quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A escassez na Argentina

Matéria publicada em 2/04/2012 or César Felício | De Buenos Aires A onda de frio nos últimos dias em Buenos Aires, com temperaturas de sete graus já em março, aumentou o descompasso entre o que se vê em algumas vitrines e o que se observa nas calçadas da cidade. Enquanto os pedestres passam agasalhados, os manequins ainda ostentam roupas leves, de verão. "Todas as coleções estão atrasadas", disse uma lojista que não se identificou, na avenida Las Heras, região norte da cidade. De modo sutil, os sinais de desabastecimento na capital argentina vão se mostrando depois da criação de uma série de barreiras comerciais pelo governo com praticamente uma novidade por semana: a desta sexta-feira foi a introdução de um controle fotográfico nos contêineres, para verificar se a carga retida condiz com as declarações de antecipação das importações, mecanismo criado em 1º de fevereiro que barrou cerca de 30% das compras do país. Segundo o diretor de relações institucionais da Câmara de Importadores da Argentina (Cira), Miguel Ponce, das 164 mil declarações apresentadas desde 1º de fevereiro, 51 mil ainda não foram liberadas. A barreira motivou a apresentação de um documento no comitê de bens da Organização Mundial de Comércio (OMC) por parte da União Europeia, dos Estados Unidos e de outros 14 países. As barreiras afetam também a indústria nacional: no caso do vestuário, por exemplo, a confecção é feita com tecido importado, que está retido. Mas o desabastecimento é mais grave nos itens que já estavam com problemas de importação antes da criação das mais recentes barreiras. "Entre 2008 e 2011, aumentou muito a quantidade de produtos colocados no regime de licenças não automáticas. Quando a área de comércio exterior saiu do Ministério da Indústria para uma secretaria própria na órbita do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, havia uma herança de licenças vencidas e não renovadas. O resultado é que temos encomendas barradas desde agosto", disse Ponce. "Não temos mais como vender a linha Fischer-Price, os fabricados pela Mattel e os produtos Chicco. Ainda conseguimos oferecer os brinquedos mais baratos", afirmou o gerente da loja de brinquedos El Mundo del Juguete no centro da cidade. As vitrines da loja são arrumadas para que os clarões na oferta não sejam percebidos. "Nem fazemos mais pedidos de liquidificadores, porque sabemos que não seremos atendidos", comentou um vendedor da rede de varejo Falabella, na mesma região. A falta de liquidificadores começou há anos na Argentina, dentro de uma estratégia protecionista da ministra da Indústria, Débora Giorgi, de fomentar a produção nacional. Diversos produtos foram colocados sob regime de licenças não automáticas. Em seguida, integrantes do governo procuraram deixar claro para os importadores que as mercadorias só seriam liberadas se eles exportassem. O mecanismo, totalmente informal, ficou conhecido como "uno por uno". A mesma situação acontece com outras utilidades domésticas, como os ferros de passar roupa. A indústria nacional cresceu, mas não a ponto de suprir o mercado doméstico, gerando o desabastecimento. A produção de ferros de passar roupa, por exemplo, passou de 450 mil para 1,7 milhão de unidades entre 2007 e 2011. O aumento não compensou, entretanto, a queda das importações, que despencaram de 2,3 milhões de unidades para 400 mil nesse período, de acordo com levantamento publicado no jornal "El Cronista". O resultado final é que a oferta de ferros caiu de 2,7 milhões de unidades há cinco anos para 2,1 milhões de unidades agora. A indústria argentina tem dificuldades estruturais para prescindir das importações. "O governo queria resultados rápidos para a política de substituição de importações e mirou no produto acabado, e não em suas peças. Desse modo, a geladeira é nacional, mas o compressor é brasileiro; ou o liquidificador é argentino, mas o copo é chinês, e assim por diante. E a produção de um eletrodoméstico acabado é só uma operação de montagem. Mais complicado é produzir os componentes", disse o economista Mauricio Claveri, especialista em comércio exterior da consultoria Abeceb. A dificuldade de importar também afeta o comércio de alimentos. Na área de suínos, segundo a avaliação da Câmara Argentina da Indústria de Chacinados, a produção caiu cerca de 20% quando as importações de carne suína provenientes do Brasil foram reduzidas de US$ 9,5 milhões em janeiro para apenas US$ 1,5 milhão em fevereiro. Segundo dirigentes da entidade, seria necessário um aumento do rebanho suíno de 30% para que a Argentina se tornasse completamente autossuficiente em presuntos, salsichas e outros embutidos. Mas isso traria um complicador, já que a demanda existe para apenas determinadas partes do porco, próprias para o processamento, e não para outras. Com a barreira criada, a indústria priorizou a fabricação das linhas com maior valor agregado. Ficou difícil de encontrar as mais baratas. Nas gôndolas de supermercados, contudo, a falta de determinados produtos ainda afeta pouco o vendedor ou o consumidor. "Aqui vendemos 6.000 itens. Se o consumidor não encontra determinada marca de sabonete ou iogurte ou algum presunto que está acostumado a encontrar, leva outro. O que não dá para pensar é oferecer importado. Só o que tem no estoque", disse o secretário-geral da Casrech (câmara argentina de supermercados de proprietários de origem chinesa), Zheng Ji Cong. Valor Economico, 02/04/2012

A conquista de um passado

Coluna publicada em 22/03/2012 . Por César Felício Os visitantes brasileiros dificilmente prestam atenção nas calçadas de Buenos Aires, nos escassos dias que dispõem, em geral, para percorrer as ruas da capital argentina. Talvez poucos tenham reparado em pequenas placas fixadas no chão, em ladrilhos, com o nome de uma pessoa, a data de seu nascimento e a de seu desaparecimento, naquele local. Placas como essas estão em toda cidade. Em frente ao Colégio Figueroa Alcorta, um estabelecimento público de ensino médio na avenida Santa Fé, no bairro de Palermo, se acumulam várias plaquinhas. São 14 nomes, que sumiram em um ano e meio, entre 1976 e 1977. É uma média de quase um por mês. Pela idade das vítimas, todos estudantes. Cenas assim ajudam a tecer um fenômeno que transcende o julgamento de criminosos que violaram os direitos humanos usando o aparelho do Estado: de certo modo, trata-se da apropriação de uma narrativa, de um modo de contar as coisas, o que só se torna possível depois da realização de investigações que não se limitam ao Judiciário. Punir não é o centro do debate A releitura do passado está longe de ser uma questão menor. Foi graças a mobilizações proporcionadas por comissões de investigações que hoje existe uma condenação quase universal na sociedade argentina ao último regime militar. Maior responsável pelo morticínio, o ex-presidente Jorge Rafael Videla concedeu uma recente entrevista a um jornal espanhol, do cárcere perpétuo em que cumpre pena. Em uma sociedade polarizada como a da Argentina, seus ataques ao governo foram recebidos com repulsa por todos os setores políticos. Em pelo menos um ponto, contudo, Videla está certo: nem sempre foi assim. Nas duas décadas de democracia, houve repressores que chegaram a governos locais, como o general Antonio Bussi em Tucumán, e líderes dos "carapintadas" - militares que se amotinaram contra os processos judiciais, como Aldo Rico - que se tornaram políticos profissionais. Houve até um dos comandantes da repressão, o almirante Emilio Massera, que tentou candidatar-se à Presidência, em meio à confusa abertura argentina em 1983. A chave para a virada foi o controle do relato dos fatos. Os militares do antigo regime foram marchando para o degredo da história de maneira paulatina. Se não fosse a exposição pública de seus desmandos, as punições que sofreram e sofrem pouco valeriam no contexto social: Videla e sua turma poderiam ser vistos como mártires do revanchismo. Do mesmo modo, as vítimas, muitas delas ligadas a movimentos de expressão terrorista, como o dos Montoneros, ganharam outra expressão histórica. Alguns filhos de desaparecidos estão hoje no Congresso argentino, tendo ingressado na política exatamente por esta condição. O exemplo argentino foi um caso emblemático que marcou a transição nos demais países da América Latina de um regime militar para um civil, exatamente por ser extremo. Apavorou segmentos da elite latino-americana da mesma forma que os escravos haitianos no fim do século 18, quando trucidaram seus senhores. De maneira diluída, entretanto, uma revisão está em curso em praticamente todos os países do continente. Exceção à Venezuela, Colômbia e México, sendo que em nenhum destes três existiu ditadura plena nos últimos cinquenta anos, há ou houve "comissões da verdade" em todos os demais países. Da Guatemala ao Uruguai, passando por Chile e Haiti. É incorreto dizer que não existiu coisa equivalente no Brasil antes de Dilma Rousseff. Seria desmerecer o trabalho desenvolvido em 1985 pela Arquidiocese de São Paulo e o esforço de reparação feito em 1995 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Dilma não se tornou presidente pelo fato de ter integrado um movimento armado, sido torturada e passado anos em um presídio, mas não se pode dizer que chegou à Presidência apesar disso. Seu passado foi exibido em sua campanha política e só se tornou um foco de campanha negativa nos subterrâneos da internet. O contrário sim, seria um impeditivo: alguém que tenha sido colaborador do DOI-Codi, por exemplo, não tem muitas perspectivas de êxito eleitoral. De certo modo, a história brasileira já é contada pela ótica de quem foi derrotado no embate militar dos anos 70. Ainda que a Lei de Anistia de 1979 não seja tocada - e certamente não será, depois do aval que recebeu do Supremo Tribunal Federal, no ano passado - a simples colocação do tema em pauta vai, de forma gradual, construindo uma nova versão sobre o processo do fim do regime militar brasileiro. Esmaece a visão positiva sobre o esforço de moderados do governo e da oposição de então na construção de um acordo em que os governantes abriram mão do futuro para que os oposicionistas colocassem uma pedra no passado. Tende a se sedimentar uma outra escrita dos fatos ocorridos nos anos 1970 e 1980, em que a conciliação entre extremos perde o protagonismo e em que se projeta a pergunta: houve acordo? Se o critério criminal, e não político, fosse o norteador da questão, talvez existisse espaço para muitas comissões de investigação no país. As "comissões da verdade" podem existir em qualquer lugar onde houve graves violações de direitos humanos patrocinadas, com a conivência dos agentes do Estado ou simplesmente não esclarecidas pelo poder público. Na lista de ONGs como a Anistia Internacional figuram até países como os Estados Unidos, onde uma comissão da verdade existiu para investigar crimes de base racista provocados pela Ku Klux Klan. No Peru, sem grande sucesso, houve comissões para esclarecer um massacre em presídios em 1986 e uma chacina de jornalistas em 1983. Um breve exame do saldo de condenações e esclarecimento dos assassinatos no campo brasileiro nas últimas décadas por si só traria uma resposta. César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras E-mail cesar.felicio@valor.com.br

Sean Penn contra Meryl Streep

Coluna publicada em 23/02/2012 . Por César Felício Na segunda-feira, o secretário de Defesa do Reino Unido, Philip Hammond, foi taxativo ao falar aos parlamentares na Câmara dos Comuns: a Argentina não representa uma ameaça séria do ponto de vista militar às ilhas Malvinas, ou Falklands. Como neste jogo de xadrez o Reino Unido joga com as pedras pretas, fica claro que a disputa pelas ilhas no Atlântico Sul podem ter muitos desdobramentos, e o bélico não é um deles. A certeza de que não haverá guerra tem tornado a confrontação nas ilhas Malvinas uma alternativa tentadora tanto para o governo de David Cameron como para o de Cristina Fernández de Kirchner. Além do embate diplomático, factoides não faltaram de parte a parte: do envio do príncipe Harry para um treinamento militar à troca de um navio de guerra estacionado na região, do lado inglês, à transformação do ator Sean Penn em um protagonista na luta contra o colonialismo, do lado argentino, com direito a discorrer sobre o tema em uma declaração à imprensa ao lado do chanceler Hector Timerman. Reino Unido e Argentina contam com dois governantes afeitos à retórica radical em meio a um contexto de dificuldades crescentes, em que a carta do nacionalismo é uma excelente forma de atenuar a resistência da opinião pública ao aprofundamento do modelo de Estado que cada um deles propõe. É uma cartada raramente usada na história do Brasil, um país sem disputas territoriais há mais de cem anos. O uso mais recente foi o do "Ame-o ou deixe-o", o slogan do qual o governo Médici lançou mão para insinuar que os exilados e banidos tinham menor sentimento patriótico. Na guerra retórica, Cristina e Cameron são vencedores Eleito com dificuldade em maio de 2010, o que obrigou a formar um governo de coalizão com o terceiro colocado, Cameron enfrentou um verdadeiro motim popular em Londres em agosto do ano passado. Tem respondido dobrando sua aposta conservadora: classificou a revolta social como "criminalidade pura e simples" e busca acelerar a implementação de sua agenda. No início do ano, comparou o sistema de saúde pública do país, talvez o mais abrangente e eficaz do mundo, como uma ave de rapina no pescoço dos empreendedores. Cameron está pagando o preço de suas escolhas nas ruas. De acordo com a última pesquisa divulgada pelo "The Guardian", a aceitação de seu partido recuou de 40% para 36%, enquanto a dos trabalhistas subiu de 35% para 37%. É neste instante que recebe a ajuda de Cristina Kirchner. A ofensiva dos simbolismos argentinos para marcar os trinta anos da derrota militar latino-americana abriu uma oportunidade para Cameron incorporar um pouco da verve de Margaret Thatcher. Não com o brilho da atriz Meryl Streep, mas com a efeitos políticos análogos. "Primeiros-ministros que são fracos em casa sonham em serem fortes fora. O fantasma de Thatcher paira sobre os conflitos. Nas Falklands, Maggie mostrou que ganhar glória militar rápida era infinitamente mais fácil do que resolver problemas domésticos", observou na semana passada Tony Parsons, colunista do tabloide inglês "Daily Mirror". Reeleita em outubro com 54% dos votos, Cristina tem oferecido a seus eleitores um cardápio que passa por retirada de subsídios governamentais ao consumo, inflação em alta e desaceleração do crescimento econômico. A presidente necessita promover o ajuste para garantir que o país tenha caixa suficiente para impedir uma crise cambial, doa a quem doer. Implanta uma ortodoxia que passa por uma economia meticulosamente manietada por controles oficiais. Não há pesquisas que mostram como anda a aceitação popular da presidente argentina, mas a reação acalorada dos ingleses à inócua decisão de dezembro do Mercosul de impedir que navios com bandeira da colônia atracassem em seus portos possibilitou a Cristina pela primeira vez em muito tempo falar em nome da nação e não da principal facção política do país. No dia 8, ao denunciar formalmente na ONU o Reino Unido por promover uma escalada militar no Atlântico Sul, recebeu o apoio, entre outros, do líder do partido do principal candidato de oposição em 2015, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. É duvidoso que a questão malvinense tenha para Cristina o poder galvanizador que teria dado uma sobrevida à ditadura em 1982, caso a Argentina tivesse ganho a guerra. Àquela época, a oposição ao general Galtieri embarcou na aventura. Hoje, os intelectuais afastados da Casa Rosada questionam não apenas a oportunidade, mas o mérito da polêmica. "Não temos ainda uma crítica pública do apoio social à guerra, que mobilizou a quase todos os setores da sociedade argentina. Uma análise minimamente objetiva demonstra a brecha que existe entre a enormidade dos atos e a importância real da questão", assinalaram 17 intelectuais oposicionistas, como Beatriz Sarlo, Vicente Palermo, Juan José Sebrelli e Marcos Novaro, no documento "Malvinas: uma visão alternativa". No texto, os intelectuais afirmam que o princípio de autodeterminação deve valer para os habitantes da ilha, britânicos em sua essência. "É necessário por fim hoje à contraditória exigência do governo argentino de abrir uma negociação bilateral que inclua o tema da soberania, ao mesmo tempo que se anuncia que a soberania argentina é inegociável", afirma o texto, que define o slogan "Las Malvinas son argentinas" como uma "afirmação obsessiva". "Como membros de uma sociedade plural e diversa que tem na imigração sua fonte principal de integração populacional não consideramos ter direitos preferenciais que nos permitam sobrepor aos que vivem e trabalham nas Malvinas há várias gerações, muito antes que chegassem ao país alguns de nossos ancestrais". A reclamação kirchnerista pelas Malvinas faz uso de um nacionalismo conveniente à medida em que não gera consequências diretas. Em relação a outras causas em que o nacionalismo poderia afetar a economia nacional, o governo argentino não hesita em favorecer o investimento externo, como ocorre atualmente na mineração. Há questionamentos em todas as províncias mineradoras à extração de minérios a céu aberto, feitas por empresas invariavelmente estrangeiras. A tendência dos governadores, todos alinhados à Casa Rosada, é de garantir o espaço para os empreendimentos seguirem adiante. César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras © 2000 – 2013. 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quinta-feira, 7 de março de 2013

Morte aos selvagens unitários

Esta coluna foi publicada em 29 de dezembro de 2011 . Por César Felício A reescrita da história é uma tarefa permanente do poder, como a história do Brasil ensina de cátedra. Houve um tempo em que o marco fundador do país era comemorado em 12 de outubro, o aniversário do imperador dom Pedro I. O século XIX terminou com a reverência à memória de Tiradentes, executado pela avó do primeiro monarca. Mais recentemente um inimigo dos republicanos positivistas, Antonio Conselheiro, ganhou ares libertários e uma onda ufanista e tardia de desenvolvimentismo faz com que hoje a memória de Juscelino Kubitschek seja disputada por governistas e oposicionistas, enquanto a lembrança de Getúlio Vargas se esmaece. Se assim é no Brasil, um país em que a cada 15 anos esquece-se tudo o que se passou nos últimos 15 anos, como brincou uma vez o jornalista Ivan Lessa, a reescrita chega ao paroxismo na Argentina. A presidente Cristina Kirchner vai na linha oposta à de Luiz Inácio Lula da Silva e seu famoso bordão "nunca antes na história deste país". No universo cristinista, o debate de hoje é a mesma história de sempre. Guarda semelhança com certos romances do realismo fantástico, em que o passado, na verdade, jamais passa, e as situações se repetem em um moto perpétuo. Pode-se assim reivindicar o legado de caudilhos contemporâneos da formação do país e atribuir aos adversários uma folha corrida herdada das caravelas. A primeira e mais óbvia alegoria kirchnerista envolve o casal Juan e Eva Perón, protagonistas aliás de um filme exibido este ano na Argentina e muito elogiado pela presidente. É uma epifania invertida, em que desta vez é a mulher que sobrevive ao homem e organiza o culto em sua memória. Na história de Juan e Eva, coube ao general viúvo patrocinar a idolatria à falecida primeira dama. Intolerância cresce na Argentina A segunda investida, de mais difícil compreensão, mas de alcance muito maior, é o resgate da memória de Juan Manuel de Rosas. O caudilho foi deposto do governo de Buenos Aires em 1852, em um tempo em que a Argentina ainda não tinha um poder central. Rosas foi obrigado a um exílio até a morte na Inglaterra por outro caudilho, Urquiza, apoiado por uma força expedicionária brasileira. Sete anos antes, enfrentou tropas francesas e inglesas na foz do rio da Prata, para manter a navegação fluvial fechada a estrangeiros. O dia da batalha tornou-se feriado este ano no país, por obra da presidente. A cerimônia, que aconteceu no dia 20 de novembro, tão cedo não será esquecida. Cristina criou o "Instituto Histórico Revisionista Manuel Dorrego", cujo nome é auto-explicativo e colocou no peito a insígnia federalista, o partido de Rosas. Reviver Rosas é, de certo modo, evocar um estilo de se fazer política. Enquanto governou Buenos Aires, fechou o rio da Prata para o comércio internacional, o que significava trancar o país inteiro. Estrangulou a classe mercantil, mas estimulou uma indústria rudimentar para substituir as importações. Mas se notabilizou por ter usado com habilidade a propaganda política como arma no início do século XIX. A primeira engrenagem desta ferramenta foi a demonização da oposição. "Morte aos asquerosos, imundos e selvagens unitários" era um lema que estava nos jornais, nos teatros, nas escolas e até no púlpito das igrejas. O discurso satanizador ligava os opositores a violências como enterrar vivos a adversários, e à entrega das riquezas nacionais a estrangeiros. O segundo passo foi criar uma identidade visual para cada grupo. Os federais se vestiam de forma tradicional, usavam bigode e adereços em vermelho. Os imundos unitários eram aqueles que se vestiam de forma mais moderna e apresentavam-se de rosto liso. O passo seguinte foi estimular a concretização do lema do regime, ou seja, a promoção da morte "da raça de víboras" por um braço armado do rosismo, a "mazorca". Com o fim de Rosas, o poder "unitário" iria abrir caminho para uma oligarquia rural e mercantil ditar os rumos do país por oitenta anos e retribuir o carinho na mesma moeda a seus inimigos. Autor de "Civilização e Barbárie", um libelo contra Rosas, o presidente Domingos Sarmiento aconselhou em um escrito a não se economizar o sangue dos "gauchos", ou homens do campo, porque pelo menos para regar a terra ele haveria de servir. As metáforas zoomórficas permaneciam quando Perón chegou ao poder e a multidão que o apoiava foi classificada como "aluvião zoológico" por um deputado da oposição. O casal Kirchner parecia distante deste modelo ao chegar ao poder em 2003 em uma aliança entre diversos setores sociais e políticos. À medida que se fortaleceu, foi abandonando a composição política, até fechar-se em uma equação familiar. Cristina tomou posse em seu segundo mandato recebendo a faixa presidencial da filha e jurando em nome do marido. Governa utilizando 100% da capacidade instalada de exercer a autoridade e o filho Maximo Kirchner, é um dos homens mais influentes do país. O câncer na tireoide atinge Cristina no momento em que a questão que se colocava para 2012 para a Argentina é se ela iria ou não evocar a tradição de Rosas para além do simbólico. Quem lê os jornais argentinos pode acreditar que o país pode ganhar os contornos da Rússia de Vladimir Putin ou da Venezuela de Hugo Chávez a médio prazo. Até agora, convém duvidar, e a própria transparência com que a doença foi tratada em um primeiro momento a afasta da comparação com o venezuelano. Não há quem aponte um gesto concreto da presidente fora da institucionalidade. Cristina não é suspeita de mandar envenenar inimigos com cápsulas radioativas, não colocou adversários no exílio e nem convocou plebiscitos para se perpetuar no poder. Com seu provincianismo exarcebado e seu estilo imperial de governar, apenas cultiva por ora a intolerância como traço seminal da política argentina

Na periferia de Buenos Aires, feira atrai multidão

Materia publicada no Valor, em 20 de janeiro de 2012 < . Por Cesar Felício | Lomas de Zamora (Argentina) Em La Salada, seis mil vendedores atendem mais de 20 mil consumidores por dia: o metro quadrado custa US$ 10 mil. Um dos mais rentáveis negócios imobiliários da Argentina está às margens de uma vala de esgoto a céu aberto, o rio Riachuelo, que separa Buenos Aires do município suburbano de Lomas de Zamora. E é do lado de Lomas, em meio a milhares de casas térreas sem reboco e ruas de terra, que se comercializa o metro quadrado a US$ 10 mil. Em uma área que até os anos 90 era ocupada por balneários populares, funciona duas vezes por semana a feira de roupas e calçados de La Salada. De acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, está entre os cinco maiores centros de venda informal, pirataria e contrabando da América Latina: rivaliza com Ciudad del Este, no Paraguai, San Andrecito, na Colômbia, Tepito no México e a feira da Bahía, em Guayaquil, no Equador. O relatório, cuja versão mais recente foi divulgada há um mês, afirma que "seis mil vendedores comercializam para 20 mil consumidores por jornada ". Ao avaliar a dimensão da feira, os burocratas norte-americanos pecaram por conservadorismo. Seis mil vendedores são apenas os que ocupam o espaço coberto nas áreas de Urkupiña, Ocean e Punta Mogotes. E vinte mil são apenas os consumidores que chegam nos ônibus fretados às terças-feiras e aos domingos, os dois dias de funcionamento da feira. "Apenas um em cada cinco chegam à feira nestes ônibus", diz Jorge Castillo, que administra o espaço de Punta Mogotes, a maior das feiras, e que registrou comercialmente a marca de La Salada. A conta que ele faz é surpreendente. " Cada um dos postos consegue 45 mil pesos, em média, por semana, o que dá 180 mil pesos por mês. Considerando só os que estão nas áreas regulares, são 1 bilhão de pesos mensais, ou 12 bilhões por ano. Pelo câmbio de hoje, estamos falando em US$ 2,7 bilhões". "Castillo não exagera com estas cifras, sobretudo quando se pensa que há pelo menos outros dez mil vendedores nas áreas descobertas", diz um adversário declarado do administrador de La Salada, o ativista social Gustavo Vera, que dirige a ONG "La Alameda", dedicada a combater o trabalho em condições degradantes exercido por imigrantes bolivianos. Desde 2006, Vera denunciou 32 confecções que vendem em La Salada e empregavam em condições comprometedoras 526 trabalhadores. Um par de tênis para crianças custa 50 pesos, cerca de R$ 20. Uma calça jeans para homem é 70 pesos e um vestido para mulheres gordas é 60 pesos. Cobra-se muito pouco pelas roupas em La Salada porque são as próprias confecções que fazem a venda. Em geral, a produção de camisas e sapatos é feita em fundo de quintal, não raramente por imigrantes bolivianos. O nível de informalidade laboral é próximo a 100%. Os ocupantes dos boxes de venda são registrados como "monotributistas", o equivalente ao Simples na Argentina, e não pagam mais que duzentos pesos por mês. "Cada feirante é produtor e tem 30% de lucro sobre o custo da matéria prima. O custo social não existe, porque não há empregados", disse Castillo. A maior margem está nas marcas pirateadas. Camisetas Adidas, Nike ou GAP são vendidas por 30 pesos, doze vezes menos que o registrado no shopping center da avenida Figueroa Alcorta, no Barrio Parque, um dos mais sofisticados de Buenos Aires. "La Salada é um fenômeno produzido pela rebelião das pequenas confecções contra o comércio tradicional e contra as marcas. Os maiores responsáveis pelas piratarias são os próprios fornecedores das grifes", diz Vera, lembrando que há 80 varejistas de marca na Argentina sendo processadas por comercializarem roupas produzidas em condições degradantes. Segundo um levantamento da Câmara Argentina de Comércio (CAC), metade das mercadorias vendidas por camelôs nas ruas de Buenos Aires é falsificada ou tem origem no contrabando. "Não temos como fazer a mesma avaliação em La Salada, pelas dificuldades de ingresso dos pesquisadores no local, mas nossa estimativa é que o percentual seja o mesmo, já que os camelôs são quase todos intermediários de mercadorias compradas lá", observou o economista chefe da CAC, Gabriel Molteni. A segmentação do setor de confecção favorece a atividade ilegal. A produção de uma camisa envolve desde o fornecedor da fibra, passando pelo produtor do pano, indo a seguir pelas unidades que fazem o corte, a estamparia e a costura. "Na produção da matéria prima há um grande controle e casos de sonegação, trabalho escravo e pirataria são isolados. Mas as atividades de confecção são pulverizadas. Há 252 mil costureiros na Argentina. Destes, 78% dão origem a produtos com algum grau de ilegalidade. E desta mão de obra, 150 mil trabalhadores são provenientes da Bolívia", disse Vera. A ponta desse varejo é alvo da repressão estatal no momento. A Prefeitura de Buenos Aires começou no mês passado a retirar camelôs das ruas do centro da cidade, eliminando uma das engrenagens da venda. As ações de maior impacto aconteceram na rua Florida, muito frequentada por turistas brasileiros. Como La Salada fica muito distante do centro da capital e em um subúrbio marcado pela criminalidade, a intermediação das mercadorias torna-se uma decorrência da demanda. "La Salada originou pelo menos 42 'saladitas', dentro de Buenos Aires, que são concentrações de vendedores ambulantes que vendem as mesmas mercadorias", disse Molteni. Na última semana, a gendarmeria, um braço do governo federal, removeu barracas de cerca de 10 mil vendedores de La Salada que compunham uma quarta feira, a de La Ribera. Estes ambulantes ocupavam as margens do Riachuelo na área externa a das três feiras regulares. "Eram um universo ilegal dentro do universo ilegal, que vendiam ainda mais barato porque sequer pagavam o aluguel de espaço e o monotributo", afirmou Molteni. A operação teve amparo judicial e foi motivada pelos trabalhos para o saneamento do rio, que exige a desocupação das áreas de risco. Os feirantes removidos tentaram ocupar áreas mais próximas a das feiras legais, e houve enfrentamento armado. O tiroteio de quinze minutos na manhã de sábado teria durado quinze minutos e tido pelo menos cinco baleados. © 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico. Leia mais em: http://www.valor.com.br/empresas/2492460/na-periferia-de-buenos-aires-feira-atrai-multidao#ixzz2MtHs2QXT

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

La Matanza, pista para a reeleição de Cristina

No ano passado, a presidente argentina Cristina Kirchner esteve na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e aceitou responder perguntas do aluno. Apertada pelas questões, todas feitas por estudantes argentinos, Cristina saiu-se com essa "Garotos, estamos em Harvard...não estamos em La Matanza". O tom depreciativo é uma injustiça de Cristina: foi graças a La Matanza e outras cidades que ela foi reeleita de forma espetacular em 2011. Abaixo, a matéria que o Valor deu em outubro daquele mês. Cesar Felício, no Valor Econômico O segundo maior município da Argentina está fora de qualquer roteiro turístico e não é considerado propriamente uma cidade nem pelos próprios argentinos. Dividido em 15 núcleos urbanos sem um centro que se destaque, o município de La Matanza, que faz divisa à oeste com Buenos Aires, atingiu no censo nacional do ano passado 1,8 milhão de habitantes e possui a marca de 142 “villas”, isto é, favelas. E é uma das chaves para se entender porque a presidente Cristina Kirchner é favorita para a reeleição na disputa presidencial que vai acontecer em 24 de outubro. Lá nasceu, em dezembro de 2009, a variante argentina do programa Bolsa Família, a “Asignación Universal por Hijo” (AUH, aporte universal por filho), que garante um pagamento equivalente a cerca de US$ 67 por filho em famílias carentes. São 300 mil benefícios estimados para La Matanza, que proporcionou à presidente 61% dos 605,1 mil votos da localidade nas prévias partidárias de agosto, nove pontos percentuais acima da média nacional. No país, o governo federal deve fechar o ano pagando 3,6 milhões de benefícios para 1,9 milhão de famílias. A conta chega a 9 bilhões de pesos, ou cerca de US$ 2,1 bilhões. A AUH é o trunfo mais recente, mas está longe de ser a única arma no arsenal de benefícios sociais do governo, comandada pela ministra de Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner, cunhada da presidente e irmã do falecido ex-presidente Néstor Kirchner. Representa cerca de 40% dos 26 bilhões de pesos previstos para a área no Orçamento de 2012. Em março do ano passado, 21% da população declarou receber benefícios do governo, segundo uma pesquisa coordenada por German Lodola, professor da Universidade Torcuato di Tella. Fora a AUH, os benefícios sociais mais relevantes em La Matanza são os repasses para cooperativas de trabalho, que, em época eleitoral, se transformam em um esteio para os candidatos kirchneristas. Em La Matanza, 156 cooperativas estavam inscritas no final do ano passado no programa “Argentina Trabaja”, que paga benefícios de 1.300 pesos para cada integrante. Em todo o país, o programa paga subsídio para 190 mil pessoas. “Aqui as eleições se decidem pelos planos sociais”, lamentou Silvia Flores, diretora de La Juanita, no distrito de Laferrere, uma das raras cooperativas de trabalho que não estão alinhadas ao governo. O pai de Silvia, Hector Flores, um piqueteiro nos anos 90, é candidato a Senador pela Coalizão Cívica, partido que lançou à Presidência a deputada Elisa Carrió e que teve 3% dos votos nas prévias. “A geração de emprego é enorme nestes últimos oito anos, mas não chegamos aos padrões que tínhamos antes da crise. A força do governo aqui se explica pelo crescimento econômico e pelo pagamento de benefícios”, confirmou o secretário municipal de Produção, Francisco Lamanna, alinhado ao kirchnerismo. Não há dados precisos sobre emprego e crescimento econômico na cidade, mas Lamanna afirma que existem atualmente 7.500 estabelecimentos industriais em La Matanza. Em 2003, data do último levantamento oficial, havia 2.759. E, há 20 anos, de acordo com Lamanna, eram 12 mil. “Muitas das novas fábricas são de fundo de quintal, do ramo calçadista ou têxtil. O processo produtivo mudou”, afirmou o secretário. La Matanza já foi uma importante referência da indústria argentina. Entre as décadas de 40 e 60, marcadas pela ascensão e primeira queda do caudilho Juan Domingo Perón, a cidade recebeu a instalação de montadoras de automóveis, como Mercedes Benz e Chrysler, no distrito de Virrey del Pino, e de siderúrgicas como a Acindar, no distrito de La Tablada. Em 1949, Perón inaugurou o distrito de Ciudad Evita, planejado para ser um bairro residencial modelo para a classe operária. Nos anos 60, a área dividiu a vocação industrial com o polo automotivo instalado em Córdoba. A partir de então, teve início a desindustrialização. O crescimento demográfico, contudo, se acelerou nas últimas décadas. Neste século, a população cresceu 47% entre 2000 e 2010. O aluvião de quase 600 mil novos habitantes fez crescer a pobreza e a informalidade. Poucos moradores desse grupo se instalaram em áreas regularizadas. Segundo dados da província de Buenos Aires, houve um aumento de apenas 15,6% na área legalmente ocupada por novas edificações em La Matanza entre 2004 e 2008. Nesse período, o crescimento das construções em nível regional foi de 65%. Em suas áreas mais pobres, La Matanza mudou a sua vocação de região industrial para cidade dormitório de trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, ambulantes e outros integrantes do mercado informal. Um levantamento de 2005 apontava que 60% da mão de obra não era registrada. Nos distritos mais próximos de Buenos Aires desenvolveu-se o setor de serviços. Desativada nos anos 80, a antiga fábrica da Chrysler, no distrito de San Justo, é hoje sede de uma universidade com 40 mil alunos. “As fábricas se tornaram cascas vazias. Muitas delas foram ocupadas por trabalhadores, que se organizaram em cooperativas. Muitas delas passaram a receber subsídios do governo, e outras se converteram em investimentos comerciais ou imobiliários”, disse o presidente da Câmara de Indústria e Comércio de La Matanza, Luis Mogno, dono de uma metalúrgica que fornece componentes para refrigeradores. As diferenças entre os 15 distritos de La Matanza alimentam movimentos pela separação. “La Matanza é tão grande que se torna um objeto do desejo para qualquer político, mas aqui é um somatório de diversas cidades dormitório de Buenos Aires e alguma indústria. Com a divisão, a estrutura de clientela do poder se romperia, e haveria uma disputa pelos novos municípios. É a unidade que faz com que o poder não se rompa”, diz o deputado federal Hector Flores, que concorre com chances ínfimas ao Senado. “La Matanza é acima de tudo uma unidade política, e não econômica. Mas a estrutura enxuta é um diferencial que temos. São 6,5 mil funcionários públicos, 25 vereadores e um prefeito para quase 2 milhões de pessoas. A sociedade não estaria disposta a multiplicar essa estrutura por quatro”, afirmou o secretário municipal Lamanna.