Contando com esta, acompanhei relativamente de perto as últimas cinco eleições presidenciais, como profissional. Na de 1989 era estudante universitário e militava. A eleição deste ano vai se tornando única. Não me lembro de qualquer outra em que o presidente tenha entrado na batalha eleitoral como agora. Também não me lembro de nenhuma em que a oposição e a grande mídia tenham se identificado tanto a ponto de ser difícil discernir onde termina uma e começa a outra. Em um contexto despartidarizado, desideologizado como o atual, de tiriricas deputados,quando não da bandidagem em estado bruto disputando cadeiras no Senado,estamos ameaçados de ter apenas o presidente de um lado, com a candidata que tirou da cartola, e a mídia do outro, em volta de uma micro-oposição.
O preocupante deste cenário é que governo e oposição começam a tangenciar a fronteira entre a institucionalidade e a selvageria. Os textos editoriais da última onda semanal de denúncias parecem preparar o terreno para que a provável vitória de Dilma seja declarada ilegítima.
Como se dissessem: se ela ganhou alegadamente com a ajuda da quebra de sigilos constitucionais e após a montagem de uma máquina de caixa 2 na Casa Civil, por que então aceitar a legalidade de seu mandato? Do lado governista, falta pouco para Lula e outros petistas incitarem os militantes a lincharem os jornalistas. Ainda que seja ridícula qualquer comparação entre Lula e presidentes suspeitos de mandar matar oponentes, como Vladimir Putin, prender donos de televisão, como Hugo Chávez, ou acusar os barões de imprensa de extorsão e sequestro de bebês, como o casal Kirchner fez.
O que conforta é perceber que o gosto de sangue e pólvora está presente apenas nas bocas dos contendores diretos. Nos bares, nas ruas, nas filas para atendimento, nas praças, sobrevive-se nas escaramuças do cotidiano, muito distantes de qualquer noticiário, muito alheias às pretensamente grandes questões. Em meio à sedação do conformismo e ao pragmatismo absoluto, vamos seguindo o calendário e nos preparando para a outra.
domingo, 26 de setembro de 2010
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