quinta-feira, 7 de março de 2013
Morte aos selvagens unitários
Esta coluna foi publicada em 29 de dezembro de 2011
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Por César Felício
A reescrita da história é uma tarefa permanente do poder, como a história do Brasil ensina de cátedra. Houve um tempo em que o marco fundador do país era comemorado em 12 de outubro, o aniversário do imperador dom Pedro I. O século XIX terminou com a reverência à memória de Tiradentes, executado pela avó do primeiro monarca. Mais recentemente um inimigo dos republicanos positivistas, Antonio Conselheiro, ganhou ares libertários e uma onda ufanista e tardia de desenvolvimentismo faz com que hoje a memória de Juscelino Kubitschek seja disputada por governistas e oposicionistas, enquanto a lembrança de Getúlio Vargas se esmaece.
Se assim é no Brasil, um país em que a cada 15 anos esquece-se tudo o que se passou nos últimos 15 anos, como brincou uma vez o jornalista Ivan Lessa, a reescrita chega ao paroxismo na Argentina. A presidente Cristina Kirchner vai na linha oposta à de Luiz Inácio Lula da Silva e seu famoso bordão "nunca antes na história deste país". No universo cristinista, o debate de hoje é a mesma história de sempre. Guarda semelhança com certos romances do realismo fantástico, em que o passado, na verdade, jamais passa, e as situações se repetem em um moto perpétuo. Pode-se assim reivindicar o legado de caudilhos contemporâneos da formação do país e atribuir aos adversários uma folha corrida herdada das caravelas.
A primeira e mais óbvia alegoria kirchnerista envolve o casal Juan e Eva Perón, protagonistas aliás de um filme exibido este ano na Argentina e muito elogiado pela presidente. É uma epifania invertida, em que desta vez é a mulher que sobrevive ao homem e organiza o culto em sua memória. Na história de Juan e Eva, coube ao general viúvo patrocinar a idolatria à falecida primeira dama.
Intolerância cresce na Argentina
A segunda investida, de mais difícil compreensão, mas de alcance muito maior, é o resgate da memória de Juan Manuel de Rosas. O caudilho foi deposto do governo de Buenos Aires em 1852, em um tempo em que a Argentina ainda não tinha um poder central. Rosas foi obrigado a um exílio até a morte na Inglaterra por outro caudilho, Urquiza, apoiado por uma força expedicionária brasileira. Sete anos antes, enfrentou tropas francesas e inglesas na foz do rio da Prata, para manter a navegação fluvial fechada a estrangeiros. O dia da batalha tornou-se feriado este ano no país, por obra da presidente.
A cerimônia, que aconteceu no dia 20 de novembro, tão cedo não será esquecida. Cristina criou o "Instituto Histórico Revisionista Manuel Dorrego", cujo nome é auto-explicativo e colocou no peito a insígnia federalista, o partido de Rosas. Reviver Rosas é, de certo modo, evocar um estilo de se fazer política. Enquanto governou Buenos Aires, fechou o rio da Prata para o comércio internacional, o que significava trancar o país inteiro. Estrangulou a classe mercantil, mas estimulou uma indústria rudimentar para substituir as importações. Mas se notabilizou por ter usado com habilidade a propaganda política como arma no início do século XIX.
A primeira engrenagem desta ferramenta foi a demonização da oposição. "Morte aos asquerosos, imundos e selvagens unitários" era um lema que estava nos jornais, nos teatros, nas escolas e até no púlpito das igrejas. O discurso satanizador ligava os opositores a violências como enterrar vivos a adversários, e à entrega das riquezas nacionais a estrangeiros.
O segundo passo foi criar uma identidade visual para cada grupo. Os federais se vestiam de forma tradicional, usavam bigode e adereços em vermelho. Os imundos unitários eram aqueles que se vestiam de forma mais moderna e apresentavam-se de rosto liso. O passo seguinte foi estimular a concretização do lema do regime, ou seja, a promoção da morte "da raça de víboras" por um braço armado do rosismo, a "mazorca".
Com o fim de Rosas, o poder "unitário" iria abrir caminho para uma oligarquia rural e mercantil ditar os rumos do país por oitenta anos e retribuir o carinho na mesma moeda a seus inimigos. Autor de "Civilização e Barbárie", um libelo contra Rosas, o presidente Domingos Sarmiento aconselhou em um escrito a não se economizar o sangue dos "gauchos", ou homens do campo, porque pelo menos para regar a terra ele haveria de servir. As metáforas zoomórficas permaneciam quando Perón chegou ao poder e a multidão que o apoiava foi classificada como "aluvião zoológico" por um deputado da oposição.
O casal Kirchner parecia distante deste modelo ao chegar ao poder em 2003 em uma aliança entre diversos setores sociais e políticos. À medida que se fortaleceu, foi abandonando a composição política, até fechar-se em uma equação familiar. Cristina tomou posse em seu segundo mandato recebendo a faixa presidencial da filha e jurando em nome do marido. Governa utilizando 100% da capacidade instalada de exercer a autoridade e o filho Maximo Kirchner, é um dos homens mais influentes do país.
O câncer na tireoide atinge Cristina no momento em que a questão que se colocava para 2012 para a Argentina é se ela iria ou não evocar a tradição de Rosas para além do simbólico. Quem lê os jornais argentinos pode acreditar que o país pode ganhar os contornos da Rússia de Vladimir Putin ou da Venezuela de Hugo Chávez a médio prazo. Até agora, convém duvidar, e a própria transparência com que a doença foi tratada em um primeiro momento a afasta da comparação com o venezuelano.
Não há quem aponte um gesto concreto da presidente fora da institucionalidade. Cristina não é suspeita de mandar envenenar inimigos com cápsulas radioativas, não colocou adversários no exílio e nem convocou plebiscitos para se perpetuar no poder. Com seu provincianismo exarcebado e seu estilo imperial de governar, apenas cultiva por ora a intolerância como traço seminal da política argentina
Na periferia de Buenos Aires, feira atrai multidão
Materia publicada no Valor, em 20 de janeiro de 2012
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Por Cesar Felício | Lomas de Zamora (Argentina)
Em La Salada, seis mil vendedores atendem mais de 20 mil consumidores por dia: o metro quadrado custa US$ 10 mil.
Um dos mais rentáveis negócios imobiliários da Argentina está às margens de uma vala de esgoto a céu aberto, o rio Riachuelo, que separa Buenos Aires do município suburbano de Lomas de Zamora. E é do lado de Lomas, em meio a milhares de casas térreas sem reboco e ruas de terra, que se comercializa o metro quadrado a US$ 10 mil. Em uma área que até os anos 90 era ocupada por balneários populares, funciona duas vezes por semana a feira de roupas e calçados de La Salada.
De acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, está entre os cinco maiores centros de venda informal, pirataria e contrabando da América Latina: rivaliza com Ciudad del Este, no Paraguai, San Andrecito, na Colômbia, Tepito no México e a feira da Bahía, em Guayaquil, no Equador. O relatório, cuja versão mais recente foi divulgada há um mês, afirma que "seis mil vendedores comercializam para 20 mil consumidores por jornada ". Ao avaliar a dimensão da feira, os burocratas norte-americanos pecaram por conservadorismo. Seis mil vendedores são apenas os que ocupam o espaço coberto nas áreas de Urkupiña, Ocean e Punta Mogotes. E vinte mil são apenas os consumidores que chegam nos ônibus fretados às terças-feiras e aos domingos, os dois dias de funcionamento da feira.
"Apenas um em cada cinco chegam à feira nestes ônibus", diz Jorge Castillo, que administra o espaço de Punta Mogotes, a maior das feiras, e que registrou comercialmente a marca de La Salada. A conta que ele faz é surpreendente. " Cada um dos postos consegue 45 mil pesos, em média, por semana, o que dá 180 mil pesos por mês. Considerando só os que estão nas áreas regulares, são 1 bilhão de pesos mensais, ou 12 bilhões por ano. Pelo câmbio de hoje, estamos falando em US$ 2,7 bilhões".
"Castillo não exagera com estas cifras, sobretudo quando se pensa que há pelo menos outros dez mil vendedores nas áreas descobertas", diz um adversário declarado do administrador de La Salada, o ativista social Gustavo Vera, que dirige a ONG "La Alameda", dedicada a combater o trabalho em condições degradantes exercido por imigrantes bolivianos. Desde 2006, Vera denunciou 32 confecções que vendem em La Salada e empregavam em condições comprometedoras 526 trabalhadores.
Um par de tênis para crianças custa 50 pesos, cerca de R$ 20. Uma calça jeans para homem é 70 pesos e um vestido para mulheres gordas é 60 pesos. Cobra-se muito pouco pelas roupas em La Salada porque são as próprias confecções que fazem a venda. Em geral, a produção de camisas e sapatos é feita em fundo de quintal, não raramente por imigrantes bolivianos. O nível de informalidade laboral é próximo a 100%. Os ocupantes dos boxes de venda são registrados como "monotributistas", o equivalente ao Simples na Argentina, e não pagam mais que duzentos pesos por mês. "Cada feirante é produtor e tem 30% de lucro sobre o custo da matéria prima. O custo social não existe, porque não há empregados", disse Castillo.
A maior margem está nas marcas pirateadas. Camisetas Adidas, Nike ou GAP são vendidas por 30 pesos, doze vezes menos que o registrado no shopping center da avenida Figueroa Alcorta, no Barrio Parque, um dos mais sofisticados de Buenos Aires. "La Salada é um fenômeno produzido pela rebelião das pequenas confecções contra o comércio tradicional e contra as marcas. Os maiores responsáveis pelas piratarias são os próprios fornecedores das grifes", diz Vera, lembrando que há 80 varejistas de marca na Argentina sendo processadas por comercializarem roupas produzidas em condições degradantes.
Segundo um levantamento da Câmara Argentina de Comércio (CAC), metade das mercadorias vendidas por camelôs nas ruas de Buenos Aires é falsificada ou tem origem no contrabando. "Não temos como fazer a mesma avaliação em La Salada, pelas dificuldades de ingresso dos pesquisadores no local, mas nossa estimativa é que o percentual seja o mesmo, já que os camelôs são quase todos intermediários de mercadorias compradas lá", observou o economista chefe da CAC, Gabriel Molteni.
A segmentação do setor de confecção favorece a atividade ilegal. A produção de uma camisa envolve desde o fornecedor da fibra, passando pelo produtor do pano, indo a seguir pelas unidades que fazem o corte, a estamparia e a costura. "Na produção da matéria prima há um grande controle e casos de sonegação, trabalho escravo e pirataria são isolados. Mas as atividades de confecção são pulverizadas. Há 252 mil costureiros na Argentina. Destes, 78% dão origem a produtos com algum grau de ilegalidade. E desta mão de obra, 150 mil trabalhadores são provenientes da Bolívia", disse Vera.
A ponta desse varejo é alvo da repressão estatal no momento. A Prefeitura de Buenos Aires começou no mês passado a retirar camelôs das ruas do centro da cidade, eliminando uma das engrenagens da venda. As ações de maior impacto aconteceram na rua Florida, muito frequentada por turistas brasileiros. Como La Salada fica muito distante do centro da capital e em um subúrbio marcado pela criminalidade, a intermediação das mercadorias torna-se uma decorrência da demanda. "La Salada originou pelo menos 42 'saladitas', dentro de Buenos Aires, que são concentrações de vendedores ambulantes que vendem as mesmas mercadorias", disse Molteni.
Na última semana, a gendarmeria, um braço do governo federal, removeu barracas de cerca de 10 mil vendedores de La Salada que compunham uma quarta feira, a de La Ribera. Estes ambulantes ocupavam as margens do Riachuelo na área externa a das três feiras regulares. "Eram um universo ilegal dentro do universo ilegal, que vendiam ainda mais barato porque sequer pagavam o aluguel de espaço e o monotributo", afirmou Molteni. A operação teve amparo judicial e foi motivada pelos trabalhos para o saneamento do rio, que exige a desocupação das áreas de risco. Os feirantes removidos tentaram ocupar áreas mais próximas a das feiras legais, e houve enfrentamento armado. O tiroteio de quinze minutos na manhã de sábado teria durado quinze minutos e tido pelo menos cinco baleados.
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