Legal o texto abaixo, publicado originalmente no blog do cientista social Rudá Ricci, do Instituto Cultiva. Como jornalista, pude observar muito bem os pontos 1 e 2, para não falar do ponto 9. E o ritual seguido recentemente pelo Patrus Ananias para anunciar a vice de Hélio Costa, com visita à mãe em Bocaiúva e consulta prévia ao bispo aposentado, comprova os pontos 5 e 7
O decálogo do político mineiro:
1) A forma é sempre mais importante que o conteúdo. Fazer uma crítica com delicadeza ofende menos;
2) Não denunciar publicamente. Mineiro gosta de denúncia, mas desconfia de quem denuncia;
3) Política se faz no corredor. O que é público é sofrimento (velório, missa de 7º dia etc);
4) Lazer, só no Rio de Janeiro ou Espírito Santo (pode ser New York ou, no caso de ser valadarense, Boston);
5) Sempre falar da mãe, do pai ou do avô, de quem terá herdado algo;
6) A política concreta se faz por meio de “operadores da política”. O líder nunca se expõe e sempre deve aparecer como vítima, nunca como algoz;
7) Ter boa relação com a maçonaria e com a igreja católica. Na dúvida, dizer que torce para o América;
8) Partido político é um detalhe. Em Minas, todos são “amigos”, têm algum parente próximo ou vai ter;
9) Em Minas, o silêncio fala mais que a boca;
10) Nunca responder a qualquer crítica, nunca passar recibo de nada, nunca gargalhar (qual o motivo para ser tão feliz?).
segunda-feira, 28 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Moças com crachá
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Eu e Saramago, turistas em Praga
Encontrei José Saramago por acaso, em 1994, visitando um prédio histórico em Praga, talvez um santuário. Ele estava rodeado de um grande grupo, foi quatro anos antes de receber o Nobel de Literatura. Fazia turismo, e não deixa de chamar atenção a sua curiosidade pela arquitetura religiosa, uma vez que nunca escondeu seu materialismo. Não tive coragem de me aproximar, embora depois tenha me arrependido de não render-me à tietagem.
O escudeiro de Serra
Este perfil saiu no Valor Econômico no dia 15/06/2010. Pelo menos em tamanho, é a maior matéria que já escrevi.
Arrogante, implacável e eficiente. Essa trinca de adjetivos começou a acompanhar o funcionário público Mauro Ricardo Machado Costa, em 1996 quando atual secretário da Fazenda de São Paulo tinha apenas 34 anos. Nome certo para compor um eventual ministério do candidato tucano à Presidência, José Serra, Mauro Ricardo foi deixado naquele ano no comando da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) como uma herança de Serra, que se desincompatibilizava do Ministério do Planejamento para disputar (e perder) a eleição para a Prefeitura de São Paulo, ao sucessor Antonio Kandir.
Em três anos em Manaus, descritos posteriormente por Mauro Ricardo a interlocutores como "os piores da sua vida", o administrador de empresas formado pela Fundação Getúlio Vargas do Rio, viveu um atropelo atrás do outro. Teve desentendimentos com dirigentes locais de empresas, a mídia amazonense, o então governador Amazonino Mendes, que estava no PFL (hoje DEM) e os trabalhadores do polo industrial.
O resultado é reconhecido por aliados e até por adversários do PSDB: nunca mais a autarquia foi a mesma, em termos de poder e de gestão de recursos públicos. Criada no governo Castello Branco em 1967, a Suframa começou a fomentar a produção industrial nos anos 70 e 80, em um modelo que previa cotas de importação, mercados protegidos e benefícios fiscais, tanto para importações quanto para qualquer compra de insumos fora do Amazonas. A Zona Franca tornou-se a produtora exclusiva no Brasil de diversos produtos, de motocicletas a relógios.
O superintendente era uma referência de poder no Estado que rivalizava com os governadores. Conta-se no Estado a polêmica entre Ruy Lins, um superintendente no governo Figueiredo, e o então governador José Lindoso (Arena), na década de 1980. Em uma solenidade, Lins não concedeu a palavra ao governador, que sentiu-se ofendido e pediu a demissão do técnico. Foi ignorado.
Com a redemocratização, a classe política local passou a controlar a autarquia. O primeiro superintendente dessa nova fase, Roberto Cohen, nomeado pelo então governador Gilberto Mestrinho (PMDB), foi demitido em meio ao primeiro escândalo, chamado à época, em 1985, de "crime do colarinho verde". Tratava-se da manipulação do câmbio com a comercialização clandestina de cotas de importação fictícias. Funcionários de escalão inferior foram punidos. Em 1993, outro escândalo, o de vendas simuladas de açúcar para o Estado, levou à demissão do diretor de Mercadorias Nacionais e Internacionais, José Renato Alves, à época cunhado do então prefeito de Manaus, Eduardo Braga, hoje ex-governador e candidato a senador pelo PMDB.
Quando Serra assumiu o Ministério do Planejamento, teve que aceitar na Suframa a permanência de Manoel Rodrigues, um superintendente de confiança de Egberto Batista, que foi secretário do Desenvolvimento Regional no governo Collor. Uma das prioridades de Serra no ministério foi tentar conseguir a demissão de Rodrigues, sustentado pelo governador Amazonino Mendes.
Mauro Ricardo, um auditor fiscal, já começava a exercer o seu papel de interventor. Havia saído da coordenação de programação e logística da Receita Federal em 1993 para ser secretário de administração geral do extinto Ministério do Bem-Estar Social, no último ano do governo Itamar Franco. Caiu nas graças de Serra ao se tornar subsecretário de Planejamento e Orçamento do ministério em 1995.
Ao assumir o cargo, em abril de 1996 na Suframa, o fluminense de Niterói, que jamais trabalhou em seu Estado de origem, tinha um mandato claro: sua missão era acabar com a ingerência política na autarquia e condicionar a aprovação de Processos Produtivos Básicos (PPBs) - conjunto de regras que as interessadas em benefícios fiscais precisam cumprir, comprovando a realização de uma série de etapas da produção dentro do polo - a metas até então ausentes da Zona Franca, como o direcionamento para exportações. Desde 1991 o superintendente perdeu o poder sobre a concessão dos PPBs, que passou para uma comissão interministerial, mas sempre manteve sua influência.
O corte da influência política foi radical e hoje é elogiado até por opositores do PSDB. "Ele fez uma reforma adequada no mérito, exagerada na forma. Puniu o justo e o pecador", comenta Eduardo Braga. A reestruturação levou Amazonino e seus aliados a uma grande pressão junto ao então presidente Fernando Henrique Cardoso pela demissão de Mauro Ricardo. Em maio de 1997 o governador estava prestes a conseguir o seu objetivo, quando a sua citação no escândalo da venda de votos a favor da emenda constitucional da reeleição fragilizou politicamente tanto Amazonino quanto o governo federal.
No processo eleitoral de 1998, houve um recrudescimento da pressão. A atuação de Mauro Ricardo tornou-se o pivô de uma divisão da base governista. A ala de Amazonino pedia a sua substituição e os tucanos o sustentavam. "Foi a única vez em que pensei em romper com Fernando Henrique", diz um de seus defensores à época, o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), que chegou a ser ministro da Secretaria-Geral da Presidência na gestão de FHC.
Mauro Ricardo - o primeiro superintendente a mandar cercar a área do distrito industrial, para impedir invasões - moveu uma ação de reintegração de posse para expulsar ocupantes de terras vinculados a políticos simpatizantes de Amazonino. Cortou a conversa também com o empresariado. "Ele dizia que só recebia em sua sala representantes de empresas que assinavam cheque", relembra o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB), colega de Mauro Ricardo em cursos de formação de auditor fiscal. Em outras palavras, Mauro Ricardo só conversava com diretores das empresas do polo com efetivo poder decisório, o que excluía muitos interlocutores.
"Ele era um homem sanguíneo, que dançava conforme a música. Se estava tocando valsa, era valsa. Se fosse rock and roll, ele ia para o rock and roll", comenta o presidente do Centro da Indústria do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro, citando como exemplo a negociação em torno da cobrança de uma taxa da Suframa de 1,9% sobre o valor FOB das importações das empresas. No meio do processo, sindicalistas promoveram o enterro simbólico de Mauro Ricardo dentro do Distrito Industrial. O superintendente suspeitou que o protesto contava com o apoio das empresas e suspendeu o diálogo.
Nos seus três anos de Manaus, Mauro Ricardo teve pouco convívio social. "Ele não frequentava restaurantes, bares e festas. E raramente visitava", disse Serafim, que era interlocutor do superintendente na ocasião. Um de seus apoios era Arthur Virgílio, que lembra do empenho de Mauro Ricardo em tocar violão entre seus raros amigos da época.
A profissionalização da Suframa foi uma das marcas deixadas pelo gestor. "Ele nos deu segurança para trabalhar. Criou a base que foi mantida e ampliada pelos superintendentes que o sucederam", comenta o atual superintendente-adjunto da Suframa, Oldemar Iank. Seus sucessores, Antonio Sérgio Mello, Ozias Rodrigues e a atual superintendente, Flavia Grosso, também são eminentemente técnicos.
O que não surtiu efeito foi a tentativa de converter a Zona Franca do mercado interno para o externo. A meta de R$ 1 bilhão de exportações prevista para 1998 só foi atingida dez anos depois. "Ninguém exporta por decreto", comenta Iank. O faturamento anual das empresas do polo, que era de US$ 11,7 bilhões em 1995, caiu para US$ 7,2 bilhões em 1999, ano em que Mauro Ricardo saiu da superintendência para assumir a presidência da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). Em 2009, o faturamento foi de US$ 25,9 bilhões.
Em parte em razão do magro resultado econômico, em parte graças à campanha movida por Amazonino, Mauro Ricardo contribuiu para cristalizar a imagem contrária à Zona Franca de Manaus de que Serra até hoje tenta se desvencilhar. Atual prefeito de Manaus pelo PTB, Amazonino foi procurado pelo Valor, mas não quis conceder entrevista. Há dez anos, em conversa com o jornal, disse o seguinte: "O Mauro não tinha uma visão correta sobre o papel da Zona Franca, mas refletiu o pensamento do governo federal. Quando batia de frente com o governo, em relação às medidas econômicas que afetavam a Zona Franca, ele não sabia o que fazer, aguardava instruções".
Ao sair da Suframa, a autarquia havia sido transferida do Ministério do Planejamento para o do Desenvolvimento, no segundo governo Fernando Henrique. Mauro Ricardo assumiu a presidência da Funasa, já completamente vinculado ao então ministro da Saúde, José Serra. O político tucano era ministro há um ano e o ex-superintendente da Suframa sucedeu a Januário Montone, outro homem de confiança de Serra. Não houve na Funasa o mesmo abalo sísmico que ocorreu em Manaus.
Mauro Ricardo permaneceu em Brasília até janeiro de 2003, quando o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), pediu a Serra uma indicação para a presidência da Copasa, a estatal mineira de saneamento. A intenção de Aécio era transformar a empresa em geradora de caixa para o Estado e atração no mercado de capitais. Serra, que não estava em nenhum cargo público, após a derrota na eleição presidencial de 2002, indicou Mauro Ricardo.
Em Belo Horizonte, o ex-presidente da Funasa assustou os empregados da Copasa com o estilo distante, a cobrança por resultados e a pouca disposição em colher sugestões de gestão da velha guarda da empresa. A Copasa em 2002 teve um prejuízo de R$ 89 milhões. No último ano de Mauro Ricardo na presidência da empresa, em 2004, houve lucro de R$ 253 milhões. A receita subiu de R$ 878 milhões para R$ 1,2 bilhão entre 2002 e 2004.
Ao chegar a São Paulo em 2005, quando Serra assumiu a prefeitura da capital do Estado, Mauro Ricardo comandou um processo traumático, ao lado do então secretário de Planejamento, Francisco Vidal Luna, e do secretário de Negócios Jurídicos da prefeitura, Luiz Marrey Júnior: alegando que a prefeita anterior, Marta Suplicy (PT), havia ordenado gastos da prefeitura sem a devida cobertura orçamentária, Mauro Ricardo suspendeu o pagamento a prestadores de serviço e fornecedores e estabeleceu, unilateralmente, um cronograma de sete anos para o pagamento da dívida. Foi a vez dos paulistas perceberem a pouca disposição de Mauro Ricardo em entrosar-se com empresários, já sentida pelos manauaras nos anos 90.
A receita de São Paulo cresceu 41,1% em termos nominais, entre 2007 e 2009, o tempo de Mauro Ricardo à frente da Secretaria da Fazenda. Novamente o braço direito de Serra chocou a classe empresarial ao recusar-se a receber, várias vezes, dirigentes e empresários antes da tomada de decisões. As mais polêmicas delas foram as substituições tributárias para diversos produtos, um mecanismo pelo qual uma determinada empresa ganha a incumbência de recolher o imposto de sua cadeia de fornecedores.
Mas não se limitou a isso: estabeleceu para os setores que gozavam de benefícios fiscais regimes especiais, que só permitem a inclusão de empresas que não tenham débito, de nenhuma forma com o Estado. Dessa maneira, em caso de um empresário se sentir prejudicado por uma medida e pretender recorrer, ele perderá a sua inclusão no regime.
Limitando seus contatos com a imprensa a temas técnicos, Mauro Ricardo destoou apenas em um episódio: quando comentou a decisão judicial que condenou a 94 anos de prisão a empresária Eliana Tranchesi, considerada culpada por sonegação. "Achei pouco", disse ao jornal "Folha de S. Paulo", propondo a seguir, em tom de brincadeira, a pena de crucificação para os considerados sonegadores. A declaração causa mal-estar até hoje nos meios empresariais de São Paulo. Procurado pelo Valor, por meio de sua assessoria de imprensa, Mauro Ricardo não quis ser entrevistado.
Arrogante, implacável e eficiente. Essa trinca de adjetivos começou a acompanhar o funcionário público Mauro Ricardo Machado Costa, em 1996 quando atual secretário da Fazenda de São Paulo tinha apenas 34 anos. Nome certo para compor um eventual ministério do candidato tucano à Presidência, José Serra, Mauro Ricardo foi deixado naquele ano no comando da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) como uma herança de Serra, que se desincompatibilizava do Ministério do Planejamento para disputar (e perder) a eleição para a Prefeitura de São Paulo, ao sucessor Antonio Kandir.
Em três anos em Manaus, descritos posteriormente por Mauro Ricardo a interlocutores como "os piores da sua vida", o administrador de empresas formado pela Fundação Getúlio Vargas do Rio, viveu um atropelo atrás do outro. Teve desentendimentos com dirigentes locais de empresas, a mídia amazonense, o então governador Amazonino Mendes, que estava no PFL (hoje DEM) e os trabalhadores do polo industrial.
O resultado é reconhecido por aliados e até por adversários do PSDB: nunca mais a autarquia foi a mesma, em termos de poder e de gestão de recursos públicos. Criada no governo Castello Branco em 1967, a Suframa começou a fomentar a produção industrial nos anos 70 e 80, em um modelo que previa cotas de importação, mercados protegidos e benefícios fiscais, tanto para importações quanto para qualquer compra de insumos fora do Amazonas. A Zona Franca tornou-se a produtora exclusiva no Brasil de diversos produtos, de motocicletas a relógios.
O superintendente era uma referência de poder no Estado que rivalizava com os governadores. Conta-se no Estado a polêmica entre Ruy Lins, um superintendente no governo Figueiredo, e o então governador José Lindoso (Arena), na década de 1980. Em uma solenidade, Lins não concedeu a palavra ao governador, que sentiu-se ofendido e pediu a demissão do técnico. Foi ignorado.
Com a redemocratização, a classe política local passou a controlar a autarquia. O primeiro superintendente dessa nova fase, Roberto Cohen, nomeado pelo então governador Gilberto Mestrinho (PMDB), foi demitido em meio ao primeiro escândalo, chamado à época, em 1985, de "crime do colarinho verde". Tratava-se da manipulação do câmbio com a comercialização clandestina de cotas de importação fictícias. Funcionários de escalão inferior foram punidos. Em 1993, outro escândalo, o de vendas simuladas de açúcar para o Estado, levou à demissão do diretor de Mercadorias Nacionais e Internacionais, José Renato Alves, à época cunhado do então prefeito de Manaus, Eduardo Braga, hoje ex-governador e candidato a senador pelo PMDB.
Quando Serra assumiu o Ministério do Planejamento, teve que aceitar na Suframa a permanência de Manoel Rodrigues, um superintendente de confiança de Egberto Batista, que foi secretário do Desenvolvimento Regional no governo Collor. Uma das prioridades de Serra no ministério foi tentar conseguir a demissão de Rodrigues, sustentado pelo governador Amazonino Mendes.
Mauro Ricardo, um auditor fiscal, já começava a exercer o seu papel de interventor. Havia saído da coordenação de programação e logística da Receita Federal em 1993 para ser secretário de administração geral do extinto Ministério do Bem-Estar Social, no último ano do governo Itamar Franco. Caiu nas graças de Serra ao se tornar subsecretário de Planejamento e Orçamento do ministério em 1995.
Ao assumir o cargo, em abril de 1996 na Suframa, o fluminense de Niterói, que jamais trabalhou em seu Estado de origem, tinha um mandato claro: sua missão era acabar com a ingerência política na autarquia e condicionar a aprovação de Processos Produtivos Básicos (PPBs) - conjunto de regras que as interessadas em benefícios fiscais precisam cumprir, comprovando a realização de uma série de etapas da produção dentro do polo - a metas até então ausentes da Zona Franca, como o direcionamento para exportações. Desde 1991 o superintendente perdeu o poder sobre a concessão dos PPBs, que passou para uma comissão interministerial, mas sempre manteve sua influência.
O corte da influência política foi radical e hoje é elogiado até por opositores do PSDB. "Ele fez uma reforma adequada no mérito, exagerada na forma. Puniu o justo e o pecador", comenta Eduardo Braga. A reestruturação levou Amazonino e seus aliados a uma grande pressão junto ao então presidente Fernando Henrique Cardoso pela demissão de Mauro Ricardo. Em maio de 1997 o governador estava prestes a conseguir o seu objetivo, quando a sua citação no escândalo da venda de votos a favor da emenda constitucional da reeleição fragilizou politicamente tanto Amazonino quanto o governo federal.
No processo eleitoral de 1998, houve um recrudescimento da pressão. A atuação de Mauro Ricardo tornou-se o pivô de uma divisão da base governista. A ala de Amazonino pedia a sua substituição e os tucanos o sustentavam. "Foi a única vez em que pensei em romper com Fernando Henrique", diz um de seus defensores à época, o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), que chegou a ser ministro da Secretaria-Geral da Presidência na gestão de FHC.
Mauro Ricardo - o primeiro superintendente a mandar cercar a área do distrito industrial, para impedir invasões - moveu uma ação de reintegração de posse para expulsar ocupantes de terras vinculados a políticos simpatizantes de Amazonino. Cortou a conversa também com o empresariado. "Ele dizia que só recebia em sua sala representantes de empresas que assinavam cheque", relembra o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB), colega de Mauro Ricardo em cursos de formação de auditor fiscal. Em outras palavras, Mauro Ricardo só conversava com diretores das empresas do polo com efetivo poder decisório, o que excluía muitos interlocutores.
"Ele era um homem sanguíneo, que dançava conforme a música. Se estava tocando valsa, era valsa. Se fosse rock and roll, ele ia para o rock and roll", comenta o presidente do Centro da Indústria do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro, citando como exemplo a negociação em torno da cobrança de uma taxa da Suframa de 1,9% sobre o valor FOB das importações das empresas. No meio do processo, sindicalistas promoveram o enterro simbólico de Mauro Ricardo dentro do Distrito Industrial. O superintendente suspeitou que o protesto contava com o apoio das empresas e suspendeu o diálogo.
Nos seus três anos de Manaus, Mauro Ricardo teve pouco convívio social. "Ele não frequentava restaurantes, bares e festas. E raramente visitava", disse Serafim, que era interlocutor do superintendente na ocasião. Um de seus apoios era Arthur Virgílio, que lembra do empenho de Mauro Ricardo em tocar violão entre seus raros amigos da época.
A profissionalização da Suframa foi uma das marcas deixadas pelo gestor. "Ele nos deu segurança para trabalhar. Criou a base que foi mantida e ampliada pelos superintendentes que o sucederam", comenta o atual superintendente-adjunto da Suframa, Oldemar Iank. Seus sucessores, Antonio Sérgio Mello, Ozias Rodrigues e a atual superintendente, Flavia Grosso, também são eminentemente técnicos.
O que não surtiu efeito foi a tentativa de converter a Zona Franca do mercado interno para o externo. A meta de R$ 1 bilhão de exportações prevista para 1998 só foi atingida dez anos depois. "Ninguém exporta por decreto", comenta Iank. O faturamento anual das empresas do polo, que era de US$ 11,7 bilhões em 1995, caiu para US$ 7,2 bilhões em 1999, ano em que Mauro Ricardo saiu da superintendência para assumir a presidência da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). Em 2009, o faturamento foi de US$ 25,9 bilhões.
Em parte em razão do magro resultado econômico, em parte graças à campanha movida por Amazonino, Mauro Ricardo contribuiu para cristalizar a imagem contrária à Zona Franca de Manaus de que Serra até hoje tenta se desvencilhar. Atual prefeito de Manaus pelo PTB, Amazonino foi procurado pelo Valor, mas não quis conceder entrevista. Há dez anos, em conversa com o jornal, disse o seguinte: "O Mauro não tinha uma visão correta sobre o papel da Zona Franca, mas refletiu o pensamento do governo federal. Quando batia de frente com o governo, em relação às medidas econômicas que afetavam a Zona Franca, ele não sabia o que fazer, aguardava instruções".
Ao sair da Suframa, a autarquia havia sido transferida do Ministério do Planejamento para o do Desenvolvimento, no segundo governo Fernando Henrique. Mauro Ricardo assumiu a presidência da Funasa, já completamente vinculado ao então ministro da Saúde, José Serra. O político tucano era ministro há um ano e o ex-superintendente da Suframa sucedeu a Januário Montone, outro homem de confiança de Serra. Não houve na Funasa o mesmo abalo sísmico que ocorreu em Manaus.
Mauro Ricardo permaneceu em Brasília até janeiro de 2003, quando o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), pediu a Serra uma indicação para a presidência da Copasa, a estatal mineira de saneamento. A intenção de Aécio era transformar a empresa em geradora de caixa para o Estado e atração no mercado de capitais. Serra, que não estava em nenhum cargo público, após a derrota na eleição presidencial de 2002, indicou Mauro Ricardo.
Em Belo Horizonte, o ex-presidente da Funasa assustou os empregados da Copasa com o estilo distante, a cobrança por resultados e a pouca disposição em colher sugestões de gestão da velha guarda da empresa. A Copasa em 2002 teve um prejuízo de R$ 89 milhões. No último ano de Mauro Ricardo na presidência da empresa, em 2004, houve lucro de R$ 253 milhões. A receita subiu de R$ 878 milhões para R$ 1,2 bilhão entre 2002 e 2004.
Ao chegar a São Paulo em 2005, quando Serra assumiu a prefeitura da capital do Estado, Mauro Ricardo comandou um processo traumático, ao lado do então secretário de Planejamento, Francisco Vidal Luna, e do secretário de Negócios Jurídicos da prefeitura, Luiz Marrey Júnior: alegando que a prefeita anterior, Marta Suplicy (PT), havia ordenado gastos da prefeitura sem a devida cobertura orçamentária, Mauro Ricardo suspendeu o pagamento a prestadores de serviço e fornecedores e estabeleceu, unilateralmente, um cronograma de sete anos para o pagamento da dívida. Foi a vez dos paulistas perceberem a pouca disposição de Mauro Ricardo em entrosar-se com empresários, já sentida pelos manauaras nos anos 90.
A receita de São Paulo cresceu 41,1% em termos nominais, entre 2007 e 2009, o tempo de Mauro Ricardo à frente da Secretaria da Fazenda. Novamente o braço direito de Serra chocou a classe empresarial ao recusar-se a receber, várias vezes, dirigentes e empresários antes da tomada de decisões. As mais polêmicas delas foram as substituições tributárias para diversos produtos, um mecanismo pelo qual uma determinada empresa ganha a incumbência de recolher o imposto de sua cadeia de fornecedores.
Mas não se limitou a isso: estabeleceu para os setores que gozavam de benefícios fiscais regimes especiais, que só permitem a inclusão de empresas que não tenham débito, de nenhuma forma com o Estado. Dessa maneira, em caso de um empresário se sentir prejudicado por uma medida e pretender recorrer, ele perderá a sua inclusão no regime.
Limitando seus contatos com a imprensa a temas técnicos, Mauro Ricardo destoou apenas em um episódio: quando comentou a decisão judicial que condenou a 94 anos de prisão a empresária Eliana Tranchesi, considerada culpada por sonegação. "Achei pouco", disse ao jornal "Folha de S. Paulo", propondo a seguir, em tom de brincadeira, a pena de crucificação para os considerados sonegadores. A declaração causa mal-estar até hoje nos meios empresariais de São Paulo. Procurado pelo Valor, por meio de sua assessoria de imprensa, Mauro Ricardo não quis ser entrevistado.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Marina e Zona Franca tiram votos de Serra
do "Valor Econômico"
De Manaus
04/06/2010
Está no Amazonas o maior problema eleitoral do presidenciável tucano, o ex-governador paulista José Serra. Sem sequer contar com um candidato a governador que o apoie, Serra tem imagem negativa no Estado em função de sua histórica oposição à política de incentivos da Zona Franca de Manaus, uma dificuldade reconhecida mesmo pelos seus aliados no Estado. O resultado é medido em pesquisas locais de intenção de votos dos 2 milhões de eleitores do Amazonas, que mostram Serra empatado com a presidenciável do PV, a senadora Marina Silva (AC), e com cerca da metade da intenção de votos da petista Dilma Rousseff. Em Manaus, que representa 55% do eleitorado, Serra está em terceiro lugar.
Para piorar a situação tucana, o Amazonas começou a desenvolver uma recente tradição de ser uma fortaleza de votos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em 2006, Lula obteve no Estado 87% dos votos no segundo turno, o maior índice proporcional do país. Em 2002, contra o próprio Serra, Lula conseguiu 69% do total. No primeiro turno daquela eleição, Serra ficou em terceiro no Estado, atrás de Anthony Garotinho, à época no PSB.
"É uma questão crônica, uma das mais graves desta sucessão. Estamos tentando há vários meses construir um palanque para que ele possa se defender de ser contra a Zona Franca de Manaus ou desestruturar a rede de apoios da Dilma. Não estamos conseguindo", comentou o presidente estadual do DEM, o ex-deputado federal Pauderney Avelino. O ex-deputado dispõe-se a ser o candidato serrista no Amazonas, mas a ideia não conta com a simpatia do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que disputa a reeleição.
"Pauderney é importante para conseguirmos ter um deputado federal. Podemos ter um candidato que cumpra uma função didática, para divulgar a aliança", afirmou o tucano. "Serra individualmente tem para presidente mais votos no Amazonas do que qualquer um de nós teria para governador. E deve crescer, quando o eleitorado que opta hoje por Marina Silva refluir. O fundamental é ele quebrar a imagem de ser contra a Zona Franca e isto ele já está fazendo", afirmou Virgílio, que em 2006, candidato a governador, teve 6% dos votos.
Concorrer como candidato ao Senado sem a companhia de um nome para o governo do Estado não é visto como prenúncio de derrota nem por Virgílio, nem por seus adversários. Ele se beneficia pelo fato de serem duas vagas ao Senado. "Tenho muitos apoios na base do governador Omar Aziz (PMN) e do senador Alfredo Nascimento (PR)", referindo-se aos dois protagonistas da disputa pelo governo estadual. "A eleição dele é perfeitamente possível, embora eu vá trabalhar contra isso. Em 2006, também me elegi ao Senado sem candidato a governador. Em 2002, o próprio Virgílio não apoiava ninguém para o governo", disse Nascimento.
A ameaça a Virgílio vem do ex-governador Eduardo Braga (PMDB), organizador da aliança de Aziz, que decidiu montar uma chapa com dois nomes fortes ao Senado: o dele próprio e o da deputada federal Vanessa Grazziotin (PCdoB). Na chapa de Nascimento, há dois candidatos de pouco peso ao Senado: a ex-reitora da Universidade Estadual do Amazonas Marilene Correa (PT) e o senador Jefferson Praia (PDT), que assumiu a vaga no ano retrasado, com a morte do senador Jefferson Péres. O vice na chapa de Alfredo, o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB), é um aliado local de Virgílio. Nas pesquisas, Eduardo Braga aparece com o dobro das intenções de voto de Virgílio e Vanessa, virtualmente empatados.
Em abril, em uma entrevista a um canal local de TV, Serra prometeu tornar os incentivos da Zona Franca perenes. Pela legislação atual, eles caducam em 2013. Foi uma forma de se remeter à origem remota de seus problemas no Estado, que foi a polêmica na Assembleia Nacional Constituinte sobre o prazo de validade dos incentivos. A Zona Franca foi instalada em 1967, no governo do marechal Castello Branco, prevista para durar até 1997. Segundo relembram tanto aliados quanto adversários do tucano, Serra, então relator do capítulo tributário, teria se oposto à prorrogação dos benefícios da Zona Franca. Venceu a posição da bancada do Amazonas. A Zona Franca inicialmente foi prorrogada até 2003, e depois a 2013.
As cerca de 500 empresas instaladas no polo industrial incentivado de Manaus respondem por 90% do PIB do Estado. Quem atua no polo industrial do Amazonas conta com uma série de benefícios fiscais nos três níveis de poder, desde que cumpra um programa chamado hoje de processo produtivo básico (PPB), que prevê um determinado número de etapas da industrialização de algum produto que precisa ser inteiramente concluído em Manaus. Estes benefícios fiscais não podem ser compensados pelos demais Estados para uma série de produtos, como veículos de duas rodas, eletrodomésticos, relógios e outros.
Ao assumir o Ministério do Planejamento, José Serra entrou em atrito com o então governador do Amazonas, Amazonino Mendes, que estava no PFL, atual DEM. Não conseguiu, em um primeiro momento, substituir o então superintendente da Zona Franca, Manoel Rodrigues. Serra defendia mudanças radicais para a Zona Franca: gostaria de converter sua produção para a exportação e reduzir o espectro dos projetos incentivados. Entre 1995 e 1996, anos em que esteve no ministério, foram aprovados 104 projetos para implantação ou ampliação de processos produtivos. Pouco antes de sair da Pasta para concorrer à Prefeitura de São Paulo, Serra conseguiu trocar o superintendente por um assessor seu, o atual secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo Machado Costa. Entre 1997 e 1998, o total de projetos aprovados saltou para 217. Nos dois anos seguintes, com a Zona Franca já sob jurisdição do Ministério do Desenvolvimento, foram avalizados 302 projetos. Entre 2008 e 2009, o total de propostas aceitas foi de 530.
Como governador de São Paulo, Serra manteve a estratégia iniciada por seus antecessores Mário Covas e Geraldo Alckmin na tentativa de captar investimentos para o setor de informática e telefonia celular reduzindo o ICMS. Os governos paulistas conseguem impedir a derrota judicial no Supremo Tribunal Federal (STF), sempre em ações movidas pelos governos do Amazonas, revogando o benefício pouco antes da Justiça tomar uma decisão sobre o caso. Em seguida, reeditam a norma.
A elite empresarial está convencida que Serra não acabará com a Zona Franca. "Há que se entender que Serra foi prefeito e governador de São Paulo e defendeu os interesses do seu Estado. Isso não quer dizer, de forma alguma, que ele agirá assim se chegar à Presidência", comentou o diretor da Technos e presidente do Centro da Indústria do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro. Mas outros setores do eleitorado provavelmente pensam diferente. "Ele diz que não, mas falam que o Serra vai acabar com a Zona Franca. É o que comentam", afirmou o taxista Marcelo Frota, que faz ponto na entrada do Distrito Industrial. Ele se diz disposto a votar em Marina. (CF)
De Manaus
04/06/2010
Está no Amazonas o maior problema eleitoral do presidenciável tucano, o ex-governador paulista José Serra. Sem sequer contar com um candidato a governador que o apoie, Serra tem imagem negativa no Estado em função de sua histórica oposição à política de incentivos da Zona Franca de Manaus, uma dificuldade reconhecida mesmo pelos seus aliados no Estado. O resultado é medido em pesquisas locais de intenção de votos dos 2 milhões de eleitores do Amazonas, que mostram Serra empatado com a presidenciável do PV, a senadora Marina Silva (AC), e com cerca da metade da intenção de votos da petista Dilma Rousseff. Em Manaus, que representa 55% do eleitorado, Serra está em terceiro lugar.
Para piorar a situação tucana, o Amazonas começou a desenvolver uma recente tradição de ser uma fortaleza de votos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em 2006, Lula obteve no Estado 87% dos votos no segundo turno, o maior índice proporcional do país. Em 2002, contra o próprio Serra, Lula conseguiu 69% do total. No primeiro turno daquela eleição, Serra ficou em terceiro no Estado, atrás de Anthony Garotinho, à época no PSB.
"É uma questão crônica, uma das mais graves desta sucessão. Estamos tentando há vários meses construir um palanque para que ele possa se defender de ser contra a Zona Franca de Manaus ou desestruturar a rede de apoios da Dilma. Não estamos conseguindo", comentou o presidente estadual do DEM, o ex-deputado federal Pauderney Avelino. O ex-deputado dispõe-se a ser o candidato serrista no Amazonas, mas a ideia não conta com a simpatia do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que disputa a reeleição.
"Pauderney é importante para conseguirmos ter um deputado federal. Podemos ter um candidato que cumpra uma função didática, para divulgar a aliança", afirmou o tucano. "Serra individualmente tem para presidente mais votos no Amazonas do que qualquer um de nós teria para governador. E deve crescer, quando o eleitorado que opta hoje por Marina Silva refluir. O fundamental é ele quebrar a imagem de ser contra a Zona Franca e isto ele já está fazendo", afirmou Virgílio, que em 2006, candidato a governador, teve 6% dos votos.
Concorrer como candidato ao Senado sem a companhia de um nome para o governo do Estado não é visto como prenúncio de derrota nem por Virgílio, nem por seus adversários. Ele se beneficia pelo fato de serem duas vagas ao Senado. "Tenho muitos apoios na base do governador Omar Aziz (PMN) e do senador Alfredo Nascimento (PR)", referindo-se aos dois protagonistas da disputa pelo governo estadual. "A eleição dele é perfeitamente possível, embora eu vá trabalhar contra isso. Em 2006, também me elegi ao Senado sem candidato a governador. Em 2002, o próprio Virgílio não apoiava ninguém para o governo", disse Nascimento.
A ameaça a Virgílio vem do ex-governador Eduardo Braga (PMDB), organizador da aliança de Aziz, que decidiu montar uma chapa com dois nomes fortes ao Senado: o dele próprio e o da deputada federal Vanessa Grazziotin (PCdoB). Na chapa de Nascimento, há dois candidatos de pouco peso ao Senado: a ex-reitora da Universidade Estadual do Amazonas Marilene Correa (PT) e o senador Jefferson Praia (PDT), que assumiu a vaga no ano retrasado, com a morte do senador Jefferson Péres. O vice na chapa de Alfredo, o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB), é um aliado local de Virgílio. Nas pesquisas, Eduardo Braga aparece com o dobro das intenções de voto de Virgílio e Vanessa, virtualmente empatados.
Em abril, em uma entrevista a um canal local de TV, Serra prometeu tornar os incentivos da Zona Franca perenes. Pela legislação atual, eles caducam em 2013. Foi uma forma de se remeter à origem remota de seus problemas no Estado, que foi a polêmica na Assembleia Nacional Constituinte sobre o prazo de validade dos incentivos. A Zona Franca foi instalada em 1967, no governo do marechal Castello Branco, prevista para durar até 1997. Segundo relembram tanto aliados quanto adversários do tucano, Serra, então relator do capítulo tributário, teria se oposto à prorrogação dos benefícios da Zona Franca. Venceu a posição da bancada do Amazonas. A Zona Franca inicialmente foi prorrogada até 2003, e depois a 2013.
As cerca de 500 empresas instaladas no polo industrial incentivado de Manaus respondem por 90% do PIB do Estado. Quem atua no polo industrial do Amazonas conta com uma série de benefícios fiscais nos três níveis de poder, desde que cumpra um programa chamado hoje de processo produtivo básico (PPB), que prevê um determinado número de etapas da industrialização de algum produto que precisa ser inteiramente concluído em Manaus. Estes benefícios fiscais não podem ser compensados pelos demais Estados para uma série de produtos, como veículos de duas rodas, eletrodomésticos, relógios e outros.
Ao assumir o Ministério do Planejamento, José Serra entrou em atrito com o então governador do Amazonas, Amazonino Mendes, que estava no PFL, atual DEM. Não conseguiu, em um primeiro momento, substituir o então superintendente da Zona Franca, Manoel Rodrigues. Serra defendia mudanças radicais para a Zona Franca: gostaria de converter sua produção para a exportação e reduzir o espectro dos projetos incentivados. Entre 1995 e 1996, anos em que esteve no ministério, foram aprovados 104 projetos para implantação ou ampliação de processos produtivos. Pouco antes de sair da Pasta para concorrer à Prefeitura de São Paulo, Serra conseguiu trocar o superintendente por um assessor seu, o atual secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo Machado Costa. Entre 1997 e 1998, o total de projetos aprovados saltou para 217. Nos dois anos seguintes, com a Zona Franca já sob jurisdição do Ministério do Desenvolvimento, foram avalizados 302 projetos. Entre 2008 e 2009, o total de propostas aceitas foi de 530.
Como governador de São Paulo, Serra manteve a estratégia iniciada por seus antecessores Mário Covas e Geraldo Alckmin na tentativa de captar investimentos para o setor de informática e telefonia celular reduzindo o ICMS. Os governos paulistas conseguem impedir a derrota judicial no Supremo Tribunal Federal (STF), sempre em ações movidas pelos governos do Amazonas, revogando o benefício pouco antes da Justiça tomar uma decisão sobre o caso. Em seguida, reeditam a norma.
A elite empresarial está convencida que Serra não acabará com a Zona Franca. "Há que se entender que Serra foi prefeito e governador de São Paulo e defendeu os interesses do seu Estado. Isso não quer dizer, de forma alguma, que ele agirá assim se chegar à Presidência", comentou o diretor da Technos e presidente do Centro da Indústria do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro. Mas outros setores do eleitorado provavelmente pensam diferente. "Ele diz que não, mas falam que o Serra vai acabar com a Zona Franca. É o que comentam", afirmou o taxista Marcelo Frota, que faz ponto na entrada do Distrito Industrial. Ele se diz disposto a votar em Marina. (CF)
Comendo jaraqui
Lula hoje está em Manaus. E , segundo consta, foi mais simpático com Alfredo Nascimento do que com Omar Aziz. Há doze dias, o Valor Econômico publicou a seguinte matéria minha, que transcrevo abaixo:
"O apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenciável petista Dilma Rousseff será o fator de desequilíbrio na disputa pelo governo do Amazonas. Lula e Dilma são disputados pelos dois principais pré-candidatos ao governo estadual, o governador Omar Aziz (PMN) e o senador Alfredo Nascimento (PR). Estado que proporcionalmente tem o maior PIB industrial do Brasil, em função da Zona Franca de Manaus, o Amazonas politicamente não sai da órbita federal desde 1982.
"Isto acontece porque o poder do governo é muito grande no Amazonas. Nos outros Estados, a iniciativa privada contrabalança este poder. Mas os empresários que atuam na Zona Franca não estão aqui, e sim em São Paulo ou até no Japão. Não há um único amazonense dono de uma indústria de grande porte", explica Nascimento, que foi ministro dos Transportes até abril. O apoio de Lula é estratégico porque a Presidência da República, que controla a Zona Franca de Manaus, é a única instância a se contrapor ao governo estadual. "O Amazonas é o Estado mais federalizado do Brasil. A Zona Franca é 90% da economia e está sob controle de Brasília", afirma a deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB), pré-candidata ao Senado na chapa de Aziz e empenhada em tentar inviabilizar o apoio exclusivo de Lula e Dilma a Nascimento.
Segundo dados das Contas Regionais do IBGE de 2007, que são os últimos disponíveis, o PIB da indústria de transformação no Amazonas era maior do que a soma de outros oito Estados. Em termos absolutos, só perdia para o da Bahia nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A contribuição da indústria no PIB regional era de 27,3%, ante 19,1% em São Paulo ou 16,2% no Rio Grande do Sul. Mas são raros os tomadores de decisão que ficam no polo industrial do Estado. Segundo o anuário "Valor 1000" de 2009, no setor de indústria, a maior empresa é a Moto Honda, de capital japonês. A segunda é a LG, coreana. A terceira é a americana Procter & Gamble. A quarta é a Semp Toshiba. A quinta, Videolar, é sediada em Barueri (SP). Seu dono, o gaúcho Lirio Parisotto, está cotado para ser o segundo suplente na chapa do ex-governador Eduardo Braga (PMDB) ao Senado.
Ruy Baron/Valor
Nascimento: "O PT está coligado comigo e Dilma e Lula só podem gravar para mim"
O Amazonas foi o palco da maior vitória proporcional de Lula em 2006, quando ele obteve no Estado 87% dos votos no segundo turno. Com o apoio do PMDB e do PCdoB, Omar Aziz reivindica a neutralidade da candidata presidencial na disputa com Nascimento, que está aliado ao PT, PSB e PDT. "Deixei claro para a Dilma que vou lutar pela eleição dela. Ela representa a continuidade de um governo e eu também", afirma Aziz, filho de palestinos que foi vice-governador nos dois mandatos de Braga e vice-prefeito durante a gestão de Nascimento em Manaus.
Completamente vinculado ao ex-governador, Aziz fez questão de conceder entrevista ao lado de Braga. O pemedebista sugeriu uma fórmula de convivência e fez uma ameaça velada: "Quem organiza o palanque de um candidato a presidente é o próprio candidato. Se o presidente ou a Dilma vierem a Manaus, convidam a base para estar junto deles. O Omar é integrante desta base e nós queremos respeito e reciprocidade."
Em 2006, Lula conseguiu demover Nascimento de se candidatar ao governo do Amazonas, abrindo caminho para a reeleição de Braga. Nascimento lançou-se candidato ao Senado contando com o apoio de Lula em 2010, que está se materializando com a aliança com o PT. No mês passado, em um acordo patrocinado pelo Planalto, o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB) retirou a sua candidatura ao governo estadual para ser vice do senador. Braga diz que não houve acordo nenhum com ele. "Isso não pode ser construído em Brasília. O senador não pactuou nada aqui no Estado", diz o pemedebista.
Graças a Braga, Aziz recebeu o apoio de toda a base que sustentava o antigo governador: conta com seis dos oito deputados federais, 20 dos 24 deputados estaduais e a esmagadora maioria dos prefeitos, entre eles o de Manaus, o por três vezes governador do Amazonas Amazonino Mendes (PTB). Impedido de se candidatar este ano ao perder o controle de seu partido e ter um vice, Carlos Souza, irmão do ex-deputado estadual Wallace Souza, que está preso e acusado de comandar um grupo de extermínio, Amazonino indicou em declarações à imprensa local que ficará neutro. Mas na semana passada participou de um evento em Tefé, no interior do Estado, ao lado de Braga e Aziz. Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, Amazonino não retornou os pedidos de entrevista.
Nascimento tentará a exclusividade do palanque. "É o tempo que mostrará isso. O palanque duplo é complicado porque minha campanha será de oposição ao governo estadual. O PT está coligado comigo e Dilma e Lula só podem gravar na televisão para mim. O compromisso do Lula é comigo e com o Eduardo (Braga), não com o Aziz", diz Nascimento. Ligeiramente à frente nas pesquisas locais de intenção de voto, Nascimento tentará um feito raro no Estado: desde 1982, quando Gilberto Mestrinho retornou ao poder pelo PMDB, a máquina estadual não é derrotada nas eleições locais. Em 1986, Mestrinho ajudou a eleger Amazonino. Em 1990, Amazonino devolveu a gentileza a Mestrinho. Em 1994, Mestrinho ficou neutro e Amazonino retornou ao poder, reelegendo-se em 1998. Em 2002, surpreendeu ao apoiar Eduardo Braga, que estava na oposição. Em 2006, Braga se reelegeu.
A dependência federal é a chave que explica as votações retumbantes de Lula nas eleições de 2002 e 2006. Em 1994 e 1998, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso ganhar por maioria absoluta as votações no Amazonas. Indicado pelo PSB para ser vice na chapa de Nascimento, Serafim Corrêa afirma que houve ainda um investimento pessoal de Lula no passado e a ampliação dos programas federais no presente. "Lula nos anos 80 vinha aqui, fora da época de campanha, comer jaraqui (um peixe) com baião de dois no bar do galo Carijó. Em 1989 colocou 100 mil votos à frente de Brizola que foram essenciais para ele ir ao segundo turno", diz.
Naquela eleição, Lula teve 20% dos votos no Amazonas, resultado acima da sua média nacional, que foi de 16,5%, ou meio ponto percentual à frente de Leonel Brizola (PDT), o terceiro colocado. Como presidente, Lula ampliou nos últimos cinco anos de 15 mil para 115 mil o número de famílias atendidos pelo Bolsa Família no Estado. A força de Lula, contudo, jamais tornou o PT um partido relevante no Estado.
"Lula é bem querido aqui por uma razão bem simples: ele viajou muito para cá, navegou por todo o interior, nas caravanas da Cidadania. E se beneficiou nas últimas eleições pela demonização dos candidatos paulistas, como Geraldo Alckmin e José Serra", sintetiza um dos mais destacados adversários do presidente, o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM).
"O apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenciável petista Dilma Rousseff será o fator de desequilíbrio na disputa pelo governo do Amazonas. Lula e Dilma são disputados pelos dois principais pré-candidatos ao governo estadual, o governador Omar Aziz (PMN) e o senador Alfredo Nascimento (PR). Estado que proporcionalmente tem o maior PIB industrial do Brasil, em função da Zona Franca de Manaus, o Amazonas politicamente não sai da órbita federal desde 1982.
"Isto acontece porque o poder do governo é muito grande no Amazonas. Nos outros Estados, a iniciativa privada contrabalança este poder. Mas os empresários que atuam na Zona Franca não estão aqui, e sim em São Paulo ou até no Japão. Não há um único amazonense dono de uma indústria de grande porte", explica Nascimento, que foi ministro dos Transportes até abril. O apoio de Lula é estratégico porque a Presidência da República, que controla a Zona Franca de Manaus, é a única instância a se contrapor ao governo estadual. "O Amazonas é o Estado mais federalizado do Brasil. A Zona Franca é 90% da economia e está sob controle de Brasília", afirma a deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB), pré-candidata ao Senado na chapa de Aziz e empenhada em tentar inviabilizar o apoio exclusivo de Lula e Dilma a Nascimento.
Segundo dados das Contas Regionais do IBGE de 2007, que são os últimos disponíveis, o PIB da indústria de transformação no Amazonas era maior do que a soma de outros oito Estados. Em termos absolutos, só perdia para o da Bahia nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A contribuição da indústria no PIB regional era de 27,3%, ante 19,1% em São Paulo ou 16,2% no Rio Grande do Sul. Mas são raros os tomadores de decisão que ficam no polo industrial do Estado. Segundo o anuário "Valor 1000" de 2009, no setor de indústria, a maior empresa é a Moto Honda, de capital japonês. A segunda é a LG, coreana. A terceira é a americana Procter & Gamble. A quarta é a Semp Toshiba. A quinta, Videolar, é sediada em Barueri (SP). Seu dono, o gaúcho Lirio Parisotto, está cotado para ser o segundo suplente na chapa do ex-governador Eduardo Braga (PMDB) ao Senado.
Ruy Baron/Valor
Nascimento: "O PT está coligado comigo e Dilma e Lula só podem gravar para mim"
O Amazonas foi o palco da maior vitória proporcional de Lula em 2006, quando ele obteve no Estado 87% dos votos no segundo turno. Com o apoio do PMDB e do PCdoB, Omar Aziz reivindica a neutralidade da candidata presidencial na disputa com Nascimento, que está aliado ao PT, PSB e PDT. "Deixei claro para a Dilma que vou lutar pela eleição dela. Ela representa a continuidade de um governo e eu também", afirma Aziz, filho de palestinos que foi vice-governador nos dois mandatos de Braga e vice-prefeito durante a gestão de Nascimento em Manaus.
Completamente vinculado ao ex-governador, Aziz fez questão de conceder entrevista ao lado de Braga. O pemedebista sugeriu uma fórmula de convivência e fez uma ameaça velada: "Quem organiza o palanque de um candidato a presidente é o próprio candidato. Se o presidente ou a Dilma vierem a Manaus, convidam a base para estar junto deles. O Omar é integrante desta base e nós queremos respeito e reciprocidade."
Em 2006, Lula conseguiu demover Nascimento de se candidatar ao governo do Amazonas, abrindo caminho para a reeleição de Braga. Nascimento lançou-se candidato ao Senado contando com o apoio de Lula em 2010, que está se materializando com a aliança com o PT. No mês passado, em um acordo patrocinado pelo Planalto, o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB) retirou a sua candidatura ao governo estadual para ser vice do senador. Braga diz que não houve acordo nenhum com ele. "Isso não pode ser construído em Brasília. O senador não pactuou nada aqui no Estado", diz o pemedebista.
Graças a Braga, Aziz recebeu o apoio de toda a base que sustentava o antigo governador: conta com seis dos oito deputados federais, 20 dos 24 deputados estaduais e a esmagadora maioria dos prefeitos, entre eles o de Manaus, o por três vezes governador do Amazonas Amazonino Mendes (PTB). Impedido de se candidatar este ano ao perder o controle de seu partido e ter um vice, Carlos Souza, irmão do ex-deputado estadual Wallace Souza, que está preso e acusado de comandar um grupo de extermínio, Amazonino indicou em declarações à imprensa local que ficará neutro. Mas na semana passada participou de um evento em Tefé, no interior do Estado, ao lado de Braga e Aziz. Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, Amazonino não retornou os pedidos de entrevista.
Nascimento tentará a exclusividade do palanque. "É o tempo que mostrará isso. O palanque duplo é complicado porque minha campanha será de oposição ao governo estadual. O PT está coligado comigo e Dilma e Lula só podem gravar na televisão para mim. O compromisso do Lula é comigo e com o Eduardo (Braga), não com o Aziz", diz Nascimento. Ligeiramente à frente nas pesquisas locais de intenção de voto, Nascimento tentará um feito raro no Estado: desde 1982, quando Gilberto Mestrinho retornou ao poder pelo PMDB, a máquina estadual não é derrotada nas eleições locais. Em 1986, Mestrinho ajudou a eleger Amazonino. Em 1990, Amazonino devolveu a gentileza a Mestrinho. Em 1994, Mestrinho ficou neutro e Amazonino retornou ao poder, reelegendo-se em 1998. Em 2002, surpreendeu ao apoiar Eduardo Braga, que estava na oposição. Em 2006, Braga se reelegeu.
A dependência federal é a chave que explica as votações retumbantes de Lula nas eleições de 2002 e 2006. Em 1994 e 1998, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso ganhar por maioria absoluta as votações no Amazonas. Indicado pelo PSB para ser vice na chapa de Nascimento, Serafim Corrêa afirma que houve ainda um investimento pessoal de Lula no passado e a ampliação dos programas federais no presente. "Lula nos anos 80 vinha aqui, fora da época de campanha, comer jaraqui (um peixe) com baião de dois no bar do galo Carijó. Em 1989 colocou 100 mil votos à frente de Brizola que foram essenciais para ele ir ao segundo turno", diz.
Naquela eleição, Lula teve 20% dos votos no Amazonas, resultado acima da sua média nacional, que foi de 16,5%, ou meio ponto percentual à frente de Leonel Brizola (PDT), o terceiro colocado. Como presidente, Lula ampliou nos últimos cinco anos de 15 mil para 115 mil o número de famílias atendidos pelo Bolsa Família no Estado. A força de Lula, contudo, jamais tornou o PT um partido relevante no Estado.
"Lula é bem querido aqui por uma razão bem simples: ele viajou muito para cá, navegou por todo o interior, nas caravanas da Cidadania. E se beneficiou nas últimas eleições pela demonização dos candidatos paulistas, como Geraldo Alckmin e José Serra", sintetiza um dos mais destacados adversários do presidente, o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM).
terça-feira, 8 de junho de 2010
Rumo a 1902!
Como entender o PT mineiro? O que tinha em mente o ex-prefeito Fernando Pimentel e seus aliados quando radicalizaram na tese da candidatura própria no último fim de semana, apenas para figurarem publicamente, na condição de derrotados, no dia seguinte em Brasília?
O acordo para apoiar Hélio Costa estava decidido desde fevereiro, quando o PT nacional avocou para si a última palavra sobre as alianças. Lula decidiu este ano reavivar a política dos coronéis, a grande novidade na sucessão brasileira de 1902.
Funcionou assim: o então presidente Campos Salles exigiu dos governadores apoio incondicional ao seu escolhido para a sucessão, Rodrigues Alves. Em troca, dava carta branca para os caciques regionais pintarem e bordarem em seus Estados. O soba alagoano, ou baiano, goiano, ou paranaense, replicava isso com os chefetes municipais.
O coronelismo ganhava então o encadeamento perfeito: Nhô Fulano mandava seus agregados obedecerem ao prefeito, o coronel Sicrano, que batia continência para o governador Beltrano, que exaltava em glória o presidente. E a onda voltava: o palácio do Catete fechava os olhos aos desmandos da província e assim por diante.
Lula agora fez uma reedição modernizada e atenuada desta prática: recebe o apoio de Sarney, Hélio Costa, Sérgio Cabral, Iris Rezende e outros vultos do PMDB, e em troca os apóia. Taí. Desta vez ele não pode dizer o seu famoso "nunca na história deste País".
O acordo para apoiar Hélio Costa estava decidido desde fevereiro, quando o PT nacional avocou para si a última palavra sobre as alianças. Lula decidiu este ano reavivar a política dos coronéis, a grande novidade na sucessão brasileira de 1902.
Funcionou assim: o então presidente Campos Salles exigiu dos governadores apoio incondicional ao seu escolhido para a sucessão, Rodrigues Alves. Em troca, dava carta branca para os caciques regionais pintarem e bordarem em seus Estados. O soba alagoano, ou baiano, goiano, ou paranaense, replicava isso com os chefetes municipais.
O coronelismo ganhava então o encadeamento perfeito: Nhô Fulano mandava seus agregados obedecerem ao prefeito, o coronel Sicrano, que batia continência para o governador Beltrano, que exaltava em glória o presidente. E a onda voltava: o palácio do Catete fechava os olhos aos desmandos da província e assim por diante.
Lula agora fez uma reedição modernizada e atenuada desta prática: recebe o apoio de Sarney, Hélio Costa, Sérgio Cabral, Iris Rezende e outros vultos do PMDB, e em troca os apóia. Taí. Desta vez ele não pode dizer o seu famoso "nunca na história deste País".
História viva
Mendes Júnior 'ressuscita' com Belo Monte
César Felicio, de Belo Horizonte
17/05/2010
O leilão para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte conclui o processo de virtual ressurreição da empreiteira Mendes Júnior, empresa mineira que tocou as principais obras de infraestrutura durante o regime militar e que afundou em uma série de pendências judiciais com o setor público e o privado durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Dona de uma fatia de 3,75% no consórcio Norte Energia, a empreiteira já tenta articular a ampliação da sua participação, afirmou Jésus Murillo Vale Mendes, 84 anos, que permanece no comando da empresa.
A Mendes Júnior Trading cruzou no ano passado a fronteira do bilhão, ao atingir R$ 1,3 bilhão de faturamento em 2009. Conta com uma carteira de R$ 4,3 bilhões, sendo R$ 3 bilhões a receber ao longo dos próximos anos. Assim como em seu período áureo, mais uma vez é o poder público que exerce a função de pulmão da empresa. A Petrobras responde por metade dos valores a faturar. Obras públicas de infraestrutura equivalem a um terço do total.
O setor privado deve garantir 20% do faturamento da Mendes nos próximos anos, com os contratos em curso. A Mendes Júnior disputa as obras de expansão da Vale em Carajás (PA) e Itabirito (MG), que devem ter as empreiteiras escolhidas este ano. O empresário quer crescer com contratos para a reforma de estádios para a Copa do Mundo de 2014. Já ganhou a obra para a construção da arena de Cuiabá e pretende levar outras sete empreitadas. "Temos como pensar em uma carteira de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões com a nossa atual capacidade."
Murillo Mendes não vê riscos em uma nova dependência do poder público. "Os agentes públicos de hoje são diferentes, porque as circunstâncias são outras. Os governantes , em princípio, querem fazer o bem para todo mundo, mas o governo é um animal selvagem. Os órgãos controladores, entretanto, se desenvolveram", comenta o empresário. O vigor das instituições, de acordo com Mendes, "permite o nível mínimo de hipocrisia para a vida social fazer-se possível".
É longa a relação de Murillo Mendes com o meio político, e ela promete continuar. Nos anos 60, segundo o próprio empresário, a empresa foi uma das financiadoras das campanhas de San Thiago Dantas (1911-1964), político do PTB que foi ministro da Fazenda no governo Goulart. Em 1978, financiou a campanha de Tancredo Neves ao Senado pelo MDB, mesmo com o bom entrosamento da empresa com o regime militar. No final dos anos 80, o empresário destacou-se pela amizade com o então presidente José Sarney (hoje no PMDB). Este ano, esteve em um almoço-palestra de empresários com o presidenciável José Serra (PSDB), promovido pela Fiemg. "Antes não havia mídia eletrônica e as campanhas eram muito baratas. Agora os políticos são verdadeiros astros pop e isso precisa ser financiado de alguma maneira. A vida da gente é transacional, sempre existem os interesses. Sem apoio político, qualquer empresa de construção pesada terá dificuldades", disse.
Há seis anos, Murillo Mendes escreveu "Quebra de Contrato", um livro co-assinado com o jornalista Leonardo Attuch em que responsabilizava o governo Fernando Henrique, em especial o Banco do Brasil, pelos problemas econômicos que quase levaram à falência do conglomerado.
No consórcio de Belo Monte, o grupo é sócio de uma de suas contendoras judiciais a Cia. Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), a quem acusa desde 1988 de ter provocado prejuízos ao atrasar pagamentos para a construção da usina de Itaparica. Responsável por 49% do consórcio, a Chesf impôs ao sócio minoritário uma importante derrota no 5º Tribunal Regional Federal, do Recife, apenas dez dias depois do leilão da megahidrelétrica de Belo Monte.
Aquela corte rejeitou o embargo declaratório da Mendes Júnior que contestava a decisão de se anular a condenação da Chesf a pagar a indenização retroativamente a juros de mercado. O valor estimado por uma perícia contábil para a indenização era surrealista: nada menos que R$ 1,2 trilhão, segundo a estatal. A Chesf alega no processo que a Mendes Júnior nunca comprovou que fez captações no mercado para financiar as obras de Itaparica. A empreiteira afirmou que irá recorrer ao Superior Tribunal de Justiça. Na concorrência para Belo Monte, a Chesf em nenhum momento fez objeções à participação da Mendes Júnior, segundo Murillo Mendes.
"A Mendes Júnior Trading e Engenharia é uma pessoa jurídica distinta da Mendes Júnior Engenharia, que está processando a Chesf. Não havia porque fazer restrições. A relação está sendo boa", disse o empresário. Além da causa judicial com a Chesf, a Mendes Júnior Engenharia ainda terça armas com o Banco do Brasil nas justiças do Brasil e dos Estados Unidos em função da dívida contraída no Iraque. Na ocasião, a Mendes Junior passou a se financiar com a instituição financeira, diante da inadimplência do governo de Saddam Hussein, então o principal fornecedor de petróleo ao Brasil. Com a ruptura de relações entre Brasil e Iraque, o BB decidiu executar a Mendes Junior pela dívida não paga em 1995. A empreiteira processa o BB na justiça norte-americana por danos morais e materiais desde 1996. Existente apenas para lidar com mais de uma centena de contenciosos e com a venda de cotas em fundos de direitos creditórios, a Mendes Junior Engenharia não é mais operacional.
Apesar do foco direcionado para o mercado doméstico, a empresa planeja voltar a atuar no exterior, prestando serviços para a Petrobras. "Nosso grande ativo é a mão de obra profissionalizada que temos e sabemos que a Petrobras pretende extrair na costa oeste da África, em Angola, Guiné e na Nigéria", comenta o vice-presidente da empresa, Sérgio Mendes, que é sobrinho do empresário mineiro.
Outra diretriz é procurar crescer em São Paulo, a sede formal da Mendes Junior Trading, embora o comando da empresa fique em Belo Horizonte. "Nossa carteira de obras lá é pequena, mas o potencial é muito grande. São Paulo é o grande vetor da construção pesada. Quem não se estabelece em São Paulo, não existe", afirmou Murillo Mendes.
César Felicio, de Belo Horizonte
17/05/2010
O leilão para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte conclui o processo de virtual ressurreição da empreiteira Mendes Júnior, empresa mineira que tocou as principais obras de infraestrutura durante o regime militar e que afundou em uma série de pendências judiciais com o setor público e o privado durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Dona de uma fatia de 3,75% no consórcio Norte Energia, a empreiteira já tenta articular a ampliação da sua participação, afirmou Jésus Murillo Vale Mendes, 84 anos, que permanece no comando da empresa.
A Mendes Júnior Trading cruzou no ano passado a fronteira do bilhão, ao atingir R$ 1,3 bilhão de faturamento em 2009. Conta com uma carteira de R$ 4,3 bilhões, sendo R$ 3 bilhões a receber ao longo dos próximos anos. Assim como em seu período áureo, mais uma vez é o poder público que exerce a função de pulmão da empresa. A Petrobras responde por metade dos valores a faturar. Obras públicas de infraestrutura equivalem a um terço do total.
O setor privado deve garantir 20% do faturamento da Mendes nos próximos anos, com os contratos em curso. A Mendes Júnior disputa as obras de expansão da Vale em Carajás (PA) e Itabirito (MG), que devem ter as empreiteiras escolhidas este ano. O empresário quer crescer com contratos para a reforma de estádios para a Copa do Mundo de 2014. Já ganhou a obra para a construção da arena de Cuiabá e pretende levar outras sete empreitadas. "Temos como pensar em uma carteira de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões com a nossa atual capacidade."
Murillo Mendes não vê riscos em uma nova dependência do poder público. "Os agentes públicos de hoje são diferentes, porque as circunstâncias são outras. Os governantes , em princípio, querem fazer o bem para todo mundo, mas o governo é um animal selvagem. Os órgãos controladores, entretanto, se desenvolveram", comenta o empresário. O vigor das instituições, de acordo com Mendes, "permite o nível mínimo de hipocrisia para a vida social fazer-se possível".
É longa a relação de Murillo Mendes com o meio político, e ela promete continuar. Nos anos 60, segundo o próprio empresário, a empresa foi uma das financiadoras das campanhas de San Thiago Dantas (1911-1964), político do PTB que foi ministro da Fazenda no governo Goulart. Em 1978, financiou a campanha de Tancredo Neves ao Senado pelo MDB, mesmo com o bom entrosamento da empresa com o regime militar. No final dos anos 80, o empresário destacou-se pela amizade com o então presidente José Sarney (hoje no PMDB). Este ano, esteve em um almoço-palestra de empresários com o presidenciável José Serra (PSDB), promovido pela Fiemg. "Antes não havia mídia eletrônica e as campanhas eram muito baratas. Agora os políticos são verdadeiros astros pop e isso precisa ser financiado de alguma maneira. A vida da gente é transacional, sempre existem os interesses. Sem apoio político, qualquer empresa de construção pesada terá dificuldades", disse.
Há seis anos, Murillo Mendes escreveu "Quebra de Contrato", um livro co-assinado com o jornalista Leonardo Attuch em que responsabilizava o governo Fernando Henrique, em especial o Banco do Brasil, pelos problemas econômicos que quase levaram à falência do conglomerado.
No consórcio de Belo Monte, o grupo é sócio de uma de suas contendoras judiciais a Cia. Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), a quem acusa desde 1988 de ter provocado prejuízos ao atrasar pagamentos para a construção da usina de Itaparica. Responsável por 49% do consórcio, a Chesf impôs ao sócio minoritário uma importante derrota no 5º Tribunal Regional Federal, do Recife, apenas dez dias depois do leilão da megahidrelétrica de Belo Monte.
Aquela corte rejeitou o embargo declaratório da Mendes Júnior que contestava a decisão de se anular a condenação da Chesf a pagar a indenização retroativamente a juros de mercado. O valor estimado por uma perícia contábil para a indenização era surrealista: nada menos que R$ 1,2 trilhão, segundo a estatal. A Chesf alega no processo que a Mendes Júnior nunca comprovou que fez captações no mercado para financiar as obras de Itaparica. A empreiteira afirmou que irá recorrer ao Superior Tribunal de Justiça. Na concorrência para Belo Monte, a Chesf em nenhum momento fez objeções à participação da Mendes Júnior, segundo Murillo Mendes.
"A Mendes Júnior Trading e Engenharia é uma pessoa jurídica distinta da Mendes Júnior Engenharia, que está processando a Chesf. Não havia porque fazer restrições. A relação está sendo boa", disse o empresário. Além da causa judicial com a Chesf, a Mendes Júnior Engenharia ainda terça armas com o Banco do Brasil nas justiças do Brasil e dos Estados Unidos em função da dívida contraída no Iraque. Na ocasião, a Mendes Junior passou a se financiar com a instituição financeira, diante da inadimplência do governo de Saddam Hussein, então o principal fornecedor de petróleo ao Brasil. Com a ruptura de relações entre Brasil e Iraque, o BB decidiu executar a Mendes Junior pela dívida não paga em 1995. A empreiteira processa o BB na justiça norte-americana por danos morais e materiais desde 1996. Existente apenas para lidar com mais de uma centena de contenciosos e com a venda de cotas em fundos de direitos creditórios, a Mendes Junior Engenharia não é mais operacional.
Apesar do foco direcionado para o mercado doméstico, a empresa planeja voltar a atuar no exterior, prestando serviços para a Petrobras. "Nosso grande ativo é a mão de obra profissionalizada que temos e sabemos que a Petrobras pretende extrair na costa oeste da África, em Angola, Guiné e na Nigéria", comenta o vice-presidente da empresa, Sérgio Mendes, que é sobrinho do empresário mineiro.
Outra diretriz é procurar crescer em São Paulo, a sede formal da Mendes Junior Trading, embora o comando da empresa fique em Belo Horizonte. "Nossa carteira de obras lá é pequena, mas o potencial é muito grande. São Paulo é o grande vetor da construção pesada. Quem não se estabelece em São Paulo, não existe", afirmou Murillo Mendes.
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