quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A escassez na Argentina

Matéria publicada em 2/04/2012 or César Felício | De Buenos Aires A onda de frio nos últimos dias em Buenos Aires, com temperaturas de sete graus já em março, aumentou o descompasso entre o que se vê em algumas vitrines e o que se observa nas calçadas da cidade. Enquanto os pedestres passam agasalhados, os manequins ainda ostentam roupas leves, de verão. "Todas as coleções estão atrasadas", disse uma lojista que não se identificou, na avenida Las Heras, região norte da cidade. De modo sutil, os sinais de desabastecimento na capital argentina vão se mostrando depois da criação de uma série de barreiras comerciais pelo governo com praticamente uma novidade por semana: a desta sexta-feira foi a introdução de um controle fotográfico nos contêineres, para verificar se a carga retida condiz com as declarações de antecipação das importações, mecanismo criado em 1º de fevereiro que barrou cerca de 30% das compras do país. Segundo o diretor de relações institucionais da Câmara de Importadores da Argentina (Cira), Miguel Ponce, das 164 mil declarações apresentadas desde 1º de fevereiro, 51 mil ainda não foram liberadas. A barreira motivou a apresentação de um documento no comitê de bens da Organização Mundial de Comércio (OMC) por parte da União Europeia, dos Estados Unidos e de outros 14 países. As barreiras afetam também a indústria nacional: no caso do vestuário, por exemplo, a confecção é feita com tecido importado, que está retido. Mas o desabastecimento é mais grave nos itens que já estavam com problemas de importação antes da criação das mais recentes barreiras. "Entre 2008 e 2011, aumentou muito a quantidade de produtos colocados no regime de licenças não automáticas. Quando a área de comércio exterior saiu do Ministério da Indústria para uma secretaria própria na órbita do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, havia uma herança de licenças vencidas e não renovadas. O resultado é que temos encomendas barradas desde agosto", disse Ponce. "Não temos mais como vender a linha Fischer-Price, os fabricados pela Mattel e os produtos Chicco. Ainda conseguimos oferecer os brinquedos mais baratos", afirmou o gerente da loja de brinquedos El Mundo del Juguete no centro da cidade. As vitrines da loja são arrumadas para que os clarões na oferta não sejam percebidos. "Nem fazemos mais pedidos de liquidificadores, porque sabemos que não seremos atendidos", comentou um vendedor da rede de varejo Falabella, na mesma região. A falta de liquidificadores começou há anos na Argentina, dentro de uma estratégia protecionista da ministra da Indústria, Débora Giorgi, de fomentar a produção nacional. Diversos produtos foram colocados sob regime de licenças não automáticas. Em seguida, integrantes do governo procuraram deixar claro para os importadores que as mercadorias só seriam liberadas se eles exportassem. O mecanismo, totalmente informal, ficou conhecido como "uno por uno". A mesma situação acontece com outras utilidades domésticas, como os ferros de passar roupa. A indústria nacional cresceu, mas não a ponto de suprir o mercado doméstico, gerando o desabastecimento. A produção de ferros de passar roupa, por exemplo, passou de 450 mil para 1,7 milhão de unidades entre 2007 e 2011. O aumento não compensou, entretanto, a queda das importações, que despencaram de 2,3 milhões de unidades para 400 mil nesse período, de acordo com levantamento publicado no jornal "El Cronista". O resultado final é que a oferta de ferros caiu de 2,7 milhões de unidades há cinco anos para 2,1 milhões de unidades agora. A indústria argentina tem dificuldades estruturais para prescindir das importações. "O governo queria resultados rápidos para a política de substituição de importações e mirou no produto acabado, e não em suas peças. Desse modo, a geladeira é nacional, mas o compressor é brasileiro; ou o liquidificador é argentino, mas o copo é chinês, e assim por diante. E a produção de um eletrodoméstico acabado é só uma operação de montagem. Mais complicado é produzir os componentes", disse o economista Mauricio Claveri, especialista em comércio exterior da consultoria Abeceb. A dificuldade de importar também afeta o comércio de alimentos. Na área de suínos, segundo a avaliação da Câmara Argentina da Indústria de Chacinados, a produção caiu cerca de 20% quando as importações de carne suína provenientes do Brasil foram reduzidas de US$ 9,5 milhões em janeiro para apenas US$ 1,5 milhão em fevereiro. Segundo dirigentes da entidade, seria necessário um aumento do rebanho suíno de 30% para que a Argentina se tornasse completamente autossuficiente em presuntos, salsichas e outros embutidos. Mas isso traria um complicador, já que a demanda existe para apenas determinadas partes do porco, próprias para o processamento, e não para outras. Com a barreira criada, a indústria priorizou a fabricação das linhas com maior valor agregado. Ficou difícil de encontrar as mais baratas. Nas gôndolas de supermercados, contudo, a falta de determinados produtos ainda afeta pouco o vendedor ou o consumidor. "Aqui vendemos 6.000 itens. Se o consumidor não encontra determinada marca de sabonete ou iogurte ou algum presunto que está acostumado a encontrar, leva outro. O que não dá para pensar é oferecer importado. Só o que tem no estoque", disse o secretário-geral da Casrech (câmara argentina de supermercados de proprietários de origem chinesa), Zheng Ji Cong. Valor Economico, 02/04/2012

A conquista de um passado

Coluna publicada em 22/03/2012 . Por César Felício Os visitantes brasileiros dificilmente prestam atenção nas calçadas de Buenos Aires, nos escassos dias que dispõem, em geral, para percorrer as ruas da capital argentina. Talvez poucos tenham reparado em pequenas placas fixadas no chão, em ladrilhos, com o nome de uma pessoa, a data de seu nascimento e a de seu desaparecimento, naquele local. Placas como essas estão em toda cidade. Em frente ao Colégio Figueroa Alcorta, um estabelecimento público de ensino médio na avenida Santa Fé, no bairro de Palermo, se acumulam várias plaquinhas. São 14 nomes, que sumiram em um ano e meio, entre 1976 e 1977. É uma média de quase um por mês. Pela idade das vítimas, todos estudantes. Cenas assim ajudam a tecer um fenômeno que transcende o julgamento de criminosos que violaram os direitos humanos usando o aparelho do Estado: de certo modo, trata-se da apropriação de uma narrativa, de um modo de contar as coisas, o que só se torna possível depois da realização de investigações que não se limitam ao Judiciário. Punir não é o centro do debate A releitura do passado está longe de ser uma questão menor. Foi graças a mobilizações proporcionadas por comissões de investigações que hoje existe uma condenação quase universal na sociedade argentina ao último regime militar. Maior responsável pelo morticínio, o ex-presidente Jorge Rafael Videla concedeu uma recente entrevista a um jornal espanhol, do cárcere perpétuo em que cumpre pena. Em uma sociedade polarizada como a da Argentina, seus ataques ao governo foram recebidos com repulsa por todos os setores políticos. Em pelo menos um ponto, contudo, Videla está certo: nem sempre foi assim. Nas duas décadas de democracia, houve repressores que chegaram a governos locais, como o general Antonio Bussi em Tucumán, e líderes dos "carapintadas" - militares que se amotinaram contra os processos judiciais, como Aldo Rico - que se tornaram políticos profissionais. Houve até um dos comandantes da repressão, o almirante Emilio Massera, que tentou candidatar-se à Presidência, em meio à confusa abertura argentina em 1983. A chave para a virada foi o controle do relato dos fatos. Os militares do antigo regime foram marchando para o degredo da história de maneira paulatina. Se não fosse a exposição pública de seus desmandos, as punições que sofreram e sofrem pouco valeriam no contexto social: Videla e sua turma poderiam ser vistos como mártires do revanchismo. Do mesmo modo, as vítimas, muitas delas ligadas a movimentos de expressão terrorista, como o dos Montoneros, ganharam outra expressão histórica. Alguns filhos de desaparecidos estão hoje no Congresso argentino, tendo ingressado na política exatamente por esta condição. O exemplo argentino foi um caso emblemático que marcou a transição nos demais países da América Latina de um regime militar para um civil, exatamente por ser extremo. Apavorou segmentos da elite latino-americana da mesma forma que os escravos haitianos no fim do século 18, quando trucidaram seus senhores. De maneira diluída, entretanto, uma revisão está em curso em praticamente todos os países do continente. Exceção à Venezuela, Colômbia e México, sendo que em nenhum destes três existiu ditadura plena nos últimos cinquenta anos, há ou houve "comissões da verdade" em todos os demais países. Da Guatemala ao Uruguai, passando por Chile e Haiti. É incorreto dizer que não existiu coisa equivalente no Brasil antes de Dilma Rousseff. Seria desmerecer o trabalho desenvolvido em 1985 pela Arquidiocese de São Paulo e o esforço de reparação feito em 1995 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Dilma não se tornou presidente pelo fato de ter integrado um movimento armado, sido torturada e passado anos em um presídio, mas não se pode dizer que chegou à Presidência apesar disso. Seu passado foi exibido em sua campanha política e só se tornou um foco de campanha negativa nos subterrâneos da internet. O contrário sim, seria um impeditivo: alguém que tenha sido colaborador do DOI-Codi, por exemplo, não tem muitas perspectivas de êxito eleitoral. De certo modo, a história brasileira já é contada pela ótica de quem foi derrotado no embate militar dos anos 70. Ainda que a Lei de Anistia de 1979 não seja tocada - e certamente não será, depois do aval que recebeu do Supremo Tribunal Federal, no ano passado - a simples colocação do tema em pauta vai, de forma gradual, construindo uma nova versão sobre o processo do fim do regime militar brasileiro. Esmaece a visão positiva sobre o esforço de moderados do governo e da oposição de então na construção de um acordo em que os governantes abriram mão do futuro para que os oposicionistas colocassem uma pedra no passado. Tende a se sedimentar uma outra escrita dos fatos ocorridos nos anos 1970 e 1980, em que a conciliação entre extremos perde o protagonismo e em que se projeta a pergunta: houve acordo? Se o critério criminal, e não político, fosse o norteador da questão, talvez existisse espaço para muitas comissões de investigação no país. As "comissões da verdade" podem existir em qualquer lugar onde houve graves violações de direitos humanos patrocinadas, com a conivência dos agentes do Estado ou simplesmente não esclarecidas pelo poder público. Na lista de ONGs como a Anistia Internacional figuram até países como os Estados Unidos, onde uma comissão da verdade existiu para investigar crimes de base racista provocados pela Ku Klux Klan. No Peru, sem grande sucesso, houve comissões para esclarecer um massacre em presídios em 1986 e uma chacina de jornalistas em 1983. Um breve exame do saldo de condenações e esclarecimento dos assassinatos no campo brasileiro nas últimas décadas por si só traria uma resposta. César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras E-mail cesar.felicio@valor.com.br

Sean Penn contra Meryl Streep

Coluna publicada em 23/02/2012 . Por César Felício Na segunda-feira, o secretário de Defesa do Reino Unido, Philip Hammond, foi taxativo ao falar aos parlamentares na Câmara dos Comuns: a Argentina não representa uma ameaça séria do ponto de vista militar às ilhas Malvinas, ou Falklands. Como neste jogo de xadrez o Reino Unido joga com as pedras pretas, fica claro que a disputa pelas ilhas no Atlântico Sul podem ter muitos desdobramentos, e o bélico não é um deles. A certeza de que não haverá guerra tem tornado a confrontação nas ilhas Malvinas uma alternativa tentadora tanto para o governo de David Cameron como para o de Cristina Fernández de Kirchner. Além do embate diplomático, factoides não faltaram de parte a parte: do envio do príncipe Harry para um treinamento militar à troca de um navio de guerra estacionado na região, do lado inglês, à transformação do ator Sean Penn em um protagonista na luta contra o colonialismo, do lado argentino, com direito a discorrer sobre o tema em uma declaração à imprensa ao lado do chanceler Hector Timerman. Reino Unido e Argentina contam com dois governantes afeitos à retórica radical em meio a um contexto de dificuldades crescentes, em que a carta do nacionalismo é uma excelente forma de atenuar a resistência da opinião pública ao aprofundamento do modelo de Estado que cada um deles propõe. É uma cartada raramente usada na história do Brasil, um país sem disputas territoriais há mais de cem anos. O uso mais recente foi o do "Ame-o ou deixe-o", o slogan do qual o governo Médici lançou mão para insinuar que os exilados e banidos tinham menor sentimento patriótico. Na guerra retórica, Cristina e Cameron são vencedores Eleito com dificuldade em maio de 2010, o que obrigou a formar um governo de coalizão com o terceiro colocado, Cameron enfrentou um verdadeiro motim popular em Londres em agosto do ano passado. Tem respondido dobrando sua aposta conservadora: classificou a revolta social como "criminalidade pura e simples" e busca acelerar a implementação de sua agenda. No início do ano, comparou o sistema de saúde pública do país, talvez o mais abrangente e eficaz do mundo, como uma ave de rapina no pescoço dos empreendedores. Cameron está pagando o preço de suas escolhas nas ruas. De acordo com a última pesquisa divulgada pelo "The Guardian", a aceitação de seu partido recuou de 40% para 36%, enquanto a dos trabalhistas subiu de 35% para 37%. É neste instante que recebe a ajuda de Cristina Kirchner. A ofensiva dos simbolismos argentinos para marcar os trinta anos da derrota militar latino-americana abriu uma oportunidade para Cameron incorporar um pouco da verve de Margaret Thatcher. Não com o brilho da atriz Meryl Streep, mas com a efeitos políticos análogos. "Primeiros-ministros que são fracos em casa sonham em serem fortes fora. O fantasma de Thatcher paira sobre os conflitos. Nas Falklands, Maggie mostrou que ganhar glória militar rápida era infinitamente mais fácil do que resolver problemas domésticos", observou na semana passada Tony Parsons, colunista do tabloide inglês "Daily Mirror". Reeleita em outubro com 54% dos votos, Cristina tem oferecido a seus eleitores um cardápio que passa por retirada de subsídios governamentais ao consumo, inflação em alta e desaceleração do crescimento econômico. A presidente necessita promover o ajuste para garantir que o país tenha caixa suficiente para impedir uma crise cambial, doa a quem doer. Implanta uma ortodoxia que passa por uma economia meticulosamente manietada por controles oficiais. Não há pesquisas que mostram como anda a aceitação popular da presidente argentina, mas a reação acalorada dos ingleses à inócua decisão de dezembro do Mercosul de impedir que navios com bandeira da colônia atracassem em seus portos possibilitou a Cristina pela primeira vez em muito tempo falar em nome da nação e não da principal facção política do país. No dia 8, ao denunciar formalmente na ONU o Reino Unido por promover uma escalada militar no Atlântico Sul, recebeu o apoio, entre outros, do líder do partido do principal candidato de oposição em 2015, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. É duvidoso que a questão malvinense tenha para Cristina o poder galvanizador que teria dado uma sobrevida à ditadura em 1982, caso a Argentina tivesse ganho a guerra. Àquela época, a oposição ao general Galtieri embarcou na aventura. Hoje, os intelectuais afastados da Casa Rosada questionam não apenas a oportunidade, mas o mérito da polêmica. "Não temos ainda uma crítica pública do apoio social à guerra, que mobilizou a quase todos os setores da sociedade argentina. Uma análise minimamente objetiva demonstra a brecha que existe entre a enormidade dos atos e a importância real da questão", assinalaram 17 intelectuais oposicionistas, como Beatriz Sarlo, Vicente Palermo, Juan José Sebrelli e Marcos Novaro, no documento "Malvinas: uma visão alternativa". No texto, os intelectuais afirmam que o princípio de autodeterminação deve valer para os habitantes da ilha, britânicos em sua essência. "É necessário por fim hoje à contraditória exigência do governo argentino de abrir uma negociação bilateral que inclua o tema da soberania, ao mesmo tempo que se anuncia que a soberania argentina é inegociável", afirma o texto, que define o slogan "Las Malvinas son argentinas" como uma "afirmação obsessiva". "Como membros de uma sociedade plural e diversa que tem na imigração sua fonte principal de integração populacional não consideramos ter direitos preferenciais que nos permitam sobrepor aos que vivem e trabalham nas Malvinas há várias gerações, muito antes que chegassem ao país alguns de nossos ancestrais". A reclamação kirchnerista pelas Malvinas faz uso de um nacionalismo conveniente à medida em que não gera consequências diretas. Em relação a outras causas em que o nacionalismo poderia afetar a economia nacional, o governo argentino não hesita em favorecer o investimento externo, como ocorre atualmente na mineração. Há questionamentos em todas as províncias mineradoras à extração de minérios a céu aberto, feitas por empresas invariavelmente estrangeiras. A tendência dos governadores, todos alinhados à Casa Rosada, é de garantir o espaço para os empreendimentos seguirem adiante. César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras © 2000 – 2013. 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