sábado, 12 de março de 2011

A alvorada egípcia, no Valor Econômico
Empresário egípcio prevê democracia e estabilidade no país
César Felício De Belo Horizonte
09/03/2011




O entusiasmo do engenheiro egípcio Emad El Sewedy, 46, morador na região de 6 de Outubro, vizinha ao Cairo, é um sinal da amplitude da base de apoio que teve a insurgência popular contra o regime liderado por Hosni Mubarak, derrubado da Presidência do Egito no último dia 11. El Sewedy é o CEO da Electrometer, uma das empresas do El Sewedy Group, um conglomerado de indústrias na área de energia que faturou US$ 1,6 bilhão nos primeiros nove meses do ano passado. El Sewedy viu de perto as manifestações da Praça Tahrir e diz não ter dúvidas de que o caminho do Egito para uma democracia é inexorável.
A Electrometer começa este ano a operar em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, uma fábrica com capacidade de produção de 700 mil medidores de energia por ano, em sociedade com a Damp, uma empresa do banco mineiro BMG. A cada dois meses, El Sewedy passa uma semana no Brasil.
Ao falar ao Valor, no saguão de um hotel em Belo Horizonte, estava empolgado com a notícia da demissão de Ahmed Shafiq, no dia 3. Último primeiro-ministro do Egito indicado por Mubarak, Shafiq foi demitido depois de uma reunião entre o Conselho Supremo das Forças Armadas, que detém o poder de fato no País, e representantes dos manifestantes. Foi substituído por Essam Sharaf, um ex-ministro de Mubarak que passou para a oposição em 2006. Para El Sewedy, foi um sinal claro de que o regime caminha para a abertura.
El Sewedy também demonstrou satisfação com a abertura de processos legais contra uma elite empresarial egípcia que era profundamente vinculada ao governo de Mubarak. A figura mais conhecida é a de Ahmed Ezz, dono de um grupo siderúrgico com produção de 5,8 milhões de toneladas de aço no ano passado e detentor de cerca de 60% do mercado egípcio. Ezz também era tesoureiro do partido do governo e um dos principais articuladores de Gamal Mubarak, que tinha pretensões de suceder o pai no governo do país.
Ao término da entrevista, gravadores já desligados, o empresário arriscou-se a fazer uma aposta a respeito do vencedor das eleições presidenciais que devem ocorrer em setembro. Disse não acreditar nas chances do secretário da Liga Árabe, Amr Mussa, nem do ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei. Segundo ele, há espaço para a vitória de alguém mais jovem e desvinculado das tradicionais estruturas políticas.
Valor: O sr. é o maior empresário egípcio no segmento eletro-eletrônico. Em que medida as mudanças no Egito podem afetar o meio empresarial como um todo e o grupo El Sewedy em particular?
Emad El Sewedy: É preciso estabelecer algumas preliminares porque é muito difícil, para quem está fora do Egito, dimensionar o que aconteceu no meu país. Os acontecimentos do início deste ano devem ser chamados de revolução. Foi algo histórico, que ninguém esperava que pudesse ocorrer, e isto vale principalmente para as pessoas que iniciaram os protestos contra o regime. O que os primeiros manifestantes buscavam talvez não fosse nem 10% das possibilidades que se abriram agora. É preciso lembrar que tudo começou com protestos contra a carestia e o fato de termos um desenvolvimento econômico concentrado, que exclui parte da sociedade. E então a magnitude disso foi crescendo e subitamente, no dia 25 de janeiro, colocou-se claramente a questão da mudança do regime, de mudança constitucional, eleições livres, do fim da corrupção. Tornou-se uma revolução política.
Valor: E as manifestações tiveram apoio no meio empresarial?
El Sewedy: A sociedade toda apoiou. O que ocorreu no Egito foi um movimento que nasceu das massas urbanas mais simples. Normalmente, as movimentações políticas começam no Exército no Egito, mas essa revolução não se apoiou em nenhum tipo de arma. Eu estive na Praça Tahrir para tentar entender o que estava acontecendo, queria ver com meus próprios olhos.
Valor: O senhor então participou das manifestações?
El Sewedy: Eu me sentia perdido ao ler o noticiário, tanto o do Egito quanto o de fora. Era estranho perceber a agitação e assistir na televisão afirmações categóricas de que nada estava acontecendo. Na mídia ocidental chegou-se até mesmo a dizer que as manifestações eram inspiradas pela Al-Qaeda, pelo Irã. Eu fui até a praça porque queria avaliar, por mim mesmo, em que medida a Irmandade Muçulmana [grupo político de inspiração islâmica] estava comandando a situação. E o que vi na praça Tahrir foi que a Irmandade estava completamente diluída no meio da multidão. Então o que devemos discutir é a razão desse temor da Irmandade Muçulmana. A revolução diminuiu, e não aumentou, as chances de eles chegarem ao poder.
Valor: Mas eles não eram o principal grupo de oposição no Egito?
El Sewedy: Nas eleições passadas, a Irmandade era a única organização oposicionista mobilizada para levar as pessoas a votar. E isso acontecia porque a maioria dos egípcios evitava votar, não confiava que as eleições fossem livres e justas. Ninguém se preocupava em participar. Agora as pessoas estão mobilizadas como nunca estiveram, e não foi a Irmandade Muçulmana que começou esse processo. As reformas constitucionais anunciadas devem aumentar ainda mais a participação política. É um ambiente muito mais aberto.
Valor: O aumento da incerteza na região levou o seu grupo a retardar decisões de investimento?
El Sewedy: No Egito não estamos suspendendo investimentos. Na semana passada assinei uma ordem para construir uma nova fábrica na área de Alexandria, porque já tínhamos tudo planejado, o financiamento assegurado, e não iríamos parar. Seguimos produzindo no Egito, como em outros países. O investimento lá em Alexandria é de US$ 5 milhões.
Valor: Mas na Líbia o grupo El Sewedy suspendeu um investimento de US$ 65 milhões em uma fábrica de cabos elétricos em Tripoli...
El Sewedy: A Líbia é uma situação totalmente diferente. A Líbia é um caos agora. O país é dividido em tribos, a população toda vem de tribos. A solidariedade não é entre o povo líbio, é intertribal. Então uma tribo apoia a revolução, outra tribo não, e quando eles se juntam, se juntam por tribo. No Egito, há um só povo. Quando se nasce no Egito, ninguém pergunta sobre sua família ou sua aldeia. Na Líbia, tudo depende de onde você veio. Durante a revolução no Egito, nem uma única igreja foi atacada, os negócios não foram saqueados, o povo se protegeu. Os militares no Egito são egípcios, não atiraram contra o próprio povo. Na Líbia você encontra uma tribo atirando na outra.
Valor: O senhor acredita que o caminho para a democracia no Egito agora é inexorável?
El Sewedy: Acredito completamente. Porque o povo não aceitará outra conduta, nada que não seja isso. As mudanças constitucionais vão todas nessa direção.
Valor: Mas a influência das Forças Armadas na política egípcia é gigantesca. É razoável pensar que o Egito terá um regime civil pela primeira vez desde a deposição do rei Faruk, em 1952?
El Sewedy: O papel das Forças Armadas é o de proteger, e não governar o Egito. Há um claro entendimento disso. Essa é uma inquestionável demanda da revolução. É claro que temos neste instante um presidente militar, e as Forças Armadas estão no controle do país, mas isto está ocorrendo justamente porque as Forças Armadas mantiveram a popularidade ao não se contraporem ao povo nas ruas. Eles viram que há um clamor por um presidente civil. Você deve ter visto que o primeiro-ministro do Egito renunciou [na semana passada]. Ele não fez isso de sua própria vontade. A demissão dele era uma demanda popular. Quem está dirigindo o Egito é a Praça Tahrir.
Valor: Há grandes empresários sendo investigados agora no Egito, que se destacaram no passado pela sustentação a Mubarak, como o caso de Ahmad Ezz, industrial do aço. Isso não causa apreensão entre o empresariado?
El Sewedy: Ahmad Ezz era tesoureiro do partido governante e tinha a maior parte do mercado doméstico do aço. Ele conseguiu licenças de importações para sua indústria do aço de maneira gratuita. Foram negócios de bilhões, e não milhões de libras [egípcias]. Ele irá a julgamento no Egito e isso é uma boa notícia para o meio empresarial. Os empresários corretos não se sentem representados por esse tipo de empreendedor.
Valor: O senhor acredita que o novo quadro político pode levar à instabilidade externa, se as relações entre Egito e Israel forem afetadas?
El Sewedy: Não acredito em mudanças, porque tanto Egito quanto Israel lucram muito com a paz. As guerras foram desastrosas para os vencedores e para perdedores no Oriente Médio.
Valor: Qual o efeito da crise para o Egito neste ano?
El Sewedy: O cenário inicial, pré-queda de Mubarak, era de a economia egípcia crescer 6% em 2011. As previsões mais realistas hoje são de crescimento de 3%, por causa da mudança política. Mas, a partir de 2012, tenho certeza de que o crescimento será bem maior que a faixa de 5%, 6% que vínhamos mantendo antes da crise. Porque no Egito o povo não estava feliz, estava estressado, e isso obviamente afetava a produtividade. Em um sistema democrático, vai aumentar a previsibilidade no país. Podemos nos tornar um portal de negócios para o Oriente Médio, a África e mesmo parte da Europa.
Valor: Porque a sua empresa decidiu investir no Brasil?
El Sewedy: Estamos focados no Brasil no mercado de medidores elétricos, em associação com o grupo BMG. Acreditamos muito no potencial deste mercado. O Brasil é um 'hub' para a América do Sul, assim como o México será o 'hub' para nós na América do Norte. Estamos começando a operar este ano e devemos ter faturamento de R$ 20 milhões, mas no médio prazo acreditamos que o governo vai fomentar a troca de medidores de energia para controlar as grandes perdas que existem no sistema. Temos capacidade de produção para 700 mil contadores em Sabará. Estamos em vários países porque optamos sempre por entrar em novos mercados. O Egito representa 15% do faturamento da Eletrometer, que está em torno de US$ 100 milhões. Estamos crescendo e fomos pouco afetados pela crise de 2008. Somos uma das empresas do grupo El Sewedy, que atua no Egito desde 1938.
Valor: Como foi o processo de instalação no Brasil? Por que o senhor optou por Minas Gerais?
El Sewedy: A parceria com o BMG começou em 2008, mas estou vindo ao Brasil desde 2006, quando comecei a estudar o mercado. Escolhemos investir em Minas Gerais porque em São Paulo já tem gente demais. Aqui em Minas tivemos acesso fácil às autoridades e encontramos nosso parceiro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A retirada de Patrus Ananias

Valor Econômico, 4 de fevereiro de 2011

Há políticos que procuram construir sua imagem pública como realizadores de obras, ou com a identificação com uma determinada classe ou grupo social, ou alinhando-se a uma corrente ideológica. E há os que se consolidam investindo na construção de uma personalidade atraente para a opinião pública, a encarnação de um conjunto de virtudes. Os mais bem sucedidos costumam ser os que fazem uma composição de todos os fatores ao longo da vida pública, ou com ao menos mais de um deles.
Ex-ministro do Desenvolvimento Social por seis anos, o advogado mineiro Patrus Ananias é um dos que encarnam a figura do homem virtuoso, de maneira análoga à dos senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, entre poucos outros. A começar pela austeridade: ele atualmente pode ser encontrado nos dias úteis, das 8h às 14h, dando expediente na Escola do Legislativo da Assembleia mineira, onde entrou por concurso em 1982 e para onde sempre volta quando está sem mandato.
Trabalha em um ambiente coletivo e nem sequer tem um ramal de telefone próprio. Há 19 anos mora no mesmo endereço, um apartamento no bairro de Funcionários, em Belo Horizonte, área em que o preço mais comum para imóveis está em torno de R$ 5 mil o metro quadrado. Algo que nem sempre acontece com políticos que administraram orçamentos bilionários.
Católico convicto, Patrus foi um dos escalados para visitar as paróquias entre o primeiro o segundo turno da eleição no ano passado, na tentativa de reaproximar os fiéis da candidatura da hoje presidente Dilma Rousseff. Seu preparo intelectual não é pouco: professor de direito na PUC mineira, deixa ao alcance da mão leituras densas, como "Ideologia e contraideologia", de Alfredo Bosi.
Como prefeito de Belo Horizonte nos anos 90 e ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, responsável por nada menos que a implantação do programa Bolsa Família, seu saldo administrativo está muito acima do regular.
O ex-ministro deixa poucas pistas para se entender porque sua carreira política chega a um momento de ostracismo com resultados eleitorais absolutamente pobres.
Patrus ganhou três eleições: vereador em 1988, prefeito em 1992 e deputado federal dez anos depois. Perdeu quatro: vereador em 1982, senador em 1990, governador em 1998 e vice-governador no ano passado. Viveu no governo Lula sua grande oportunidade, ao capitanear um programa que movimentava R$ 40 bilhões.
Chegou a ser citado como presidenciável. Mas não conseguiu nem ser candidato ao Senado. Há muitos anos tornou-se minoritário dentro do PT mineiro. Sugerido como opção para o ministério ou o segundo escalão do governo de Dilma, seu nome foi ignorado. Comenta-se que o veto teria partido de Lula, que atribui a Patrus a divisão petista que levou à derrota eleitoral em Minas no ano passado.
Patrus foi muito menos longe do que os próprios exemplos já citados dos que têm a virtude como trunfo: Suplicy conseguiu eleger-se três vezes senador por São Paulo e Simon chegou a ser governador gaúcho. Uma das explicações possíveis pode ser a baixa aptidão por liderança. Patrus não é um líder, segundo suas próprias palavras. "Não tenho grupo e nem seguidores. Eu tenho interlocutores, companheiros. Quem quer ter seguidores precisa ter uma trajetória inflexível, retilínea, que obriga a tornar a política uma profissão. Foi uma opção minha não ser assim", comenta.
O ex-ministro não cogita participar das eleições no próximo ano. Pretende escrever uma tese de doutorado sobre políticas sociais. Patrus não se considera o autor do programa Bolsa Família: lembra que a proposta foi formulada no fim de 2003, antes de sua entrada no ministério. E nem avoca para o sucesso do programa parte da responsabilidade pela reeleição de Lula em 2006, ano em que o presidente estava ferido pelo escândalo do mensalão. "O programa nunca sofreu oposição nem do PSDB e nem do DEM exatamente pelo caráter republicano que ele ganhou ao ser implantado", diz.
Para Patrus, o programa não chegou a erradicar a fome no Brasil. "Acabou a fome endêmica, aquela em que havia uma discussão sobre quantos milhões eram atingidos, mas permanece uma fome ligada ao núcleo duro da miséria, às pessoas que são incadastráveis pela regra atual, por não terem domicílio ou mesmo registro civil. São os moradores de rua, alguns quilombolas, algumas comunidades indígenas", afirma. Para avançar a este ponto, segundo Patrus, seria necessário agora estabelecer programas envolvendo diversos ministério em uma única ação. "A tarefa que existia no governo Lula era acabar com a fome como um fenômeno generalizado e isto nós fizemos", afirma.
Há relatos de antigos aliados de Patrus sobre a frustração que o petista causou entre os apoiadores ao se recusar a assumir compromissos políticos normais em campanhas, como a divisão futura de espaços políticos e o equacionamento de questões de financiamento. Sua intransigência ao estabelecer alianças em bases ideológicas foi interpretada como arrogância. O risco de um político que transforma a austeridade em um dos pilares de sua imagem é, de maneira involuntária, estabelecer uma relação de superioridade com os que não agem assim. E, por tabela, tornar-se uma figura relativamente solitária. O advérbio faz muita diferença. Patrus não pretende encerrar 30 anos de militância política. Ele deixa pairar no seu horizonte a perspectiva eleitoral em 2014. "O que estou vivendo agora é um período sabático", disse, usando um adjetivo que indica claramente a suspensão de uma atividade em caráter temporário, e não um estranho recomeço.

A porta que não será trancada

Esta coluna foi publicada em 28 de janeiro, no Valor Econômico. De lá para cá, a situação no Egito agravou-se muito, parece começar uma acomodação e a cúpula em Lima deve ser adiada para abril. Dilma continua muda sobre os acontecimentos.


A presidente Dilma Rousseff tem um encontro marcado com uma crise no próximo mês, quando deve comparecer à cúpula dos países do mundo árabe e da América do Sul, em Lima, no dia 16. Será a estreia da presidente em um cenário global, uma vez que Dilma não quis circular por Davos. A cúpula de Lima, talvez o mais abrangente encontro intercontinental de chefes de Estado do que outrora se convencionava chamar de "Terceiro Mundo", vai reunir o grupo de 34 países pela terceira vez, agora mais do que nunca marcados pelo contraste institucional: do lado sul-americano, não é possível caracterizar governo algum, nem mesmo o mais controverso, de Hugo Chávez na Venezuela, como uma ditadura. No mundo árabe, a dificuldade é a oposta. Os fatos dos últimos dias, envolvendo Tunísia e Egito, falam por si.
Essa assimetria institucional jamais foi um problema para o antecessor de Dilma e nem para a aproximação entre os dois blocos, que vem sendo bem-sucedida. Economicamente, o movimento comercial entre o Brasil e o mundo árabe quadruplicou nos últimos oito anos; o Egito assinou um acordo de livre comércio com o Mercosul e a Jordânia deve ser o próximo a fazê-lo. No plano político, o encontro está sendo precedido por uma onda de países latino-americanos que reconheceram o direito da Palestina ser estabelecida com as fronteiras anteriores a 1967.
Há dúvidas sobre o grau de pragmatismo que a presidente - vítima de uma ditadura de uma forma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais foi - terá no cenário internacional. Poucos dias atrás, em nota, Dilma prometeu conferir à questão dos direitos humanos "um lugar central em nossa política externa, sem seletividade e tratamento discriminatório". A cúpula de Lima pode ser tanto um momento de afirmação dessa centralidade como uma boa ocasião de separar a retórica da "realpolitik".
Cúpula separa ações de retórica
A depender do rumo que a crise nos países árabes tome, existe até uma possibilidade de que se reforce a aproximação do Brasil com o mundo árabe. "O que nós estamos testemunhando agora é claramente uma vitória dos reformistas", comenta a jornalista americana de origem libanesa Octavia Nasr, dona da empresa de consultoria Bridges Media. Octavia trabalhou por 20 anos na CNN e foi coordenadora de cobertura em assuntos do Oriente Médio, e ganhou notoriedade no ano passado quando foi demitida por colocar no Twitter um comentário lamentando a morte de um líder religioso pertencente ao Hezbollah. Segundo a jornalista, torna-se cada vez mais difícil impedir uma guinada democrática tanto na Tunísia quanto no Egito, com chances da onda atingir outros países. Caso prevaleça o reformismo, estará criada uma alternativa à bipolaridade entre o fundamentalismo islâmico de um lado e o regime ditatorial de corte personalista, militar ou de partido único, do outro. Aumentará o nível de conforto do Brasil em alinhar-se com o mundo árabe.
O risco, conforme a própria Octavia lembra, é o de grupos como o da Irmandade Muçulmana surfarem na onda que se ergue contra Hosni Mubarak no Egito e que se insinua em outros países. A resposta poderá vir apenas em setembro, mês das eleições egípcias. "Será duro para Mubarak concorrer novamente ou eleger o filho Gamal Mubarak", comenta a jornalista. As eleições no mundo árabe são famosas por garantir reconduções com votações acima de 90% do total de sufrágios, maiorias que paradoxalmente retiram, e não concedem, credibilidade a seus beneficiários.
É uma questão complexa ligar a crise nos países árabes à economia. Pelos indicadores normalmente usados para avaliação, o quadro tunisiano e egípcio é de difícil caracterização. Nem o egípcio Mubarak e nem o tunisiano Ben Ali enfrentaram uma recessão em suas longas ditaduras, mas ambos os países sofrem de problemas que se tornaram crônicos. Segundo o Banco Mundial, o último ano em que houve retração econômica na Tunísia foi 1986. No Egito, não houve caso algum nas últimas três décadas.
As altas taxas de desemprego podem ser uma explicação para a cólera das multidões, já que o Oriente Médio e Norte da África possuem regionalmente a maior taxa mundial de mão de obra desocupada, segundo a instituição. E essa não é uma situação observada apenas nos últimos anos: os indicadores do Banco Mundial mostram que o índice anda estável, acima dos dois dígitos, na Tunísia e no Egito desde 2000. O ingrediente essencial para a explosão foi a ditadura em si, que produziu um regime fechado a tal ponto que o desespero de um camelô que se imolou ao ter a mercadoria apreendida pela polícia catalisou a revolta contra o regime tunisiano.
Difícil é deixar de ver com ceticismo o resultado concreto dessas explosões. "Não há essencialmente nada de novo no Oriente Médio. Os governos podem cair, mas os regimes ficam", comentou o professor Paulo Vizentini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor do livro "Relações Internacionais do Brasil - de Vargas a Lula". Segundo Vizentini, a desorganização das oposições, a ausência de uma classe média estruturada e a falta de pressão internacional são fatores que conspiram a favor do status quo.
Vizentini também é cauteloso ao demarcar a diferença que Dilma poderá ter de Lula no plano externo. "Lula foi um criador de oportunidades, que abriu várias frentes simultâneas. Dilma tende a dar conteúdo a essas iniciativas, onde isso for possível", afirma. A presidente não abrirá novas portas, mas dificilmente trancará alguma.

A eleição volta a mover a roda

Valor Econômico, 21 de janeiro de 2011
Sem o cabresto que as direções nacionais dos partidos colocaram sobre as situações políticas regionais no ano passado, a perspectiva eleitoral de 2012 começa a ganhar velocidade para decolagem. Houve tempo em que o começo de uma administração federal levava a um grande realinhamento partidário entre os parlamentares. Como o Judiciário instituiu a norma de garantir o mandato proporcional ao partido, e não ao eleito, são os prefeitos que começam a mover as divisões partidárias de espaço em seus redutos.
Trata-se de um movimento descentralizado, uma vez que a Presidência da República deixa de ser o referencial para a organização de alianças. Não deve haver dentro do PT, por exemplo, uma orientação para abrir mão de candidaturas próprias em nome da aliança nacional, como se deu no ano passado. E nem um alinhamento em regra entre PSDB e DEM.
Tendem a migrar de partido pelo menos dois prefeitos de capital, Gilberto Kassab, de São Paulo, e João Henrique, de Salvador, ambos sem ter como concorrer novamente em 2012, mas com perspectivas significativamente diferentes: o primeiro busca alçar voo para 2014; o segundo tenta sobreviver politicamente. Sem a perspectiva de mudança partidária, há sinais de um rompimento à vista em Belo Horizonte, onde o prefeito Márcio Lacerda (PSB) vai armando sua candidatura à reeleição.
Na capital mineira, há quase uma competição entre PSDB e PT para saber quem tem o prefeito do PSB como aliado preferencial. Márcio Lacerda é um tímido em ações administrativas ou políticas, mas favorito a ganhar um novo mandato pelas dificuldades tucanas e petistas de se estruturarem ou reestruturarem em Belo Horizonte. É uma reviravolta irônica em relação a 2008. Naquela ocasião, o então prefeito Fernando Pimentel forçou o PT a apoiar um aliado do então governador Aécio Neves para a sua sucessão.
Pimentel e Aécio praticaram um jogo de esperteza, em que o petista lançava uma ponte no universo aecista para se credenciar na eleição seguinte e o tucano tentava fincar um pé na base do lulismo. É um cenário que não se repete em 2012, eleição em que o atual prefeito passou a ser visto como um trunfo, e não peso. Já os padrinhos de 2008 não conseguiram tudo que esperavam da insólita aliança.
Pimentel passou a enfrentar resistência crescente dentro do PT e a divisão partidária fez com que o partido fosse cabalmente derrotado no ano passado: Minas é o único grande Estado em que nenhum petista ganhou cargo majoritário. Aécio divide-se entre atrair parte da base lulista e afirmar-se como uma liderança de oposição a Dilma. Lacerda poderá escolher entre manter-se aliado ao PT e firmar uma aliança com o PSDB.
Tanto PT quanto PSDB querem condicionar o apoio a Lacerda a um compromisso em 2014, mas se fragilizam pela falta de alternativas a um voo próprio, inevitável para quem for preterido pelo prefeito. O tucano mais citado, o deputado federal Rodrigo de Castro, teve votação pífia na cidade: 13 mil votos, o 20º mais votado. No PT, Pimentel já avisou que não há hipótese de entrar na disputa e o ex-ministro Patrus Ananias foi humilhado por consecutivas derrotas nas eleições internas do partido. Sobra o vice-prefeito, Roberto de Carvalho. Para desestabilizá-lo, Lacerda sem pressa alimenta expectativas no PSDB: apoiou um tucano para a presidência da Câmara dos Vereadores e acena com espaço na administração, sem mover um músculo da face sequer sobre 2014, a preocupação maior de Kassab.
O prefeito paulista está imerso em uma guerra por ocupação de espaços desde que ficou patente que o cenário mais provável para a eleição estadual será o de confronto entre o seu projeto político e o dos tucanos. Pretende manter em seu redil o DEM, onde conta com seis deputados federais e herdar o espólio político do quercismo no PMDB do vice-presidente Michel Temer. Irá aguardar o novo desenho da cúpula do DEM para definir se fica ou sai do partido.
Segundo um antigo aliado do prefeito, Kassab se sentiria mais confortável para sair se a atual direção, sob comando do deputado Rodrigo Maia, fosse derrotada. Na hipótese de seus inimigos prevalecerem, Kassab não teria como migrar para o PMDB e mandar no DEM paulista. Seria alta a possibilidade da direção nacional impedir que os parlamentares aliados de Kassab o acompanhassem no PMDB. O prefeito teria que mudar de casa sem levar a mobília.
A sinalização de que o PSDB poderia compor com o prefeito para um candidato único em 2012 é vista dentro do bloco que apoia o governador como retórica. "Kassab e Alckmin só estarão juntos em 2012 se o [José] Serra ou o Aloysio [Nunes Ferreira] se lançarem candidatos a prefeito", afirmou um dirigente do PPS.
Em Salvador, João Henrique tenta sobreviver em um cenário de falência política, desencadeado quando teve suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Município. O prefeito está sendo virtualmente expulso do PMDB pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, provavelmente aborrecido com o comportamento do prefeito na eleição estadual, em que Geddel ficou em terceiro para governador. Vivendo o seu auge na Bahia, o governador Jaques Wagner já indicou o deputado Nelson Pellegrino para ser o candidato do PT a prefeito, o que autorizou aliados a começarem a especular sobre o impeachment de João Henrique.
Interessado em fechar uma aliança com o PMDB, o DEM também joga o prefeito ao mar: "ele que vá procurar abrigo com o governador", comentou o deputado José Carlos Aleluia, derrotado ao Senado e pré-candidato a prefeito. João Henrique negocia sua filiação com o varejo da Câmara dos Vereadores, encarregada de examinar o parecer do Tribunal de Contas. Provavelmente irá para um partido de pequeno porte e a chance maior é de que termine o seu mandato no prazo normal. João Henrique é um sobrevivente: em 2008 conseguiu se reeleger mesmo com um índice de aprovação inferior a 30% e contra PT, PSDB e DEM. Contou na ocasião com a sombra de Geddel, mas dificilmente deixará de estar exposto ao sol na eleição do próximo ano. Sua provável saída do PMDB, segundo avalia um antigo aliado no PT, deve reduzir sua influência no processo eleitoral ao ponto da que o então prefeito de São Paulo Celso Pitta exerceu na eleição de 2000.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Leão americano, muito mais implacável

Um conjunto de medidas discretamente colocados dentro do "Hire Act", a lei para geração de empregos, assinada pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama em março deste ano, já desperta apreensão em bancos brasileiros. Pelas medidas que entram em vigor em janeiro de 2013, as instituições financeiras estrangeiras que não fornecerem à IRS, a autoridade tributária dos Estados Unidos, uma série de informações sobre seus correntistas que sejam pessoas físicas ou jurídicas norte-americanas estarão sujeitas a uma retenção de 30% sobre os rendimentos obtido nos Estados Unidos, seja de aplicações financeiras, seja com a venda de títulos e seguros.
O assunto é discutido com especial atenção entre os bancos com atuação importante tanto nos Estados Unidos como no Brasil. As informações sobre a movimentação financeira serão exigidas para todas as operações com valor agregado acima de US$ 50 mil. Uma dessas instituições financeiras já fez um levantamento inicial sobre quantas contas de pessoas físicas no Brasil estariam atingidas: seriam cerca de 1,5 mil contas de cidadãos americanos declarados, mas o universo certamente é maior , já que o banco ainda está levantando quantos correntistas pessoas jurídicas possuem pelo menos 10% de sua propriedade em mãos norte-americanas, caso sejam empresas de capital fechado.
Neste último caso, ainda que a empresa para efeitos legais seja considerada estrangeira nos Estados Unidos, a sua conta corrente é considerada uma conta norte-americana. De acordo com o "Hire Act", basta esta participação acionária para que o banco tenha que prestar informações sobre o correntista ao governo dos Estados Unidos.
"Para estarmos a salvo de qualquer penalidade nos Estados Unidos, vamos ter que exigir novas informações dos nossos correntistas aqui no Brasil. Precisaremos investigar a composição acionária das empresas interessadas em abrir uma conta, para saber se elas têm ou não investidores norte-americanos", comentou um executivo que analisa o caso para esta instituição financeira.
Um escritório de advocacia norte-americana que acompanha as discussões sobre a aplicação da lei ressalva que as retenções só poderão acontecer quando o correntista tiver alguma fonte de renda nos Estados Unidos. "Quem não tem renda originada nos Estados Unidos não está sujeito a penalidade alguma", argumentou um advogado deste escritório, sob reserva. Mas admitiu que a lei poderá ter impacto em um primeiro momento nos mercados norte-americanos. " Suspeito que haverá alguma relutância de certos investidores em aplicar nos Estados Unidos, por não quererem prestar informações sobre seus correntistas ao IRS. Uma vez esclarecidos detalhes sobre como obedecer a esta lei , as instituições financeiras mais sofisticadas vão arcar com os custos da informação e estabelecer protocolos para o cumprimento das exigências", opinou.
A lei prevê retenções até 30% para os rendimentos gerados nos Estados Unidos a partir de 14 de setembro deste ano. Segundo este advogada, a motivação da lei foi a descoberta que bancos suíços estavam orientando correntistas que eram contribuintes norte-americanos a abrirem empresas offshore para esconderem seus rendimentos reais do fisco daquele País. Por isto a nova lei decidiu aplicar penalidades que, na prática, transferem o pagamento do imposto devido aos bancos estrangeiros que não colaborarem.> As informações que teriam que ser prestadas a IRS são a identidade de cada correntista, o número da conta, seu saldo e a movimentação de entradas e retiradas, exceto pagamentos feitos a governos e instituições multilaterais. Para evitar a retenção automática de 30% das rendas geradas nos Estados Unidos, cada instituição financeira teria que assinar um acordo de colaboração com o governo dos Estados Unidos para identificar os correntistas norte-americanos e as empresas de capital fechado com investimento norte-americano.
Em seguida, a instituição financeira precisa obter uma licença formal do correntista para que as informações sejam prestadas ao fisco norte-americano. Caso não consiga esta licença, o próprio banco deve fazer a retenção das rendas obtidas pelos correntistas nos Estados Unidos e encerrar a conta. As exigências são feitas não apenas a bancos mas a outras empresas que são consideradas financeiras em um contexto mais amplo, como seguradoras e corretoras que comercializem títulos, derivativos e fundos hedge e equity.

A "presidenta": primeira obra da presidente

César Felício
Valor Econômico
07/01/2011

Uma vez posto que gramaticalmente tanto "presidente" como "presidenta" são aceitáveis para se referir à chefe (ou chefa?) de Estado Dilma Rousseff, cabe a reflexão de por que a escolha oficial por "presidenta", uma vez que não há gestos gratuitos na política. A questão simbólica sintetiza toda a estratégia de opinião pública de Dilma na reta final do governo do antecessor e em sua primeira semana presidencial.
Durante a campanha eleitoral, seja porque havia outra mulher como candidata à presidência, seja porque Lula era uma figura tão central e tão solar que obscurecia a personalidade de sua indicada, a questão de gênero não teve papel relevante. Por vezes a sensação é de que estava em jogo no Brasil uma espécie de terceiro mandato disfarçado para o presidente, como se Dilma não existisse.
Paradoxalmente, Dilma começou a construir a sua imagem após a sua eleição. É o que observa o cientista Antonio Lavareda, dono da empresa de consultoria MCI e atuante em campanhas do PSDB e do DEM nos anos 90 e filiado ao PSDB desde 2009.
"Foi só agora que a questão de gênero ganhou um significado especialíssimo, porque garante à Dilma um caráter único. Assim como nunca houve um presidente como Lula, ela , a 'presidenta', também é diferente de tudo. Todos os demais foram apenas presidentes", observou Lavareda.
A busca de símbolos que reforçam a questão de gênero não se limitou à gramática, mas se estendeu ao entorno imediato de Dilma: do ministério com nove Pastas ocupadas por mulheres até às policiais que fazem sua segurança. Não é pouco o fato de Dilma ter destacado a sua condição na primeira frase de seu discurso inaugural: "Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher. Sinto uma imensa honra por essa escolha do povo brasileiro e sei do significado histórico desta decisão", disse. Discorre sobre o tema nos quatro parágrafos seguintes e só então afirma que irá consolidar conquistas do antecessor.
"Depois de uma campanha fria, em que havia apenas um apelo racional para o voto em Dilma, que era a defesa da continuidade, era necessário agora colocar um pouco de emoção para gerar empatia com a opinião pública" , interpreta outro especialista em pesquisas, o cientista político Marcos Coimbra, do instituto Vox Populi.
Sobre o "significado histórico" da posse de uma presidente tudo indica que não será pequeno. Para feministas, poderá ter o poder de uma revolução nas mentes. "A presença dela na Presidência transforma a formação da representação social da mulher. O imaginário social muda", avalia a historiadora Tânia Navarro-Swain, professora aposentada da UnB que criou o primeiro mestrado e doutorado em estudos feministas do país. Segundo a professora, uma presidente desestabiliza a vinculação da mulher com o espaço privado da sociedade e do homem com o espaço público.
A professora relembra uma famosa frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, mas torna-se uma". "Existe uma construção social do ser, que no Brasil associa o feminino com a fragilidade, a inconsistência, a irracionalidade. Dilma quebra esta imagem. Até a voz dela é impositiva, de mando", disse. A historiadora não mostra o mesmo entusiasmo em relação ao ministério montado por ela. "São nove ministras, mas com exceção de Miriam Belchior, no Planejamento, as demais estão confinadas a áreas laterais da administração, usualmente identificadas com o feminismo, como o Desenvolvimento Social e a Cultura, ou então em Pastas totalmente irrelevantes, como Pesca". Neste ponto, aponta a professora, não há diferenças entre o governo de Dilma e o de seu antecessor. A própria Dilma foi a única ministra com poder efetivo na administração de Lula.
Descendo à questão pragmática da manutenção da popularidade, a perspectiva internacional mostra que o encantamento da opinião com a mandatária mulher dura pouco. Ministra da Defesa no governo de Ricardo Lagos, a chilena Michelle Bachelet se viu em meio a uma crise que comprometeu sua imagem poucos meses depois da posse, ao enfrentar protestos de estudantes secundaristas, em 2006. Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner começa a recuperar sua popularidade somente nas últimas semanas, após a comoção despertada pela morte do marido e antecessor. E é no momento em que começaram as dificuldades, que não tardará, que a questão de gênero pode deixar de ser um trunfo, ou até mesmo pesar contra. "Não há dúvida que um insucesso da sua administração será associado ao fato de ela ser mulher", opina Tânia Navarro.

sábado, 1 de janeiro de 2011

a história das mães

Além das histórias descritas abaixo, publicadas no Valor no dia 30, há uma outra, que só soube depois da publicação: Jânio era tão fascinado pela mãe que pegou um sapato de salto alto de dona Leonor, depois do falecimento dela, e o preencheu com uma solda de metal, fazendo uma espécie de peso de papel. Usava o objeto em sua escrivaninha. Quem relatou a homenagem foi a historiadora Maria Vitória Benevides, ao relembrar um encontro que teve com o ex-presidente para uma pesquisa acadêmica que fazia. O caso está contado no livro de Ricardo Arnt sobre o ex-presidente.


Alvorada terá presença de mãe depois de 50 anos
Cesar Felício De Belo Horizonte
30/12/2010
A dona de casa Dilma Jane da Silva Rousseff, 86 anos, será a primeira mãe de um governante a morar na residência presidencial desde 1961, quando Jânio Quadros morou por sete meses com a mulher, Eloá, a filha, Dirce, e a mãe, Leonor, no Palácio da Alvorada. À época, Dilma Silva ainda não havia enviuvado do búlgaro naturalizado Pedro Rousseff e , conforme disse em entrevistas, jamais imaginara que a menina de então catorze anos incompletos chegaria a tal posição. A mãe da presidente Dilma Rousseff deixou a casa no Jardim São Luiz, o melhor bairro na região da Lagoa da Pampulha, no norte de Belo Horizonte, em meados de dezembro. A ampla residência só será usada em ocasiões eventuais, de visita à cidade em que a filha nasceu e em que morou por quase 70 anos.
A mãe da presidente declarou logo após a vitória da filha que não deverá exercer papel algum em Brasília, o que tem sido a regra na história republicana, em que as primeiras-damas é que são encarregadas de cumprirem certos ritos cerimoniais e tarefas assistenciais. A convivência de Dilma Rousseff com a mãe foi entrecortada. A presidente eleita saiu de casa antes de completar 20 anos, quando se casou com Claudio Galeno, seu primeiro marido, e passou a militar na luta armada. Dilma Jane voltaria a encontrar a filha entre 1970 e 1973 , nas visitas que fez à filha na prisão , em São Paulo. Em entrevista ao jornal "O Globo", a mãe da presidente relembrou aquele período como um "calvário": dividia-se entre as visitas semanais a Dilma, para quem levava queijos e livros, e os cuidados com a filha caçula, Zana, que adoeceu e morreu de infecção hospitalar com apenas 25 anos, em 1976. Ouviu as histórias das torturas que a filha sofreu, mas disse em entrevistas ter aprendido a conter emoções: "chorar não adianta", comentou em entrevista à TV Globo. Segundo o futuro ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel declarou em entrevista à revista "Marie Claire", durante a prisão da filha, Dilma Jane foi convertida do catolicismo para o protestantismo pelo pai de Pimentel, que era pastor metodista.
Chegaram ao poder com as mães vivas os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Jânio, José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Exceto o caso de Jânio, em todos os demais as mães permaneceram longe do palácio presidencial. Somente dona Leda Collor de Mello teve um papel protagonista durante a presidência do filho, quando em 1992 tentou interceder por um acordo entre o então presidente e seu irmão, Pedro Collor. Diretor do jornal "Gazeta de Alagoas", Pedro Collor ameaçava denunciar um esquema de corrupção liderado pelo tesoureiro do irmão na campanha presidencial, Paulo César Farias, o PC, ao perceber que havia uma operação em curso para prejudicar seus negócios.
Controladora da holding familiar, dona Leda não conseguiu fazer Pedro e Fernando reatarem. A crise doméstica e política colaborou para que seus problemas cardíacos se agravassem até um colapso em setembro de 1992, durante o início do processo de impeachment do filho. Inconsciente a apartir de então, dona Leda morreu em fevereiro de 1995.
O mesmo ano em que o filho de dona Leda perdeu o cargo de presidente foi definido pelo seu sucessor, Itamar Franco, como "um ano muito triste". A mãe de Itamar, Itália Cautiero, morreu em dezembro, vinte dias antes da posse definitiva do filho na Presidência. Havia passado os últimos seis anos de vida inconsciente, em razão de um derrame cerebral, mas sua morte desestabilizou o filho, que trancou-se por dias em Juiz de Fora em meio a uma crise governamental, que culminaria naquele mês com a troca do ministro da Fazenda. O pai de Itamar morreu ainda durante a gravidez da mãe, e Itália Cautiero vendia marmita para criar sozinha os filhos, nos anos 30.
A mãe de Getúlio, Cândida Vargas, ficou ao lado do marido Manoel Vargas em São Borja até morrer, em 1936, quando o filho já exercia a Presidência no Rio há seis anos. Obscurecida pela presença do esposo patriarca, dona Cândida não teve para Getúlio a importância central que a professora Júlia Kubitscheck terminou por exercer sobre o filho Juscelino. Viúva desde quando o futuro presidente tinha apenas dois anos e em meio a uma grande escassez de recursos, dona Júlia fazia com que o filho assistisse a todas as suas aulas, de manhã e de tarde, por não ter com quem deixá-lo. Mais tarde, empenhou seus bens para que JK pudesse estudar medicina em Belo Horizonte. O antigo presidente se referiu à Júlia como "minha mãe e mestra" ao dar um depoimento ao centro de documentação da Fundação Getúlio Vargas, um mês antes de morrer,em 1976. Dona Júlia morreu em Belo Horizonte aos 98 anos, em 1971, e em sua velhice conviveu mais com outros familiares que não Juscelino. Esteve presente na inauguração de Brasília, em 1960.
Relatos mostram que Leonor Quadros teve ativa participação nas campanhas do filho em São Paulo nos anos 50, mas foi apenas uma expectadora de sua rápida Presidência. Estava no Alvorada quando o filho renunciou, em 25 de agosto, e o acompanhou na viagem por navio à Europa, logo a seguir. A de perfil mais discreto foi a mãe de Sarney, dona Kiola, que permaneceu recolhida no Maranhão durante todo seu governo. Falecida em 2004, há apenas um registro de alguma interferência sua na longa carreira política do filho: nos anos 90, teria pedido para Sarney dificultar a aprovação da reforma da Previdência do governo Fernando Henrique.