a Constituição. A alteração da Carta na Argentina, pelas regras do sistema, exigiria um horizonte mais amplo de mudança. O parlamentarismo abre caminho para a permanência dando esse horizonte mais amplo. A reeleição para mais um mandato levanta resistência em todos os países que adotaram esse instituto. Países como o Brasil e a Argentina já cometeram no passado o erro sério de permitir que um presidente reeleito uma vez esteja habilitado a disputar de novo, passado um mandato.
Valor: O que é exatamente o caso de Lula no Brasil.
Palermo: Também é o caso de Fernando Henrique Cardoso. A possibilidade de um presidente reeleito voltar no futuro é um erro sério que se cometeu, porque introduz um elemento de perpetuação que quebra a própria lógica da reeleição. Lideranças exitosas ficam tentadas a fazer algo destrutivo no plano político para viabilizarem sua volta.
Valor: Como o quê, por exemplo?
Palermo: Como eleger um sucessor e depois reduzi-lo, transformá-lo apenas em uma plataforma para voltar ao poder. É um processo que deixa custos. Aqui na Argentina, os dois casos de presidentes que voltaram ao poder foram experiências infelizes. A volta de Hipolito Yrigoyen, em 1928, resultou no primeiro golpe militar no país, dois anos depois. A de Juan Domingo Perón, em 1973, foi simplesmente catastrófica.
O triunfo de Cristina
Por César Felício | De Buenos Aires
Índices crescentes de consumo popular, políticas de transferência de renda em ascensão, um histórico de atritos com grandes conglomerados de mídia e um enfrentamento com uma oposição que tem dificuldades de se renovar e propor alternativas. O cenário montado na Argentina às vésperas da eleição presidencial que deve dar um novo mandato à presidente Cristina Fernandez de Kirchner se assemelha ao que marcou o Brasil nas sucessões presidenciais de 2006 e 2010, mas o cientista político Vicente Palermo propõe jogar luz sobre as diferenças entre a hegemonia do kirchnerismo e o fenômeno do lulismo no Brasil. E a principal delas é o risco concreto de uma mudança constitucional que permita ao grupo atual continuar exercendo o poder.
Frequentador da Cantina do Lucas, tradicional reduto boêmio do centro de Belo Horizonte, e proprietário de um apartamento no Corte do Cantagalo, entre a Lagoa e Copacabana, no Rio, Vicente Palermo, de 60 anos, é pesquisador independente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e especialista em história latino-americana comparada contemporânea.
Cristina teve 50,3% dos votos na eleição primária realizada no dia 21. É mais que o dobro da soma de seus dois principais adversários, o dissidente peronista Eduardo Duhalde e o deputado Ricardo Alfonsín, da tradicional União Cívica Radical, e é um prenúncio do que acontecerá na eleição presidencial, em outubro. Em 2009, na sequência de uma derrota parlamentar, Cristina lançou o programa Asignación Universal por Hijo (AUH), que paga 2 milhões de benefícios e atinge cerca de 7 milhões de pessoas. Por um ano, representa um gasto de 9,6 bilhões de pesos argentinos, ou algo como US$ 2,4 bilhões. Proporcionalmente, não está longe do programa Bolsa Família, que envolve gastos de R$ 14,4 bilhões para pagar cerca de 12 milhões de benefícios.
Em entrevista ao Valor, Palermo alerta sobre a possibilidade de reforma constitucional na Argentina. O sistema de modificação no país é mais rígido do que o brasileiro. Para mudar a Constituição, é preciso que o Congresso Nacional aprove por dois terços dos votos a convocação de uma Constituinte para deliberar sobre uma mudança específica. Leia os principais trechos da entrevista:
Valor: Cristina Kirchner conseguiu uma votação surpreendente, depois de um período de grande desgaste, obtendo seus maiores índices nas províncias mais pobres, como Santiago del Estero, onde conseguiu 80% dos votos nas eleições primárias. Estamos diante de um fenômeno semelhante ao da reeleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, em que o eleitorado petista migrou das classes médias urbanas para as faixas de menor renda?
Vicente Palermo: O fenômeno brasileiro foi diferente, porque no Brasil o PT realmente substituiu sua base eleitoral por outra, na qual jamais havia entrado. Foi uma mudança mais profunda. Na Argentina, a surpresa que estamos vivendo é a da magnitude do triunfo que Cristina está por conseguir. Tradicionalmente, as províncias mais pobres argentinas tendem a votar com o governo, sobretudo se o governo é peronista. O mais interessante é o desempenho que a presidente obteve nas regiões que concentram o agronegócio.
Valor: Ali, o esperado era uma derrota, depois da confrontação entre o governo e os produtores rurais que marcou o início do mandato de Cristina?
Palermo: Essa derrota aconteceu na eleição parlamentar de dois anos atrás e o que se esperava era que aquela tendência se mantivesse no campo, mas Cristina conseguiu se recuperar nessas regiões. Ela aprendeu lições com aquele resultado e é visível que o governo, desde então, evita complicações com o setor produtivo. Mas a recuperação dela não pode ser entendida isolada de outros fatores, como o bem-estar gerado pelos efeitos materiais do crescimento, a construção de uma imagem de liderança pessoal, por sua campanha e a implantação de políticas sociais. Estou falando da "Asignación Universal por Hijo", da distribuição de notebooks, de subsídios às mulheres que são mães de família, a um conjunto bastante amplo de políticas. Cristina soube manter a iniciativa política administrativa mesmo com minoria no Congresso. A oposição não soube barrar esse processo.
Valor: Essas circunstâncias não reforçam o paralelo entre Lula e Dilma no Brasil e o casal Kirchner na Argentina?
Palermo: Argentina e Brasil estão se beneficiando há alguns anos de um contexto internacional favorável a países com esse tipo de base produtiva e existe e uma convergência em relação a políticas dirigidas à inclusão social. Mas a forma de liderança política não poderia ser mais diferente.
Valor: De que modo essa diferença se traduz?
Palermo: É cedo para analisar Dilma Rousseff. As constantes mudanças no ministério aparentemente sinalizam para algo positivo, que é a preocupação com o combate à corrupção, mas podem também indicar problemas mais profundos no grupo governista. Mas podemos analisar Lula. Ele foi um homem institucional ao comandar o país. Governou negociando com sua base. Impôs sua agenda, mas não tirou a preeminência do Congresso e de seus governadores aliados. Fez o clássico presidencialismo de coalizão. Néstor e Cristina Kirchner fazem uma gestão imperial. Lula deu espaço para os partidos desenvolverem seu jogo, inclusive para o roubo. Estamos longe de dizer que nesse processo ele foi angelical. Na Argentina, Cristina não tem ministros, tem funcionários. Seu governo não conta com aliados, mas com homens e mulheres que servem à presidente.
Valor: Nesse sentido, há condições para que ela repita em 2015, no fim de seu provável segundo mandato, o mesmo que Lula fez em 2010, investindo o capital político para eleger Dilma Rousseff?
Palermo: O capital político de Cristina neste instante é enorme, mas eleger um sucessor é muito difícil. Não foi simples mesmo para Lula, conforme mostrou a eleição brasileira. Dilma não teve uma vitória folgada. Qualquer nome que ela apresente vai despertar resistências desde cedo no conjunto de líderes no peronismo, que, sem terem sido consultados ao longo do governo, aparecem como eventuais pretendentes. Por outro lado, ela não pode descuidar do tema, sob pena de ser atropelada pela própria sucessão. Investir em um sucessor é o que Lula fez, mas não creio que esse caminho, embora aconselhável, seja o mais provável. Há outros caminhos muito tentadores, como o de reformar a Constituição e adotar o parlamentarismo. Seria uma maneira de ela continuar. A oposição não se abriria para conversar sobre isso e o governo teria que ir para um jogo do tudo ou nada. É exatamente o jogo que Cristina gosta de fazer. Isso é tecnicamente possível e essa solução será tentadora.
Valor: Se ela é capaz de fazer isso, não poderia mudar a Constituição só para ter um terceiro mandato?
Palermo: Isso seria demasiado brutal e ela não teria respaldo para mudar a Constituição. A alteração da Carta na Argentina, pelas regras do sistema, exigiria um horizonte mais amplo de mudança. O parlamentarismo abre caminho para a permanência dando esse horizonte mais amplo. A reeleição para mais um mandato levanta resistência em todos os países que adotaram esse instituto. Países como o Brasil e a Argentina já cometeram no passado o erro sério de permitir que um presidente reeleito uma vez esteja habilitado a disputar de novo, passado um mandato.
Valor: O que é exatamente o caso de Lula no Brasil.
Palermo: Também é o caso de Fernando Henrique Cardoso. A possibilidade de um presidente reeleito voltar no futuro é um erro sério que se cometeu, porque introduz um elemento de perpetuação que quebra a própria lógica da reeleição. Lideranças exitosas ficam tentadas a fazer algo destrutivo no plano político para viabilizarem sua volta.
Valor: Como o quê, por exemplo?
Palermo: Como eleger um sucessor e depois reduzi-lo, transformá-lo apenas em uma plataforma para voltar ao poder. É um processo que deixa custos. Aqui na Argentina, os dois casos de presidentes que voltaram ao poder foram experiências infelizes. A volta de Hipolito Yrigoyen, em 1928, resultou no primeiro golpe militar no país, dois anos depois. A de Juan Domingo Perón, em 1973, foi simplesmente catastrófica.
O Chile ferve
Coluna publicada no Valor dia 8/9/2011
A classe média revoltada
Por César Felício
O cenário parece muito distante do Brasil. Uma classe média em ascensão nem sempre pode ser vista como âncora de estabilidade política, uma leitura usual na análise dos resultados eleitorais que levaram à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e à eleição de Dilma Rousseff para a Presidência no ano passado. Este ano, só há um país da América do Sul contaminado pela onda de insatisfação que ecoa em paisagens tão díspares como Egito e Reino Unido, Espanha e Bahrein.
É no Chile que grassa o espectro da revolta. A pátria por excelência da classe média latino-americana, o país onde a pobreza regrediu de 40% a 13% da população em 20 anos de democracia em que a alternância jamais significou ruptura de políticas, está exausta de seus governantes.
O primeiro sinal foi em 2009, quando o direitista Sebastián Piñera encerrou a experiência de quatro mandatos presidenciais seguidos da Concertación, a aliança de democratas cristãos e socialistas que desenvolveu políticas de proteção social sem alterar em sua essência os postulados liberais do ponto de vista econômico que marcaram o regime de Pinochet.
Educação como porta para a ascensão tem limite
Piñera já assumiu com um capital político reduzido. O crédito inicial que recebeu pouco foi além de seus próprios eleitores. No fim do ano passado, logo após seu maior triunfo - o perfeito resgate de 33 mineiros aprisionados por um desabamento -, conseguiu em pesquisas de opinião 55% de aprovação popular, apenas quatro pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas um ano antes. No último levantamento, publicado na segunda-feira pela mídia chilena, sua aprovação ficou em 27%.
Por enquanto Piñera lida com uma insatisfação capitaneada pelos estudantes universitários e secundaristas, que já produziu a morte de um menino de 16 anos por balas dos "carabineros", a polícia militar. Mas a possibilidade de contágio para outros setores é grande. "Sem respostas efetivas rápidas do governo, esta onda vai crescer no próximo verão. E pode se espalhar para trabalhadores, mulheres e todos os setores organizados. Há uma ameaça de levantamento social e o governo já percebeu isso", comenta a cientista política Marta Lagos, chilena, diretora da ONG Latinobarometro, especializada em pesquisas de opinião comparadas no continente.
Está em dados compilados pelo próprio governo a chave para se entender o problema. O investimento das próprias famílias na educação de seus filhos é substancial em um país onde há muitos anos o gasto público em educação é reduzido. Mutilar o papel do Estado no setor foi o último ato de Pinochet como presidente, sancionado pelo ditador por decreto um dia antes de deixar o cargo, em março de 1990. Na universidade, segundo Marta Lagos, uma família aplica cerca de US$ 40 mil para obter um diploma.
Com 52% dos chilenos enquadrados nos segmentos médios de renda, uma avalanche de jovens procurou o ensino como a grande ferramenta de mobilidade social em um país onde o sentimento de injustiça na distribuição de renda é o mais forte do continente. Segundo a pesquisa do Latinobarômetro do ano passado, apenas 12% dos chilenos consideram a distribuição da riqueza adequada. No Brasil, essa percepção é compartilhada por 21%. Na Venezuela, por 38%.
Quando Pinochet começou seu poder autocrático, nos anos 70, apenas 9% dos chilenos estavam na Universidade. Em 2003, eram 37%. Hoje, a porcentagem ronda 40%, segundo dados do Ministério da Educação do Chile. Nesta década, tal evolução convive com o endividamento crescente da população emergente. Uma pesquisa feita um ano atrás pelo Banco Central chileno mostrou que a relação do total da dívida familiar frente à renda anual dos lares do país passou de 35,4% para 59,9% entre 2000 e 2009. A sensação de vulnerabilidade aumenta ao se levar em conta que 68% da renda familiar chilena provém de salários.
A magia da educação como a grande porta para a mobilidade social aparece com nitidez na pesquisa feita pelo Instituto Nacional da Juventude, outro órgão governamental, em 2009. A principal razão apontada por jovens entre 15 e 29 anos para estarem estudando foi "melhorar a situação econômica", com 35,8% das citações. "Trabalhar no que mais gosta" foi citado por 31,7%. Mas a mesma pesquisa mostrou que, na faixa de população entre 24 e 29 anos, portanto recém-saída da faculdade, nada menos que 51,2% - maioria absoluta - afirma que trabalha em uma função "pouco ou nada relacionada" com o que estudou.
"É claro que a educação é uma ferramenta para a mobilidade social, o problema é quando ela se torna o único instrumental para isso. Vemos aqui legiões de pessoas cada vez mais vulneráveis, fazendo dívidas para três ou quatro gerações em universidades privadas que não preparam para o mercado de trabalho. Oferecem cursos como 'criminologia e prevenção de riscos', que não se sabe bem o que é", comenta Marta Lagos.
No sábado, Piñera reuniu-se pela primeira vez com os líderes estudantis, no Palácio de la Moneda, enquanto gerenciava o resgate dos mortos em um acidente aéreo que matou uma equipe de televisão e canalizou a atenção da opinião pública do país. Há razões para ceticismo sobre mudanças concretas. Há cinco anos, um movimento de estudantes secundaristas parou as cem maiores escolas do país e fez com que a presidente socialista Michelle Bachelet se comprometesse com reformas em cadeia nacional de rádio e televisão. Os estudantes pediam o fim da lei pinochetista e a presidente reformou a legislação, depois de dois anos de debate no Congresso. Foi uma resposta avaliada por Marta Lagos como limitada e lenta. No caso de Piñera, trata-se de um conservador obrigado pelas circunstâncias a promover uma renovação. Corre o risco de abrir um gigantesco fosso entre suas palavras e a ação.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
A classe média revoltada
Por César Felício
O cenário parece muito distante do Brasil. Uma classe média em ascensão nem sempre pode ser vista como âncora de estabilidade política, uma leitura usual na análise dos resultados eleitorais que levaram à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e à eleição de Dilma Rousseff para a Presidência no ano passado. Este ano, só há um país da América do Sul contaminado pela onda de insatisfação que ecoa em paisagens tão díspares como Egito e Reino Unido, Espanha e Bahrein.
É no Chile que grassa o espectro da revolta. A pátria por excelência da classe média latino-americana, o país onde a pobreza regrediu de 40% a 13% da população em 20 anos de democracia em que a alternância jamais significou ruptura de políticas, está exausta de seus governantes.
O primeiro sinal foi em 2009, quando o direitista Sebastián Piñera encerrou a experiência de quatro mandatos presidenciais seguidos da Concertación, a aliança de democratas cristãos e socialistas que desenvolveu políticas de proteção social sem alterar em sua essência os postulados liberais do ponto de vista econômico que marcaram o regime de Pinochet.
Educação como porta para a ascensão tem limite
Piñera já assumiu com um capital político reduzido. O crédito inicial que recebeu pouco foi além de seus próprios eleitores. No fim do ano passado, logo após seu maior triunfo - o perfeito resgate de 33 mineiros aprisionados por um desabamento -, conseguiu em pesquisas de opinião 55% de aprovação popular, apenas quatro pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas um ano antes. No último levantamento, publicado na segunda-feira pela mídia chilena, sua aprovação ficou em 27%.
Por enquanto Piñera lida com uma insatisfação capitaneada pelos estudantes universitários e secundaristas, que já produziu a morte de um menino de 16 anos por balas dos "carabineros", a polícia militar. Mas a possibilidade de contágio para outros setores é grande. "Sem respostas efetivas rápidas do governo, esta onda vai crescer no próximo verão. E pode se espalhar para trabalhadores, mulheres e todos os setores organizados. Há uma ameaça de levantamento social e o governo já percebeu isso", comenta a cientista política Marta Lagos, chilena, diretora da ONG Latinobarometro, especializada em pesquisas de opinião comparadas no continente.
Está em dados compilados pelo próprio governo a chave para se entender o problema. O investimento das próprias famílias na educação de seus filhos é substancial em um país onde há muitos anos o gasto público em educação é reduzido. Mutilar o papel do Estado no setor foi o último ato de Pinochet como presidente, sancionado pelo ditador por decreto um dia antes de deixar o cargo, em março de 1990. Na universidade, segundo Marta Lagos, uma família aplica cerca de US$ 40 mil para obter um diploma.
Com 52% dos chilenos enquadrados nos segmentos médios de renda, uma avalanche de jovens procurou o ensino como a grande ferramenta de mobilidade social em um país onde o sentimento de injustiça na distribuição de renda é o mais forte do continente. Segundo a pesquisa do Latinobarômetro do ano passado, apenas 12% dos chilenos consideram a distribuição da riqueza adequada. No Brasil, essa percepção é compartilhada por 21%. Na Venezuela, por 38%.
Quando Pinochet começou seu poder autocrático, nos anos 70, apenas 9% dos chilenos estavam na Universidade. Em 2003, eram 37%. Hoje, a porcentagem ronda 40%, segundo dados do Ministério da Educação do Chile. Nesta década, tal evolução convive com o endividamento crescente da população emergente. Uma pesquisa feita um ano atrás pelo Banco Central chileno mostrou que a relação do total da dívida familiar frente à renda anual dos lares do país passou de 35,4% para 59,9% entre 2000 e 2009. A sensação de vulnerabilidade aumenta ao se levar em conta que 68% da renda familiar chilena provém de salários.
A magia da educação como a grande porta para a mobilidade social aparece com nitidez na pesquisa feita pelo Instituto Nacional da Juventude, outro órgão governamental, em 2009. A principal razão apontada por jovens entre 15 e 29 anos para estarem estudando foi "melhorar a situação econômica", com 35,8% das citações. "Trabalhar no que mais gosta" foi citado por 31,7%. Mas a mesma pesquisa mostrou que, na faixa de população entre 24 e 29 anos, portanto recém-saída da faculdade, nada menos que 51,2% - maioria absoluta - afirma que trabalha em uma função "pouco ou nada relacionada" com o que estudou.
"É claro que a educação é uma ferramenta para a mobilidade social, o problema é quando ela se torna o único instrumental para isso. Vemos aqui legiões de pessoas cada vez mais vulneráveis, fazendo dívidas para três ou quatro gerações em universidades privadas que não preparam para o mercado de trabalho. Oferecem cursos como 'criminologia e prevenção de riscos', que não se sabe bem o que é", comenta Marta Lagos.
No sábado, Piñera reuniu-se pela primeira vez com os líderes estudantis, no Palácio de la Moneda, enquanto gerenciava o resgate dos mortos em um acidente aéreo que matou uma equipe de televisão e canalizou a atenção da opinião pública do país. Há razões para ceticismo sobre mudanças concretas. Há cinco anos, um movimento de estudantes secundaristas parou as cem maiores escolas do país e fez com que a presidente socialista Michelle Bachelet se comprometesse com reformas em cadeia nacional de rádio e televisão. Os estudantes pediam o fim da lei pinochetista e a presidente reformou a legislação, depois de dois anos de debate no Congresso. Foi uma resposta avaliada por Marta Lagos como limitada e lenta. No caso de Piñera, trata-se de um conservador obrigado pelas circunstâncias a promover uma renovação. Corre o risco de abrir um gigantesco fosso entre suas palavras e a ação.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Esta foi a primeira coluna que escrevi ao chegar a Buenos Aires e mostra como era imprevisível a acachapante votação obtida por Cristina Kirchner nas insólitas ( como se costuma dizer aqui) eleições primárias que aconteceram no dia 14 de agosto, em que ela teve mais de 50% dos votos e a oposição ficou afundada entre o medíocre e o ridículo, patinando em 12% cada um de seus principais candidatos.
A maior pesquisa eleitoral do mundo
César Felício
Valor Econômico - 11/08/2011
Obter as consequências esperadas em um cenário de variáveis tão múltiplas como a política é uma habilidade destinada a poucos no mundo e exemplos brasileiros de tiros pela culatra não faltam. Os acontecimentos dos próximos dias na Argentina deverão mostrar os resultados surpreendentes que podem acontecer caso avance no Brasil uma ideia que esteve em pauta no ano passado: o da realização de eleições primárias para a escolha de um candidato majoritário.
A inspiração geral é a dos Estados Unidos em que, apesar de todas as imensas condicionantes, o eleitorado é chamado a participar das escolhas dos partidos Republicano e Democrata. No Brasil, o PT e o PMDB já realizaram prévias internas para definir candidaturas majoritárias, mas coube ao hoje senador Aécio Neves (MG), com dificuldades de contornar a preferência da cúpula partidária pela candidatura presidencial do então governador paulista José Serra, propor eleições primárias no modelo clássico: abertas a todos os eleitores e com o compromisso do partido ratificar em convenção o resultado da consulta popular.
A proposta não foi para parte alguma, mas é de se prever a volta da discussão em qualquer partido que esteja desunido em relação à eleição presidencial, como desde sempre é o caso tucano. Na Argentina, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado, conseguiu tirar a novidade da prancheta. Se vivo estivesse, provavelmente estaria arrependido.
Legado de Kirchner, primárias não definem candidatos
As eleições primárias na Argentina foram introduzidas na legislação eleitoral depois da derrota governista na renovação do Congresso em 2009. Havia então muita incerteza sobre a viabilidade de uma reeleição da presidente Cristina Kirchner e vale lembrar que o peronismo estava esfacelado desde a eleição do marido, quatro anos antes.
Em 2003, foi permitido a filiados ao mesmo partido participarem de coligações diferentes e enfrentarem-se nas urnas. O peronista Nestor Kirchner elegeu-se depois da desistência do correligionário Carlos Menem em disputar um segundo turno. Ainda enfrentou outro peronista, Adolfo Rodriguez Saa.
Quatro anos depois, Cristina sucedeu ao marido batendo nas urnas apenas um colega dissidente, o mesmo Rodríguez Saa. Mas em 2009 o cenário de fragmentação da base governista era muito provável. Surgiram então as eleições primárias como um instrumento para que as diversas alas do peronismo se enfrentassem internamente e fossem constrangidas a terem um único candidato em 2011.
O que não se previa é que os dissidentes peronistas, o ex-presidente Eduardo Duhalde e o governador de San Juan Alberto Rodríguez Saa, montassem suas próprias coalizões para disputarem as eleições contra Cristina e ignorassem a escolha interna. A legislação eleitoral argentina não eliminou as estranhas disposições legais que permitem a filiados ao mesmo partido disputarem em coalizões diferentes. Também não se contava com a capacidade da presidente de se revitalizar na preferência popular com uma política de fomento ao crescimento econômico, mesmo com a escalada inflacionária. Além de, obviamente, todo o cenário político da Argentina ter mudado com a morte súbita de Nestor Kirchner exatamente um ano antes da eleição.
As eleições primárias vão acontecer na Argentina este domingo e seu efeito, do ponto de vista da consolidação do quadro de candidaturas, não irá beneficiar a presidente, já que os rivais internos do peronismo serão candidatos em qualquer circunstância. A votação deste domingo, que é uma primária aberta, ou seja, aquela em que os eleitores irão escolher um candidato independente de seu partido, interessa mais à oposição que ao kirchnerismo. Ela poderá servir para mapear qual o candidato mais habilitado para tentar polarizar a eleição presidencial de outubro com Cristina. As pouco confiáveis pesquisas argentinas mostram três candidatos na faixa entre 10% e 20%: o peronista Eduardo Duhalde, o radical Ricardo Alfonsín e a esquerdista Elisa Carrió. Cristina está entre 40% e 50%. O segundo turno na Argentina tende a ocorrer se Cristina ficar abaixo da banda mínima desta faixa. Ou seja: estas eleições primárias serão a mais cara e a mais completa pesquisa de intenção de voto do mundo, com margem de erro próxima a zero, já que o voto será obrigatório. A consulta só será decisiva para os candidatos nanicos, que só poderão se apresentar na disputa nacional caso consigam pelo menos 400 mil votos, ou 1,5% do total de votos.
Fica a questão sobre qual a influência que uma eleição prévia poderia ter tido no Brasil se ocorresse antes das convenções partidárias. Ao contrário do que ocorre na Argentina, no Brasil a oposição liderou as pesquisas até o início da campanha eleitoral. Aécio teria aceito participar de um embate com Serra e os demais candidatos e desestabilizado o preferido da cúpula? O potencial eleitoral de Marina Silva teria se evidenciado e permitiria à então senadora sair do isolamento político? Provavelmente os efeitos seriam muito mais conservadores do que estes. As eleições primárias nas províncias (na Argentina as disputas nacionais e locais não coincidem) não captaram ascensões fulminantes como a do direitista Miguel del Sel em Santa Fé e foram raríssimos os partidos que não fizeram um acerto interno antes da chamada às urnas antecipada. De concreto, fica a evidência de que não se resolvem problemas políticos com criatividade legislativa.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
A maior pesquisa eleitoral do mundo
César Felício
Valor Econômico - 11/08/2011
Obter as consequências esperadas em um cenário de variáveis tão múltiplas como a política é uma habilidade destinada a poucos no mundo e exemplos brasileiros de tiros pela culatra não faltam. Os acontecimentos dos próximos dias na Argentina deverão mostrar os resultados surpreendentes que podem acontecer caso avance no Brasil uma ideia que esteve em pauta no ano passado: o da realização de eleições primárias para a escolha de um candidato majoritário.
A inspiração geral é a dos Estados Unidos em que, apesar de todas as imensas condicionantes, o eleitorado é chamado a participar das escolhas dos partidos Republicano e Democrata. No Brasil, o PT e o PMDB já realizaram prévias internas para definir candidaturas majoritárias, mas coube ao hoje senador Aécio Neves (MG), com dificuldades de contornar a preferência da cúpula partidária pela candidatura presidencial do então governador paulista José Serra, propor eleições primárias no modelo clássico: abertas a todos os eleitores e com o compromisso do partido ratificar em convenção o resultado da consulta popular.
A proposta não foi para parte alguma, mas é de se prever a volta da discussão em qualquer partido que esteja desunido em relação à eleição presidencial, como desde sempre é o caso tucano. Na Argentina, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado, conseguiu tirar a novidade da prancheta. Se vivo estivesse, provavelmente estaria arrependido.
Legado de Kirchner, primárias não definem candidatos
As eleições primárias na Argentina foram introduzidas na legislação eleitoral depois da derrota governista na renovação do Congresso em 2009. Havia então muita incerteza sobre a viabilidade de uma reeleição da presidente Cristina Kirchner e vale lembrar que o peronismo estava esfacelado desde a eleição do marido, quatro anos antes.
Em 2003, foi permitido a filiados ao mesmo partido participarem de coligações diferentes e enfrentarem-se nas urnas. O peronista Nestor Kirchner elegeu-se depois da desistência do correligionário Carlos Menem em disputar um segundo turno. Ainda enfrentou outro peronista, Adolfo Rodriguez Saa.
Quatro anos depois, Cristina sucedeu ao marido batendo nas urnas apenas um colega dissidente, o mesmo Rodríguez Saa. Mas em 2009 o cenário de fragmentação da base governista era muito provável. Surgiram então as eleições primárias como um instrumento para que as diversas alas do peronismo se enfrentassem internamente e fossem constrangidas a terem um único candidato em 2011.
O que não se previa é que os dissidentes peronistas, o ex-presidente Eduardo Duhalde e o governador de San Juan Alberto Rodríguez Saa, montassem suas próprias coalizões para disputarem as eleições contra Cristina e ignorassem a escolha interna. A legislação eleitoral argentina não eliminou as estranhas disposições legais que permitem a filiados ao mesmo partido disputarem em coalizões diferentes. Também não se contava com a capacidade da presidente de se revitalizar na preferência popular com uma política de fomento ao crescimento econômico, mesmo com a escalada inflacionária. Além de, obviamente, todo o cenário político da Argentina ter mudado com a morte súbita de Nestor Kirchner exatamente um ano antes da eleição.
As eleições primárias vão acontecer na Argentina este domingo e seu efeito, do ponto de vista da consolidação do quadro de candidaturas, não irá beneficiar a presidente, já que os rivais internos do peronismo serão candidatos em qualquer circunstância. A votação deste domingo, que é uma primária aberta, ou seja, aquela em que os eleitores irão escolher um candidato independente de seu partido, interessa mais à oposição que ao kirchnerismo. Ela poderá servir para mapear qual o candidato mais habilitado para tentar polarizar a eleição presidencial de outubro com Cristina. As pouco confiáveis pesquisas argentinas mostram três candidatos na faixa entre 10% e 20%: o peronista Eduardo Duhalde, o radical Ricardo Alfonsín e a esquerdista Elisa Carrió. Cristina está entre 40% e 50%. O segundo turno na Argentina tende a ocorrer se Cristina ficar abaixo da banda mínima desta faixa. Ou seja: estas eleições primárias serão a mais cara e a mais completa pesquisa de intenção de voto do mundo, com margem de erro próxima a zero, já que o voto será obrigatório. A consulta só será decisiva para os candidatos nanicos, que só poderão se apresentar na disputa nacional caso consigam pelo menos 400 mil votos, ou 1,5% do total de votos.
Fica a questão sobre qual a influência que uma eleição prévia poderia ter tido no Brasil se ocorresse antes das convenções partidárias. Ao contrário do que ocorre na Argentina, no Brasil a oposição liderou as pesquisas até o início da campanha eleitoral. Aécio teria aceito participar de um embate com Serra e os demais candidatos e desestabilizado o preferido da cúpula? O potencial eleitoral de Marina Silva teria se evidenciado e permitiria à então senadora sair do isolamento político? Provavelmente os efeitos seriam muito mais conservadores do que estes. As eleições primárias nas províncias (na Argentina as disputas nacionais e locais não coincidem) não captaram ascensões fulminantes como a do direitista Miguel del Sel em Santa Fé e foram raríssimos os partidos que não fizeram um acerto interno antes da chamada às urnas antecipada. De concreto, fica a evidência de que não se resolvem problemas políticos com criatividade legislativa.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Belo Horizonte (2009-2011)
Aos meus pouquíssimos leitores, trago aqui mais uma notícia velha: estou de partida de Belo Horizonte, depois de uma permanência mais curta do que eu pensava: dois anos e meio. Vou-me embora no próximo mês para Buenos Aires, uma transferência que vinha sendo negociada há muito tempo, antes mesmo de eu chegar a Minas.
Ter ido a Minas mudou a minha vida para sempre.
Ter ido a Minas mudou a minha vida para sempre.
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