terça-feira, 18 de maio de 2010

No , you can't

Aparentemente, a voz do Império ecoou ontem. Os Estados Unidos, "de la noche a la mañana", como transcreveu a matéria do "El País" que eu coloco a seguir, articulou-se com Rússia e China para barrar a iniciativa de paz de Brasil e Turquia com o Irã. Com a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, Obama irá mostrar quem é que manda no estabelecimento.
A confirmar-se este roteiro, estaremos diante de um episódio de muitos ensinamentos:
1. EUA não aceita que países intermediários tornem-se mediadores fora de suas regiões. Por isso foi necessário anular a iniciativa de Lula e Erdogan. Brasil e Turquia precisavam ser recolhidos à insignificância que os caracteriza.
2. A adesão de Rússia e China mostra que a disposição dos outros integrantes do Conselho de Segurança de abrir o leque de poder diplomático internacional é zero.
3. Lula poderá sair do episódio como voluntarista e ingênuo.
4. A corda se aperta no pescoço do Irã.

A seguir, o texto do El País. Colocaria o link, se eu soubesse fazer isso:
"Anticipándose con urgencia a lo que entiende como un intento de cortocircuitar su política exterior, Estados Unidos ha anunciado un acuerdo con las principales potencias de las Naciones Unidas, incluidas Rusia y China, para aprobar inmediatamente sanciones contra Irán. De esta manera, la Administración norteamericana quiere evitar que Irán utilice el acuerdo anunciado por Brasil y Turquía para ganar tiempo en el desarrollo de su programa nuclear.
El anuncio, hecho por la secretaria de Estado, Hillary Clinton, ante el Congreso, permite acelerar el debate en el Consejo de Seguridad de la ONU, donde ha empezado a circular el borrador de lo que será un severo paquete de medidas contras el régimen iraní. Pero, sobre todo, consigue abortar el intento de diplomacia alternativa que dos países de gran influencia entre el grupo de naciones emergentes -uno de ellos musulmán; el otro, una potencia económica-parecían poner en marcha con el sorprendente acuerdo sobre Irán.
"Hemos alcanzado un acuerdo sobre un duro borrador con la cooperación de Rusia y China", ha declarado Clinton ante un comité del Senado. "Creo que este anuncio es una respuesta convincente a los esfuerzos desarrollados en Teherán en los últimos días", ha añadido.
Aunque no lo dijo, la secretaria de Estado se refería a la reunión por sorpresa que el presidente de Brasil, Luiz Inacio Lula da Silva, y el primer ministro de Turquia, Recept Taryy Erdogan, mantuvieron el pasado domingo en Teherán con el presidente de Irán, Mahmud Ahmadineyad, y que concluyó con un compromiso para que este último país enviara parte de su uranio a Turquía a fin de someterlo allí al proceso de enriquecimiento.
Ese acuerdo despertó inmediatamente las sospechas de los países que integran el P5+1 (los cinco miembros permanentes del Consejo de Seguridad más Alemania), que vieron la operación como una simple maniobra política promovida por dos países con fuertes intereses económicos en Irán y con voluntad de ganar relevancia internacional. Si Irán se echó atrás del acuerdo que alcanzó en octubre con el P5+1 para enviar el uranio a Rusia, ¿qué garantías había ahora para creer en un acuerdo similar que, además, no concede ningún papel al Organismo Internacional de la Energía Atómica?
Urgencia en Washington
En Washington, el acuerdo de Teherán se interpretó inmediatamente como una argucia para evitar las sanciones, y el Departamento de Estado apretó al máximo el acelerador en una negociación que caminaba con el habitual ritmo cansino que se practica en Naciones Unidas. De la noche a la mañana, literalmente, se pasó del peligro de que el proyecto de sanciones fuese torpedeado a la discusión de un borrador entre los miembros del Consejo de Seguridad.
Esa urgencia se explica en parte, desde luego, por la amenaza cada día más evidente de que Irán construya un arma nuclear. Pero, sobre todo, por la llamativa cumbre de Teherán. "Hay una serie de preguntas sin respuestas sobre el anuncio procedente de Teherán", ha admitido Clinton.
Algunas de ellas son preguntas que afectan al predominio de la política exterior de Estados Unidos e incluso al papel de las otras grandes potencias. ¿Pueden dos países como Brasil y Turquía decidir los grandes asuntos de preocupación internacional? ¿Intentan esas naciones ser el embrión de un modelo alternativo al del Consejo de Seguridad? ¿Tienen Rusia y China también razones para preocuparse por esa posibilidad?
Si para otros esta iniciativa podía ser inquietante, para Obama, que había apostado por Lula, por el diálogo con Irán y que visitó Turquía en su primera gira internacional, este encuentro en Teherán resultaba casi grotescamente embarazoso, una bofetada a su rostro y una verdadera puñalada a su política exterior.
Cualquiera que fuera el propósito último de Brasil y Turquía, lo cierto es que Estados Unidos, Rusia y China han creído oportuno actuar con rapidez. Y, al parecer, con contundencia. Aunque el proyecto de resolución sobre las sanciones no es todavía un texto cerrado, distintas fuentes han adelantado que incluye medidas que pueden causar un daño considerable a la economía del régimen islámico y, especialmente, a su clase dirigente.
El proyecto puede incluir el boicot a todas las instituciones financieras conectadas con la Guardia Revolucionaria iraní, un cuerpo de élite que se ocupa del programa nuclear y que dirigió también la represión de las protestas populares de los meses pasados, y la inspección internacional de los barcos procedentes de puertos iraníes cargados con productos que los países vigilantes consideren sospechosos.
Irán ha sufrido sanciones otras dos veces antes y no han impedido el progreso de su programa nuclear. Quizá esta vez tampoco sirvan. Pero el régimen es más débil en esta ocasión. Las protestas abrieron una brecha entre el Gobierno y la población que un mayor aislamiento internacional podría ayudar a profundizar.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Escolaridade avança mais que renda

César Felício e Cristiane Agostine, de Belo Horizonte e São Paulo
Valor Econômico
03/05/2010

A escolaridade avançou mais que a renda, a fatia de eleitores mais maduros, evangélicos e urbanos cresceu e a participação das mulheres aumentou. Estas são as principais mudanças registradas em dez anos no perfil do eleitorado brasileiro.
Cotejadas, as amostragens de duas pesquisas realizadas pelo Instituto Vox Populi, em abril de 2000 e abril de 2010, revelam essas mudanças. São igualmente levadas em consideração por pesquisadores de outras instituições, como Mauro Paulino (Datafolha), Antonio Lavareda (MCI), e Alberto Almeida (Análise).
Os especialistas levam em conta estimativas de órgãos oficiais de pesquisa, como o IBGE. A Justiça Eleitoral ainda não tem o levantamento da escolaridade do eleitor deste ano porque o prazo para a mudança de domicílio eleitoral termina na quarta-feira.
Entre 2000 e 2010, o eleitor com o primário incompleto deixou de representar o maior grupo entre os votantes do país. Nas eleições deste ano, a maior fatia dos 133 milhões de aptos a votar será formada por homens e mulheres com pelo menos o ensino médio completo. Um em cada três eleitores tem esse patamar de escolaridade. Em 2000, a parcela dos que haviam completado o ensino médio era inferior à metade daqueles que não haviam concluído o ensino fundamental.
As mudanças no perfil de renda são mais sutis. A fatia da população que ganha até um salário mínimo nas amostragens do Vox Populi subiu de 10% para 18% do total, mas este indicador é bem distinto daquele de dez anos atrás. Em abril de 2000, quando o salário mínimo era de R$ 180, comprava 1,28 cestas básicas em São Paulo. Uma década depois, compra duas. Ainda assim, o sócio diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, aposta em descompasso entre o avanço em escolaridade e renda.
"Está criado um elemento de estresse, porque a ascensão social dos segmentos que passaram mais anos na escola não foi proporcional. O eleitor está consumindo mais informação, demanda mais do poder político e permanece vivendo em um meio desigual", afirma Coimbra.
Para o especialista, a possível frustração por expectativas não atingidas de elevação social se combina com maior experiência política. O eleitorado com menos de 24 anos caiu e aquele acima de 50 cresceu. "Isto significa que o eleitor médio já votou diversas vezes e está acostumado com as polarizações políticas em curso no País. É um elemento que tende a racionalizar a escolha e levar ao descarte de 'outsiders' e apostas de risco", comenta. Coimbra minimiza o maior peso evangélico no voto. "Provavelmente essas pessoas que se tornaram evangélicas ao longo da década já tinham um conjunto de convicções semelhante antes da nova opção religiosa", diz.
"Mudou a forma como o eleitor encara a eleição. O exercício do voto a cada dois anos faz com que a população apure as escolhas e a formulação do voto. Esta dinâmica faz com que o eleitor pense mais em política, esteja mais atento às ações do governo. Há uma mudança de mentalidade. O eleitor está mais crítico e mais seletivo", reforça Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Para ele, o contingente de jovens é matizado pelo avanço de tecnologias como a internet, utilizada com mais intensidade pela população que já cresceu em ambientes digitais. "A queda do número de jovens interessados por política foi revertida e muitos retomaram a participação com a internet. A rede talvez esteja substituindo a militância das ruas", afirma.
A dúvida entre os especialistas é o que este novo perfil pode significar em termos de mudança do comportamento de voto. Há apenas um consenso: o de que não existe mais uma correlação automática entre elevados níveis de renda e escolaridade: há hoje pessoas cursando universidade e no limite da pobreza. O sociólogo Antonio Lavareda, da MCI, afirma que o maior acesso a informações pode provocar uma situação paradoxal: a de que a maior volatilidade eleitoral aconteça nas faixas mais elevadas de escolaridade.
"Há elementos para pensar que as pessoas mais suscetíveis à emoção no momento da escolha eleitoral são as que mais acesso têm à informação. Estas pessoas estão mais integradas a um ambiente que fomenta a mobilização em termos emotivos , há nestes segmentos mais ansiedade em relação ao futuro e mais incertezas. A escolha mais fria acaba sendo a da população que ficou em um nível de interesse menor durante o processo eleitoral", comenta.
Em decorrência do envelhecimento da população, aumentou a participação das mulheres no conjunto do eleitorado. Como as mulheres, em média, vivem cerca de sete anos a mais do que os homens, tendem a predominar na população de faixa etária mais elevada.
Para Lavareda, o ligeiro predomínio feminino no eleitorado é um fator estabilizante, pelo padrão de voto usual das mulheres no Brasil. "As mulheres aqui tendem a levar em consideração temas como educação, saúde e segurança, normalmente deixados em segundo plano em uma dinâmica eleitoral presidencial, ao menos em seu começo. Interessam-se pouco por questões ideológicas. Assim, retardam bastante a sua definição eleitoral", afirma. Nas eleições de 2002 e 2006, diversas pesquisas comprovaram que houve maior dificuldade de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segmento feminino, mas Lavareda nega que o fato indique uma aversão das mulheres à esquerda.
"As mulheres não necessariamente são mais conservadoras; nos Estados Unidos: se dependesse apenas dos homens, Barack Obama dificilmente teria sido eleito. Também não havia diferença de gênero no voto em favor de Fernando Henrique Cardoso nas eleições de 94 e 98. É cedo para falar de Dilma, que ainda é pouco conhecida para um segmento do eleitorado que costuma fazer uma definição tardia", diz.
É um raciocínio diametralmente oposto ao de Mauro Paulino. Para o diretor do Datafolha, as mulheres influenciam no voto familiar e costumam se antecipar às tendências de voto. " Desde 2002 percebemos nas pesquisas de opinião que as mulheres registram primeiro as tendências de mudança nas eleições. A mudança no cenário eleitoral é percebida primeiro nas mulheres e depois nos homens", comenta.
No meio político, as transformações do eleitorado não impressionam os protagonistas da disputa eleitoral. "O efeito do crescimento do eleitorado feminino e de maior idade na eleição é marginal. Não temos como saber como estes fatores se dão regionalmente, na urna", afirma o pré-candidato do DEM ao Senado no Rio de Janeiro, o ex-prefeito César Maia, em entrevista por correio eletrônico. Segundo o integrante do DEM, o efeito da maior escolaridade no processo de decisão de voto tende a ser zero. "Pesquisas realizadas há cinquenta anos nos Estados Unidos já mostraram que esse tipo de ascensão não altera o padrão eleitoral", afirma.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Simpatia é quase amor

Paguei a língua (ou no caso, os dedos no teclado) ao duvidar aqui do impacto que os debates televisivos poderiam ter na campanha eleitoral britânica. Nick Clegg realmente embaralhou o jogo depois de se sair melhor que Brown e Cameron. Mas insisto em fazer previsões: Gordon Brown liquidou-se hoje ao ser flagrado pela conservadora Sky TV chamando uma eleitora de intolerante ( "bigoted") e mostrando-se rude com seus assessores. O eleitor britânico, neste ponto, não deve ser diferente do que rejeitou Ciro Gomes em 2002 . Para relembrar, Ciro chamou um eleitor de "burro" ao vivo, em entrevista a uma rádio. Foi o começo da sua derrocada.
Brown já tinha tido que se explicar, há algumas semanas, quando surgiram acusações de assédio moral por parte de ex-assessores seus. Enfim: deve ter maior sensibilidade social do que seus adversários almofadinhas, mas definitivamente não é uma pessoa simpática. E simpatia, nas eleições de hoje, é crucial.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Minas, 21 de abril


Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 21 de abril de 2010, às dez para as sete. Neto de mineiros, bisneto, trineto, tataraneto. Somente eu, um carioca de ocasião, é que fui o ponto fora da curva. Tomás Mota Silva Felício dos Santos, um taurino, chega ao mundo no dia que escolheu, da forma que escolheu. Que seu espírito indomável o faça sempre altivo, frente aos desafios do mundo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Apoio a Tancredo volta à tona na campanha

Memória: Nos 25 anos da morte do fundador da Nova República, PSDB explora boicote petista ao Colégio Eleitoral Apoio a Tancredo volta à tona na campanha- Publicado no Valor Econômico, em 16/04/2010



Após as flores em seu túmulo depositadas pela presidenciável petista Dilma Rousseff, o PSDB reagiu. O primeiro contra-ataque veio no encontro que lançou o ex-governador José Serra como pré-candidato tucano, no dia 11. Na ocasião, o ex-governador Aécio Neves lembrou que o PT negou voto a Tancredo na eleição indireta de 1985. Serra destacou a data como a da retomada do Estado de direito democrático. Na segunda-feira, Aécio e seu sucessor, Antonio Anastasia, começam a pré-campanha em Belo Horizonte com Serra. Os três devem viajar em seguida ao Rio, para exposição e lançamento de dois livros em homenagem ao ex-presidente.

A busca da associação com Tancredo não foi associada a um revisão petista sobre o boicote ao Colégio Eleitoral que o elegeu presidente. Mais do que rejeição a Tancredo, o PT insistia na tese da ilegitimidade insanável do Colégio Eleitoral. A oposição ao mineiro se fazia em terreno relativamente moderado: em 1981, quando deputado, Tancredo apareceu de surpresa na reunião do diretório estadual do partido. Perplexos, os petistas o convidaram para compor a mesa e lhe deram a palavra. O então deputado foi ouvido em silêncio e retirou-se rapidamente.

Um ano antes, sua neta, Andrea Neves Cunha, havia sido uma das fundadoras do PT fluminense. Em 1983, o PT propôs instalar CPI sobre o Credireal, um dos três bancos públicos que o governo mineiro controlava na ocasião. Tancredo chamou o único deputado estadual petista, João Batista dos Mares Guia, no Palácio das Mangabeiras e procurou convencê-lo que a CPI poderia enfraquecer o sistema de bancos públicos e favorecer a privatização. O petista não cedeu e o governador manobrou então para que a CPI fosse controlada pelo PMDB e neutralizada.

Tancredo e o PT trabalharam juntos na campanha das diretas, mas ainda na década de 90 o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou um juízo severo sobre Tancredo, conforme deixa claro o livro "História indiscreta da ditadura e da abertura", de Ronaldo Costa Couto, que traz um depoimento de Lula dado em 1997.

"Nas diretas, tivemos um problema muito sério. É que Tancredo trabalhou o tempo inteiro contra elas. O Fernando Henrique Cardoso, na minha opinião era um dos mentores disso também". Lula disse que Tancredo durante a mobilização popular já manobrava pelo Colégio Eleitoral. "Ele sabia que se tivesse eleições diretas naquele instante o presidente seria o Ulysses e não ele. O homem que dentro do PMDB tinha cacife pra se candidatar era Ulysses". Lula relembra que, logo após a derrota diretas, o então senador Fernando Henrique fez um pronunciamento propondo a troca do lema de "diretas já" para "mudanças já".

Relata em seguida suposta cena de mágoa de Ulysses em relação a Tancredo: "Quando terminou a campanha das diretas (...) fui na casa do Ulysses. O Ulysses estava deitado, eu entrei no quarto para acordar ele. Eu pensei que ele estava morto. Estava deitado com a barriga para cima e as mãos juntas. ´Doutor Ulysses´, ´Doutor Ulysses´. Aí ele acordou. Fiz um apelo para gente fazer um outro comício em Belo Horizonte pelas diretas já. Aí o Ulysses sentou do meu lado e falou assim. ´Lula, estou muito contrariado. E possivelmente eu esteja com a mesma revolta que você está. Sei quando sou derrotado. Tancredo me derrotou. Enquanto eu acreditava que a gente ia conquistar as diretas e fazer eleições, o Tancredo acreditava que, pelo Colégio Eleitoral, seria presidente da República".

Ulysses morreu em 1992. Não há registro de críticas públicas suas a Tancredo. Costa Couto, que foi ministro do Interior escolhido por Tancredo, discorda da versão de Lula. " Tudo indica que Tancredo não descartaria disputar eleições diretas, até porque havia uma divisão em São Paulo entre [Franco] Montoro e Ulysses. Ele se sentia preparado e sabia que aquela seria sua última chance", comentou. Segundo o ex-ministro e historiador, "Tancredo apenas transpôs a mobilização das diretas para o Colégio Eleitoral, porque de modo realista sempre soube que a aprovação da emenda era praticamente impossível", comentou.

A decisão de expulsar os deputados Airton Soares, Bete Mendes e José Eudes, que desobedeceram a cúpula petista, ainda é vista como momento definidor da sigla até mesmo por ex-integrantes do partido, como João Batista dos Mares Guia, ex-companheiro de luta armada de Dilma e do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, que participou da fundação tanto do PT em 1980 quanto do PSDB em 1988. Irmão do ex-ministro das Relações Institucionais do governo Lula, Walfrido dos Mares Guia, João Batista hoje é consultor na área de educação.

"Pode ter sido uma decisão equivocada, mas era consistente. Foi a primeira vez em que parlamentares petistas foram excluídos em razão do voto no Legislativo. O episódio marcou a hegemonia da burocracia partidária sobre os detentores de mandato eletivo e teve caráter exemplar: se o partido era capaz de expulsar três de seus oito deputados federais, não dava qualquer margem a dubiedades", comentou Mares Guia.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

E Serra finalmente com Aécio em Belo Horizonte. Impressões rápidas:
1. O risco da "Dilmasia" está, ao menos provisoriamente, afastado.
2. A recepção que o tucano teve do empresariado foi muito mais calorosa do que a dada a Dilma, menos de duas semanas antes.
3.Itamar não vai apoiá-lo. O que tende a não ser grave.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Patrus, o turrão do ano

A matéria abaixo foi publicada no Valor há praticamente um ano. De lá para cá, tudo deu errado para o Patrus Ananias: perdeu a eleição interna no partido e não conseguiu os apoios externos que imaginava. Mas ainda assim ele insiste em disputar espaço com Pimentel no PT, impermeável ao meio que o circunda. Acho que a divisão na base lulista em Minas não afeta muito o desempenho da Dilma no Estado. Mas está deixando Anastasia com a mão na taça.


César Felício, de Belo Horizonte
08/04/2009
Protagonistas da mais acirrada luta interna do PT para definir os candidatos majoritários em 2010, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel começam a se preparar para a possibilidade de decidirem a candidatura a governador por meio de prévias. Diminui, de um lado e de outro, a possibilidade de êxito nas estratégias para impedir a disputa pelo voto dos filiados.
Entre os aliados de Pimentel, ainda há a convicção que um bom resultado dos apoiadores do ex-prefeito na escolha das direções municipais e da direção estadual no processo de eleição direta dos dirigentes petistas (PED), no fim deste ano, pode fazer com que o ministro desista da pré-candidatura. Mas a ala que apoia Patrus Ananias articula composições internas nos municípios para impedir que o resultado do PED seja um mapeamento sobre qual dos dois lados têm o domínio do partido.
Os aliados de Patrus contam com interferências externas para debilitar Pimentel: apostam que podem conseguir a preferência do PMDB, do PCdoB e do vice-presidente José Alencar (PRB) para a montagem de um palanque mais amplo do que o que poderia ser o de Pimentel. E lembram do melhor trânsito do ministro no meio sindical e nos movimentos sociais, em grande parte ação de um aliado em Brasília, o secretário-geral da Presidência, ministro Luiz Dulci. Mas o ex-prefeito acredita que o pragmatismo irá prevalecer: os partidos da base aliada de Lula tenderiam a se alinhar com o candidato mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. No último levantamento publicado pelo instituto Datafolha, Pimentel oscilou entre 24% e 25%, conforme a lista de candidatos. Patrus patinou entre 11% e 13%.
Na disputa pelas preferências dos filiados, o primeiro obstáculo que Pimentel terá que superar é a ofensiva dos aliados de Patrus para reduzir a base de votantes em Belo Horizonte, onde a hegemonia do ex-prefeito é completa. Termina no dia 17 de abril o prazo para a revalidação ou não de 6 mil filiações feitas em 2008, tendo como principal região eleitoral o bairro de Venda Nova, na zona norte da capital. De acordo com a Justiça Eleitoral, a capital mineira concentrava 16 mil dos 139 mil filiados ao PT no Estado em fevereiro deste ano, mas tanto aliados de Pimentel quanto de Patrus estimam que o total de aptos a votar no processo interno em Belo Horizonte, incluindo as filiações contestadas, chegue a, no máximo, 13 mil.
O grupo que apoia Patrus conseguiu questionar estas filiações em uma reunião do diretório estadual da sigla em 2 de dezembro, sob o argumento de que foram feitas em massa. Caso as 6 mil inscrições fossem anuladas, seria um golpe decisivo no ex-prefeito: elas correspondem a quase 40% do colégio eleitoral da cidade. Os aliados de Pimentel recorreram ao diretório nacional, que concedeu um prazo para que as filiações questionadas fossem recadastradas pela direção nacional. Até 31 de março, foram feitos 90 recadastramentos.
"A opinião de muitos é que o processo de crescimento do partido em Belo Horizonte no ano passado seguiu um padrão diferente do que o de anos anteriores, que estava amparado na articulação do partido com movimentos sociais e comunitários", disse o deputado estadual André Quintão (PT), que foi aluno de Patrus na universidade, coordenador de sua campanha para prefeito de Belo Horizonte em 1992, chefe de gabinete do atual ministro na prefeitura e seu secretário municipal de Desenvolvimento Social.
Com cerca de 200 mil eleitores, Venda Nova é um dos maiores e mais pobres bairros de Belo Horizonte e o PT na região é comandado pelo deputado federal Miguel Corrêa Júnior. Ex-líder estudantil, Corrêa montou entidades assistenciais na região e ingressou na política filiado ao PPS. Chegou ao partido trazido por Fernando Pimentel. Para Corrêa Júnior, "a revalidação está sendo feita porque alguns setores do partido ficaram em minoria nas instâncias partidárias". O parlamentar afirma que articulou as milhares de filiações por orientação de uma campanha promovida pela direção nacional da sigla. E diz que não está sozinho nesta prática. "Em Betim, são 4 mil filiados. Cerca de 1,2 mil entraram no ano passado. Lá não é nossa base e estas filiações não estão sendo contestadas", disse. Segundo a Justiça Eleitoral, em Betim o PT está com 2.937 filiados.
Em caso de prévias, Patrus Ananias conta com um eleitorado pulverizado em pequenos e médios municípios, muitos dentro dos bolsões de pobreza que foram beneficiados pelas políticas assistenciais coordenadas por ele no governo federal, como o programa Bolsa Família.
Com o apoio da esquerda petista, Patrus deve ter o apoio do prefeito de Coronel Fabriciano, Francisco Simões (1,5 mil filiados, segundo o TSE). Sua base ainda deve estender-se por Betim, Teófilo Otoni , da prefeita Maria José Haueisen (809 filiados), Varginha, do prefeito Eduardo Carvalho (579 filiados), Janaúba, administrada por José Benedito (354 inscritos), além de cidades onde o PT não governa como Montes Claros (700 filiados), Uberaba (1.009 inscritos), Uberlândia (3,7 mil militantes) e Juiz de Fora (1,5 mil integrantes), entre as mais importantes.
Já Pimentel está mais presente nos grandes centros. Deve ter, além de Belo Horizonte, a hegemonia sobre o segundo maior colégio eleitoral petista em Minas, Ipatinga, onde a Justiça Eleitoral registrava em fevereiro 12,9 mil filiações. E disputa em situação de favoritismo em Governador Valadares (1,6 mil inscritos), Nova Lima (420 filiados) e Contagem (3,6 mil integrantes).
Depois das eleições municipais, Patrus reforçou a sua agenda de viagens dentro do Estado. Procura fazer encontros todos os sábados. Já esteve nas cidades de Betim, Luz, Montes Claros, Itaobim e Teófilo Otoni. Neste mês, irá a Ponte Nova, Caratinga, Governador Valadares, Coronel Fabriciano e cidades do sul e do Triângulo Mineiro.
Articulando sua candidatura a partir de um pequeno escritório no centro de Belo Horizonte, Pimentel gastou os últimos dias procurando aumentar seu espaço na direção nacional do PT, que tentou impedir no ano passado a aliança informal com o PSDB costurada por ele para apoiar o secretário estadual Márcio Lacerda, do PSB, que terminou eleito. No fim de março, encontrou-se na capital mineira com o ex-deputado e ex-presidente do PT, José Dirceu. E cultiva a antiga relação com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, com quem militou na luta armada nos anos 60 no Comando de Libertação Nacional (Colina).
A virtual candidata do PT à Presidência, que é natural de Belo Horizonte, procura se manter longe da briga em seu Estado de origem. Em fevereiro, cancelou de última hora a sua participação em um evento organizado pelo PT mineiro em Venda Nova, o reduto dos pimentelistas recém-filiados à sigla. O encontro era boicotado pela ala do partido que defende a candidatura de Patrus e havia o receio de que se tornasse um instrumento a favor de Pimentel na disputa interna. No início de fevereiro, Pimentel concedera uma entrevista à revista "Veja" em que defendera a candidatura de Dilma à Presidência e criticara adversários internos petistas como vinculados a práticas políticas de esquerda ultrapassadas. A entrevista até hoje irrita os aliados do ministro do Desenvolvimento Social.
Neste mês, no dia 17, Dilma irá finalmente a Belo Horizonte, em um evento com perfil completamente diferente. A pré-candidata irá a um seminário organizado pela Fundação Perseu Abramo, órgão de estudos do partido, formalmente para debater a crise econômica global. Também farão parte da mesa Patrus Ananias e Fernando Pimentel. O primeiro, na condição de gestor da área social do governo. O segundo, por ser um dos poucos quadros dirigentes do partido com formação específica em economia. O evento será em um hotel no centro da cidade, que não é reduto de nenhum dos dois postulantes.