Valor Econômico, 4 de fevereiro de 2011
Há políticos que procuram construir sua imagem pública como realizadores de obras, ou com a identificação com uma determinada classe ou grupo social, ou alinhando-se a uma corrente ideológica. E há os que se consolidam investindo na construção de uma personalidade atraente para a opinião pública, a encarnação de um conjunto de virtudes. Os mais bem sucedidos costumam ser os que fazem uma composição de todos os fatores ao longo da vida pública, ou com ao menos mais de um deles.
Ex-ministro do Desenvolvimento Social por seis anos, o advogado mineiro Patrus Ananias é um dos que encarnam a figura do homem virtuoso, de maneira análoga à dos senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, entre poucos outros. A começar pela austeridade: ele atualmente pode ser encontrado nos dias úteis, das 8h às 14h, dando expediente na Escola do Legislativo da Assembleia mineira, onde entrou por concurso em 1982 e para onde sempre volta quando está sem mandato.
Trabalha em um ambiente coletivo e nem sequer tem um ramal de telefone próprio. Há 19 anos mora no mesmo endereço, um apartamento no bairro de Funcionários, em Belo Horizonte, área em que o preço mais comum para imóveis está em torno de R$ 5 mil o metro quadrado. Algo que nem sempre acontece com políticos que administraram orçamentos bilionários.
Católico convicto, Patrus foi um dos escalados para visitar as paróquias entre o primeiro o segundo turno da eleição no ano passado, na tentativa de reaproximar os fiéis da candidatura da hoje presidente Dilma Rousseff. Seu preparo intelectual não é pouco: professor de direito na PUC mineira, deixa ao alcance da mão leituras densas, como "Ideologia e contraideologia", de Alfredo Bosi.
Como prefeito de Belo Horizonte nos anos 90 e ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, responsável por nada menos que a implantação do programa Bolsa Família, seu saldo administrativo está muito acima do regular.
O ex-ministro deixa poucas pistas para se entender porque sua carreira política chega a um momento de ostracismo com resultados eleitorais absolutamente pobres.
Patrus ganhou três eleições: vereador em 1988, prefeito em 1992 e deputado federal dez anos depois. Perdeu quatro: vereador em 1982, senador em 1990, governador em 1998 e vice-governador no ano passado. Viveu no governo Lula sua grande oportunidade, ao capitanear um programa que movimentava R$ 40 bilhões.
Chegou a ser citado como presidenciável. Mas não conseguiu nem ser candidato ao Senado. Há muitos anos tornou-se minoritário dentro do PT mineiro. Sugerido como opção para o ministério ou o segundo escalão do governo de Dilma, seu nome foi ignorado. Comenta-se que o veto teria partido de Lula, que atribui a Patrus a divisão petista que levou à derrota eleitoral em Minas no ano passado.
Patrus foi muito menos longe do que os próprios exemplos já citados dos que têm a virtude como trunfo: Suplicy conseguiu eleger-se três vezes senador por São Paulo e Simon chegou a ser governador gaúcho. Uma das explicações possíveis pode ser a baixa aptidão por liderança. Patrus não é um líder, segundo suas próprias palavras. "Não tenho grupo e nem seguidores. Eu tenho interlocutores, companheiros. Quem quer ter seguidores precisa ter uma trajetória inflexível, retilínea, que obriga a tornar a política uma profissão. Foi uma opção minha não ser assim", comenta.
O ex-ministro não cogita participar das eleições no próximo ano. Pretende escrever uma tese de doutorado sobre políticas sociais. Patrus não se considera o autor do programa Bolsa Família: lembra que a proposta foi formulada no fim de 2003, antes de sua entrada no ministério. E nem avoca para o sucesso do programa parte da responsabilidade pela reeleição de Lula em 2006, ano em que o presidente estava ferido pelo escândalo do mensalão. "O programa nunca sofreu oposição nem do PSDB e nem do DEM exatamente pelo caráter republicano que ele ganhou ao ser implantado", diz.
Para Patrus, o programa não chegou a erradicar a fome no Brasil. "Acabou a fome endêmica, aquela em que havia uma discussão sobre quantos milhões eram atingidos, mas permanece uma fome ligada ao núcleo duro da miséria, às pessoas que são incadastráveis pela regra atual, por não terem domicílio ou mesmo registro civil. São os moradores de rua, alguns quilombolas, algumas comunidades indígenas", afirma. Para avançar a este ponto, segundo Patrus, seria necessário agora estabelecer programas envolvendo diversos ministério em uma única ação. "A tarefa que existia no governo Lula era acabar com a fome como um fenômeno generalizado e isto nós fizemos", afirma.
Há relatos de antigos aliados de Patrus sobre a frustração que o petista causou entre os apoiadores ao se recusar a assumir compromissos políticos normais em campanhas, como a divisão futura de espaços políticos e o equacionamento de questões de financiamento. Sua intransigência ao estabelecer alianças em bases ideológicas foi interpretada como arrogância. O risco de um político que transforma a austeridade em um dos pilares de sua imagem é, de maneira involuntária, estabelecer uma relação de superioridade com os que não agem assim. E, por tabela, tornar-se uma figura relativamente solitária. O advérbio faz muita diferença. Patrus não pretende encerrar 30 anos de militância política. Ele deixa pairar no seu horizonte a perspectiva eleitoral em 2014. "O que estou vivendo agora é um período sabático", disse, usando um adjetivo que indica claramente a suspensão de uma atividade em caráter temporário, e não um estranho recomeço.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A porta que não será trancada
Esta coluna foi publicada em 28 de janeiro, no Valor Econômico. De lá para cá, a situação no Egito agravou-se muito, parece começar uma acomodação e a cúpula em Lima deve ser adiada para abril. Dilma continua muda sobre os acontecimentos.
A presidente Dilma Rousseff tem um encontro marcado com uma crise no próximo mês, quando deve comparecer à cúpula dos países do mundo árabe e da América do Sul, em Lima, no dia 16. Será a estreia da presidente em um cenário global, uma vez que Dilma não quis circular por Davos. A cúpula de Lima, talvez o mais abrangente encontro intercontinental de chefes de Estado do que outrora se convencionava chamar de "Terceiro Mundo", vai reunir o grupo de 34 países pela terceira vez, agora mais do que nunca marcados pelo contraste institucional: do lado sul-americano, não é possível caracterizar governo algum, nem mesmo o mais controverso, de Hugo Chávez na Venezuela, como uma ditadura. No mundo árabe, a dificuldade é a oposta. Os fatos dos últimos dias, envolvendo Tunísia e Egito, falam por si.
Essa assimetria institucional jamais foi um problema para o antecessor de Dilma e nem para a aproximação entre os dois blocos, que vem sendo bem-sucedida. Economicamente, o movimento comercial entre o Brasil e o mundo árabe quadruplicou nos últimos oito anos; o Egito assinou um acordo de livre comércio com o Mercosul e a Jordânia deve ser o próximo a fazê-lo. No plano político, o encontro está sendo precedido por uma onda de países latino-americanos que reconheceram o direito da Palestina ser estabelecida com as fronteiras anteriores a 1967.
Há dúvidas sobre o grau de pragmatismo que a presidente - vítima de uma ditadura de uma forma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais foi - terá no cenário internacional. Poucos dias atrás, em nota, Dilma prometeu conferir à questão dos direitos humanos "um lugar central em nossa política externa, sem seletividade e tratamento discriminatório". A cúpula de Lima pode ser tanto um momento de afirmação dessa centralidade como uma boa ocasião de separar a retórica da "realpolitik".
Cúpula separa ações de retórica
A depender do rumo que a crise nos países árabes tome, existe até uma possibilidade de que se reforce a aproximação do Brasil com o mundo árabe. "O que nós estamos testemunhando agora é claramente uma vitória dos reformistas", comenta a jornalista americana de origem libanesa Octavia Nasr, dona da empresa de consultoria Bridges Media. Octavia trabalhou por 20 anos na CNN e foi coordenadora de cobertura em assuntos do Oriente Médio, e ganhou notoriedade no ano passado quando foi demitida por colocar no Twitter um comentário lamentando a morte de um líder religioso pertencente ao Hezbollah. Segundo a jornalista, torna-se cada vez mais difícil impedir uma guinada democrática tanto na Tunísia quanto no Egito, com chances da onda atingir outros países. Caso prevaleça o reformismo, estará criada uma alternativa à bipolaridade entre o fundamentalismo islâmico de um lado e o regime ditatorial de corte personalista, militar ou de partido único, do outro. Aumentará o nível de conforto do Brasil em alinhar-se com o mundo árabe.
O risco, conforme a própria Octavia lembra, é o de grupos como o da Irmandade Muçulmana surfarem na onda que se ergue contra Hosni Mubarak no Egito e que se insinua em outros países. A resposta poderá vir apenas em setembro, mês das eleições egípcias. "Será duro para Mubarak concorrer novamente ou eleger o filho Gamal Mubarak", comenta a jornalista. As eleições no mundo árabe são famosas por garantir reconduções com votações acima de 90% do total de sufrágios, maiorias que paradoxalmente retiram, e não concedem, credibilidade a seus beneficiários.
É uma questão complexa ligar a crise nos países árabes à economia. Pelos indicadores normalmente usados para avaliação, o quadro tunisiano e egípcio é de difícil caracterização. Nem o egípcio Mubarak e nem o tunisiano Ben Ali enfrentaram uma recessão em suas longas ditaduras, mas ambos os países sofrem de problemas que se tornaram crônicos. Segundo o Banco Mundial, o último ano em que houve retração econômica na Tunísia foi 1986. No Egito, não houve caso algum nas últimas três décadas.
As altas taxas de desemprego podem ser uma explicação para a cólera das multidões, já que o Oriente Médio e Norte da África possuem regionalmente a maior taxa mundial de mão de obra desocupada, segundo a instituição. E essa não é uma situação observada apenas nos últimos anos: os indicadores do Banco Mundial mostram que o índice anda estável, acima dos dois dígitos, na Tunísia e no Egito desde 2000. O ingrediente essencial para a explosão foi a ditadura em si, que produziu um regime fechado a tal ponto que o desespero de um camelô que se imolou ao ter a mercadoria apreendida pela polícia catalisou a revolta contra o regime tunisiano.
Difícil é deixar de ver com ceticismo o resultado concreto dessas explosões. "Não há essencialmente nada de novo no Oriente Médio. Os governos podem cair, mas os regimes ficam", comentou o professor Paulo Vizentini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor do livro "Relações Internacionais do Brasil - de Vargas a Lula". Segundo Vizentini, a desorganização das oposições, a ausência de uma classe média estruturada e a falta de pressão internacional são fatores que conspiram a favor do status quo.
Vizentini também é cauteloso ao demarcar a diferença que Dilma poderá ter de Lula no plano externo. "Lula foi um criador de oportunidades, que abriu várias frentes simultâneas. Dilma tende a dar conteúdo a essas iniciativas, onde isso for possível", afirma. A presidente não abrirá novas portas, mas dificilmente trancará alguma.
A presidente Dilma Rousseff tem um encontro marcado com uma crise no próximo mês, quando deve comparecer à cúpula dos países do mundo árabe e da América do Sul, em Lima, no dia 16. Será a estreia da presidente em um cenário global, uma vez que Dilma não quis circular por Davos. A cúpula de Lima, talvez o mais abrangente encontro intercontinental de chefes de Estado do que outrora se convencionava chamar de "Terceiro Mundo", vai reunir o grupo de 34 países pela terceira vez, agora mais do que nunca marcados pelo contraste institucional: do lado sul-americano, não é possível caracterizar governo algum, nem mesmo o mais controverso, de Hugo Chávez na Venezuela, como uma ditadura. No mundo árabe, a dificuldade é a oposta. Os fatos dos últimos dias, envolvendo Tunísia e Egito, falam por si.
Essa assimetria institucional jamais foi um problema para o antecessor de Dilma e nem para a aproximação entre os dois blocos, que vem sendo bem-sucedida. Economicamente, o movimento comercial entre o Brasil e o mundo árabe quadruplicou nos últimos oito anos; o Egito assinou um acordo de livre comércio com o Mercosul e a Jordânia deve ser o próximo a fazê-lo. No plano político, o encontro está sendo precedido por uma onda de países latino-americanos que reconheceram o direito da Palestina ser estabelecida com as fronteiras anteriores a 1967.
Há dúvidas sobre o grau de pragmatismo que a presidente - vítima de uma ditadura de uma forma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais foi - terá no cenário internacional. Poucos dias atrás, em nota, Dilma prometeu conferir à questão dos direitos humanos "um lugar central em nossa política externa, sem seletividade e tratamento discriminatório". A cúpula de Lima pode ser tanto um momento de afirmação dessa centralidade como uma boa ocasião de separar a retórica da "realpolitik".
Cúpula separa ações de retórica
A depender do rumo que a crise nos países árabes tome, existe até uma possibilidade de que se reforce a aproximação do Brasil com o mundo árabe. "O que nós estamos testemunhando agora é claramente uma vitória dos reformistas", comenta a jornalista americana de origem libanesa Octavia Nasr, dona da empresa de consultoria Bridges Media. Octavia trabalhou por 20 anos na CNN e foi coordenadora de cobertura em assuntos do Oriente Médio, e ganhou notoriedade no ano passado quando foi demitida por colocar no Twitter um comentário lamentando a morte de um líder religioso pertencente ao Hezbollah. Segundo a jornalista, torna-se cada vez mais difícil impedir uma guinada democrática tanto na Tunísia quanto no Egito, com chances da onda atingir outros países. Caso prevaleça o reformismo, estará criada uma alternativa à bipolaridade entre o fundamentalismo islâmico de um lado e o regime ditatorial de corte personalista, militar ou de partido único, do outro. Aumentará o nível de conforto do Brasil em alinhar-se com o mundo árabe.
O risco, conforme a própria Octavia lembra, é o de grupos como o da Irmandade Muçulmana surfarem na onda que se ergue contra Hosni Mubarak no Egito e que se insinua em outros países. A resposta poderá vir apenas em setembro, mês das eleições egípcias. "Será duro para Mubarak concorrer novamente ou eleger o filho Gamal Mubarak", comenta a jornalista. As eleições no mundo árabe são famosas por garantir reconduções com votações acima de 90% do total de sufrágios, maiorias que paradoxalmente retiram, e não concedem, credibilidade a seus beneficiários.
É uma questão complexa ligar a crise nos países árabes à economia. Pelos indicadores normalmente usados para avaliação, o quadro tunisiano e egípcio é de difícil caracterização. Nem o egípcio Mubarak e nem o tunisiano Ben Ali enfrentaram uma recessão em suas longas ditaduras, mas ambos os países sofrem de problemas que se tornaram crônicos. Segundo o Banco Mundial, o último ano em que houve retração econômica na Tunísia foi 1986. No Egito, não houve caso algum nas últimas três décadas.
As altas taxas de desemprego podem ser uma explicação para a cólera das multidões, já que o Oriente Médio e Norte da África possuem regionalmente a maior taxa mundial de mão de obra desocupada, segundo a instituição. E essa não é uma situação observada apenas nos últimos anos: os indicadores do Banco Mundial mostram que o índice anda estável, acima dos dois dígitos, na Tunísia e no Egito desde 2000. O ingrediente essencial para a explosão foi a ditadura em si, que produziu um regime fechado a tal ponto que o desespero de um camelô que se imolou ao ter a mercadoria apreendida pela polícia catalisou a revolta contra o regime tunisiano.
Difícil é deixar de ver com ceticismo o resultado concreto dessas explosões. "Não há essencialmente nada de novo no Oriente Médio. Os governos podem cair, mas os regimes ficam", comentou o professor Paulo Vizentini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor do livro "Relações Internacionais do Brasil - de Vargas a Lula". Segundo Vizentini, a desorganização das oposições, a ausência de uma classe média estruturada e a falta de pressão internacional são fatores que conspiram a favor do status quo.
Vizentini também é cauteloso ao demarcar a diferença que Dilma poderá ter de Lula no plano externo. "Lula foi um criador de oportunidades, que abriu várias frentes simultâneas. Dilma tende a dar conteúdo a essas iniciativas, onde isso for possível", afirma. A presidente não abrirá novas portas, mas dificilmente trancará alguma.
A eleição volta a mover a roda
Valor Econômico, 21 de janeiro de 2011
Sem o cabresto que as direções nacionais dos partidos colocaram sobre as situações políticas regionais no ano passado, a perspectiva eleitoral de 2012 começa a ganhar velocidade para decolagem. Houve tempo em que o começo de uma administração federal levava a um grande realinhamento partidário entre os parlamentares. Como o Judiciário instituiu a norma de garantir o mandato proporcional ao partido, e não ao eleito, são os prefeitos que começam a mover as divisões partidárias de espaço em seus redutos.
Trata-se de um movimento descentralizado, uma vez que a Presidência da República deixa de ser o referencial para a organização de alianças. Não deve haver dentro do PT, por exemplo, uma orientação para abrir mão de candidaturas próprias em nome da aliança nacional, como se deu no ano passado. E nem um alinhamento em regra entre PSDB e DEM.
Tendem a migrar de partido pelo menos dois prefeitos de capital, Gilberto Kassab, de São Paulo, e João Henrique, de Salvador, ambos sem ter como concorrer novamente em 2012, mas com perspectivas significativamente diferentes: o primeiro busca alçar voo para 2014; o segundo tenta sobreviver politicamente. Sem a perspectiva de mudança partidária, há sinais de um rompimento à vista em Belo Horizonte, onde o prefeito Márcio Lacerda (PSB) vai armando sua candidatura à reeleição.
Na capital mineira, há quase uma competição entre PSDB e PT para saber quem tem o prefeito do PSB como aliado preferencial. Márcio Lacerda é um tímido em ações administrativas ou políticas, mas favorito a ganhar um novo mandato pelas dificuldades tucanas e petistas de se estruturarem ou reestruturarem em Belo Horizonte. É uma reviravolta irônica em relação a 2008. Naquela ocasião, o então prefeito Fernando Pimentel forçou o PT a apoiar um aliado do então governador Aécio Neves para a sua sucessão.
Pimentel e Aécio praticaram um jogo de esperteza, em que o petista lançava uma ponte no universo aecista para se credenciar na eleição seguinte e o tucano tentava fincar um pé na base do lulismo. É um cenário que não se repete em 2012, eleição em que o atual prefeito passou a ser visto como um trunfo, e não peso. Já os padrinhos de 2008 não conseguiram tudo que esperavam da insólita aliança.
Pimentel passou a enfrentar resistência crescente dentro do PT e a divisão partidária fez com que o partido fosse cabalmente derrotado no ano passado: Minas é o único grande Estado em que nenhum petista ganhou cargo majoritário. Aécio divide-se entre atrair parte da base lulista e afirmar-se como uma liderança de oposição a Dilma. Lacerda poderá escolher entre manter-se aliado ao PT e firmar uma aliança com o PSDB.
Tanto PT quanto PSDB querem condicionar o apoio a Lacerda a um compromisso em 2014, mas se fragilizam pela falta de alternativas a um voo próprio, inevitável para quem for preterido pelo prefeito. O tucano mais citado, o deputado federal Rodrigo de Castro, teve votação pífia na cidade: 13 mil votos, o 20º mais votado. No PT, Pimentel já avisou que não há hipótese de entrar na disputa e o ex-ministro Patrus Ananias foi humilhado por consecutivas derrotas nas eleições internas do partido. Sobra o vice-prefeito, Roberto de Carvalho. Para desestabilizá-lo, Lacerda sem pressa alimenta expectativas no PSDB: apoiou um tucano para a presidência da Câmara dos Vereadores e acena com espaço na administração, sem mover um músculo da face sequer sobre 2014, a preocupação maior de Kassab.
O prefeito paulista está imerso em uma guerra por ocupação de espaços desde que ficou patente que o cenário mais provável para a eleição estadual será o de confronto entre o seu projeto político e o dos tucanos. Pretende manter em seu redil o DEM, onde conta com seis deputados federais e herdar o espólio político do quercismo no PMDB do vice-presidente Michel Temer. Irá aguardar o novo desenho da cúpula do DEM para definir se fica ou sai do partido.
Segundo um antigo aliado do prefeito, Kassab se sentiria mais confortável para sair se a atual direção, sob comando do deputado Rodrigo Maia, fosse derrotada. Na hipótese de seus inimigos prevalecerem, Kassab não teria como migrar para o PMDB e mandar no DEM paulista. Seria alta a possibilidade da direção nacional impedir que os parlamentares aliados de Kassab o acompanhassem no PMDB. O prefeito teria que mudar de casa sem levar a mobília.
A sinalização de que o PSDB poderia compor com o prefeito para um candidato único em 2012 é vista dentro do bloco que apoia o governador como retórica. "Kassab e Alckmin só estarão juntos em 2012 se o [José] Serra ou o Aloysio [Nunes Ferreira] se lançarem candidatos a prefeito", afirmou um dirigente do PPS.
Em Salvador, João Henrique tenta sobreviver em um cenário de falência política, desencadeado quando teve suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Município. O prefeito está sendo virtualmente expulso do PMDB pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, provavelmente aborrecido com o comportamento do prefeito na eleição estadual, em que Geddel ficou em terceiro para governador. Vivendo o seu auge na Bahia, o governador Jaques Wagner já indicou o deputado Nelson Pellegrino para ser o candidato do PT a prefeito, o que autorizou aliados a começarem a especular sobre o impeachment de João Henrique.
Interessado em fechar uma aliança com o PMDB, o DEM também joga o prefeito ao mar: "ele que vá procurar abrigo com o governador", comentou o deputado José Carlos Aleluia, derrotado ao Senado e pré-candidato a prefeito. João Henrique negocia sua filiação com o varejo da Câmara dos Vereadores, encarregada de examinar o parecer do Tribunal de Contas. Provavelmente irá para um partido de pequeno porte e a chance maior é de que termine o seu mandato no prazo normal. João Henrique é um sobrevivente: em 2008 conseguiu se reeleger mesmo com um índice de aprovação inferior a 30% e contra PT, PSDB e DEM. Contou na ocasião com a sombra de Geddel, mas dificilmente deixará de estar exposto ao sol na eleição do próximo ano. Sua provável saída do PMDB, segundo avalia um antigo aliado no PT, deve reduzir sua influência no processo eleitoral ao ponto da que o então prefeito de São Paulo Celso Pitta exerceu na eleição de 2000.
Sem o cabresto que as direções nacionais dos partidos colocaram sobre as situações políticas regionais no ano passado, a perspectiva eleitoral de 2012 começa a ganhar velocidade para decolagem. Houve tempo em que o começo de uma administração federal levava a um grande realinhamento partidário entre os parlamentares. Como o Judiciário instituiu a norma de garantir o mandato proporcional ao partido, e não ao eleito, são os prefeitos que começam a mover as divisões partidárias de espaço em seus redutos.
Trata-se de um movimento descentralizado, uma vez que a Presidência da República deixa de ser o referencial para a organização de alianças. Não deve haver dentro do PT, por exemplo, uma orientação para abrir mão de candidaturas próprias em nome da aliança nacional, como se deu no ano passado. E nem um alinhamento em regra entre PSDB e DEM.
Tendem a migrar de partido pelo menos dois prefeitos de capital, Gilberto Kassab, de São Paulo, e João Henrique, de Salvador, ambos sem ter como concorrer novamente em 2012, mas com perspectivas significativamente diferentes: o primeiro busca alçar voo para 2014; o segundo tenta sobreviver politicamente. Sem a perspectiva de mudança partidária, há sinais de um rompimento à vista em Belo Horizonte, onde o prefeito Márcio Lacerda (PSB) vai armando sua candidatura à reeleição.
Na capital mineira, há quase uma competição entre PSDB e PT para saber quem tem o prefeito do PSB como aliado preferencial. Márcio Lacerda é um tímido em ações administrativas ou políticas, mas favorito a ganhar um novo mandato pelas dificuldades tucanas e petistas de se estruturarem ou reestruturarem em Belo Horizonte. É uma reviravolta irônica em relação a 2008. Naquela ocasião, o então prefeito Fernando Pimentel forçou o PT a apoiar um aliado do então governador Aécio Neves para a sua sucessão.
Pimentel e Aécio praticaram um jogo de esperteza, em que o petista lançava uma ponte no universo aecista para se credenciar na eleição seguinte e o tucano tentava fincar um pé na base do lulismo. É um cenário que não se repete em 2012, eleição em que o atual prefeito passou a ser visto como um trunfo, e não peso. Já os padrinhos de 2008 não conseguiram tudo que esperavam da insólita aliança.
Pimentel passou a enfrentar resistência crescente dentro do PT e a divisão partidária fez com que o partido fosse cabalmente derrotado no ano passado: Minas é o único grande Estado em que nenhum petista ganhou cargo majoritário. Aécio divide-se entre atrair parte da base lulista e afirmar-se como uma liderança de oposição a Dilma. Lacerda poderá escolher entre manter-se aliado ao PT e firmar uma aliança com o PSDB.
Tanto PT quanto PSDB querem condicionar o apoio a Lacerda a um compromisso em 2014, mas se fragilizam pela falta de alternativas a um voo próprio, inevitável para quem for preterido pelo prefeito. O tucano mais citado, o deputado federal Rodrigo de Castro, teve votação pífia na cidade: 13 mil votos, o 20º mais votado. No PT, Pimentel já avisou que não há hipótese de entrar na disputa e o ex-ministro Patrus Ananias foi humilhado por consecutivas derrotas nas eleições internas do partido. Sobra o vice-prefeito, Roberto de Carvalho. Para desestabilizá-lo, Lacerda sem pressa alimenta expectativas no PSDB: apoiou um tucano para a presidência da Câmara dos Vereadores e acena com espaço na administração, sem mover um músculo da face sequer sobre 2014, a preocupação maior de Kassab.
O prefeito paulista está imerso em uma guerra por ocupação de espaços desde que ficou patente que o cenário mais provável para a eleição estadual será o de confronto entre o seu projeto político e o dos tucanos. Pretende manter em seu redil o DEM, onde conta com seis deputados federais e herdar o espólio político do quercismo no PMDB do vice-presidente Michel Temer. Irá aguardar o novo desenho da cúpula do DEM para definir se fica ou sai do partido.
Segundo um antigo aliado do prefeito, Kassab se sentiria mais confortável para sair se a atual direção, sob comando do deputado Rodrigo Maia, fosse derrotada. Na hipótese de seus inimigos prevalecerem, Kassab não teria como migrar para o PMDB e mandar no DEM paulista. Seria alta a possibilidade da direção nacional impedir que os parlamentares aliados de Kassab o acompanhassem no PMDB. O prefeito teria que mudar de casa sem levar a mobília.
A sinalização de que o PSDB poderia compor com o prefeito para um candidato único em 2012 é vista dentro do bloco que apoia o governador como retórica. "Kassab e Alckmin só estarão juntos em 2012 se o [José] Serra ou o Aloysio [Nunes Ferreira] se lançarem candidatos a prefeito", afirmou um dirigente do PPS.
Em Salvador, João Henrique tenta sobreviver em um cenário de falência política, desencadeado quando teve suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Município. O prefeito está sendo virtualmente expulso do PMDB pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, provavelmente aborrecido com o comportamento do prefeito na eleição estadual, em que Geddel ficou em terceiro para governador. Vivendo o seu auge na Bahia, o governador Jaques Wagner já indicou o deputado Nelson Pellegrino para ser o candidato do PT a prefeito, o que autorizou aliados a começarem a especular sobre o impeachment de João Henrique.
Interessado em fechar uma aliança com o PMDB, o DEM também joga o prefeito ao mar: "ele que vá procurar abrigo com o governador", comentou o deputado José Carlos Aleluia, derrotado ao Senado e pré-candidato a prefeito. João Henrique negocia sua filiação com o varejo da Câmara dos Vereadores, encarregada de examinar o parecer do Tribunal de Contas. Provavelmente irá para um partido de pequeno porte e a chance maior é de que termine o seu mandato no prazo normal. João Henrique é um sobrevivente: em 2008 conseguiu se reeleger mesmo com um índice de aprovação inferior a 30% e contra PT, PSDB e DEM. Contou na ocasião com a sombra de Geddel, mas dificilmente deixará de estar exposto ao sol na eleição do próximo ano. Sua provável saída do PMDB, segundo avalia um antigo aliado no PT, deve reduzir sua influência no processo eleitoral ao ponto da que o então prefeito de São Paulo Celso Pitta exerceu na eleição de 2000.
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