quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O golpe de 64: crise econômica profunda, mas não decisiva

Coluna publicada em 13 de março de 2014. No pé, antevia o que seria visto no Brasil a seguir: Os santos guerreiros e o dragão da maldade César Felício A energia elétrica estava racionada em São Paulo, efeito das chuvas fracas na estação das águas: nenhum reservatório contava com mais de 20% de sua capacidade. O ano de 1964 começou com 54% das crianças em idade escolar fora do sistema educacional e com um déficit orçamentário previsto pelo próprio governo em Cr$ 1 trilhão, o equivalente a toda receita prevista. A inflação de 80% ao ano sem qualquer mecanismo de correção monetária levava a todos que tinham opção a fugirem do cruzeiro. No Rio de Janeiro, 5 mil imóveis estavam fechados , enquanto anúncios de aluguel eram publicados em dólar nos jornais. No mercado paralelo, a cotação do dólar saltou de Cr$ 360 em dezembro de 1961 para Cr$ 850 um ano mais tarde e Cr$ 1.270 nos idos daquele março do golpe. O governo Goulart sabia que precisava pagar US$ 1,6 bilhão em compromissos externos no biênio 64/65, o equivalente a 60% das exportações previstas para o período. Estabeleceu um controle cambial pelo qual as exportações de commodities e importações de petróleo, trigo e bens de capital, responsáveis por 80% do fluxo, tinham que passar pelo Banco do Brasil. Nos últimos oito anos, o Brasil havia terminado com déficit no balanço de pagamentos em sete. Apostando na desvalorização, os importadores correram para formar estoques e os exportadores retardavam ao máximo suas vendas. Na busca desesperada por divisas, Jango apertou as torneiras, restringindo remessas de lucros e dividendos. A resposta foi o corte de investimentos. Em 1961, haviam ingressado US$ 288 milhões em capitais. Em 1963, houve saída líquida de US$ 54 milhões. O crescimento econômico desceu de maneira vertiginosa: entre 1957 e 1962, havia sido superior a 6% todos os anos. Em 1963, foi de apenas 0,6%. A crise econômica de 1964 esteve longe de ser inédita. Vinte anos depois, os militares entregaram um país com baixo crescimento econômico e pronto para a hiperinflação. Ela se destaca da que a sucedeu, entretanto, pela sua irrelevância no debate político. A falta de luz, de moradia e o desabastecimento eram pé de página em jornais e tema quase ausente das manifestações de rua contra ou a favor do golpe em preparação. Goulart buscava se legitimar politicamente trazendo para a cena política novos atores, capazes de se empolgar com a reforma agrária em grande escala anunciada no comício de 13 de março daquele ano. Em seus 30 meses de governo, gastou 16 para recuperar os poderes tolhidos após a crise de 1961. Nem antes e nem depois um presidente chegou ao poder tão debilitado. Jango manteve ministros da Fazenda amigáveis ao capital internacional durante toda sua administração. Traçaram uma agenda de reorganização do Estado, que passava pelo controle de gastos, criação de um Banco Central, corte de subsídios e aumento de impostos. A cada lance de radicalização, entretanto, o presidente buscava formas mais eficazes de legitimação do que a credibilidade da política econômica. “Jango ensaiou várias vezes o ajuste, mas recuava ao não sentir respaldo. Os dias primeiros de maio de 1962 e 1963 foram cruciais. Em ambos os anos, o presidente arbitrou a favor de grandes aumentos para o funcionalismo, contra as posições assumidas pela equipe econômica do governo”, comentou Pedro Cézar Dutra da Fonseca, economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Dutra assinala que boa parte da agenda ensaiada pelos ministros de Goulart foi implantada pelos governos do regime militar: a centralização de poderes no Executivo, o aumento da carga tributária, a criação de mecanismos de correção monetária que fomentasse um mercado de capitais. Até obras de infraestrutura de grande porte, como Itaipu e usinas nucleares, emblemáticas do período que o sucedeu, estavam nos planos do governo deposto em 1964. Esta pode ser uma hipótese para explicar porque os rosários da classe média se ergueram em março contra o comunismo e supostos planos continuístas de Jango: na economia, havia um relativo consenso sobre qual era a agenda de modernização do Estado: a guerra estava na política. “A crise econômica veio de antes, herdada da construção de Brasília. E no governo de Castello Branco, o ministro do Planejamento Roberto Campos não inventou suas políticas do nada, recolheu os documentos elaborados pela burocracia administrativa que assessorava Jango. O problema de Goulart não era ‘mala praxis’ de seus auxiliares. Nada nasceu do zero”, comentou o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira. Há 50 anos, o ex-ministro começava a sua carreira de executivo do grupo de varejo Pão de Açúcar, e debita a conta do golpe em Fidel Castro. “A revolução cubana radicalizou a esquerda no Brasil, fechou as portas da Casa Branca para os governos reformistas e apavorou as classes conservadoras. Não havia debate econômico, havia pânico com o comunismo”, disse. Prestes a completar 80 anos, Bresser-Pereira classifica como “alucinação” o evento convocado para o dia 22 de março nas redes sociais sob o título “Marcha da Família com Deus II — o retorno”. “Não há dúvidas de que 11 anos de governos de esquerda aborrecem certos setores, mas o Brasil em 1964 estava fazendo a sua revolução capitalista. Hoje há um capitalismo consolidado. Difícil imaginar duas situações tão diferentes”, disse. A principal convocação para a marcha, na rede Facebook, conta com pouco mais de 3 mil presenças confirmadas no evento que promete pedir na porta de quartéis em todo o Brasil a “expulsão dos vermelhos” por uma “intervenção militar constitucional”. É cerca de metade dos que aderiram ao primeiro dos “rolezinhos” convocado pelos internautas. Promete ser uma fração dos 500 mil que lotaram São Paulo em 19 de março de 1964. Mas talvez seja precipitado achar que chegarão aos pontos de encontro em vemaguetes e gordinis. O rótulo de comunista hoje é colocado pelos santos guerreiros da internet em qualquer política que envolva mexer em um universo de valores morais. E a derrota do projeto governamental para o marco civil na internet é a bandeira mais imediata. A encenação será na rua, mas o campo de batalha é virtual.

Os primeiros meses do Papa- 9 de janeiro de 2014

Estado laico? Governo e oposição evitam entrar em choque com Francisco Políticos na Argentina se curvam à agenda do papa César Felício De Buenos Aires Em nove meses de pontificado, o papa Francisco está conseguindo fazer na Argentina o que não obteve em seus 15 anos à frente da Arquidiocese de Buenos Aires: aumentar a influência da Igreja na política e na sociedade. A Igreja chefiada Jorge Mario Bergoglio fez com que a oposição e o governo da presidente Cristina Kirchner alterassem sua agenda e colocassem, por exemplo, o combate ao narcotráfico como prioridade. Há três semanas, quatro presidenciáveis oposicionistas assinaram um compromisso de adotar a recomendação da Conferência Episcopal Argentina (CEA) para a questão. Se comprometeram Sergio Massa (Frente Renovadora); Ernesto Sanz (União Cívica Radical), Hermes Binner (Partido Socialista) e Mauricio Macri (PRO). Na plataforma que subscreveram consta “desalentar o consumo de drogas” e regulamentar a legislação que coíbe a venda de produtos químicos usados na produção de drogas sintéticas e na transformação da pasta base em cocaína. O governo já havia se alinhado antes. Em novembro, os bispos argentinos divulgaram um duro comunicado levantando a suspeita de conivência da administração pública com ”grupos mafiosos” e cobrando a nomeação de um titular para a Sedronar, órgão federal de combate ao narcotráfico. Dias depois, Cristina nomeou para o cargo o padre salesiano Juan Carlos Molina, confessor de sua cunhada, a ministra do Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner. Os bispos reconheceram o gesto, mas soltaram um nota afirmando que Molina não assumia “nem em nome, nem em representação da Igreja Católica”. No Congresso, a Igreja foi capaz de alterar o polêmico projeto do novo Código Civil, já aprovado pelo Senado e que deve ir à Câmara em março. Líderes do Executivo e do Legislativo colocaram Roma em seu roteiro obrigatório de consultas políticas. Entre as mudanças, estão o reconhecimento como pessoa humana de embriões produzidos por reprodução assistida e a retirada da regulamentação da gravidez de “barriga de aluguel”. “Muita coisa mudou. O papa deu uma visão mais positiva da instituição e as forças políticas procuram legitimar-se associando-se a ele. A hierarquia católica ganhou poder de articulação”, disse o economista Alejandro Nasif Salum, representante dos militantes por direitos de homossexuais dentro da Coalizão Argentina pelo Estado Laico (Cael), o enfraquecido grupo de pressão que impulsiona a aprovação do novo código. O aumento da força política do catolicismo partiu de uma base institucional sólida. Embora Bergoglio tenha sido derrotado em questões como a aprovação do casamento entre gays, em 2010, a lei que regulamenta a mudança de sexo e a permissão do aborto em casos de estupro e má-formação do feto, entre 2011 e 2012, a Igreja Católica ainda desfruta de uma posição legal privilegiada, garantida desde o surgimento do país. É a única confissão religiosa considerada pessoa jurídica de direito público, o que lhe garante, entre outras coisas, não ter bens sujeitos a embargo judicial e nem se sujeitar aos limites à propriedade de rádios e TV impostos pela lei de mídia de 2009. Pelo artigo 2 da Constituição argentina, o governo é obrigado “a sustentar o culto apostólico romano”, o que se traduz na ajuda pública para o pagamento de salários de parte do clero, despesas com viagens e com eventos. No Orçamento de 2013, estava previsto o custeio de 131 bispos, 640 sacerdotes e 1.600 seminaristas. O Ministério de Relações Exteriores e Culto previa gastar com o sustento da Igreja Católica 62,8 milhões de pesos argentinos, o equivalente a cerca de US$ 12 milhões, pela cotação média do ano passado. Na Casa Rosada, a equação de forças mudou quando, em 20 de novembro, Cristina nomeou o governador do Chaco, Jorge Capitanich, como ministro-chefe de Gabinete, cargo similar ao de ministro da Casa Civil no Brasil. Capitanich é conhecido por sua ótima relação com a hierarquia católica. No mês passado, em meio a uma onda de saques no interior do país associados à motins das forças policiais regionais, Cristina recebeu na residência oficial de Olivos a cúpula da Igreja Católica. A presidente argentina, que desde sua operação no cérebro em 5 de outubro só apareceu em público duas vezes, não procurou nesse momento uma aproximação apenas com o clero comandado por Bergoglio: também se encontrou com a entidade que representa a religião judaica (Daia) e a Federação das Igrejas Evangélicas da Argentina.
Ainda existe!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A escassez na Argentina

Matéria publicada em 2/04/2012 or César Felício | De Buenos Aires A onda de frio nos últimos dias em Buenos Aires, com temperaturas de sete graus já em março, aumentou o descompasso entre o que se vê em algumas vitrines e o que se observa nas calçadas da cidade. Enquanto os pedestres passam agasalhados, os manequins ainda ostentam roupas leves, de verão. "Todas as coleções estão atrasadas", disse uma lojista que não se identificou, na avenida Las Heras, região norte da cidade. De modo sutil, os sinais de desabastecimento na capital argentina vão se mostrando depois da criação de uma série de barreiras comerciais pelo governo com praticamente uma novidade por semana: a desta sexta-feira foi a introdução de um controle fotográfico nos contêineres, para verificar se a carga retida condiz com as declarações de antecipação das importações, mecanismo criado em 1º de fevereiro que barrou cerca de 30% das compras do país. Segundo o diretor de relações institucionais da Câmara de Importadores da Argentina (Cira), Miguel Ponce, das 164 mil declarações apresentadas desde 1º de fevereiro, 51 mil ainda não foram liberadas. A barreira motivou a apresentação de um documento no comitê de bens da Organização Mundial de Comércio (OMC) por parte da União Europeia, dos Estados Unidos e de outros 14 países. As barreiras afetam também a indústria nacional: no caso do vestuário, por exemplo, a confecção é feita com tecido importado, que está retido. Mas o desabastecimento é mais grave nos itens que já estavam com problemas de importação antes da criação das mais recentes barreiras. "Entre 2008 e 2011, aumentou muito a quantidade de produtos colocados no regime de licenças não automáticas. Quando a área de comércio exterior saiu do Ministério da Indústria para uma secretaria própria na órbita do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, havia uma herança de licenças vencidas e não renovadas. O resultado é que temos encomendas barradas desde agosto", disse Ponce. "Não temos mais como vender a linha Fischer-Price, os fabricados pela Mattel e os produtos Chicco. Ainda conseguimos oferecer os brinquedos mais baratos", afirmou o gerente da loja de brinquedos El Mundo del Juguete no centro da cidade. As vitrines da loja são arrumadas para que os clarões na oferta não sejam percebidos. "Nem fazemos mais pedidos de liquidificadores, porque sabemos que não seremos atendidos", comentou um vendedor da rede de varejo Falabella, na mesma região. A falta de liquidificadores começou há anos na Argentina, dentro de uma estratégia protecionista da ministra da Indústria, Débora Giorgi, de fomentar a produção nacional. Diversos produtos foram colocados sob regime de licenças não automáticas. Em seguida, integrantes do governo procuraram deixar claro para os importadores que as mercadorias só seriam liberadas se eles exportassem. O mecanismo, totalmente informal, ficou conhecido como "uno por uno". A mesma situação acontece com outras utilidades domésticas, como os ferros de passar roupa. A indústria nacional cresceu, mas não a ponto de suprir o mercado doméstico, gerando o desabastecimento. A produção de ferros de passar roupa, por exemplo, passou de 450 mil para 1,7 milhão de unidades entre 2007 e 2011. O aumento não compensou, entretanto, a queda das importações, que despencaram de 2,3 milhões de unidades para 400 mil nesse período, de acordo com levantamento publicado no jornal "El Cronista". O resultado final é que a oferta de ferros caiu de 2,7 milhões de unidades há cinco anos para 2,1 milhões de unidades agora. A indústria argentina tem dificuldades estruturais para prescindir das importações. "O governo queria resultados rápidos para a política de substituição de importações e mirou no produto acabado, e não em suas peças. Desse modo, a geladeira é nacional, mas o compressor é brasileiro; ou o liquidificador é argentino, mas o copo é chinês, e assim por diante. E a produção de um eletrodoméstico acabado é só uma operação de montagem. Mais complicado é produzir os componentes", disse o economista Mauricio Claveri, especialista em comércio exterior da consultoria Abeceb. A dificuldade de importar também afeta o comércio de alimentos. Na área de suínos, segundo a avaliação da Câmara Argentina da Indústria de Chacinados, a produção caiu cerca de 20% quando as importações de carne suína provenientes do Brasil foram reduzidas de US$ 9,5 milhões em janeiro para apenas US$ 1,5 milhão em fevereiro. Segundo dirigentes da entidade, seria necessário um aumento do rebanho suíno de 30% para que a Argentina se tornasse completamente autossuficiente em presuntos, salsichas e outros embutidos. Mas isso traria um complicador, já que a demanda existe para apenas determinadas partes do porco, próprias para o processamento, e não para outras. Com a barreira criada, a indústria priorizou a fabricação das linhas com maior valor agregado. Ficou difícil de encontrar as mais baratas. Nas gôndolas de supermercados, contudo, a falta de determinados produtos ainda afeta pouco o vendedor ou o consumidor. "Aqui vendemos 6.000 itens. Se o consumidor não encontra determinada marca de sabonete ou iogurte ou algum presunto que está acostumado a encontrar, leva outro. O que não dá para pensar é oferecer importado. Só o que tem no estoque", disse o secretário-geral da Casrech (câmara argentina de supermercados de proprietários de origem chinesa), Zheng Ji Cong. Valor Economico, 02/04/2012

A conquista de um passado

Coluna publicada em 22/03/2012 . Por César Felício Os visitantes brasileiros dificilmente prestam atenção nas calçadas de Buenos Aires, nos escassos dias que dispõem, em geral, para percorrer as ruas da capital argentina. Talvez poucos tenham reparado em pequenas placas fixadas no chão, em ladrilhos, com o nome de uma pessoa, a data de seu nascimento e a de seu desaparecimento, naquele local. Placas como essas estão em toda cidade. Em frente ao Colégio Figueroa Alcorta, um estabelecimento público de ensino médio na avenida Santa Fé, no bairro de Palermo, se acumulam várias plaquinhas. São 14 nomes, que sumiram em um ano e meio, entre 1976 e 1977. É uma média de quase um por mês. Pela idade das vítimas, todos estudantes. Cenas assim ajudam a tecer um fenômeno que transcende o julgamento de criminosos que violaram os direitos humanos usando o aparelho do Estado: de certo modo, trata-se da apropriação de uma narrativa, de um modo de contar as coisas, o que só se torna possível depois da realização de investigações que não se limitam ao Judiciário. Punir não é o centro do debate A releitura do passado está longe de ser uma questão menor. Foi graças a mobilizações proporcionadas por comissões de investigações que hoje existe uma condenação quase universal na sociedade argentina ao último regime militar. Maior responsável pelo morticínio, o ex-presidente Jorge Rafael Videla concedeu uma recente entrevista a um jornal espanhol, do cárcere perpétuo em que cumpre pena. Em uma sociedade polarizada como a da Argentina, seus ataques ao governo foram recebidos com repulsa por todos os setores políticos. Em pelo menos um ponto, contudo, Videla está certo: nem sempre foi assim. Nas duas décadas de democracia, houve repressores que chegaram a governos locais, como o general Antonio Bussi em Tucumán, e líderes dos "carapintadas" - militares que se amotinaram contra os processos judiciais, como Aldo Rico - que se tornaram políticos profissionais. Houve até um dos comandantes da repressão, o almirante Emilio Massera, que tentou candidatar-se à Presidência, em meio à confusa abertura argentina em 1983. A chave para a virada foi o controle do relato dos fatos. Os militares do antigo regime foram marchando para o degredo da história de maneira paulatina. Se não fosse a exposição pública de seus desmandos, as punições que sofreram e sofrem pouco valeriam no contexto social: Videla e sua turma poderiam ser vistos como mártires do revanchismo. Do mesmo modo, as vítimas, muitas delas ligadas a movimentos de expressão terrorista, como o dos Montoneros, ganharam outra expressão histórica. Alguns filhos de desaparecidos estão hoje no Congresso argentino, tendo ingressado na política exatamente por esta condição. O exemplo argentino foi um caso emblemático que marcou a transição nos demais países da América Latina de um regime militar para um civil, exatamente por ser extremo. Apavorou segmentos da elite latino-americana da mesma forma que os escravos haitianos no fim do século 18, quando trucidaram seus senhores. De maneira diluída, entretanto, uma revisão está em curso em praticamente todos os países do continente. Exceção à Venezuela, Colômbia e México, sendo que em nenhum destes três existiu ditadura plena nos últimos cinquenta anos, há ou houve "comissões da verdade" em todos os demais países. Da Guatemala ao Uruguai, passando por Chile e Haiti. É incorreto dizer que não existiu coisa equivalente no Brasil antes de Dilma Rousseff. Seria desmerecer o trabalho desenvolvido em 1985 pela Arquidiocese de São Paulo e o esforço de reparação feito em 1995 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Dilma não se tornou presidente pelo fato de ter integrado um movimento armado, sido torturada e passado anos em um presídio, mas não se pode dizer que chegou à Presidência apesar disso. Seu passado foi exibido em sua campanha política e só se tornou um foco de campanha negativa nos subterrâneos da internet. O contrário sim, seria um impeditivo: alguém que tenha sido colaborador do DOI-Codi, por exemplo, não tem muitas perspectivas de êxito eleitoral. De certo modo, a história brasileira já é contada pela ótica de quem foi derrotado no embate militar dos anos 70. Ainda que a Lei de Anistia de 1979 não seja tocada - e certamente não será, depois do aval que recebeu do Supremo Tribunal Federal, no ano passado - a simples colocação do tema em pauta vai, de forma gradual, construindo uma nova versão sobre o processo do fim do regime militar brasileiro. Esmaece a visão positiva sobre o esforço de moderados do governo e da oposição de então na construção de um acordo em que os governantes abriram mão do futuro para que os oposicionistas colocassem uma pedra no passado. Tende a se sedimentar uma outra escrita dos fatos ocorridos nos anos 1970 e 1980, em que a conciliação entre extremos perde o protagonismo e em que se projeta a pergunta: houve acordo? Se o critério criminal, e não político, fosse o norteador da questão, talvez existisse espaço para muitas comissões de investigação no país. As "comissões da verdade" podem existir em qualquer lugar onde houve graves violações de direitos humanos patrocinadas, com a conivência dos agentes do Estado ou simplesmente não esclarecidas pelo poder público. Na lista de ONGs como a Anistia Internacional figuram até países como os Estados Unidos, onde uma comissão da verdade existiu para investigar crimes de base racista provocados pela Ku Klux Klan. No Peru, sem grande sucesso, houve comissões para esclarecer um massacre em presídios em 1986 e uma chacina de jornalistas em 1983. Um breve exame do saldo de condenações e esclarecimento dos assassinatos no campo brasileiro nas últimas décadas por si só traria uma resposta. César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras E-mail cesar.felicio@valor.com.br

Sean Penn contra Meryl Streep

Coluna publicada em 23/02/2012 . Por César Felício Na segunda-feira, o secretário de Defesa do Reino Unido, Philip Hammond, foi taxativo ao falar aos parlamentares na Câmara dos Comuns: a Argentina não representa uma ameaça séria do ponto de vista militar às ilhas Malvinas, ou Falklands. Como neste jogo de xadrez o Reino Unido joga com as pedras pretas, fica claro que a disputa pelas ilhas no Atlântico Sul podem ter muitos desdobramentos, e o bélico não é um deles. A certeza de que não haverá guerra tem tornado a confrontação nas ilhas Malvinas uma alternativa tentadora tanto para o governo de David Cameron como para o de Cristina Fernández de Kirchner. Além do embate diplomático, factoides não faltaram de parte a parte: do envio do príncipe Harry para um treinamento militar à troca de um navio de guerra estacionado na região, do lado inglês, à transformação do ator Sean Penn em um protagonista na luta contra o colonialismo, do lado argentino, com direito a discorrer sobre o tema em uma declaração à imprensa ao lado do chanceler Hector Timerman. Reino Unido e Argentina contam com dois governantes afeitos à retórica radical em meio a um contexto de dificuldades crescentes, em que a carta do nacionalismo é uma excelente forma de atenuar a resistência da opinião pública ao aprofundamento do modelo de Estado que cada um deles propõe. É uma cartada raramente usada na história do Brasil, um país sem disputas territoriais há mais de cem anos. O uso mais recente foi o do "Ame-o ou deixe-o", o slogan do qual o governo Médici lançou mão para insinuar que os exilados e banidos tinham menor sentimento patriótico. Na guerra retórica, Cristina e Cameron são vencedores Eleito com dificuldade em maio de 2010, o que obrigou a formar um governo de coalizão com o terceiro colocado, Cameron enfrentou um verdadeiro motim popular em Londres em agosto do ano passado. Tem respondido dobrando sua aposta conservadora: classificou a revolta social como "criminalidade pura e simples" e busca acelerar a implementação de sua agenda. No início do ano, comparou o sistema de saúde pública do país, talvez o mais abrangente e eficaz do mundo, como uma ave de rapina no pescoço dos empreendedores. Cameron está pagando o preço de suas escolhas nas ruas. De acordo com a última pesquisa divulgada pelo "The Guardian", a aceitação de seu partido recuou de 40% para 36%, enquanto a dos trabalhistas subiu de 35% para 37%. É neste instante que recebe a ajuda de Cristina Kirchner. A ofensiva dos simbolismos argentinos para marcar os trinta anos da derrota militar latino-americana abriu uma oportunidade para Cameron incorporar um pouco da verve de Margaret Thatcher. Não com o brilho da atriz Meryl Streep, mas com a efeitos políticos análogos. "Primeiros-ministros que são fracos em casa sonham em serem fortes fora. O fantasma de Thatcher paira sobre os conflitos. Nas Falklands, Maggie mostrou que ganhar glória militar rápida era infinitamente mais fácil do que resolver problemas domésticos", observou na semana passada Tony Parsons, colunista do tabloide inglês "Daily Mirror". Reeleita em outubro com 54% dos votos, Cristina tem oferecido a seus eleitores um cardápio que passa por retirada de subsídios governamentais ao consumo, inflação em alta e desaceleração do crescimento econômico. A presidente necessita promover o ajuste para garantir que o país tenha caixa suficiente para impedir uma crise cambial, doa a quem doer. Implanta uma ortodoxia que passa por uma economia meticulosamente manietada por controles oficiais. Não há pesquisas que mostram como anda a aceitação popular da presidente argentina, mas a reação acalorada dos ingleses à inócua decisão de dezembro do Mercosul de impedir que navios com bandeira da colônia atracassem em seus portos possibilitou a Cristina pela primeira vez em muito tempo falar em nome da nação e não da principal facção política do país. No dia 8, ao denunciar formalmente na ONU o Reino Unido por promover uma escalada militar no Atlântico Sul, recebeu o apoio, entre outros, do líder do partido do principal candidato de oposição em 2015, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. É duvidoso que a questão malvinense tenha para Cristina o poder galvanizador que teria dado uma sobrevida à ditadura em 1982, caso a Argentina tivesse ganho a guerra. Àquela época, a oposição ao general Galtieri embarcou na aventura. Hoje, os intelectuais afastados da Casa Rosada questionam não apenas a oportunidade, mas o mérito da polêmica. "Não temos ainda uma crítica pública do apoio social à guerra, que mobilizou a quase todos os setores da sociedade argentina. Uma análise minimamente objetiva demonstra a brecha que existe entre a enormidade dos atos e a importância real da questão", assinalaram 17 intelectuais oposicionistas, como Beatriz Sarlo, Vicente Palermo, Juan José Sebrelli e Marcos Novaro, no documento "Malvinas: uma visão alternativa". No texto, os intelectuais afirmam que o princípio de autodeterminação deve valer para os habitantes da ilha, britânicos em sua essência. "É necessário por fim hoje à contraditória exigência do governo argentino de abrir uma negociação bilateral que inclua o tema da soberania, ao mesmo tempo que se anuncia que a soberania argentina é inegociável", afirma o texto, que define o slogan "Las Malvinas son argentinas" como uma "afirmação obsessiva". "Como membros de uma sociedade plural e diversa que tem na imigração sua fonte principal de integração populacional não consideramos ter direitos preferenciais que nos permitam sobrepor aos que vivem e trabalham nas Malvinas há várias gerações, muito antes que chegassem ao país alguns de nossos ancestrais". A reclamação kirchnerista pelas Malvinas faz uso de um nacionalismo conveniente à medida em que não gera consequências diretas. Em relação a outras causas em que o nacionalismo poderia afetar a economia nacional, o governo argentino não hesita em favorecer o investimento externo, como ocorre atualmente na mineração. Há questionamentos em todas as províncias mineradoras à extração de minérios a céu aberto, feitas por empresas invariavelmente estrangeiras. A tendência dos governadores, todos alinhados à Casa Rosada, é de garantir o espaço para os empreendimentos seguirem adiante. César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras © 2000 – 2013. 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quinta-feira, 7 de março de 2013

Morte aos selvagens unitários

Esta coluna foi publicada em 29 de dezembro de 2011 . Por César Felício A reescrita da história é uma tarefa permanente do poder, como a história do Brasil ensina de cátedra. Houve um tempo em que o marco fundador do país era comemorado em 12 de outubro, o aniversário do imperador dom Pedro I. O século XIX terminou com a reverência à memória de Tiradentes, executado pela avó do primeiro monarca. Mais recentemente um inimigo dos republicanos positivistas, Antonio Conselheiro, ganhou ares libertários e uma onda ufanista e tardia de desenvolvimentismo faz com que hoje a memória de Juscelino Kubitschek seja disputada por governistas e oposicionistas, enquanto a lembrança de Getúlio Vargas se esmaece. Se assim é no Brasil, um país em que a cada 15 anos esquece-se tudo o que se passou nos últimos 15 anos, como brincou uma vez o jornalista Ivan Lessa, a reescrita chega ao paroxismo na Argentina. A presidente Cristina Kirchner vai na linha oposta à de Luiz Inácio Lula da Silva e seu famoso bordão "nunca antes na história deste país". No universo cristinista, o debate de hoje é a mesma história de sempre. Guarda semelhança com certos romances do realismo fantástico, em que o passado, na verdade, jamais passa, e as situações se repetem em um moto perpétuo. Pode-se assim reivindicar o legado de caudilhos contemporâneos da formação do país e atribuir aos adversários uma folha corrida herdada das caravelas. A primeira e mais óbvia alegoria kirchnerista envolve o casal Juan e Eva Perón, protagonistas aliás de um filme exibido este ano na Argentina e muito elogiado pela presidente. É uma epifania invertida, em que desta vez é a mulher que sobrevive ao homem e organiza o culto em sua memória. Na história de Juan e Eva, coube ao general viúvo patrocinar a idolatria à falecida primeira dama. Intolerância cresce na Argentina A segunda investida, de mais difícil compreensão, mas de alcance muito maior, é o resgate da memória de Juan Manuel de Rosas. O caudilho foi deposto do governo de Buenos Aires em 1852, em um tempo em que a Argentina ainda não tinha um poder central. Rosas foi obrigado a um exílio até a morte na Inglaterra por outro caudilho, Urquiza, apoiado por uma força expedicionária brasileira. Sete anos antes, enfrentou tropas francesas e inglesas na foz do rio da Prata, para manter a navegação fluvial fechada a estrangeiros. O dia da batalha tornou-se feriado este ano no país, por obra da presidente. A cerimônia, que aconteceu no dia 20 de novembro, tão cedo não será esquecida. Cristina criou o "Instituto Histórico Revisionista Manuel Dorrego", cujo nome é auto-explicativo e colocou no peito a insígnia federalista, o partido de Rosas. Reviver Rosas é, de certo modo, evocar um estilo de se fazer política. Enquanto governou Buenos Aires, fechou o rio da Prata para o comércio internacional, o que significava trancar o país inteiro. Estrangulou a classe mercantil, mas estimulou uma indústria rudimentar para substituir as importações. Mas se notabilizou por ter usado com habilidade a propaganda política como arma no início do século XIX. A primeira engrenagem desta ferramenta foi a demonização da oposição. "Morte aos asquerosos, imundos e selvagens unitários" era um lema que estava nos jornais, nos teatros, nas escolas e até no púlpito das igrejas. O discurso satanizador ligava os opositores a violências como enterrar vivos a adversários, e à entrega das riquezas nacionais a estrangeiros. O segundo passo foi criar uma identidade visual para cada grupo. Os federais se vestiam de forma tradicional, usavam bigode e adereços em vermelho. Os imundos unitários eram aqueles que se vestiam de forma mais moderna e apresentavam-se de rosto liso. O passo seguinte foi estimular a concretização do lema do regime, ou seja, a promoção da morte "da raça de víboras" por um braço armado do rosismo, a "mazorca". Com o fim de Rosas, o poder "unitário" iria abrir caminho para uma oligarquia rural e mercantil ditar os rumos do país por oitenta anos e retribuir o carinho na mesma moeda a seus inimigos. Autor de "Civilização e Barbárie", um libelo contra Rosas, o presidente Domingos Sarmiento aconselhou em um escrito a não se economizar o sangue dos "gauchos", ou homens do campo, porque pelo menos para regar a terra ele haveria de servir. As metáforas zoomórficas permaneciam quando Perón chegou ao poder e a multidão que o apoiava foi classificada como "aluvião zoológico" por um deputado da oposição. O casal Kirchner parecia distante deste modelo ao chegar ao poder em 2003 em uma aliança entre diversos setores sociais e políticos. À medida que se fortaleceu, foi abandonando a composição política, até fechar-se em uma equação familiar. Cristina tomou posse em seu segundo mandato recebendo a faixa presidencial da filha e jurando em nome do marido. Governa utilizando 100% da capacidade instalada de exercer a autoridade e o filho Maximo Kirchner, é um dos homens mais influentes do país. O câncer na tireoide atinge Cristina no momento em que a questão que se colocava para 2012 para a Argentina é se ela iria ou não evocar a tradição de Rosas para além do simbólico. Quem lê os jornais argentinos pode acreditar que o país pode ganhar os contornos da Rússia de Vladimir Putin ou da Venezuela de Hugo Chávez a médio prazo. Até agora, convém duvidar, e a própria transparência com que a doença foi tratada em um primeiro momento a afasta da comparação com o venezuelano. Não há quem aponte um gesto concreto da presidente fora da institucionalidade. Cristina não é suspeita de mandar envenenar inimigos com cápsulas radioativas, não colocou adversários no exílio e nem convocou plebiscitos para se perpetuar no poder. Com seu provincianismo exarcebado e seu estilo imperial de governar, apenas cultiva por ora a intolerância como traço seminal da política argentina

Na periferia de Buenos Aires, feira atrai multidão

Materia publicada no Valor, em 20 de janeiro de 2012 < . Por Cesar Felício | Lomas de Zamora (Argentina) Em La Salada, seis mil vendedores atendem mais de 20 mil consumidores por dia: o metro quadrado custa US$ 10 mil. Um dos mais rentáveis negócios imobiliários da Argentina está às margens de uma vala de esgoto a céu aberto, o rio Riachuelo, que separa Buenos Aires do município suburbano de Lomas de Zamora. E é do lado de Lomas, em meio a milhares de casas térreas sem reboco e ruas de terra, que se comercializa o metro quadrado a US$ 10 mil. Em uma área que até os anos 90 era ocupada por balneários populares, funciona duas vezes por semana a feira de roupas e calçados de La Salada. De acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, está entre os cinco maiores centros de venda informal, pirataria e contrabando da América Latina: rivaliza com Ciudad del Este, no Paraguai, San Andrecito, na Colômbia, Tepito no México e a feira da Bahía, em Guayaquil, no Equador. O relatório, cuja versão mais recente foi divulgada há um mês, afirma que "seis mil vendedores comercializam para 20 mil consumidores por jornada ". Ao avaliar a dimensão da feira, os burocratas norte-americanos pecaram por conservadorismo. Seis mil vendedores são apenas os que ocupam o espaço coberto nas áreas de Urkupiña, Ocean e Punta Mogotes. E vinte mil são apenas os consumidores que chegam nos ônibus fretados às terças-feiras e aos domingos, os dois dias de funcionamento da feira. "Apenas um em cada cinco chegam à feira nestes ônibus", diz Jorge Castillo, que administra o espaço de Punta Mogotes, a maior das feiras, e que registrou comercialmente a marca de La Salada. A conta que ele faz é surpreendente. " Cada um dos postos consegue 45 mil pesos, em média, por semana, o que dá 180 mil pesos por mês. Considerando só os que estão nas áreas regulares, são 1 bilhão de pesos mensais, ou 12 bilhões por ano. Pelo câmbio de hoje, estamos falando em US$ 2,7 bilhões". "Castillo não exagera com estas cifras, sobretudo quando se pensa que há pelo menos outros dez mil vendedores nas áreas descobertas", diz um adversário declarado do administrador de La Salada, o ativista social Gustavo Vera, que dirige a ONG "La Alameda", dedicada a combater o trabalho em condições degradantes exercido por imigrantes bolivianos. Desde 2006, Vera denunciou 32 confecções que vendem em La Salada e empregavam em condições comprometedoras 526 trabalhadores. Um par de tênis para crianças custa 50 pesos, cerca de R$ 20. Uma calça jeans para homem é 70 pesos e um vestido para mulheres gordas é 60 pesos. Cobra-se muito pouco pelas roupas em La Salada porque são as próprias confecções que fazem a venda. Em geral, a produção de camisas e sapatos é feita em fundo de quintal, não raramente por imigrantes bolivianos. O nível de informalidade laboral é próximo a 100%. Os ocupantes dos boxes de venda são registrados como "monotributistas", o equivalente ao Simples na Argentina, e não pagam mais que duzentos pesos por mês. "Cada feirante é produtor e tem 30% de lucro sobre o custo da matéria prima. O custo social não existe, porque não há empregados", disse Castillo. A maior margem está nas marcas pirateadas. Camisetas Adidas, Nike ou GAP são vendidas por 30 pesos, doze vezes menos que o registrado no shopping center da avenida Figueroa Alcorta, no Barrio Parque, um dos mais sofisticados de Buenos Aires. "La Salada é um fenômeno produzido pela rebelião das pequenas confecções contra o comércio tradicional e contra as marcas. Os maiores responsáveis pelas piratarias são os próprios fornecedores das grifes", diz Vera, lembrando que há 80 varejistas de marca na Argentina sendo processadas por comercializarem roupas produzidas em condições degradantes. Segundo um levantamento da Câmara Argentina de Comércio (CAC), metade das mercadorias vendidas por camelôs nas ruas de Buenos Aires é falsificada ou tem origem no contrabando. "Não temos como fazer a mesma avaliação em La Salada, pelas dificuldades de ingresso dos pesquisadores no local, mas nossa estimativa é que o percentual seja o mesmo, já que os camelôs são quase todos intermediários de mercadorias compradas lá", observou o economista chefe da CAC, Gabriel Molteni. A segmentação do setor de confecção favorece a atividade ilegal. A produção de uma camisa envolve desde o fornecedor da fibra, passando pelo produtor do pano, indo a seguir pelas unidades que fazem o corte, a estamparia e a costura. "Na produção da matéria prima há um grande controle e casos de sonegação, trabalho escravo e pirataria são isolados. Mas as atividades de confecção são pulverizadas. Há 252 mil costureiros na Argentina. Destes, 78% dão origem a produtos com algum grau de ilegalidade. E desta mão de obra, 150 mil trabalhadores são provenientes da Bolívia", disse Vera. A ponta desse varejo é alvo da repressão estatal no momento. A Prefeitura de Buenos Aires começou no mês passado a retirar camelôs das ruas do centro da cidade, eliminando uma das engrenagens da venda. As ações de maior impacto aconteceram na rua Florida, muito frequentada por turistas brasileiros. Como La Salada fica muito distante do centro da capital e em um subúrbio marcado pela criminalidade, a intermediação das mercadorias torna-se uma decorrência da demanda. "La Salada originou pelo menos 42 'saladitas', dentro de Buenos Aires, que são concentrações de vendedores ambulantes que vendem as mesmas mercadorias", disse Molteni. Na última semana, a gendarmeria, um braço do governo federal, removeu barracas de cerca de 10 mil vendedores de La Salada que compunham uma quarta feira, a de La Ribera. Estes ambulantes ocupavam as margens do Riachuelo na área externa a das três feiras regulares. "Eram um universo ilegal dentro do universo ilegal, que vendiam ainda mais barato porque sequer pagavam o aluguel de espaço e o monotributo", afirmou Molteni. A operação teve amparo judicial e foi motivada pelos trabalhos para o saneamento do rio, que exige a desocupação das áreas de risco. Os feirantes removidos tentaram ocupar áreas mais próximas a das feiras legais, e houve enfrentamento armado. O tiroteio de quinze minutos na manhã de sábado teria durado quinze minutos e tido pelo menos cinco baleados. © 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico. Leia mais em: http://www.valor.com.br/empresas/2492460/na-periferia-de-buenos-aires-feira-atrai-multidao#ixzz2MtHs2QXT

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

La Matanza, pista para a reeleição de Cristina

No ano passado, a presidente argentina Cristina Kirchner esteve na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e aceitou responder perguntas do aluno. Apertada pelas questões, todas feitas por estudantes argentinos, Cristina saiu-se com essa "Garotos, estamos em Harvard...não estamos em La Matanza". O tom depreciativo é uma injustiça de Cristina: foi graças a La Matanza e outras cidades que ela foi reeleita de forma espetacular em 2011. Abaixo, a matéria que o Valor deu em outubro daquele mês. Cesar Felício, no Valor Econômico O segundo maior município da Argentina está fora de qualquer roteiro turístico e não é considerado propriamente uma cidade nem pelos próprios argentinos. Dividido em 15 núcleos urbanos sem um centro que se destaque, o município de La Matanza, que faz divisa à oeste com Buenos Aires, atingiu no censo nacional do ano passado 1,8 milhão de habitantes e possui a marca de 142 “villas”, isto é, favelas. E é uma das chaves para se entender porque a presidente Cristina Kirchner é favorita para a reeleição na disputa presidencial que vai acontecer em 24 de outubro. Lá nasceu, em dezembro de 2009, a variante argentina do programa Bolsa Família, a “Asignación Universal por Hijo” (AUH, aporte universal por filho), que garante um pagamento equivalente a cerca de US$ 67 por filho em famílias carentes. São 300 mil benefícios estimados para La Matanza, que proporcionou à presidente 61% dos 605,1 mil votos da localidade nas prévias partidárias de agosto, nove pontos percentuais acima da média nacional. No país, o governo federal deve fechar o ano pagando 3,6 milhões de benefícios para 1,9 milhão de famílias. A conta chega a 9 bilhões de pesos, ou cerca de US$ 2,1 bilhões. A AUH é o trunfo mais recente, mas está longe de ser a única arma no arsenal de benefícios sociais do governo, comandada pela ministra de Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner, cunhada da presidente e irmã do falecido ex-presidente Néstor Kirchner. Representa cerca de 40% dos 26 bilhões de pesos previstos para a área no Orçamento de 2012. Em março do ano passado, 21% da população declarou receber benefícios do governo, segundo uma pesquisa coordenada por German Lodola, professor da Universidade Torcuato di Tella. Fora a AUH, os benefícios sociais mais relevantes em La Matanza são os repasses para cooperativas de trabalho, que, em época eleitoral, se transformam em um esteio para os candidatos kirchneristas. Em La Matanza, 156 cooperativas estavam inscritas no final do ano passado no programa “Argentina Trabaja”, que paga benefícios de 1.300 pesos para cada integrante. Em todo o país, o programa paga subsídio para 190 mil pessoas. “Aqui as eleições se decidem pelos planos sociais”, lamentou Silvia Flores, diretora de La Juanita, no distrito de Laferrere, uma das raras cooperativas de trabalho que não estão alinhadas ao governo. O pai de Silvia, Hector Flores, um piqueteiro nos anos 90, é candidato a Senador pela Coalizão Cívica, partido que lançou à Presidência a deputada Elisa Carrió e que teve 3% dos votos nas prévias. “A geração de emprego é enorme nestes últimos oito anos, mas não chegamos aos padrões que tínhamos antes da crise. A força do governo aqui se explica pelo crescimento econômico e pelo pagamento de benefícios”, confirmou o secretário municipal de Produção, Francisco Lamanna, alinhado ao kirchnerismo. Não há dados precisos sobre emprego e crescimento econômico na cidade, mas Lamanna afirma que existem atualmente 7.500 estabelecimentos industriais em La Matanza. Em 2003, data do último levantamento oficial, havia 2.759. E, há 20 anos, de acordo com Lamanna, eram 12 mil. “Muitas das novas fábricas são de fundo de quintal, do ramo calçadista ou têxtil. O processo produtivo mudou”, afirmou o secretário. La Matanza já foi uma importante referência da indústria argentina. Entre as décadas de 40 e 60, marcadas pela ascensão e primeira queda do caudilho Juan Domingo Perón, a cidade recebeu a instalação de montadoras de automóveis, como Mercedes Benz e Chrysler, no distrito de Virrey del Pino, e de siderúrgicas como a Acindar, no distrito de La Tablada. Em 1949, Perón inaugurou o distrito de Ciudad Evita, planejado para ser um bairro residencial modelo para a classe operária. Nos anos 60, a área dividiu a vocação industrial com o polo automotivo instalado em Córdoba. A partir de então, teve início a desindustrialização. O crescimento demográfico, contudo, se acelerou nas últimas décadas. Neste século, a população cresceu 47% entre 2000 e 2010. O aluvião de quase 600 mil novos habitantes fez crescer a pobreza e a informalidade. Poucos moradores desse grupo se instalaram em áreas regularizadas. Segundo dados da província de Buenos Aires, houve um aumento de apenas 15,6% na área legalmente ocupada por novas edificações em La Matanza entre 2004 e 2008. Nesse período, o crescimento das construções em nível regional foi de 65%. Em suas áreas mais pobres, La Matanza mudou a sua vocação de região industrial para cidade dormitório de trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, ambulantes e outros integrantes do mercado informal. Um levantamento de 2005 apontava que 60% da mão de obra não era registrada. Nos distritos mais próximos de Buenos Aires desenvolveu-se o setor de serviços. Desativada nos anos 80, a antiga fábrica da Chrysler, no distrito de San Justo, é hoje sede de uma universidade com 40 mil alunos. “As fábricas se tornaram cascas vazias. Muitas delas foram ocupadas por trabalhadores, que se organizaram em cooperativas. Muitas delas passaram a receber subsídios do governo, e outras se converteram em investimentos comerciais ou imobiliários”, disse o presidente da Câmara de Indústria e Comércio de La Matanza, Luis Mogno, dono de uma metalúrgica que fornece componentes para refrigeradores. As diferenças entre os 15 distritos de La Matanza alimentam movimentos pela separação. “La Matanza é tão grande que se torna um objeto do desejo para qualquer político, mas aqui é um somatório de diversas cidades dormitório de Buenos Aires e alguma indústria. Com a divisão, a estrutura de clientela do poder se romperia, e haveria uma disputa pelos novos municípios. É a unidade que faz com que o poder não se rompa”, diz o deputado federal Hector Flores, que concorre com chances ínfimas ao Senado. “La Matanza é acima de tudo uma unidade política, e não econômica. Mas a estrutura enxuta é um diferencial que temos. São 6,5 mil funcionários públicos, 25 vereadores e um prefeito para quase 2 milhões de pessoas. A sociedade não estaria disposta a multiplicar essa estrutura por quatro”, afirmou o secretário municipal Lamanna.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Estão no lugar de sempre

Salvo raras exceções, empresário procura estar perto da perspectiva de poder. Na Argentina, retórica peronista à parte, não é diferente. A matéria abaixo saiu no dia 1° de setembro, no Valor. O jantar mencionado no texto reuniu o dobro do público projetado.



A presidente da Argentina Cristina Kirchner e o meio patronal aceleraram a aproximação a poucas semanas do início oficial da campanha presidencial deste ano. A eleição é em outubro. A presidente será homenageada em jantar para mil pessoas promovido amanhã pela União Industrial Argentina (UIA), no Dia da Indústria. O evento vai ocorrer em um palco governista: as centenas de empresários irão se deslocar até a periferia de Buenos Aires, onde o governo organiza desde julho a Tecnópolis, uma mostra de realizações científicas e tecnológicas do país.

A celebração acontecerá seis dias depois de Cristina elevar o salário mínimo de 1,8 mil para 2,3 mil pesos argentinos. O aumento, de 25%, mantém o país no teto das remunerações desse tipo na América Latina, com um valor próximo a US$ 600, mas foi uma derrota para a poderosa CGT. A central sindical, junto com a menor e mais radical CTA, reivindicava reajuste de 40%. O reajuste não garante ganhos reais aos trabalhadores, já que a inflação anual no país está entre 20% e 25%. E ficou próximo dos 18% sugeridos pelas entidades patronais.

Logo após as prévias partidárias de 14 de agosto, em que Cristina surpreendeu ao conseguir 50% dos votos, sinalizando vitória em primeiro turno em outubro, a presidente fez declarações conciliadoras, dizendo que em um cenário de crise internacional não iria tensionar as relações sociais e que iria "governar para todos". O presidente da UIA, Ignacio Mendiguren, festejou a mudança de tom e afirmou que, privadamente, já havia tempo que o ânimo da presidente estava longe da confrontação.

"A prévia foi fundamental para mover os empresários para uma aproximação, porque sinalizou com mais quatro anos de convivência com este governo. Mas partiram da Casa Rosada dois gestos: a atenuação do rigor na política cambial, que permitiu o peso desvalorizar cerca de 5% nas últimas semanas e reduziu perda de competitividade do setor exportador, e o aumento moderado do salário mínimo, que beneficia as empresas pequenas e médias e serve como referencial de reajustes das categorias organizadas no próximo ano", comentou o economista Ricardo Delgado, sócio da empresa de consultoria Analytica.

A moderação de Cristina pode representar alguma turbulência na relação com setores empresariais do Brasil. Segundo disse Mendiguren ontem, "o Brasil está compensando defasagens cambiais com medidas que, na prática, podem ampliar a vantagem brasileira na relação bilateral". Essa percepção sugere pressão sobre o governo por mais protecionismo.

A lista de contenciosos entre o grupo kirchnerista e o empresariado é extensa e foi aberta no primeiro ano de governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, quando ocorreram reestatizações. O último atrito de grande porte ocorreu em abril, quando o governo decidiu nomear diretores para as empresas que têm parte de seu controle acionário em mãos de fundos de pensão estatizados.

O ímpeto oposicionista do meio industrial começou a arrefecer diante de políticas governamentais para manter a economia aquecida, no momento em que eclodiu a crise econômica global. Entre estas medidas, estão iniciativas de fomento à produção, como o uso dos recursos do fundo Bicentenário, fonte pública de financiamentos que atende desde pequenos produtores até multinacionais como Fiat, Pirelli e Peugeot Citroën.

A aproximação entre o governo e o meio industrial não é uniforme. "Cristina se aproxima da UIA, onde o peso de estabelecimentos pequenos e médios e de base regional é expressivo. Com a Associação Empresária Argentina (AEA), onde estão presentes grandes grupos de diversos setores, o diálogo continua difícil. Mas mesmo lá já foram lançadas pontes", observou o diretor de uma multinacional.

A AEA tem como um de seus vice-presidentes Hector Magnetto, do grupo de mídia Clarín, a quem o governo argentino tenta debilitar de diversas maneiras. Mas vários de seus integrantes foram chamados a compor o grupo empresarial binacional com o Brasil, que servirá como uma câmara de consultas dos dois governos e que foi criado no último encontro presidencial entre Cristina e a presidente brasileira Dilma Rousseff.

Mesmo no setor rural, mais radical e principal fator da derrota do governo na eleição legislativa de 2009, Cristina procurou avançar. Neste segmento, a divisão do meio patronal é percebida com maior clareza. Embora o presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcatti, permaneça um duro crítico do governo, Eduardo Buzzi, dirigente da Federação Agrária Argentina (FAA), que representa pequenos e médios proprietários rurais, passou a negociar com Cristina. Em nota, Buzzi afirmou na ocasião que "nos últimos tempos, parece que existem alguns gestos isolados do Executivo tendentes a melhorar algumas situações específicas de urgência de alguns produtores agropecuários".

Logo após as prévia, Cristina prometeu trabalhar para acelerar no Congresso a tramitação do projeto que limita a venda de terras na Argentina a estrangeiros, uma bandeira da FAA. O trabalho da presidente de dividir as lideranças no campo é facilitado pelas condições excepcionais de mercado da soja, principal commodity argentina. Segundo dados divulgados no domingo, o valor das exportações primárias do país subiu 37% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período no ano passado. "As cidades do interior estão nadando em ouro, e isso tende a suavizar as posições", disse o cientista político Diego Raus, da Universidade de Buenos Aires.

Ping com Vicente Palermo

Publicado no Valor , dia 1/09/2011


O triunfo de Cristina
Por César Felício | De Buenos Aires


Índices crescentes de consumo popular, políticas de transferência de renda em ascensão, um histórico de atritos com grandes conglomerados de mídia e um enfrentamento com uma oposição que tem dificuldades de se renovar e propor alternativas. O cenário montado na Argentina às vésperas da eleição presidencial que deve dar um novo mandato à presidente Cristina Fernandez de Kirchner se assemelha ao que marcou o Brasil nas sucessões presidenciais de 2006 e 2010, mas o cientista político Vicente Palermo propõe jogar luz sobre as diferenças entre a hegemonia do kirchnerismo e o fenômeno do lulismo no Brasil. E a principal delas é o risco concreto de uma mudança constitucional que permita ao grupo atual continuar exercendo o poder.

Frequentador da Cantina do Lucas, tradicional reduto boêmio do centro de Belo Horizonte, e proprietário de um apartamento no Corte do Cantagalo, entre a Lagoa e Copacabana, no Rio, Vicente Palermo, de 60 anos, é pesquisador independente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e especialista em história latino-americana comparada contemporânea.

Cristina teve 50,3% dos votos na eleição primária realizada no dia 21. É mais que o dobro da soma de seus dois principais adversários, o dissidente peronista Eduardo Duhalde e o deputado Ricardo Alfonsín, da tradicional União Cívica Radical, e é um prenúncio do que acontecerá na eleição presidencial, em outubro. Em 2009, na sequência de uma derrota parlamentar, Cristina lançou o programa Asignación Universal por Hijo (AUH), que paga 2 milhões de benefícios e atinge cerca de 7 milhões de pessoas. Por um ano, representa um gasto de 9,6 bilhões de pesos argentinos, ou algo como US$ 2,4 bilhões. Proporcionalmente, não está longe do programa Bolsa Família, que envolve gastos de R$ 14,4 bilhões para pagar cerca de 12 milhões de benefícios.

Em entrevista ao Valor, Palermo alerta sobre a possibilidade de reforma constitucional na Argentina. O sistema de modificação no país é mais rígido do que o brasileiro. Para mudar a Constituição, é preciso que o Congresso Nacional aprove por dois terços dos votos a convocação de uma Constituinte para deliberar sobre uma mudança específica. Leia os principais trechos da entrevista:

Valor: Cristina Kirchner conseguiu uma votação surpreendente, depois de um período de grande desgaste, obtendo seus maiores índices nas províncias mais pobres, como Santiago del Estero, onde conseguiu 80% dos votos nas eleições primárias. Estamos diante de um fenômeno semelhante ao da reeleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, em que o eleitorado petista migrou das classes médias urbanas para as faixas de menor renda?

Vicente Palermo: O fenômeno brasileiro foi diferente, porque no Brasil o PT realmente substituiu sua base eleitoral por outra, na qual jamais havia entrado. Foi uma mudança mais profunda. Na Argentina, a surpresa que estamos vivendo é a da magnitude do triunfo que Cristina está por conseguir. Tradicionalmente, as províncias mais pobres argentinas tendem a votar com o governo, sobretudo se o governo é peronista. O mais interessante é o desempenho que a presidente obteve nas regiões que concentram o agronegócio.

Valor: Ali, o esperado era uma derrota, depois da confrontação entre o governo e os produtores rurais que marcou o início do mandato de Cristina?

Palermo: Essa derrota aconteceu na eleição parlamentar de dois anos atrás e o que se esperava era que aquela tendência se mantivesse no campo, mas Cristina conseguiu se recuperar nessas regiões. Ela aprendeu lições com aquele resultado e é visível que o governo, desde então, evita complicações com o setor produtivo. Mas a recuperação dela não pode ser entendida isolada de outros fatores, como o bem-estar gerado pelos efeitos materiais do crescimento, a construção de uma imagem de liderança pessoal, por sua campanha e a implantação de políticas sociais. Estou falando da "Asignación Universal por Hijo", da distribuição de notebooks, de subsídios às mulheres que são mães de família, a um conjunto bastante amplo de políticas. Cristina soube manter a iniciativa política administrativa mesmo com minoria no Congresso. A oposição não soube barrar esse processo.

Valor: Essas circunstâncias não reforçam o paralelo entre Lula e Dilma no Brasil e o casal Kirchner na Argentina?

Palermo: Argentina e Brasil estão se beneficiando há alguns anos de um contexto internacional favorável a países com esse tipo de base produtiva e existe e uma convergência em relação a políticas dirigidas à inclusão social. Mas a forma de liderança política não poderia ser mais diferente.

Valor: De que modo essa diferença se traduz?

Palermo: É cedo para analisar Dilma Rousseff. As constantes mudanças no ministério aparentemente sinalizam para algo positivo, que é a preocupação com o combate à corrupção, mas podem também indicar problemas mais profundos no grupo governista. Mas podemos analisar Lula. Ele foi um homem institucional ao comandar o país. Governou negociando com sua base. Impôs sua agenda, mas não tirou a preeminência do Congresso e de seus governadores aliados. Fez o clássico presidencialismo de coalizão. Néstor e Cristina Kirchner fazem uma gestão imperial. Lula deu espaço para os partidos desenvolverem seu jogo, inclusive para o roubo. Estamos longe de dizer que nesse processo ele foi angelical. Na Argentina, Cristina não tem ministros, tem funcionários. Seu governo não conta com aliados, mas com homens e mulheres que servem à presidente.

Valor: Nesse sentido, há condições para que ela repita em 2015, no fim de seu provável segundo mandato, o mesmo que Lula fez em 2010, investindo o capital político para eleger Dilma Rousseff?

Palermo: O capital político de Cristina neste instante é enorme, mas eleger um sucessor é muito difícil. Não foi simples mesmo para Lula, conforme mostrou a eleição brasileira. Dilma não teve uma vitória folgada. Qualquer nome que ela apresente vai despertar resistências desde cedo no conjunto de líderes no peronismo, que, sem terem sido consultados ao longo do governo, aparecem como eventuais pretendentes. Por outro lado, ela não pode descuidar do tema, sob pena de ser atropelada pela própria sucessão. Investir em um sucessor é o que Lula fez, mas não creio que esse caminho, embora aconselhável, seja o mais provável. Há outros caminhos muito tentadores, como o de reformar a Constituição e adotar o parlamentarismo. Seria uma maneira de ela continuar. A oposição não se abriria para conversar sobre isso e o governo teria que ir para um jogo do tudo ou nada. É exatamente o jogo que Cristina gosta de fazer. Isso é tecnicamente possível e essa solução será tentadora.

Valor: Se ela é capaz de fazer isso, não poderia mudar a Constituição só para ter um terceiro mandato?

Palermo: Isso seria demasiado brutal e ela não teria respaldo para mudar a Constituição. A alteração da Carta na Argentina, pelas regras do sistema, exigiria um horizonte mais amplo de mudança. O parlamentarismo abre caminho para a permanência dando esse horizonte mais amplo. A reeleição para mais um mandato levanta resistência em todos os países que adotaram esse instituto. Países como o Brasil e a Argentina já cometeram no passado o erro sério de permitir que um presidente reeleito uma vez esteja habilitado a disputar de novo, passado um mandato.

Valor: O que é exatamente o caso de Lula no Brasil.

Palermo: Também é o caso de Fernando Henrique Cardoso. A possibilidade de um presidente reeleito voltar no futuro é um erro sério que se cometeu, porque introduz um elemento de perpetuação que quebra a própria lógica da reeleição. Lideranças exitosas ficam tentadas a fazer algo destrutivo no plano político para viabilizarem sua volta.

Valor: Como o quê, por exemplo?

Palermo: Como eleger um sucessor e depois reduzi-lo, transformá-lo apenas em uma plataforma para voltar ao poder. É um processo que deixa custos. Aqui na Argentina, os dois casos de presidentes que voltaram ao poder foram experiências infelizes. A volta de Hipolito Yrigoyen, em 1928, resultou no primeiro golpe militar no país, dois anos depois. A de Juan Domingo Perón, em 1973, foi simplesmente catastrófica.

O Chile ferve

Coluna publicada no Valor dia 8/9/2011

A classe média revoltada
Por César Felício
O cenário parece muito distante do Brasil. Uma classe média em ascensão nem sempre pode ser vista como âncora de estabilidade política, uma leitura usual na análise dos resultados eleitorais que levaram à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e à eleição de Dilma Rousseff para a Presidência no ano passado. Este ano, só há um país da América do Sul contaminado pela onda de insatisfação que ecoa em paisagens tão díspares como Egito e Reino Unido, Espanha e Bahrein.

É no Chile que grassa o espectro da revolta. A pátria por excelência da classe média latino-americana, o país onde a pobreza regrediu de 40% a 13% da população em 20 anos de democracia em que a alternância jamais significou ruptura de políticas, está exausta de seus governantes.

O primeiro sinal foi em 2009, quando o direitista Sebastián Piñera encerrou a experiência de quatro mandatos presidenciais seguidos da Concertación, a aliança de democratas cristãos e socialistas que desenvolveu políticas de proteção social sem alterar em sua essência os postulados liberais do ponto de vista econômico que marcaram o regime de Pinochet.

Educação como porta para a ascensão tem limite
Piñera já assumiu com um capital político reduzido. O crédito inicial que recebeu pouco foi além de seus próprios eleitores. No fim do ano passado, logo após seu maior triunfo - o perfeito resgate de 33 mineiros aprisionados por um desabamento -, conseguiu em pesquisas de opinião 55% de aprovação popular, apenas quatro pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas um ano antes. No último levantamento, publicado na segunda-feira pela mídia chilena, sua aprovação ficou em 27%.

Por enquanto Piñera lida com uma insatisfação capitaneada pelos estudantes universitários e secundaristas, que já produziu a morte de um menino de 16 anos por balas dos "carabineros", a polícia militar. Mas a possibilidade de contágio para outros setores é grande. "Sem respostas efetivas rápidas do governo, esta onda vai crescer no próximo verão. E pode se espalhar para trabalhadores, mulheres e todos os setores organizados. Há uma ameaça de levantamento social e o governo já percebeu isso", comenta a cientista política Marta Lagos, chilena, diretora da ONG Latinobarometro, especializada em pesquisas de opinião comparadas no continente.

Está em dados compilados pelo próprio governo a chave para se entender o problema. O investimento das próprias famílias na educação de seus filhos é substancial em um país onde há muitos anos o gasto público em educação é reduzido. Mutilar o papel do Estado no setor foi o último ato de Pinochet como presidente, sancionado pelo ditador por decreto um dia antes de deixar o cargo, em março de 1990. Na universidade, segundo Marta Lagos, uma família aplica cerca de US$ 40 mil para obter um diploma.

Com 52% dos chilenos enquadrados nos segmentos médios de renda, uma avalanche de jovens procurou o ensino como a grande ferramenta de mobilidade social em um país onde o sentimento de injustiça na distribuição de renda é o mais forte do continente. Segundo a pesquisa do Latinobarômetro do ano passado, apenas 12% dos chilenos consideram a distribuição da riqueza adequada. No Brasil, essa percepção é compartilhada por 21%. Na Venezuela, por 38%.

Quando Pinochet começou seu poder autocrático, nos anos 70, apenas 9% dos chilenos estavam na Universidade. Em 2003, eram 37%. Hoje, a porcentagem ronda 40%, segundo dados do Ministério da Educação do Chile. Nesta década, tal evolução convive com o endividamento crescente da população emergente. Uma pesquisa feita um ano atrás pelo Banco Central chileno mostrou que a relação do total da dívida familiar frente à renda anual dos lares do país passou de 35,4% para 59,9% entre 2000 e 2009. A sensação de vulnerabilidade aumenta ao se levar em conta que 68% da renda familiar chilena provém de salários.

A magia da educação como a grande porta para a mobilidade social aparece com nitidez na pesquisa feita pelo Instituto Nacional da Juventude, outro órgão governamental, em 2009. A principal razão apontada por jovens entre 15 e 29 anos para estarem estudando foi "melhorar a situação econômica", com 35,8% das citações. "Trabalhar no que mais gosta" foi citado por 31,7%. Mas a mesma pesquisa mostrou que, na faixa de população entre 24 e 29 anos, portanto recém-saída da faculdade, nada menos que 51,2% - maioria absoluta - afirma que trabalha em uma função "pouco ou nada relacionada" com o que estudou.

"É claro que a educação é uma ferramenta para a mobilidade social, o problema é quando ela se torna o único instrumental para isso. Vemos aqui legiões de pessoas cada vez mais vulneráveis, fazendo dívidas para três ou quatro gerações em universidades privadas que não preparam para o mercado de trabalho. Oferecem cursos como 'criminologia e prevenção de riscos', que não se sabe bem o que é", comenta Marta Lagos.

No sábado, Piñera reuniu-se pela primeira vez com os líderes estudantis, no Palácio de la Moneda, enquanto gerenciava o resgate dos mortos em um acidente aéreo que matou uma equipe de televisão e canalizou a atenção da opinião pública do país. Há razões para ceticismo sobre mudanças concretas. Há cinco anos, um movimento de estudantes secundaristas parou as cem maiores escolas do país e fez com que a presidente socialista Michelle Bachelet se comprometesse com reformas em cadeia nacional de rádio e televisão. Os estudantes pediam o fim da lei pinochetista e a presidente reformou a legislação, depois de dois anos de debate no Congresso. Foi uma resposta avaliada por Marta Lagos como limitada e lenta. No caso de Piñera, trata-se de um conservador obrigado pelas circunstâncias a promover uma renovação. Corre o risco de abrir um gigantesco fosso entre suas palavras e a ação.

César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Esta foi a primeira coluna que escrevi ao chegar a Buenos Aires e mostra como era imprevisível a acachapante votação obtida por Cristina Kirchner nas insólitas ( como se costuma dizer aqui) eleições primárias que aconteceram no dia 14 de agosto, em que ela teve mais de 50% dos votos e a oposição ficou afundada entre o medíocre e o ridículo, patinando em 12% cada um de seus principais candidatos.




A maior pesquisa eleitoral do mundo
César Felício
Valor Econômico - 11/08/2011

Obter as consequências esperadas em um cenário de variáveis tão múltiplas como a política é uma habilidade destinada a poucos no mundo e exemplos brasileiros de tiros pela culatra não faltam. Os acontecimentos dos próximos dias na Argentina deverão mostrar os resultados surpreendentes que podem acontecer caso avance no Brasil uma ideia que esteve em pauta no ano passado: o da realização de eleições primárias para a escolha de um candidato majoritário.
A inspiração geral é a dos Estados Unidos em que, apesar de todas as imensas condicionantes, o eleitorado é chamado a participar das escolhas dos partidos Republicano e Democrata. No Brasil, o PT e o PMDB já realizaram prévias internas para definir candidaturas majoritárias, mas coube ao hoje senador Aécio Neves (MG), com dificuldades de contornar a preferência da cúpula partidária pela candidatura presidencial do então governador paulista José Serra, propor eleições primárias no modelo clássico: abertas a todos os eleitores e com o compromisso do partido ratificar em convenção o resultado da consulta popular.
A proposta não foi para parte alguma, mas é de se prever a volta da discussão em qualquer partido que esteja desunido em relação à eleição presidencial, como desde sempre é o caso tucano. Na Argentina, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado, conseguiu tirar a novidade da prancheta. Se vivo estivesse, provavelmente estaria arrependido.
Legado de Kirchner, primárias não definem candidatos
As eleições primárias na Argentina foram introduzidas na legislação eleitoral depois da derrota governista na renovação do Congresso em 2009. Havia então muita incerteza sobre a viabilidade de uma reeleição da presidente Cristina Kirchner e vale lembrar que o peronismo estava esfacelado desde a eleição do marido, quatro anos antes.
Em 2003, foi permitido a filiados ao mesmo partido participarem de coligações diferentes e enfrentarem-se nas urnas. O peronista Nestor Kirchner elegeu-se depois da desistência do correligionário Carlos Menem em disputar um segundo turno. Ainda enfrentou outro peronista, Adolfo Rodriguez Saa.
Quatro anos depois, Cristina sucedeu ao marido batendo nas urnas apenas um colega dissidente, o mesmo Rodríguez Saa. Mas em 2009 o cenário de fragmentação da base governista era muito provável. Surgiram então as eleições primárias como um instrumento para que as diversas alas do peronismo se enfrentassem internamente e fossem constrangidas a terem um único candidato em 2011.
O que não se previa é que os dissidentes peronistas, o ex-presidente Eduardo Duhalde e o governador de San Juan Alberto Rodríguez Saa, montassem suas próprias coalizões para disputarem as eleições contra Cristina e ignorassem a escolha interna. A legislação eleitoral argentina não eliminou as estranhas disposições legais que permitem a filiados ao mesmo partido disputarem em coalizões diferentes. Também não se contava com a capacidade da presidente de se revitalizar na preferência popular com uma política de fomento ao crescimento econômico, mesmo com a escalada inflacionária. Além de, obviamente, todo o cenário político da Argentina ter mudado com a morte súbita de Nestor Kirchner exatamente um ano antes da eleição.
As eleições primárias vão acontecer na Argentina este domingo e seu efeito, do ponto de vista da consolidação do quadro de candidaturas, não irá beneficiar a presidente, já que os rivais internos do peronismo serão candidatos em qualquer circunstância. A votação deste domingo, que é uma primária aberta, ou seja, aquela em que os eleitores irão escolher um candidato independente de seu partido, interessa mais à oposição que ao kirchnerismo. Ela poderá servir para mapear qual o candidato mais habilitado para tentar polarizar a eleição presidencial de outubro com Cristina. As pouco confiáveis pesquisas argentinas mostram três candidatos na faixa entre 10% e 20%: o peronista Eduardo Duhalde, o radical Ricardo Alfonsín e a esquerdista Elisa Carrió. Cristina está entre 40% e 50%. O segundo turno na Argentina tende a ocorrer se Cristina ficar abaixo da banda mínima desta faixa. Ou seja: estas eleições primárias serão a mais cara e a mais completa pesquisa de intenção de voto do mundo, com margem de erro próxima a zero, já que o voto será obrigatório. A consulta só será decisiva para os candidatos nanicos, que só poderão se apresentar na disputa nacional caso consigam pelo menos 400 mil votos, ou 1,5% do total de votos.
Fica a questão sobre qual a influência que uma eleição prévia poderia ter tido no Brasil se ocorresse antes das convenções partidárias. Ao contrário do que ocorre na Argentina, no Brasil a oposição liderou as pesquisas até o início da campanha eleitoral. Aécio teria aceito participar de um embate com Serra e os demais candidatos e desestabilizado o preferido da cúpula? O potencial eleitoral de Marina Silva teria se evidenciado e permitiria à então senadora sair do isolamento político? Provavelmente os efeitos seriam muito mais conservadores do que estes. As eleições primárias nas províncias (na Argentina as disputas nacionais e locais não coincidem) não captaram ascensões fulminantes como a do direitista Miguel del Sel em Santa Fé e foram raríssimos os partidos que não fizeram um acerto interno antes da chamada às urnas antecipada. De concreto, fica a evidência de que não se resolvem problemas políticos com criatividade legislativa.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Belo Horizonte (2009-2011)

Aos meus pouquíssimos leitores, trago aqui mais uma notícia velha: estou de partida de Belo Horizonte, depois de uma permanência mais curta do que eu pensava: dois anos e meio. Vou-me embora no próximo mês para Buenos Aires, uma transferência que vinha sendo negociada há muito tempo, antes mesmo de eu chegar a Minas.
Ter ido a Minas mudou a minha vida para sempre.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O inverno tucano

O curto prazo mostrou que eu estava subestimando um pouco a capacidade tucana de fomentar crises internas. Não contava com o pouco empenho do Serra em segurar a sua tropa. A prova dos nove pode ficar clara no final deste mês, com a convenção nacional do PSDB


Sinais de vida na discussão tucana
Valor Econômico, 18/04/2011


A leitura atenta do artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para a revista "Interesse Nacional" deixa evidente que o presidente de honra tucano não propôs que o PSDB deixasse de buscar o voto da maioria da população. O ranço preconceituoso de sua referência ao "povão" o fará pagar o preço de reforçar o viés elitista de um partido que há muito tempo se desconectou do sentimento popular, mas ele não é "um idiota", conforme o próprio disse em entrevista a Cristiane Agostine, no Valor. Elaborar uma estratégia para se aproximar de determinados grupos da sociedade é diferente de fechar-se aos restantes.
O movimento de Fernando Henrique ao sugerir ao partido que exerça a oposição fora dos limites estritos dos espaços institucionais, como o Parlamento, buscando conexão com associações de bairro, profissionais do entretenimento, empresários jovens, grupos culturais de periferia e até redes de consumidores, conforme escreveu no artigo, aproxima-se do que o seu sucessor na presidência, Luiz Inácio Lula da Silva propunha em um encontro do PT sobre o socialismo em março de 2001, em São Paulo, um ano e meio antes de chegar ao poder.
O encontro se deu em um instante em que ainda não estavam dadas condicionantes que abriram o caminho para a vitória oposicionista na eleição do ano seguinte, como a fragmentação do bloco governista e a crise do apagão da energia. Havia petistas falando que o governo FHC viria com um candidato forte e que era importante o PT concorrer com os olhos na eleição de 2006.
No discurso, tal como Fernando Henrique em seu artigo, Lula falou para os próprios correligionários, não para o público externo. Depois de críticas ao capitalismo - " o capitalismo não será solução para os nossos problemas (...)por si só, é predatório (...) predestina que grande parte da população seja pobre" - o futuro presidente afirmou: "Marx imaginava uma sociedade de classes que não aconteceu. Hoje temos um novo tipo de trabalhador, terceirizado ou por conta própria. O discurso que eu fazia nos anos 80 já não vale mais. O trabalhador que eu fui é uma minoria hoje. É preciso um novo discurso para esta gente que não é mais explorada diretamente pelo patrão".
Lula obviamente não se referia à nova classe média que Fernando Henrique elegeu agora como prioridade. O sucessor do tucano mirava no segmento que se expandiu na sociedade nos anos 90, o novo proletariado, ancorado na economia informal, ou pelo menos muito distante de bater cartão: "é necessário uma política especial para os trabalhadores que estão na rua e hoje não se sentem mais representados pelas entidades tradicionais. É preciso todo um aprendizado nosso. Lamentavelmente, nós não representamos a contento os que ganham salário mínimo neste país".
O discurso de Lula em 2001 e a manifestação de Fernando Henrique agora convergem para um mesmo fenômeno: o hoje ex-presidente tucano e o petista que há dez anos ainda aspirava chegar ao poder percebiam que seus partidos haviam sofrido uma quebra de representatividade, que não poderia ser sanada da tribuna do Congresso ou com entrevistas a jornalistas, mas buscando um novo segmento da sociedade para interagir.
Em vários aspectos, o panorama desolador da institucionalidade descrito por Fernando Henrique hoje, que vai do esvaziamento do poder político dos governadores, com a concentração dos instrumentos administrativos nas mãos da União, à transformação do Congresso em uma câmara de vereadores federais e o completo esvaziamento ideológico dos partidos, já estava presente há dez anos. A grande diferença é que a ascensão de Lula ao poder também desossou os movimentos sociais, hoje em grande parte divididos entre o atrelamento total ao Planalto e a insignificância.
Neste panorama, talvez o mais lesivo aspecto para a prática política é um fenômeno que não se restringe ao Brasil: a morte cerebral dos partidos. Quando o sistema partidário deixa de buscar alianças na sociedade para se tornar apenas uma máquina de votos com a qual um agrupamento de caciques divide o botim administrativo, pode-se viver o mesmo quadro que ocorre atualmente no Peru. Naquele país, os eleitores terão em breve a oportunidade de escolher entre os dois candidatos mais detestados pela população: Ollanta Humala e Keiko Fujimori. São representantes de extremismos com alto teor de rejeição, que se beneficiaram da fragmentação do centro político entre três candidatos que se destruíram em um processo autofágico.
O sistema partidário peruano há pelo menos vinte anos entrou em colapso: cada líder político organiza seu ajuntamento para participar das eleições, sem estabelecer alianças. E desta maneira vai minando a própria estabilidade: seja Keiko ou Humala, é certo que o próximo presidente do Peru terá frágil sustentação popular, independente do que venha a fazer. O Peru é o exemplo mais recente, mas de modo algum o único, de fragilização partidária no continente. Exceção ao Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai, é o que se observa na Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador.
A profusão de partidos, paradoxalmente, é um forte indicativo de ausência de opções reais. A criação do PSD de Gilberto Kassab é um forte indicativo da aproximação do Brasil do modelo apartidário de política que viceja em parte da América do Sul. O artigo de FHC, que se segue ao pronunciamento em que o senador Aécio Neves procurou emular o avô e se colocar como liderança, são movimentos no sentido contrário. Dão demonstração de vitalidade partidária ao fomentarem o debate, de um modo só possível em partidos de oposição: não há notícias de um artigo sobre o "papel do governo" dentro do PT, como não houve este artigo dentro do PSDB entre 1995 e 2002. Há muito mais vida entre os tucanos do que no partido que se forma.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Uma ode ao queijo canastra

Confidência Mineira, Valor Econômico, 1/04/2011 César Felício Em Minas, a expressão "queijo minas" tem um significado completamente diferente do conhecido em São Paulo ou no Rio. Para dentro do Estado que concentra cerca de 10% da população brasileira, o queijo típico nada tem a ver com o chamado "Minas padrão" ou a massa branca e aguada também chamada de queijo frescal. O verdadeiro queijo de minas é uma peça de um quilo e meio, absolutamente circular e mais achatada que a apresentação dos queijos europeus. Uma crosta amarela formada pela cura exige um certo esforço para ser rompida e se ter acesso a um interior branco, cremoso, de sabor pronunciado e teor de sal maior que o dos queijos industriais. É feito com leite cru, não pasteurizado, uma chave que o caracteriza como artesanal e o lança na virtual clandestinidade. Ao menos pelo vídeo ou pelo cinema, os 90% de brasileiros que moram fora de Minas poderão conhecer um dos segredos compulsoriamente bem guardados pelo Estado: o queijo mineiro artesanal, produzido na serra da Canastra, na região do Serro, próxima ao Vale do Jequitinhonha e no Alto Paranaíba, área na divisa entre Minas e Goiás. A relação entre esse produto - encontrado com facilidade nas grandes cidades mineiras, mas proibido de ser vendido no varejo do resto do País - e a cultura mineira é visceral e será mostrada no documentário "O Mineiro e o Queijo", de Helvécio Ratton, com duração de 70 minutos, que será lançado no segundo semestre pela Quimera Filmes. "O queijo surgiu em Minas durante o ciclo de mineração, como uma forma de preservar um alimento que podia ser transportado para regiões de pequena produção agrícola e armazenado por longos períodos", comenta o cineasta, autor, entre outros filmes, de "Batismo de Sangue" e "Menino Maluquinho". Da produção do queijo surgiram derivados que se tornaram ícones no Estado, como o pão de queijo, feito com as raspas do produto. A maneira de produzi-lo essencialmente é a mesma desde o século XVIII: a primeira etapa é a coagulação do leite. Posteriormente se faz a prensagem; depois, a salga; em seguida, a maturação. Por último, vem a rala, para retirar o excesso de sal. A fase decisiva é a da coagulação do produto, em que são acrescentados o coalho e o "pingo". São estes dois insumos que dão o sabor e a consistência características do queijo. No período colonial, o coalho era derivado de uma enzima do estômago do boi. Hoje todos os produtores usam o coalho industrializado. O "pingo" só existe na produção artesanal: é o resíduo da prensagem do queijo finalizado no dia anterior, guardado durante a noite. O queijo artesanal é produzido em todo o Estado, mas o governo de Minas atualmente cadastra e fiscaliza os produtores de cinco regiões: Serra da Canastra, Serro, Alto Paranaíba, Campo das Vertentes, que é a região de Tiradentes, São João Del Rey e Araxá, cidade próxima à divisa com São Paulo, com produção mensal de 170 toneladas. Uma lei estadual permitirá agora o cadastramento em todo o Estado, o que pode ampliar exponencialmente a produção reconhecida: "Os cálculos preliminares indicam a existência de 6 mil produtores familiares", disse o gerente de educação sanitária do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Pedro Hartung. Como a legislação, tanto mineira quanto federal, exige que o produtor de queijo utilize o leite da própria fazenda, é impossível a sua manufatura industrial. As diferenças entre as três principais procedências não são destacadas no documentário de Ratton, mas são marcantes para quem prova os queijos. O do Serro é mais ácido, com maior teor de sal e consistência massuda. O do Alto Paranaíba é o que tem maior semelhança com o queijo industrializado. O da Canastra é o mais afamado, não sem razão: é cremoso, de forte sabor e funde quando suavemente esquentado. O documentário mostra que o do Serro é o mais antigo: trata-se da região mais próxima da área mineradora e herdou a tecnologia de portugueses oriundos da serra da Estrela. Mas faltam explicações para a excelência do queijo da Canastra: uns citam a tradição familiar, outros a excelência da água, oriunda da nascente do rio São Francisco ao pé da serra. A melhor explicação é a do mais humilde fabricante ouvido por Ratton: a presença de pastagens de capim-gordura influi na qualidade do leite do gado da região. Segundo Ratton, a nova norma do governo mineiro que estenderá a todo o Estado a certificação estadual pode evidenciar ainda mais o quadro de miséria que existe entre os produtores. "O problema é que a oferta poderá crescer, sem que cresça o mercado consumidor. O queijo artesanal só pode ser vendido em Minas, por um desacordo entre a legislação federal e a legislação mineira. É por isso que o queijo artesanal aqui é mais barato do que o industrial", disse. Um quilo de queijo artesanal da serra da Canastra, no mercado central de Belo Horizonte, pode ser encontrado a cerca de R$ 13, ante cerca de R$ 17 do queijo Minas padrão. No filme de Ratton, feito em 2010, produtores afirmam vender o produto a R$ 7 o quilo. Como é feito com leite cru, a comercialização do legítimo queijo mineiro sofre restrições do Ministério da Agricultura, já que, como se sabe desde a época de Pasteur, muitas bactérias são eliminadas com a fervura, sobretudo a "Staphylococcus aureus", que pode ser transmitida pelo leite se a vaca estiver com mamite. O suposto risco de contrair uma gastroenterocolite consumindo queijo artesanal é recebido aos risos pela maior parte de seus consumidores e pelos produtores, mas foi o que norteou o Ministério da Agricultura a exigir que o queijo feito com leite cru passe por um período de maturação. À medida que o queijo é envelhecido, ele desidrata, o que ajuda a eliminar bactérias. O queijo artesanal foi atirado na clandestinidade em 1996, quando o Ministério da Agricultura baixou a portaria 146, estipulando um prazo mínimo de 60 dias de maturação para que a venda fosse permitida. Guardado por esse prazo, o queijo artesanal torna-se bastante amarelo e com casca bem dura e os produtores reclamam que a aceitação do produto no mercado é menor. O queijo mineiro só sobreviveu em Minas porque o então governador Itamar Franco editou em 2000 uma norma estadual permitindo a venda aos mineiros do queijo elaborado com leite cru com maturação mínima de 21 dias. A luta que existe em Minas, amplificada pelo documentário, é para que o governo federal revise o prazo de maturação, o que abriria para o queijo artesanal as portas não só dos mercados paulista e fluminense, mas do mercado exterior. Os produtores poderiam sonhar em obter certificados de documentação de origem controlada (DOC), como o espumante de Champagne ou o uísque da Escócia. "O primeiro passo será conseguirmos a equivalência da fiscalização estadual à federal para derivados de leite. Em termos técnicos, o reconhecimento do selo mineiro no Sisbi [Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal]. No caso da carne, conseguimos depois de oito anos. Agora vai demorar menos", aposta Hartung. Ratton é mais pessimista. "Há interesses industriais em retardar esse processo. No fundo, é uma derivação da luta da agricultura familiar com o agronegócio." Em São Paulo, o queijo da Canastra pode ser encontrado em poucos restaurantes, que oferecem o produto com maturação de até 90 dias. "Eu uso o produto conforme estabelece a lei federal. Depois de uma maturação muito longa, é possível degustar o queijo em lascas ou ralado", comenta a chef Ana Luiza Trajano, dona do restaurante Brasil a Gosto. Para Ana Luiza, "a legislação deveria fomentar o aumento da fiscalização e não criar regras que limitam tanto a oferta disponível fora de Minas". Ana Luiza vê na mesma situação de marginalidade do queijo mineiro artesanal outros produtos que estão na raiz da gastronomia brasileira. Ela cita o mel silvestre, a rapadura e outros queijos como o requeijão-manteiga e o coalho, no Nordeste, e o de búfala do Marajó, no Pará. "Querem inviabilizar a venda de queijo de leite cru, mas se esquecem que na França e na Itália mais de 70% é fabricado com essa matéria-prima", queixa-se.

sábado, 12 de março de 2011

A alvorada egípcia, no Valor Econômico
Empresário egípcio prevê democracia e estabilidade no país
César Felício De Belo Horizonte
09/03/2011




O entusiasmo do engenheiro egípcio Emad El Sewedy, 46, morador na região de 6 de Outubro, vizinha ao Cairo, é um sinal da amplitude da base de apoio que teve a insurgência popular contra o regime liderado por Hosni Mubarak, derrubado da Presidência do Egito no último dia 11. El Sewedy é o CEO da Electrometer, uma das empresas do El Sewedy Group, um conglomerado de indústrias na área de energia que faturou US$ 1,6 bilhão nos primeiros nove meses do ano passado. El Sewedy viu de perto as manifestações da Praça Tahrir e diz não ter dúvidas de que o caminho do Egito para uma democracia é inexorável.
A Electrometer começa este ano a operar em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, uma fábrica com capacidade de produção de 700 mil medidores de energia por ano, em sociedade com a Damp, uma empresa do banco mineiro BMG. A cada dois meses, El Sewedy passa uma semana no Brasil.
Ao falar ao Valor, no saguão de um hotel em Belo Horizonte, estava empolgado com a notícia da demissão de Ahmed Shafiq, no dia 3. Último primeiro-ministro do Egito indicado por Mubarak, Shafiq foi demitido depois de uma reunião entre o Conselho Supremo das Forças Armadas, que detém o poder de fato no País, e representantes dos manifestantes. Foi substituído por Essam Sharaf, um ex-ministro de Mubarak que passou para a oposição em 2006. Para El Sewedy, foi um sinal claro de que o regime caminha para a abertura.
El Sewedy também demonstrou satisfação com a abertura de processos legais contra uma elite empresarial egípcia que era profundamente vinculada ao governo de Mubarak. A figura mais conhecida é a de Ahmed Ezz, dono de um grupo siderúrgico com produção de 5,8 milhões de toneladas de aço no ano passado e detentor de cerca de 60% do mercado egípcio. Ezz também era tesoureiro do partido do governo e um dos principais articuladores de Gamal Mubarak, que tinha pretensões de suceder o pai no governo do país.
Ao término da entrevista, gravadores já desligados, o empresário arriscou-se a fazer uma aposta a respeito do vencedor das eleições presidenciais que devem ocorrer em setembro. Disse não acreditar nas chances do secretário da Liga Árabe, Amr Mussa, nem do ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei. Segundo ele, há espaço para a vitória de alguém mais jovem e desvinculado das tradicionais estruturas políticas.
Valor: O sr. é o maior empresário egípcio no segmento eletro-eletrônico. Em que medida as mudanças no Egito podem afetar o meio empresarial como um todo e o grupo El Sewedy em particular?
Emad El Sewedy: É preciso estabelecer algumas preliminares porque é muito difícil, para quem está fora do Egito, dimensionar o que aconteceu no meu país. Os acontecimentos do início deste ano devem ser chamados de revolução. Foi algo histórico, que ninguém esperava que pudesse ocorrer, e isto vale principalmente para as pessoas que iniciaram os protestos contra o regime. O que os primeiros manifestantes buscavam talvez não fosse nem 10% das possibilidades que se abriram agora. É preciso lembrar que tudo começou com protestos contra a carestia e o fato de termos um desenvolvimento econômico concentrado, que exclui parte da sociedade. E então a magnitude disso foi crescendo e subitamente, no dia 25 de janeiro, colocou-se claramente a questão da mudança do regime, de mudança constitucional, eleições livres, do fim da corrupção. Tornou-se uma revolução política.
Valor: E as manifestações tiveram apoio no meio empresarial?
El Sewedy: A sociedade toda apoiou. O que ocorreu no Egito foi um movimento que nasceu das massas urbanas mais simples. Normalmente, as movimentações políticas começam no Exército no Egito, mas essa revolução não se apoiou em nenhum tipo de arma. Eu estive na Praça Tahrir para tentar entender o que estava acontecendo, queria ver com meus próprios olhos.
Valor: O senhor então participou das manifestações?
El Sewedy: Eu me sentia perdido ao ler o noticiário, tanto o do Egito quanto o de fora. Era estranho perceber a agitação e assistir na televisão afirmações categóricas de que nada estava acontecendo. Na mídia ocidental chegou-se até mesmo a dizer que as manifestações eram inspiradas pela Al-Qaeda, pelo Irã. Eu fui até a praça porque queria avaliar, por mim mesmo, em que medida a Irmandade Muçulmana [grupo político de inspiração islâmica] estava comandando a situação. E o que vi na praça Tahrir foi que a Irmandade estava completamente diluída no meio da multidão. Então o que devemos discutir é a razão desse temor da Irmandade Muçulmana. A revolução diminuiu, e não aumentou, as chances de eles chegarem ao poder.
Valor: Mas eles não eram o principal grupo de oposição no Egito?
El Sewedy: Nas eleições passadas, a Irmandade era a única organização oposicionista mobilizada para levar as pessoas a votar. E isso acontecia porque a maioria dos egípcios evitava votar, não confiava que as eleições fossem livres e justas. Ninguém se preocupava em participar. Agora as pessoas estão mobilizadas como nunca estiveram, e não foi a Irmandade Muçulmana que começou esse processo. As reformas constitucionais anunciadas devem aumentar ainda mais a participação política. É um ambiente muito mais aberto.
Valor: O aumento da incerteza na região levou o seu grupo a retardar decisões de investimento?
El Sewedy: No Egito não estamos suspendendo investimentos. Na semana passada assinei uma ordem para construir uma nova fábrica na área de Alexandria, porque já tínhamos tudo planejado, o financiamento assegurado, e não iríamos parar. Seguimos produzindo no Egito, como em outros países. O investimento lá em Alexandria é de US$ 5 milhões.
Valor: Mas na Líbia o grupo El Sewedy suspendeu um investimento de US$ 65 milhões em uma fábrica de cabos elétricos em Tripoli...
El Sewedy: A Líbia é uma situação totalmente diferente. A Líbia é um caos agora. O país é dividido em tribos, a população toda vem de tribos. A solidariedade não é entre o povo líbio, é intertribal. Então uma tribo apoia a revolução, outra tribo não, e quando eles se juntam, se juntam por tribo. No Egito, há um só povo. Quando se nasce no Egito, ninguém pergunta sobre sua família ou sua aldeia. Na Líbia, tudo depende de onde você veio. Durante a revolução no Egito, nem uma única igreja foi atacada, os negócios não foram saqueados, o povo se protegeu. Os militares no Egito são egípcios, não atiraram contra o próprio povo. Na Líbia você encontra uma tribo atirando na outra.
Valor: O senhor acredita que o caminho para a democracia no Egito agora é inexorável?
El Sewedy: Acredito completamente. Porque o povo não aceitará outra conduta, nada que não seja isso. As mudanças constitucionais vão todas nessa direção.
Valor: Mas a influência das Forças Armadas na política egípcia é gigantesca. É razoável pensar que o Egito terá um regime civil pela primeira vez desde a deposição do rei Faruk, em 1952?
El Sewedy: O papel das Forças Armadas é o de proteger, e não governar o Egito. Há um claro entendimento disso. Essa é uma inquestionável demanda da revolução. É claro que temos neste instante um presidente militar, e as Forças Armadas estão no controle do país, mas isto está ocorrendo justamente porque as Forças Armadas mantiveram a popularidade ao não se contraporem ao povo nas ruas. Eles viram que há um clamor por um presidente civil. Você deve ter visto que o primeiro-ministro do Egito renunciou [na semana passada]. Ele não fez isso de sua própria vontade. A demissão dele era uma demanda popular. Quem está dirigindo o Egito é a Praça Tahrir.
Valor: Há grandes empresários sendo investigados agora no Egito, que se destacaram no passado pela sustentação a Mubarak, como o caso de Ahmad Ezz, industrial do aço. Isso não causa apreensão entre o empresariado?
El Sewedy: Ahmad Ezz era tesoureiro do partido governante e tinha a maior parte do mercado doméstico do aço. Ele conseguiu licenças de importações para sua indústria do aço de maneira gratuita. Foram negócios de bilhões, e não milhões de libras [egípcias]. Ele irá a julgamento no Egito e isso é uma boa notícia para o meio empresarial. Os empresários corretos não se sentem representados por esse tipo de empreendedor.
Valor: O senhor acredita que o novo quadro político pode levar à instabilidade externa, se as relações entre Egito e Israel forem afetadas?
El Sewedy: Não acredito em mudanças, porque tanto Egito quanto Israel lucram muito com a paz. As guerras foram desastrosas para os vencedores e para perdedores no Oriente Médio.
Valor: Qual o efeito da crise para o Egito neste ano?
El Sewedy: O cenário inicial, pré-queda de Mubarak, era de a economia egípcia crescer 6% em 2011. As previsões mais realistas hoje são de crescimento de 3%, por causa da mudança política. Mas, a partir de 2012, tenho certeza de que o crescimento será bem maior que a faixa de 5%, 6% que vínhamos mantendo antes da crise. Porque no Egito o povo não estava feliz, estava estressado, e isso obviamente afetava a produtividade. Em um sistema democrático, vai aumentar a previsibilidade no país. Podemos nos tornar um portal de negócios para o Oriente Médio, a África e mesmo parte da Europa.
Valor: Porque a sua empresa decidiu investir no Brasil?
El Sewedy: Estamos focados no Brasil no mercado de medidores elétricos, em associação com o grupo BMG. Acreditamos muito no potencial deste mercado. O Brasil é um 'hub' para a América do Sul, assim como o México será o 'hub' para nós na América do Norte. Estamos começando a operar este ano e devemos ter faturamento de R$ 20 milhões, mas no médio prazo acreditamos que o governo vai fomentar a troca de medidores de energia para controlar as grandes perdas que existem no sistema. Temos capacidade de produção para 700 mil contadores em Sabará. Estamos em vários países porque optamos sempre por entrar em novos mercados. O Egito representa 15% do faturamento da Eletrometer, que está em torno de US$ 100 milhões. Estamos crescendo e fomos pouco afetados pela crise de 2008. Somos uma das empresas do grupo El Sewedy, que atua no Egito desde 1938.
Valor: Como foi o processo de instalação no Brasil? Por que o senhor optou por Minas Gerais?
El Sewedy: A parceria com o BMG começou em 2008, mas estou vindo ao Brasil desde 2006, quando comecei a estudar o mercado. Escolhemos investir em Minas Gerais porque em São Paulo já tem gente demais. Aqui em Minas tivemos acesso fácil às autoridades e encontramos nosso parceiro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A retirada de Patrus Ananias

Valor Econômico, 4 de fevereiro de 2011

Há políticos que procuram construir sua imagem pública como realizadores de obras, ou com a identificação com uma determinada classe ou grupo social, ou alinhando-se a uma corrente ideológica. E há os que se consolidam investindo na construção de uma personalidade atraente para a opinião pública, a encarnação de um conjunto de virtudes. Os mais bem sucedidos costumam ser os que fazem uma composição de todos os fatores ao longo da vida pública, ou com ao menos mais de um deles.
Ex-ministro do Desenvolvimento Social por seis anos, o advogado mineiro Patrus Ananias é um dos que encarnam a figura do homem virtuoso, de maneira análoga à dos senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, entre poucos outros. A começar pela austeridade: ele atualmente pode ser encontrado nos dias úteis, das 8h às 14h, dando expediente na Escola do Legislativo da Assembleia mineira, onde entrou por concurso em 1982 e para onde sempre volta quando está sem mandato.
Trabalha em um ambiente coletivo e nem sequer tem um ramal de telefone próprio. Há 19 anos mora no mesmo endereço, um apartamento no bairro de Funcionários, em Belo Horizonte, área em que o preço mais comum para imóveis está em torno de R$ 5 mil o metro quadrado. Algo que nem sempre acontece com políticos que administraram orçamentos bilionários.
Católico convicto, Patrus foi um dos escalados para visitar as paróquias entre o primeiro o segundo turno da eleição no ano passado, na tentativa de reaproximar os fiéis da candidatura da hoje presidente Dilma Rousseff. Seu preparo intelectual não é pouco: professor de direito na PUC mineira, deixa ao alcance da mão leituras densas, como "Ideologia e contraideologia", de Alfredo Bosi.
Como prefeito de Belo Horizonte nos anos 90 e ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, responsável por nada menos que a implantação do programa Bolsa Família, seu saldo administrativo está muito acima do regular.
O ex-ministro deixa poucas pistas para se entender porque sua carreira política chega a um momento de ostracismo com resultados eleitorais absolutamente pobres.
Patrus ganhou três eleições: vereador em 1988, prefeito em 1992 e deputado federal dez anos depois. Perdeu quatro: vereador em 1982, senador em 1990, governador em 1998 e vice-governador no ano passado. Viveu no governo Lula sua grande oportunidade, ao capitanear um programa que movimentava R$ 40 bilhões.
Chegou a ser citado como presidenciável. Mas não conseguiu nem ser candidato ao Senado. Há muitos anos tornou-se minoritário dentro do PT mineiro. Sugerido como opção para o ministério ou o segundo escalão do governo de Dilma, seu nome foi ignorado. Comenta-se que o veto teria partido de Lula, que atribui a Patrus a divisão petista que levou à derrota eleitoral em Minas no ano passado.
Patrus foi muito menos longe do que os próprios exemplos já citados dos que têm a virtude como trunfo: Suplicy conseguiu eleger-se três vezes senador por São Paulo e Simon chegou a ser governador gaúcho. Uma das explicações possíveis pode ser a baixa aptidão por liderança. Patrus não é um líder, segundo suas próprias palavras. "Não tenho grupo e nem seguidores. Eu tenho interlocutores, companheiros. Quem quer ter seguidores precisa ter uma trajetória inflexível, retilínea, que obriga a tornar a política uma profissão. Foi uma opção minha não ser assim", comenta.
O ex-ministro não cogita participar das eleições no próximo ano. Pretende escrever uma tese de doutorado sobre políticas sociais. Patrus não se considera o autor do programa Bolsa Família: lembra que a proposta foi formulada no fim de 2003, antes de sua entrada no ministério. E nem avoca para o sucesso do programa parte da responsabilidade pela reeleição de Lula em 2006, ano em que o presidente estava ferido pelo escândalo do mensalão. "O programa nunca sofreu oposição nem do PSDB e nem do DEM exatamente pelo caráter republicano que ele ganhou ao ser implantado", diz.
Para Patrus, o programa não chegou a erradicar a fome no Brasil. "Acabou a fome endêmica, aquela em que havia uma discussão sobre quantos milhões eram atingidos, mas permanece uma fome ligada ao núcleo duro da miséria, às pessoas que são incadastráveis pela regra atual, por não terem domicílio ou mesmo registro civil. São os moradores de rua, alguns quilombolas, algumas comunidades indígenas", afirma. Para avançar a este ponto, segundo Patrus, seria necessário agora estabelecer programas envolvendo diversos ministério em uma única ação. "A tarefa que existia no governo Lula era acabar com a fome como um fenômeno generalizado e isto nós fizemos", afirma.
Há relatos de antigos aliados de Patrus sobre a frustração que o petista causou entre os apoiadores ao se recusar a assumir compromissos políticos normais em campanhas, como a divisão futura de espaços políticos e o equacionamento de questões de financiamento. Sua intransigência ao estabelecer alianças em bases ideológicas foi interpretada como arrogância. O risco de um político que transforma a austeridade em um dos pilares de sua imagem é, de maneira involuntária, estabelecer uma relação de superioridade com os que não agem assim. E, por tabela, tornar-se uma figura relativamente solitária. O advérbio faz muita diferença. Patrus não pretende encerrar 30 anos de militância política. Ele deixa pairar no seu horizonte a perspectiva eleitoral em 2014. "O que estou vivendo agora é um período sabático", disse, usando um adjetivo que indica claramente a suspensão de uma atividade em caráter temporário, e não um estranho recomeço.